Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Nota:

Os ingredientes básicos são o amor e a comida, e, como o prato é mexicano, é amor e comida com tempero exageradamente forte. Mistura-se a eles um caldo espesso de fantástico, de fantasia, de um realismo irreal, louco, alucinado. E adicionam-se lágrimas, muitas lágrimas, em doses abundantes.

Muito da história se passa na cozinha. Tita, a protagonista, nasce numa das mesas da grande cozinha da fazenda da família: a mãe estava cortando cebola quando sentiu que o bebê iria sair naquela hora mesmo, não adiantaria tentar chamar médico, parteira.

Uma grande torrente de lágrimas expulsa Tita do ventre da mãe.

Vemos a cena bem no comecinho deste belo Como Água Para Chocolate (1992), que Alfonso Arau dirigiu com roteiro de sua então mulher Laura Esquivel, baseado no romance escrito por ela mesma.

O filme abre com uma mulher na cozinha, cortando cebola. É a sobrinha-neta de Tita, e será a narradora da história – o papel de Arcelia Ramírez. Fascinantemente, não é mencionado o nome dela em momento algum.

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Tita é expulsa do ventre da mãe por um caudaloso rio de lágrimas

Eis o que a sobrinha-neta da protagonista da história relata para o espectador no inicinho da narrativa. O texto é precioso, suave e delicado como uma especiaria:

– “A cebola tem que estar bem cortada. Sugiro que ponham um pedaço de cebola na cabeça para evitar as lágrimas quando se está cortando. (Ela coloca um pedaço bem no alto da cabeça, e vira-se diretamente para a câmara, para o espectador.) O ruim de chorar quando se pica a cebola não é o fato em si de chorar, e sim que às vezes não se consegue parar.”

Corta, e vemos, num plano geral, uma casa de fazenda lá longe, sob um céu avermelhado de pôr-de-sol, numa vermelhidão de ofuscar até mesmo os de David O. Selznick em … E o Vento Levou e Duelo ao Sol, enquanto a sobrinha-neta de Tita prossegue contando:

– “Mamãe dizia que sou tão sensível à cebola quanto Tita, minha tia-avó, que desde o ventre materno chorava (um letreiro nos situa o quando e o onde: “Rio Grande, México, 1895”), quando minha bisavó picava cebola.”

Vemos então a cena: Elena (Regina Torné) pára de cortar cebola, leva a mão à barriga imensa, joga no chão tudo o que está à sua frente na grande mesa e se deita nela. Nacha, a fiel cozinheira da família (Ada Carrasco), tenta acudir, fala em chamar o médico, mas Elena diz que não vai dar tempo.

– “Nacha, a empregada, contava que Tita foi empurrada a este mundo por uma torrente de lágrimas que inundou o chão da cozinha. Quando o susto passou, e a água, graças ao sol, evaporou, Nacha recolheu o que restou das lágrimas – foram 20 quilos de sal, que usaram para cozinhar por muito tempo.”

Ah… Que maravilhosa abertura! Um rio de lágrimas que expulsa o bebê do ventre da mãe… Lágrimas que, quando secam, deixam no chão da cozinha 20 quilos de sal…

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

  • De vez em quando a mágica irrompe na narrativa – e é uma beleza
  • Em Como Água Para Chocolate, seu livro de estréia, publicado em 1989, Laura Esquivel, então com 39 anos, honrou a então jovem mas brilhante tradição do realismo fantástico latino-americano iniciada por seus colegas Manuel Scorza, Alejo Carpentier, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo, José J. Veiga,
  • A mágica que de vez em quando invade a narrativa é talvez a melhor das qualidades do filme.

Num momento de profunda tristeza, às vésperas do casamento de seu amado Pedro (Marco Leonardi) com sua irmã Rosaura (Yareli Arizmendi), Tita (Lumi Cavazos, a atriz que está na maioria das fotos deste post) chora copiosamente, e muitas lágrimas caem na massa do bolo que ela e a fiel Nacha estão preparando para a festa. O resultado é que, quando o bolo é servido às dezenas de convidados, todos, absolutamente todos passam mal. Não apenas correm para onde é possível para vomitar como são atacados por profunda, profunda, profunda tristeza.

