Que Pais Da Atualidade Era Conhecido Como Ceilão?

  • Prof. Rana Mitter*
  • Especial para a BBC

Que Pais Da Atualidade Era Conhecido Como Ceilão?

Crédito, Getty Images

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'É impressionante como ecos do passado podem ser vistos no presente' da China, diz historiador; acima, imagem de Confúcio

Para entender as notícias sobre a abordagem chinesa a questões como comércio, relações exteriores e censura na internet, é preciso voltar ao passado.

A China talvez seja mais consciente de sua própria história do que qualquer outra grande sociedade no mundo. Essas recordações vão até certo ponto – eventos como a Revolução Cultural (1966-76) de Mao Tsé-Tung são ainda muito difíceis de serem discutidos dentro do país. Mas é impressionante como ecos do passado podem ser vistos no presente.

Os chineses costumam lembrar um tempo em que seu país era forçado a fazer trocas comerciais contra sua vontade. Tanto que, hoje, o país considera os esforços do Ocidente para abrir os mercados chineses como uma recordação desse período infeliz.

Atualmente, os EUA acusam Pequim de inundar os mercados americanos de produtos baratos enquanto fecha seu mercado às exportações americanas. No entanto, a balança comercial externa nem sempre favoreceu os chineses.

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Um britânico (Robert Hart, acima) era quem comandava a Alfândega chinesa entre 1863 e 1911

Há cerca de 150 anos, o país asiático tinha pouco controle sobre seu próprio comércio internacional. Foi a época em que o Reino Unido atacou a China nas chamadas “guerras do ópio”, a partir de 1839.

Nas décadas seguintes, os britânicos fundaram uma instituição chamada Serviço Imperial Alfandegário Marítimo, para determinar tarifas a serem impostas nos produtos importados da China.

O órgão era parte do governo chinês, porém ficou séculos sob comando britânico.

As memórias desse tempo ainda reverberam.

Tudo era diferente na época da dinastia Ming, no século 15, quando o almirante Zheng levou sete grandes frotas ao Sudeste Asiático, ao Ceilão (hoje Sri Lanka) e até à costa da África Oriental para promover seu comércio e exibir o poderio chinês.

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Pintura de explorações matíritimas chinesas no século 15; viagens foram um raro exemplo de projeto estatal do tipo

Um dos objetivos das viagens de Zheng era impressionar os parceiros comerciais chineses e trazer incríveis e exóticos itens “importados” – por exemplo, a primeira girafa a chegar à China veio dessas expedições. Poucos outros impérios eram capazes, à época, de enviar enormes frotas pelos oceanos.

E Zheng podia entrar em combates se assim o desejasse – derrotou, por exemplo, um governante do Ceilão. No entanto, suas viagens são um raro exemplo de um projeto marítimo estatal. Nos séculos seguintes, a maioria do comércio exterior chinês ocorreria por vias não oficiais.

A China sempre demonstrou preocupação em manter a paz nos países com os quais faz fronteira. Isso ajuda a explicar por que o país até hoje aceita lidar com o imprevisível regime norte-coreano.

Mas, historicamente, essa não é a única fronteira delicada do gigante asiático.

Pequim já enfrentou vizinhos mais difíceis do que Kim Jong-un (que, por sinal, fez recentemente uma visita surpresa aos líderes chineses, em sua primeira viagem internacional oficial).

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Jornais retratando visita de Kim Jong-un à China em março; país tem laços geralmente dúbios com seus vizinhos

Em 1127, época da dinastia Song, uma mulher chamada Li Qingzhao fugiu de sua casa, na cidade de Kaifeng. Conhecemos sua história porque ela se tornou uma das melhores poetas chinesas, sendo amplamente lida até os dias de hoje. Ela saiu em fuga porque sua comunidade estava sob ataque.

Um povo do norte, os Jurchen, havia invadido a China após um longo período de frágil aliança com o imperador da dinastia Song. Enquanto as cidades eram incendiadas pelos invasores, a elite da China se via forçada a se espalhar pelo país.