Algum tempo depois, quando Pedro a presenteia com um ramo de rosas, e os espinhos do ramo que ela aperta contra o peito fazem expor gotículas de sangue, Tita usa as pétalas da flor para fazer um molho de codornas – e todos os que comem a iguaria são atacados por um tesão sem fim. O efeito se concentra em especial sobre Gertrudis, a irmã do meio (Claudette Maillé).

A bela moça sai da mesa já pegando fogo.

Vai tomar um banho na tentativa de tentar aplacar o calor, mas as chamas que saem de seu corpo incendeiam as paredes do banheiro – e Gertrudis sai correndo pelo campo, peladinha, e trepa no cavalo de um revolucionário que passava por ali, um villista, Juan Alejándrez (Rodolfo Arias) – e desaparece de cena abraçada a ele. Só vai reaparecer na fazenda da família muitos anos depois, casada com o agora maridão e ela mesma dona do título de generala da revolução mexicana do início do século passado.

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Pedro aceita se casar com a irmã de Tita só para ficar perto da amada

Bem. Para relatar rapidamente esses dois momentos mágicos, avancei demais, pus o carro à frente dos bois. Vou dar um rewind, voltar para o início e contar só mais um pouquinho desta epopéia, este 50 Anos de Paixão criado por Laura Esquivel.

Assim que nasce Tita, a terceira filha de Elena, alguém questiona junto do marido dela a paternidade da segunda, a do meio, Gertrudis – falava-se, na região, que a menina seria filha de um negro, um amante de Elena. Chocado, perplexo com a informação, o pobre homem tem um ataque e morre.

E aí vem a chave da história. Viúva, Elena proclama que, seguindo a tradição mexicana, Tita, sua filha mais nova, não poderia se casar: cabe à filha mais nova ficar solteira e cuidar da mãe até que ela morra.

Quando Tita está na adolescência, aprendendo com Nacha os segredos da culinária, apaixona-se por um rapaz das vizinhanças, Pedro. Ele também se apaixona por ela, e vai com o pai pedir a mão da moça. Elena repete o refrão de que Tita não pode se casar – mas, se ele quiser, Rosaura, a mais velha, está absolutamente disponível.

Pedro aceita se casar com Rosaura – apenas para poder ficar perto da Tita amada.

E está feito o bolero, o novelão mexicano: estarão Tita e Pedro condenados para sempre a se consumir de amor sem consumá-lo?

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Uma ode à libertação dos oprimidos – e à força das mulheres

Em torno dessa situação de novelão mexicano, há toda uma simbologia para quem quiser. Tita e Pedro são os oprimidos – Elena e Rosaura são os opressores. Gertrudis é a saída, a solução, a revolução.

Como Água para Chocolate é uma ode à libertação dos oprimidos – e também, à força, à independência das mulheres, à reação contra os preconceitos sociais, as amarras da tradição.

De maneira imprevista, interessante, fascinante, há um gringo, um médico do outro lado do Rio Grande, Alex Brown (o papel de Mario Iván Martínez), que se torna amigo da família. e se apaixona perdidamente por Tita – até porque, diabo, quem não se apaixonaria por aquela moça?

O gringo, ao contrário do que se poderia esperar, não é um explorador, um invasor, um sujeito emproado, metido, um imperialista danado. Bem ao contrário: é um rapaz de imenso coração, a bondade em pessoa.

Há exageros, mão pesada: Elena é a megera absoluta, o retrato do mal em si, enquanto Tita é a doçura absoluta, infinita.

Há derrapadas no visual. Os diretores de fotografia Steven Bernstein e Emmanuel Lubezki abusam das cenas de alvorecer e entardecer, para criar aquelas imagens que fariam a felicidade do produtor Selznick – e que acabam ficando simplesmente bocós.

Há atuações fracas. Marco Leonardi, o galã que faz Pedro, em especial, precisaria fazer uns três cursos de arte dramática para ser considerado mediano.

A ruindade do ator quase chega a comprometer todo este belo filme – mas a verdade é que a gente acaba não dando importância a ela diante da delícia que é a história, o clima de realismo fantástico, a doçura de Tita, a beleza e simpatia dessa moça Lumi Cavazos que a interpreta – e toda essa ênfase à coisa da comida, a comida representando tudo, a tristeza, a alegria, o amor, a paixão, o tesão.