A história de Li Qingzhao e de toda a dinastia serviu na China como lição de que apaziguar vizinhos é uma estratégia com efeito limitado. Por muito tempo, a dinastia Jin comandou o norte da China, e os Song fundaram um novo reino ao sul. Mas, no fim, ambos foram dominados por um novo grupo de conquistadores: os mongóis.

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Genghis Khan, líder do império mongol, que invadiu a China e a dominou em diversos momentos

A mudança de traçado nos mapas ao longo do tempo mostra como foi mudando a definição da própria China. A cultura do país é comumente associada a algumas ideias, como idioma, história e sistemas éticos, como o confucionismo.

No entanto, outros povos, como os manchus e os mongóis, ocuparam o trono chinês em vários momentos, dominando o país com as mesmas ideias e princípios que os chineses étnicos.

Esses vizinhos nem sempre ficavam “quietos”, mas muitas vezes encamparam e exercitaram valores chineses de modo tão eficiente quanto os próprios.

A China moderna censura informações politicamente sensíveis na internet, e os que ousam dizer nas redes verdades políticas consideradas problemáticas pelas autoridades podem ser detidos ou sofrer punições ainda piores.

A dificuldade em falar a verdade aos poderosos é uma questão sensível há tempos. Historiadores chineses muitas vezes se viram forçados a escrever não o que achavam realmente importante, mas, sim, o que os líderes queriam que fosse escrito.

Mas Sima Qian – comumente descrito como o “grande historiador” da China – escolheu um caminho diferente.

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Sima Qian foi um conhecido historiador que, apesar de alvo de punição, moldou o relato histórico no país

Autor de uma das mais importantes obras de recriação do passado chinês, no século 1 a.C., Sima ousou defender um general que havia perdido uma batalha. Isso foi considerado uma afronta ao imperador, e Sima foi condenado à castração.

Ainda assim, ele deixou um legado que até hoje molda a forma como se escreve a história na China.

Seus registros mesclavam diferentes tipos de fontes, criticavam figuras do passado histórico e usavam técnicas da história oral para ser mais preciso nos relatos.

Tudo isso configurava, à época, uma forma totalmente nova de fazer história e abriu precedente para futuros escritores: se você estivesse disposto a sacrificar sua segurança, conseguiria escrever os fatos em vez de se autocensurar.

A China moderna é muito mais tolerante a práticas religiosas do que na época da Revolução Cultural de Mao, mas movimentos de cunho religioso que possam desafiar o governo ainda são vistos com desconfiança.

Em geral, a abertura religiosa foi durante muito tempo parte da história chinesa.

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Imperadora Wu Zetian chegou a promover o budismo na China do século 7, contra o que provavelmente via como tradições sufocantes do confucionismo

No auge da dinastia Tang, no século 7, a imperadora Wu Zetian abraçou o budismo como uma forma de combater o que ela provavelmente via como as sufocantes normas das tradições confucionistas.

Na dinastia Ming, o jesuíta Matteo Ricci foi tratado pela corte chinesa como um interlocutor de respeito, ainda que provavelmente houvesse mais interesse nos conhecimentos dele sobre a ciência ocidental do que em suas tentativas de conversões religiosas.

Mas a fé sempre foi um assunto perigoso.

Ao fim do século 19, a China foi convulsionada por uma rebelião iniciada por Hong Xiuquan, homem que clamava ser o irmão mais jovem de Jesus; A rebelião Taiping prometia trazer um reino de paz celestial à China, mas acabou levando a uma das mais sangrentas guerras civis da história, com a morte de até 20 milhões de pessoas, segundo algumas estimativas.

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Batalha da rebelião Taiping, um dos levantes envolvendo a religião que ocorreram na China

Algumas décadas mais tarde, o cristianismo estaria ao centro de um novo levante. Em 1900, camponeses rebeldes passaram a perseguir missionários cristãos e seus convertidos, a quem chamavam de traidores da China.

A princípio, a corte imperial os apoiou, o que levou à morte de muitos cristãos chineses, antes que a rebelião fosse eventualmente contida.

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Ao longo de boa parte do século seguinte, e com efeitos até os dias de hoje, a Estado chinês oscila entre tolerância religiosa e o temor de que a religião abale o país.

A China atual almeja se tornar um hub global de novas tecnologias e já é líder em aspectos como inteligência artificial, reconhecimento de voz e big data.

Vale lembrar que, um século atrás, o país passou por uma primeira revolução industrial – e as mulheres tiveram papel tão central na época quanto têm hoje.

Muitas das fábricas que hoje produzem chips de celular para o mundo inteiro têm como mão de obra jovens mulheres muitas vezes submetidas a terríveis condições de trabalho, mas que pela primeira vez também estão buscando seu lugar na economia industrial.

Elas herdaram a experiência das jovens de 100 anos atrás que foram empregadas nas fábricas de tecidos de Xangai e do delta do rio Yangtze. O trábalho era árduo, comumente levava a ferimentos físicos e câncer de pulmão, e as condições dos dormitórios dos empregados costumavam ser espartanas.

Ainda assim, esas mulheres relatavam o prazer de ganhar seus próprios (baixos) salários e de ocasionalmente sair para passear.

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Trabalhadoras chinesas por volta de 1912; mulheres tiveram e ainda têm papel central nas revoluções industriais e tecnológicas do país

Algumas gostavam de admirar as vitrines (provavelmente sem poder comprar nada) das lojas de departamento então recém-inauguradas no centro de Xangai.

Até hoje, na mesma cidade, ainda é possível ver a nova classe trabalhadora chinesa consumindo bens e serviços como parte da nova economia chinesa, movida pela tecnologia.

Estamos vivendo uma nova significativa era de transformação na China. Futuros historiadores notarão um país que, se em 1978 era empobrecido e voltado a si mesmo, um quarto de século depois começaria a se tornar a segunda maior economia do mundo.

Eles também observarão que a China foi o mais importante país a rejeitar o que parecia ser uma onda inevitável de democratização.

Talvez outros fatores, como a (já extinta) política do filho único e o uso de inteligência artificial na vigilância da população também chamem a atenção de futuros escritores. Ou mesmo questões relacionadas ao meio ambiente, à exploração espacial ou ao crescimento econômico que ainda não estão tão claramente definidas para nós.

Mas uma coisa é quase certa: daqui a um século, a China ainda será um local fascinante para os que vivem ali e os que convivem com ela, e sua rica história continuará a informar seu presente e sua direção futura.

*Rana Mitter é professor de História e Política da China Moderna na Universidade de Oxford e diretor do centro de estudos chineses da instituição

“Taprobana”, o livro que viaja à história conturbada de Portugal no antigo Ceilão

Eduardo Pires Coelho que trabalha em mercados financeiros desde 1997, vencedor do prémio literário Esfera das Letras (com o livro “O Segredo da Flor do Mar”), conversou com o SAPO Lifestyle a propósito do seu novo título, “Taprobana” (Oficina do Livro), inspirado no território que Luís de Camões evocou no Canto I de “Os Lusíadas”.

A história que Eduardo Pires Coelho entretece viaja a narrativas em dois tempos, o presente e os séculos XVI e XVII. Oportunidade para revisitar território onde Portugal permaneceu mais de 150 anos, palco de conquistas, mas também de surpresas na perspetiva do autor: a do “sonho de fazer daquela ilha, um novo Portugal, uma nova Goa, num local exótico, que quase parecia o paraíso na terra”.

Território asiático onde, atualmente, encontramos apelidos com origem portuguesa: Mendis, Pinto, Costa, Dias e Fonseka e palavras cingalesas com matriz na nossa língua. Três exemplos são janela, sapato e camisa.

Escrita, história e viagens (Eduardo Pires Coelho visitou 56 países) são a paixão do homem para quem “é sempre uma emoção ouvir o nome de Cristiano Ronaldo quando digo que sou português”.

Sobre a nossa presença passada no mundo, Eduardo Pires Coelho descreve-a através da frase do historiador indiano Sanjay Subrahmanyam: “O Império Português é dos maiores enigmas da História”.