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Delicioso exemplar do realismo fantástico, Como Água Para Chocolate é também um dos bons filmes daquela cepa que glorifica a comida, o paladar, os prazeres da mesa – ao lado do dinamarquês A Festa de Babette (1987), do anglo-americano Chocolate (2000), do alemão Simplesmente Martha (2001), refilmado pelos americanos como Sem Reservas (2007), do greco-turco O Tempero da Vida (2003), do francês O Segredo do Grão (2007), do americano Julie & Julia (2009).

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Como Água Para Chocolate ganhou 26 prêmios, fora outras 14 indicações

Laura Esquivel iniciou a carreira de escritora fazendo roteiros de programas infantis para a televisão mexicana. E começou a escrever Como Água Para Chocolate como um roteiro de filme.

Convencida de que não teria como financiar a produção de um filme com base no roteiro, resolveu então contar a história em prosa. O romance, lançado, como já foi dito, em 1989, foi um sucesso imenso no México e em vários outros países.

O sucesso do romance garantiu que a história fosse levada ao cinema, com roteiro da própria Laura Esquivel.

Depois desse primeiro, a autora publicaria outros nove livros – oito romances, e um de contos.

A vida tem caminhos fantásticos como as histórias de ficção. Laura Esquivel e o diretor e produtor Alfonso Arau haviam se casado em 1975, quando ela estava com apenas 25 anos e ele, com 43. O casal se separou em 1996, apenas quatro anos depois do lançamento do filme – que foi grande sucesso de público e crítica no México e em vários países.

O filme levou 10 prêmios Ariel, o corresponde mexicano do Oscar, dado pela Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas. Teve indicação ao Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro; ao todo, foram 26 prêmios e outras 14 indicações.

Como água para chocolate

Tempo de Leitura: 9 minutos

A história se passa no interior do
México, quando Tita e Pedro estão apaixonados. Mas é um amor impossível porque,
segundo a tradição familiar, ela deve permanecer solteira para cuidar da mãe.
Pedro se casa com a irmã mais velha, e é por intermédio da culinária que eles
conseguem transmitir seu amor.

Sobre histórias de amor, já escrevia
Rumi, o poeta sufi muçulmano, contemporâneo de São Francisco:

O teu amor veio até meu coração e partiu feliz. Depois retornou, vestiu a veste do amor, mas mais uma vez foi-se embora. Timidamente lhe supliquei que ficasse comigo ao menos por alguns dias. Ele se sentou junto a mim e se esqueceu de partir”.

Em tempos tão violentos e de tão
pouca tolerância, de relações que se vão com o vento, já que, em muitos casos,
bem pouco permanece, que tal agitar as emoções com alguns temperos regados de
colheradas sedutoras de paixão e, claro, porções mais do que generosas de amor?

Como todos já devem pelo menos
desconfiar, tudo que escrevo esconde significados. A palavra falada contempla
necessariamente o outro e os olhos do outro; já, na solidão da escrita, a
liberdade passa a ser plena, sincera, não contaminada, principalmente quando o
tema trata de algo tão sensível e delicado como o amor. Aí, todo cuidado é
pouco e, quando se ama demais… bem, nem preciso dizer.

Pensando em juntar ingredientes
mágicos e fantásticos, erotismo e altas doses de alho, cebola, mel, pimenta e
pétalas de rosa, nada melhor que a deliciosa história de “Como água para
chocolate”, filme mexicano de 1992 baseado na novela de Laura Esquivel e
direção de Alfonso Arau.

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Ah, é importante explicar que no
México, o chocolate é diluído em água, e não em leite, como em outros lugares,
daí o título. Um lembrete: o filme é narrado pela sobrinha neta da protagonista
e, como adoro fazer, por mim. Quem é ela e quem sou eu? Difícil dizer.

Então, vamos seguir caminho para Rio
Grande, México, 1895. Essa viagem é para você, meu amor e, acredite, “É de dar
água na boca”, uma delícia.