O Eduardo Pires Coelho escolhe como título para o seu novo livro o termo Taprobana quando poderia ter optado por Ceilão. Taprobana evoca-nos, por exemplo, “Os Lusíadas”, de Camões. A escolha de Taprobana para título do livro é uma chamada de atenção para mantermos a nossa memória histórica?

Em parte, sim. Taprobana é uma palavra quase mítica, que Camões usou na primeira estrofe de “Os Lusíadas”, e que, de alguma forma, transmite a ideia de empreendedorismo. Trata-se do nome antigo do Sri Lanka, um país-ilha a sul da Índia, onde os portugueses permaneceram por mais de 150 anos. No livro, Taprobana tem também um segundo significado, igualmente ligado ao empreendedorismo.

Em que contexto nasce o mote para este seu livro?

A ideia nasceu quando estava a escrever o meu primeiro romance, centrado em Malaca, um importante entreposto, na actual Malásia.

Muitos documentos que li faziam referência ao Ceilão: descreviam o comércio de canela e o desvio sistemático de tropas de Goa que eram inicialmente destinadas a Malaca e a outros postos.

Fiquei curioso e comecei a investigar o que tinha acontecido no Ceilão, quando os portugueses lá estiveram.

“Taprobana” é um livro centrado no Sri Lanka e a história desenrola-se em dois tempos diferentes. No presente, começa com o homicídio de um médico-cientista do Sri Lanka que trabalha em Portugal, num momento em que vários dos seus pacientes terminais melhoram subitamente.

No passado, a história decorre no final do século XVI e princípio do século XVII; retrata a vida de uma mulher, descendente de portugueses no Ceilão, numa época em que os vários reinos da ilha se digladiavam entre si e os portugueses tentavam conquistar o território por inteiro.

As duas histórias estão interligadas e o leitor vai descobrindo a relação entre elas à medida que avança no romance.

Em 2008, o Eduardo Pires Coelho foi considerado o melhor analista de ações português. Em 2011, ganhou o prémio literário Esfera das Letras. Entre um e outro prémio, independentemente da honra de os receber, qual aquele que melhor define a sua essência?

Os dois foram muito importantes para mim, e curiosamente têm algo em comum. Os mercados financeiros são globais, tal como a História de Portugal.

E ambos tiveram por base um grande esforço de investigação, tanto para saber se uma ação está cara ou barata, como para recriar a realidade dos séculos XVI e XVII.

Tenho um gosto particular pelos mercados financeiros, especialmente a parte de ações, mas a escrita, a História e as viagens são as minhas paixões.

A pesquisa história exige tempo e persistência, mas o mais difícil é entrelaçar todos os factos reais com a história do livro

“Taprobana” segue-se a “O Segredo da Flor do Mar”, título onde também faz viagem à História de Portugal. Fá-lo como thriller histórico, um género cativante. É exigente escrever uma obra de ficção histórica em estrito rigor com os factos?

A pesquisa história exige tempo e persistência, mas o mais difícil é entrelaçar todos os factos reais com a história do livro.

Faço questão de manter o máximo rigor histórico, quer em termos de datas, eventos, personagens históricas e até a toponímia das cidades ou fortalezas. Conto a história como se ela pudesse ter realmente acontecido.

Tento que a leitura seja uma viagem no tempo e no espaço, permitindo ao leitor aprender e descobrir algo de novo, de um modo natural.

Ao fazer a investigação para este seu livro algo o surpreendeu particularmente?

A história portuguesa no Ceilão surpreendeu-me em muitas vertentes, mas talvez a que mais me fascinou, foi a do sonho que perdurou durante tantas gerações em fazer daquela ilha, um novo Portugal, uma nova Goa, num local exótico, que quase parecia o paraíso na terra.

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Também não estava à espera de uma diversidade e complexidade tão grande – quando os portugueses lá chegaram, a ilha estava dividida em vários reinos, sendo que o principal estava em profundo declínio. Poucos anos depois, a ilha entrava numa terrível guerra civil, em que os portugueses acabaram por tomar partido.