Para quem não sabe, “a cebola tem
que ser bem picada. Sugiro que ponham um pedaço de cebola na cabeça para evitar
as lágrimas quando se está cortando”.

Ou, abra a torneira e deixe a água fluir
– com isso a energia dos líquidos se misturam, como, mais ou menos, acontece na
intimidade do amor.

  Mas, retornando…
“o ruim de chorar quando se pica cebola não é o fato de chorar e sim que, às
vezes, não se consegue parar”.

O dia no rancho amanhece, é o parto
de Tita, nossa protagonista e heroína, em meio as cebolas, azeites, condimentos
e mais um mundo de comilanças.

Nacha, a empregada da casa, sempre
contava que quando Tita foi empurrada a este mundo por uma torrente de
lágrimas, inundou o chão da cozinha. Quando o susto passou, e a água, graças ao
sol evaporou, a pobre recolheu o que restou das lágrimas. E, pasmem, foram 20
kg de sal que usaram para cozinhar por muito tempo.

É, as lagrimas produzem
acontecimentos inexplicáveis, elas parecem grudar na pele da gente nos
tornando, com o tempo e o avançar da idade, mais “saborosos”, sensíveis,
humanos… eu diria, até as raias do exagero, muitas vezes.

Importante lembrar que Tita tinha
mais duas irmãs: a fogosa e caliente Gertrudis
e a cordata e “sem sal” Rosaura.

Logo após seu nascimento, o pai, num encontro
com amigos, é surpreendido com a maldosa, mas não mentirosa, insinuação de que
sua esposa “esteve” com um tal mestiço, resultando o acontecido na,
perceberemos mais tarde, injustiçada Tita. Não suportando o golpe, lá se vai o
pai de família, o homem supostamente traído, para o outro lado da vida.

Nacha se encanta ao olhar a pequena
e linda menina: “O primeiro que a vir vai querer casar com você”, mas a mãe,
amargurada e, porque não dizer, culpada, imediatamente intervém: “Tita nunca se
casará. Por ser a mais nova cuidará de mim até que eu morra, é a tradição.”

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Abandonada e maltratada pela mãe,
Tita, alimentada por Nacha cresce na cozinha, entre o cheiro da canja, do
tomilho, do louro, do leite fervido, do alho e, é claro, da insubstituível
cebola.

E na esteira das lembranças, eis que surge o velho e eficiente moedor
de carne manual e aquele barulhinho do óleo derramando sobre a frigideira
pelando, o aroma do alho envolvido generosamente pela cebola.

Vai me dizer se
isso não é amor? Hein?

Bem, o tempo passa, já estamos em
1910, agora Tita já é uma mocinha, já faz as comidinhas do rancho em que mora
com a família e já flerta delicadamente com o pequeno Pedro Muzquiz, aquele que
será a razão dos seus dias.

“Quando Tita sentiu o olhar ardente de
Pedro compreendeu perfeitamente o que sente a massa ao entrar em contato com o
óleo fervente.

Foi tão real o calor que a invadiu e temendo que, como na massa,
lhe surgissem bolhas pelo corpo, no ventre, no coração e nos seios, baixou os
olhos e fugiu.

” A jovem sabia que aquele amor jamais se realizaria, se
dependesse da mãe, mas o que ela não imaginou é que seu amado seria destinado à
sua irmã Rosaura.

Sim, a separação dos amantes estava
selada, para revolta da irmã Gertrudis, da velha Chacha e da jovem e fiel
empregada Chemcha, que esbraveja: “Que mãe cruel Não se pode trocar tacos por enchilladas”! Está feito: Pedro se casará com Rosaura, mas qualquer
sacrifício vale para estar perto de Tita: apenas olhá-la e senti-la.

A sobrinha neta lembra e lamenta:
“Pena que os buracos negros não haviam sido descobertos naquela época, pois
seria fácil para Tita compreender que tinha um buraco negro no peito que a
fazia sentir um frio infinito”. E, muitas vezes, esse vazio nunca passa, jamais
ameniza.

E a lua, na sua misteriosa
imensidão, permanecia como testemunha da infinita tristeza de Tita. Assim, ela
se pôs a chorar e tricotar, tricotar e chorar, noite depois de noite, até que
finalizou a manta da dor e cobriu-se nela. Mas de nada adiantou, nem naquela
noite ou em outras – enquanto viveu não pode controlar o frio.

A vida segue e, por determinação da
insensível mãe, Tita fica encarregada do banquete de casamento da irmã. Mas, o
que fazer com tantas lágrimas no preparo do bolo?

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Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

O choro, inevitável, foi o primeiro
sintoma de uma intoxicação estranha. Uma grande melancolia e frustração
apossou-se dos convidados, todos com saudades do amor de suas vidas.

Até aquele
que nenhum amor conheceu, lamentou a emoção não vivida. A dor atingiu inclusive
a impiedosa mãe que se refugiou nas lembranças de seu amado mestiço, guardado a
sete chaves.

A intensidade foi tanta que Nacha, naquele dia, recebeu a
indesejável visita da Morte.

Mesmo resistindo, Pedro, depois de
três meses, acaba por consumar o casamento com Rosaura: “Senhor, não é luxúria
ou prazer, mas para gerar um filho a teu serviço”.

E entre um pai nosso e uma ave
maria, o rapaz faz pequenos agrados à Tita como no dia em que a presenteou com
rosas vermelhas. Atenta a ilícita aproximação do genro, a mãe ordena que Tita
destrua as flores, mas o fantasma de Nacha toma a frente no coração da moça e,
determinado, diz: “Você pode preparar codornas ao molho de pétalas de rosa”.

Depois do ritual quase erótico das
codornas, Pedro não resiste: “Isso é um manjar dos Deuses”.

Parecia que em um estranho fenômeno
de alquimia, não só o sangue de Tita, mas todo o seu ser se havia dissolvido no
molho de rosas, no corpo das codornas e nos aromas da comida. Deste modo, ela
penetrava no corpo de Pedro voluptuosa, aromática e completamente sensual. Era
um novo código de comunicação que se estabelecia entre os amantes, um novo
espaço invadido pelo silêncio sagrado.

Afortunados aqueles que conseguem
estar juntos, mesmo separados, afortunados aqueles que se amam, mesmo sem se
tocarem, afortunados aqueles que se olham, mesmo distantes.

“Eis a fina descrição de uma
experiência de transcendência, experiência de encontro entre duas pessoas que
se enamoram e descobrem o amor, uma experiência que revoluciona a consciência e
a vida” (BOFF, 2009, p. 26).

Ah, um intervalo de leveza para
falarmos um pouco sobre a irmã Gertrudis, um capítulo de sedução a parte na
história. Fogosa até os limites do erotismo, num certo dia, ela se encanta com
um forasteiro, quem sabe um guerreiro da revolução: “Dizem que basta um olhar e
engravida!”.

E o cheiro de rosas que Gertrudis
exala chega tão longe que obriga o tal forasteiro, a procurar algo
desconhecido, num lugar indefinido. Claro, não foi difícil achá-lo. Parecia que
cavalo e cavaleiro obedeciam a ordens superiores. Nua, Gertrudis monta no
cavalo do seu estranho e segue seu destino.

Entre uma iguaria e outra, nasce o
bebê de Rosaura e Pedro. Como John, o médico, não chega a tempo, Tita acaba por
fazer o parto da irmã.

Ao preparar o mole (uma espécie de molho), Tita sente na própria carne como o
contato com o fogo altera os elementos, como a massa se transforma em tortilla, como um seio que não sentiu o
fogo do amor é um seio inerte, sem vida. Em segundos, Pedro transforma os seios
de Tita, de castos a voluptuosos, sem tocá-los. É a magia daqueles que se amam
com sinceridade.

Agora é verão e o calor escaldante
os aproxima, uma perigosa ameaça de traição que obriga a matriarca a retirar
Rosaura e Pedro do rancho. Com a distância de Tita, de seu leite e de seus
cuidados, o bebê morre, já que “tudo que ele comia lhe fazia mal”.

Tita se desespera e se refugia,
distante de tudo e de todos. Chemcha, preocupada com o estado da moça, pede
socorro a John, um eterno apaixonado. Assim, eles partem para bem longe do
rancho.