Quando os portugueses lá chegaram, a ilha estava dividida em vários reinos, sendo que o principal estava em profundo declínio. Poucos anos depois, a ilha entrava numa terrível guerra civil, em que os portugueses acabaram por tomar partido.

Numa entrevista anterior referiu que “o Ceilão foi um caso atípico no Império Português no Oriente”. Porquê essa especificidade?

O Império Português no Oriente foi sobretudo um conjunto de portos estratégicos ligados por rotas marítimas, com o intuito de obter ou comercializar especiarias e outros produtos – Goa, Malaca, Ormuz e Nagasáqui são alguns exemplos.

A nossa presença no Sri Lanka foi mudando ao longo dos tempos, e teve essencialmente três fases. Inicialmente, a ilha foi vista como mais uma fonte de especiarias, principalmente canela. Depois, começámos a envolver-nos militarmente nos conflitos entre os vários reinos, em que, na prática, parte da ilha passou a ser um Protectorado.

Finalmente, ambicionámos a conquista de toda a ilha, o que significaria o maior território do Estado da Índia. Na última década do século XVI, conjugaram-se vários fatores que deixaram os portugueses à beira desse sonho.

É essa época que serve como pano de fundo do livro, e que o leitor pode conhecer através da personagem principal do passado.

A presença portuguesa naquele território é uma narrativa violenta?

O esforço militar e de conquista foi bastante mais persistente do que em outros pontos do Oriente, na senda de um sonho em possuir um Ceilão Português, e quiçá transformá-lo na capital do Estado da Índia.

Durou muitas décadas e travaram-se inúmeras batalhas nas montanhas, aonde os portugueses não estavam habituados a combater.

O choque religioso foi igualmente notório, especialmente a partir do momento em que a Inquisição chegou a Goa, exacerbando ainda mais a violência.

A própria ilha tem também um passado de violência, ainda antes da chegada dos portugueses, e que tem perdurado até aos dias de hoje. A religião sempre foi um ponto crucial: a guerra civil, de 26 anos, entre cingaleses (maioritariamente budistas) e tâmiles (maioritariamente hindus) é um exemplo disso, tal como o atentado muçulmano a alvos católicos na Páscoa de 2019.

No presente, encontramos marcas portuguesas no Sri Lanka, nomeadamente na língua, cozinha, religião. Pode dar-nos alguns exemplos?

A religião é a mais imediata, dado que mais de um milhão de pessoas é católica. Pessoalmente, achei muito divertido constatar tantos apelidos com origem portuguesa, como por exemplo Mendis, Pinto, Gomis, Silva, Costa, Perera, Dias, e claro, Fonseka, um dos personagens principais da história do livro no presente.

Existem também centenas de palavras cingalesas com origem portuguesa, especialmente ligadas ao vestuário, mobiliário, culinária e armamento [janela, sapato, camisa, viola]. As marcas portuguesas são visíveis na música e na culinária, ao passo que a maior parte das fortalezas e igrejas portuguesas foram destruídas nas guerras contra os holandeses.

Achei muito divertido constatar tantos apelidos com origem portuguesa, como por exemplo Mendis, Pinto, Gomis, Silva, Costa, Perera, Dias, e claro, Fonseka

Considera que tendemos a subvalorizar a nossa História no Oriente face aos continentes Africano e Americano?

Sim, mas compreende-se. O Oriente é mais distante, e a nossa presença na região terminou, em grande medida, em meados do século XVII, após décadas de luta contra os holandeses. As excepções foram, como sabemos, Goa, Damão, Diu, Macau e Timor. Nessa altura, o Brasil já era a prioridade da Coroa, e após a sua independência no século XIX, África passou a ser o novo foco de atenção.

Penso que a maioria dos portugueses ficaria surpreendida com as marcas portuguesas existentes por toda a Ásia. Para além da Malásia e Sri Lanka, é possível ver vestígios portugueses na Indonésia, Tailândia, Myanmar, Bangladesh, Vietnam, Japão, etc.