Um suposto véu de noiva é
substituído por metros e mais metros de manta tricotada nas noites de tristeza,
lágrimas e solidão – essa é a dimensão da falta que Pedro sempre lhe fez.

“Tu, único Sol, vem! Sem ti as flores
murcham, vem! Sem ti o mundo não é senão pó e cinza. Este banquete, esta
alegria, sem ti são totalmente vazios, vem!” (RUMI, o poeta do amor)

Ao ver as mãos livres das ordens da
mãe, Tita não sabia o que pedir. Se suas mãos pudessem se transformar magicamente
em pássaros e voar para longe! Ah, se pudessem… Não queria que suas palavras
gritassem sua dor, mas sim que gritassem por amor, por desejo e por realização.

Na amizade do generoso John, um
toque de esperança na alma de Tita: “Todos nascem com uma caixa de fósforos
dentro de si, mas não podemos acendê-los sozinhos. Necessitamos de oxigênio e
da ajuda de uma vela.

Só que em nosso caso, o oxigênio deve vir do hálito da
pessoa amada, a luz da vela pode ser qualquer coisa.

Uma melodia, uma palavra,
uma carícia, um som, qualquer coisa que dispare o detonador e acenda um dos
fósforos”.

Talvez por isso, com tanta
frequência (sempre nos repetimos), enviamos músicas para aquele que amamos,
presenteamos com livros, escrevemos palavras (como este texto), fazemos
comidinhas, carícias que alimentam, cantam e encantam o outro.

“Agora, cada pessoa tem que
descobrir quais são seus detonadores para poder viver porque é a chama de
apenas um fósforo que nutre a alma de energia”. Sim, não pense que precisamos de
muito, apenas uma faísca, basta uma.

“Claro que também é importante
acender os fósforos um por um porque se uma emoção intensa acender todos de uma
vez, produzirá um esplendor tão forte que aparecerá diante de nossos olhos um
túnel mágico que nos mostrará o caminho que esquecemos ao nascer e nos chamará
de volta à nossa perdida origem divina”.

Já me despedindo dos amantes, livres
dos fantasmas, e sob a benção da velha Chacha, dos temperos, aromas e iguarias,
penso na coerência, no modo de viver a vida de Gertrudis quando diz à irmã: “A
única verdade é que não existe verdade. Depende de muitas coisas”.

Mas lembre-se sempre: “…se uma
emoção intensa acender todos de uma vez…”

Referências

BOFF, Leonardo. Tempo de Transcendência. São Paulo: Editora Vozes, 2009.

EWALD FILHO, Rubens. O cinema vai à mesa. São Paulo:
Melhoramentos, 2007.

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Como Água para Chocolate

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Foto: reprodução

Como Água para Chocolate é um drama que nos permite conhecer um pouco mais sobre a cultura mexicana do séc. 20. A fronteira do país, cuja localidade se caracteriza por regras sociais bem rígidas, é o cenário no qual toda a história se desenvolve.

Mãe Elena (Regina Torné) é uma mulher viúva que vive com as três filhas, Tita (Lumi Cavazos), Gertrudis (Claudette Maillé) e Rosaura (Yareli Arizmendi). O vizinho da família, Pedro Muzquiz (Marco Leonardi), se apaixona por Tita, a filha mais nova e pede a sua mão em casamento à Mãe Elena. Esta não cede a mão da jovem por questões culturais.

De acordo com a tradição mexicana da época, seguida rigorosamente pela família, a filha mais nova deve permanecer solteira para cuidar da mãe até a morte. Assim, Mãe Elena oferece sua primogênita Rosaura a Pedro. Este acaba aceitando a imposição da sogra para ficar mais perto de Tita.Tita tem uma relação de extrema harmonia com cozinhas e receitas, adora preparar pratos deliciosos para a família. Esse fato talvez seja explicado pelas circunstâncias em que a jovem nasceu, pois foi exatamente quando sua mãe estava cozinhando.Pedro se sente seduzido pelo sabor de tudo o que sua amada faz e o momento de preparo das refeições é também um momento do casal, quando Pedro aproveita para ficar mais perto dela. No entanto, ambos têm que tomar muito cuidado para que Rosaura e Mãe Elena não desconfiem de nada. Nessas cenas, o filme explora algumas receitas típicas do México.

Por Camila Guimarães Ribeiro

Lançamento: 1992, México

  • Gênero: Drama
  • Duração: 105 min
  • Idioma original: Espanhol
  • Direção: Ricardo M. Kaplan   
  • Produção: Alfonso Arau  
  • Roteiro: Laura Esquivel, baseado em livro de sua autoria
  • Música: Leo Brouwer  
  • Elenco: Marco Leonardi, Lumi Cavazos, Regina Torné, Mario Iván Martínez, Ada Carrasco, Yareli Arizmendi, Claudette Maillé, Pilar Aranda, Farnesio De Bernal, Joaquín Garrido, Rodolfo Arias, Margarita Isabel, Brígida Alexander, Sandra Arau
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RIVALIDADE E FORÇA FEMININA: COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE

Quem Realizou O Filme Como Agua Para Chocolate?

Esse filme mexicano de 1992 foi dirigido por Alfonso Arau é adaptação de um livro homônimo escrito por Laura Esquivel. Conta a história de Tita (Lumi Cavazos), uma menina que ao nascer foi designada para cuidar da mãe (Regina Torné), como parte de uma tradição da família. Por isso, Tita não poderia se casar, mesmo assim, ela se apaixona por Pedro (Marco Leonardi) e é correspondida. A mãe, para impedir que os dois namorem, oferece a mão de Rousaura (Yareli Arizmendi), irmã de Tita para Pedro, que aceita no intuito de morar perto da amada. Assim, Tita tem de viver na mesma casa que os dois, escondendo seu amor. Além de Tita e Rosaura, mamá Elena, a mãe, tem mais uma filha, Gertrudes (Claudette Maillé), que foge e acaba se tornando a líder do exército revolucionário. O filme tem uma relação bem forte com a cozinha, local onde Tita nasceu e passou a maior parte da vida. Além disso, os sentimentos reprimidos da protagonista se concretizam e tomam forma por meio da comida.

Bom, vamos por partes, apesar de ser um filme com mulheres independentes e de família matriarcal (mamá Elena chega a dizer para o padre que “os homens não são tão importantes assim” quando ele a questiona sobre a falta de um em casa), ainda há uma grande valorização do amor Romântico (com letra maiúscula e direito a todos os clichês do Romantismo mesmo) e noção de que as mulheres de bem são as que sabem cozinhar e cuidar da casa. De fato, o filme separa as mulheres “para casar” e as “vadias”, algo que não fica tão incômodo porque acaba sendo uma crítica a esse modelo e ao pensamento da época. Ainda assim, mostram de maneira ridicularizada as mulheres que não sabem cozinhar, por exemplo. Um ponto positivo é que a maioria das personagens com falas são mulheres, quase todas elas são mulheres fortes e com personalidade, com exceção de Rosaura.

O desejo é quase como uma entidade, presente em todo filme. Assim também é com a repressão. Essas duas entidades se materializam nas personagens Tita e Elena.

Tita que não pode viver seu desejo, o transfere para Gertrudes, que ao comer o que Tita cozinha, se sente excitada, se masturba, foge de casa… O desejo é retratado com a metáfora do fogo, é de um incêndio que Gertrudes corre pelada para o colo de seu amado. Gertrudes é uma personagem muito interessante, mas que infelizmente não é explorada na história.

Ela volta como “generala” do exército revolucionário, é uma mulher imponente e temida pelos homens que participam da revolução, todos a obedecem de cabeça baixa, mas não sabemos o que ela fez nem por onde andou.

Se por um lado as representações femininas quebram estereótipos, por outro reforçam a noção deturpada de feminilidade ligada dotes culinários e do lar. Também há a manutenção da ideia de rivalidade entre mulheres – disputando um homem, nada novo sob o sol. Porém, essa relação de rivalidade fica restrita a Rosaura e Tita.

A maior parte das mulheres no filme se ajudam e se fortalecem. Gertrudes, Nacha (Ada Carrasco) e Chencha (Pilar Aranda) apoiam Tita, porém sem coragem de se colocarem contra a matriarca. Gertrudes secretamente ensina Tita e evitar uma gravidez, por exemplo. As vizinhas/parentes da família também se mostram favoráveis ao amor de Tita.