Ao situar a narrativa de “Taprobana” em dois tempos, tal como o fez no livro anterior, tem como objetivo alertar-nos para este continuum na História, uma relação de causa e efeito? Isto, tendo em conta que vivemos um tempo que parece querer apagar a História.

É uma dinâmica que eu gosto muito, e que espero que leve a que o passado esteja bem presente. Penso que torna o livro mais emocionante, e que permite aos leitores aprender de uma forma lúdica.

No fundo, é perguntar porque é que isto é assim: Porque é que o apelido Fonseka é comum no Sri Lanka? Porque é que uma Igreja em Lisboa foi construída por um príncipe do Sri Lanka, no século XVII? Porque é que os portugueses são os europeus que mais comem arroz per capita? Porque é que Goa é tão diferente do resto da Índia?

Penso que a maioria dos portugueses ficaria surpreendida com as marcas portuguesas existentes por toda a Ásia.

O Eduardo é um homem viajado. Nos muitos países que já visitou deparou-se com algum traço da presença portuguesa que o tenha emocionado em particular?

Eu vivi sete anos em Cape Town, muito perto do Cabo da Boa Esperança. Sempre que lá ia com amigos, ficava emocionado ao ver o destaque das réplicas dos padrões do Bartolomeu Dias e do Vasco da Gama, de um lado e do outro da estrada. Parecia estar em Portugal, apesar de estar a mais de 10 mil quilómetros e a terra a sul mais próxima ser a Antártica.

De qualquer maneira, é sempre uma emoção ouvir o nome de Cristiano Ronaldo quando digo que sou português – desde a Escócia, Costa Rica, Uganda ou Tanzânia, até ao Vietname.

Tendo de escolher uma frase agregadora para esta nossa presença no Mundo, como a descreveria?

Portugal tornou o mundo global a partir do século XVI, interligando o Brasil, a Europa, África e o Oriente. Pessoalmente, também gosto da frase de um historiador indiano, Sanjay Subrahmanyam: “O Império Português é dos maiores enigmas da História! Como é que um país tão pequeno conseguiu ter possessões em África, no Brasil, e um pouco por todo o Oriente?”

Tem na forja um novo livro?

Sim. A ideia surgiu há muitos anos, pouco antes de começar a escrever “Taprobana”. Trata-se um novo thriller histórico, sobre um tema igualmente pouco conhecido entre nós. Mantem a dinâmica dos outros dois, isto é, tem uma secção no presente e outra no passado, sendo que as duas histórias estão interligas. A História de Portugal esconde demasiados segredos.

Entrevista concedida por escrito.

A história do Sri Lanka e a origem dos atentados terroristas da Páscoa

No último domingo (21), uma série de explosões igrejas e hotéis chocou Sri Lanka, país insular no Oceano Índico. Na data mais importante do cristianismo, pelo menos 320 pessoas morreram e 500 ficaram feridas.

Os atentados do feriado de Páscoa no Sri Lanka aconteceram no momento em que o país está perto de celebrar, em maio, o aniversário de uma década do fim da guerra civil que devastou o território ao longo de 26 anos.

Entre 1983 e 2009, a imagem do Sri Lanka estava diretamente ligada à devastação: de um lado, o governo realizava bombardeios aéreos contra áreas habitadas por civis; de outro, os membros do grupo Tigres de Libertação da Pátria Tâmil recrutavam crianças como soldados e desenvolviam os cinturões-bomba utilizados por grupos terroristas de todo o mundo desde então. As pessoas tinham medo de andar de ônibus: era comum que sacolas pretas largadas nos bancos explodissem.

Mas o país, com área equivalente à do Amapá e população semelhante à de Minas Gerais, também é conhecido pelos templos budistas bem preservados de Anuradhapura, a antiga capital. No Parque Nacional Yala, é possível andar ao lado de elefantes asiáticos.

Entre as praias, destaca-se o balneário de Negombo, pela qualidade das ondas para a prática de surfe e pela boa infraestrutura para turismo.