Uma das relações que mais gostei de ver ser desconstruída foi a relação de mãe e filha. Não existe no filme o amor maternal mágico. Também não existe amor incondicional à mãe. Tita chega a dizer para Elena que sempre a odiou, indo contra o final feliz comum em que as personagens se reconciliam e vivem todas felizes para sempre.

Esse é um ponto bem interessante, porque o filme não retrata as mulheres como sensíveis e passivas a perdoar qualquer atrocidade que as acontece.

O filme se passa entre 1910 e 1934, no México, então é normal que mostre como as mulheres eram criadas para odiar umas as outras, mas mostra sublimemente como essa criação pode ser burlada e como a união feminina é forte.

O filme não mostra empoderamento feminino nem contesta o papel da mulher na sociedade, mas escolhi falar sobre ele por ter personagens complexas com histórias próprias, que não dependem de um homem para acontecer. Na maior parte do filme, o corpo feminino não é tratado como objeto.

Em alguns momentos, o filme sexualiza Tita, mas é interessante o fato de em alguns momentos sexualizar o corpo masculino também. Na verdade, em um momento só, quando Pedro chupa e passa gelo de maneira sensual pelo corpo.

Também incomoda um pouco o fato de que o que preocupa Rosaura em relação ao casamento dela não é o fato de ter se aproveitado da situação vulnerável da irmã, mas sim a possibilidade de o marido não a desejar mais por causa de seu peso, seu hálito e seus gases. Fica ainda forte no filme o casamento como único destino para as mulheres.

Mesmo Gertrudes, que fugiu e liderou uma revolução, acaba casada e com filha. Vale ressaltar que as mulheres no filme são em maioria brancas, com exceção de Chencha e Nacha que parecem ter origens indígenas.

O filme utiliza alguns recursos do realismo fantástico para construir situações visualmente inusitadas e expor tanto o sofrimento contido quanto a libertação sexual. Após reassistir para escrever essa crítica, me encantei menos que da primeira vez que tinha visto.

As mensagens de esperança e de força feminina ainda estão ali, porém muitas problemáticas ficaram mais claras para mim, todas elas relacionadas ao amor romântico (agora com minúscula, mas englobando o Romântico maiúsculo também) e ao papel determinado para as mulheres nesse sistema.

Desde crianças, as filhas de Elena são ensinadas a buscar um amor heterossexual como objetivo de vida. São sempre questionadas sobre quando e com quem querem se casar.

 Quando a filha de Rosaura nasce, uma das primeiras coisas que ouvimos sobre ela é a vontade que o filho do médico tem de se casar com a menina recém nascida. E, fatalmente, os dois se casam.

Até a protagonista se apaixona sem explicações razoáveis. Nunca é mostrada uma conversa sequer entre Tita e Pedro, mesmo assim ela se mostra perdidamente apaixonada pelo rapaz. É como se o amor fosse uma força inexplicável que vai fatalmente atingir a todas as mulheres.

Isso fica claro desde o começo do filme, quando Elena diz a Tita que ela não vai poder se casar, Tita, ainda criança, se revolta e fica chateada com a notícia. Permanece a ideia de que, se não for o casamento, não resta mais nada a ela.

A própria Elena guarda uma foto de seu amor do passado em um colar em formato de coração, ou seja, na concepção do filme, até a mais fria e rigorosa das mulheres é destinada a amar eterna e incondicionalmente alguém.

Quanto ao título, se refere ao ponto de ebulição da água. É uma expressão usada no México, já que para fazer chocolate a água deve estar fervendo.

No livro, essa expressão é usada para demonstrar que Tita estava sempre com raiva das situações que lhe eram impostas, desde seu futuro predestinado, até a indignação com o comportamento de Pedro, porém no filme isso não fica tão claro.

Tita é retratada como uma moça tolerante e carinhosa. Provavelmente, no livro, por ser escrito por uma mulher, as perspectivas de amor e a personalidade da protagonista são diferentes.

Ilustração da dominicana Gaby D’Alessandro

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