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A capital administrativa do país, Colombo, é uma cidade moderna de 700 mil habitantes que parecia, até os últimos atentados, ter esquecido a guerra.

Antigamente conhecido como Ceilão, o Sri Lanka tem uma história milenar, marcada pelo cruzamento de pessoas de diferentes pontos do globo. Afinal, a nação está instalada numa ilha ao sul da Índia, num ponto estratégico transformado por moradia para cristãos, budistas, hinduístas, muçulmanos – e também a etnia tâmil, cujos desejos separatistas dispararam a guerra civil.

Conflitos étnicos

Os primeiros seres humanos chegaram ao local há pelo menos 135 mil anos. A região é conhecida como o primeiro território da Ásia a ser governado por uma mulher – foi no século 1 a.C., com a rainha Anula. Os primeiros hospitais de que se tem notícia em toda a história surgiram ali, em 431 a.C., numa época em que diferentes dinastias locais se sucediam no trono.

A partir do século 16, o Ceilão foi dominado, total ou parcialmente, por portugueses, holandeses e ingleses, nesta ordem, até alcançar a independência em 1948.

A guerra civil aconteceu por consequência direta pela influência britânica, que, desde o século 19, valorizou uma das etnias locais, os tâmeis, que são de maioria hindu e vivem na faixa mais ao norte, em detrimento dos cingaleses, budistas em geral e moradores da área mais ao sul do país.

Com o fim do domínio colonial, os cingaleses, que formam a maioria da população, chegaram ao poder e levaram o governo a adotar sua religião e sua língua como as oficiais do país. Em reação, o tâmil Velupillai Prabhakaran fundou, em 1976, os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil.

Quando o grupo realizou uma emboscada contra um comboio do exército e matou 13 militares, os tumultos populares que se seguiram provocaram a morte de pelo menos 3 mil tâmeis. Era o início da guerra civil, que contou com um cessar-fogo em 2002, encerrado três anos depois pela morte do tâmil Lakshman Kadirgamar, ministro do governo cingalês que promovia o diálogo entre os dois lados.

O conflito foi marcado por episódios sangrentos, como o massacre de 33 monges budistas em Aranthalawa, em 1987.

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Os tigres tâmeis contavam com sua própria marinha, uma força aérea formada por aviões de pequeno porte e um grupo de elite dedicado a matar políticos – alcançaram o objetivo em 1991, quando assassinaram o ex-premiê indiano Rajiv Gandhi, e dois anos depois, ao matar o presidente do Sri Lanka, Ranasinghe Premadasa. Em 2001, metade dos aviões comerciais do país foi destruída por um ataque tâmil ao aeroporto de Colombo.

Velupillai Prabhakaran morreu em 2009 em um ataque do governo, que depois anunciou o fim do conflito. Os próprios Tigres Tâmeis formalizaram, por e-mail, a capitulação. Estima-se que a guerra tenha provocado pelo menos 100 mil mortes.

Recuperação econômica

Desde então, a ONU questiona a falta de transparência do governo em lidar com o passado – há relatos de que moradores locais, acusados de colaborar com os terroristas, eram raptados por policiais e nunca mais vistos.

Só nos meses que se seguiram ao fim da guerra, mais de 40 mil tâmeis teriam sido assassinados. O país ainda apresenta dificuldades em consolidar um governo democrático e capaz de lidar com os direitos humanos.

Por exemplo: a lei local considera que a homossexualidade é uma prática criminosa.

Mas a economia vai muito bem: desde 2005, a renda per capita dobrou e o percentual de cidadãos pobres caiu de 15,2% para 7,6%. As taxas de alfabetização são altas para os padrões dos países em desenvolvimento: 92,5% na média da população e 98% entre os jovens.

A expectativa de vida ao nascer é de 77,9 anos, mais alta, por exemplo, do que os 75,51 do Brasil. Os locais jogam vôlei e futebol, mas o esporte mais popular, disparado, é o críquete.

O turismo atraiu, em 2018, 2,3 milhões de estrangeiros, vindos principalmente de Índia, China, Reino Unido, Alemanha e Austrália. Em 2009, eram apenas 448 mil.

O Sri Lanka é um país religiosamente diverso. A maioria da população (69%) é budista, mas há minorias relevantes: hindus são 13%, muçulmanos, 10%, e cristãos, 8%. De acordo com o governo do Sri Lanka, os ataques do domingo de Páscoa foram realizados por um grupo jihadista chamado National Thowheeth Jama’ath (NTJ).

Antes de matar cristãos, ela era conhecida na região apenas por vandalizar estátuas budistas. Agora, a organização parece ter estreitado seus laços com o Estado Islâmico, na medida em que vem crescendo, no país, a influência de pensadores muçulmanos extremistas.

O ataque teria sido uma retaliação ao atentado de março na Nova Zelândia, em que um terrorista cristão executou cerca de 50 muçulmanos em duas mesquitas.

O país convive também com um grupo radical budista, chamado Bodu Bala Sena, nome que significa Força Budista e foi fundado em 2012 pelos monges Kirama Wimalajothi e Galagoda Aththe Gnanasaara.

Sinal de que o passado de confrontos voltou a cercar a vida no Sri Lanka, que agora enfrenta o desafio de evitar que atentados de motivação nacionalista ou religiosa voltem a atrasar o rumo de desenvolvimento do país, conhecido pelas contribuições para o budismo ao longo da história, além da qualidade do chá e do café que planta e exporta.

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Sri Lanka: atentado contra cristãos e outras questões

Ainda sem autor conhecido, o ataque matou centenas de cristãos e trouxe o pequeno país asiático para a mídia.

Ao que tudo indica, extremistas muçulmanos locais realizaram o atentado sob influência do ideário do grupo Estado Islâmico.  Para quem quiser se aprofundar sobre o tema, temos este link e este aqui também. Vai fazer prova? Dá uma olhada nessa revisão de atualidades aqui, pode te interessar.

Sobre o Sri Lanka, seguem alguns fatos.

Etnia

Maioria cingalesa (sinhalese no mapa), com minoria tâmil nativa e de origem indiana.

No mapa os moor são outra etnia, descendente de árabes e outros povos que trouxeram o islamismo. A região moor no mapa étnico abaixo é a mesma que os muçulmanos ocupam no mapa religioso.

Religião

Maioria é budista (70%). Há também hindus (12 a 13%), muçulmanos (9 a 10%, maioria sunita) e cristãos (7%, maioria católica).

História recente

A ilha já teve reinos locais em guerra, já foi unificada, chegou a invadir outros países e a partir do século XVI foi invadida por países europeus tais como Holanda, Portugal e Reino Unido. Entre 1796 e 1802 o domínio britânico se consolidou, perdurando até 1948.

Conflitos internos e guerra civil

Cingaleses (maioria budista) e tâmeis (maioria hindu) viveram diversas fases de tensão. A partir da independência este quadro piorou bastante, em especial devido a medidas tomadas pelo governo cingalês (74%) que prejudicaram os tâmeis (16%) e outras minorias. O fato da maioria dos cingaleses ser budista e da maioria dos tâmeis ser hindu acabou gerando ainda mais divisões.

Entre 1983 e 2009, o país viveu uma longa guerra civil que pode ter levado 70 mil pessoas à morte. A guerra se dava basicamente entre um movimento separatista tamis e o governo central cingalês. Houve períodos de intervenção indiana também, ao longo dos anos 1980, em apoio aos tâmeis (também presentes na Índia). O conflito terminou com a vitória do governo cingalês.

Mapa mostrando a região que os tâmeis buscavam separar.

O fim do conflito não resolveu as feridas abertas no país. Ainda hoje a minoria tâmil  se queixa de marginalização.

Em 2018 a minoria muçulmana também foi alvo de ataques por parte da maioria budista, em um contexto de nacionalismo cingalês-budista. Os muçulmanos presentes também são etnicamente distintos, tendo origem fora da ilha em sua maioria.

Economia

Destacam-se: turismo, chá, arroz, tecidos e alguma mineração.

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