Que Futebolista É Conhecido Como A Pulga?

Fotos: Valéria Cuter

Em qualquer modalidade esportiva sempre existe o atleta da vez, ou seja, aquele que está em melhor fase, que se destaca, principalmente no futebol.

Entretanto, quando a boa fase vai embora ou a idade chega, volta a ser comum e com o tempo será somente mais um “boleiro” entre milhares.

Agora, existem aqueles futebolistas que além da fase boa deixam marcas que perduram pela vida toda e são lembradas, mesmo que não estejam mais em vida terrena.

O poderíamos citar aqui dezenas de jogadores conhecidos mundialmente que marcaram época e que deixaram suas marcas no futebol.

Caso como o de Leônidas da Silva, o “diamante negro” que “inventou” o gol de bicicleta; o Didi com seu chute folha-seca; o Baltazar “cabecinha de ouro” pela sua facilidade em fazer gols de cabeça; o “doutor da bola” Sócrates que jogava com o calcanhar; o Pepe, pela violência de seu chute; o Dário Maravilha ou “Dadá peito-de-aço” que dava nome aos seus gols; o melhor de todos, o rei Pelé, que dispensa comentários; o “divino” Ademir da Guia; o “reizinho do Parque” Rivelino; a “enciclopédia do futebol”, Nilton Santos e tantos outros.

A nível regional cada Cidade tem jogadores que fizeram história e jamais serão esquecidos. Botucatu não foge a regra.

A Cidade nos anos 60 esteve na primeira divisão do Campeonato Paulista com seus dois principais times da história: Associação Atlética Botucatuense (AAB) e Associação Atlética Ferroviária (AAF), uma rivalidade notória que chegou ao seu ápice maior por causa de um jogador: Vicente Chirinéa Neto, ou Pulga (Purga), como ficou conhecido no mundo botucatuense da bola. O apelido foi dado por um padre diocesano (Claudino), em razão do “menino” ser magro, pernas compridas que fazia com que saltitasse e corresse com facilidade e velocidade.

Pulga jogava na AAB, onde se iniciou no futebol profissional em 1953, aos 16 anos, jogando como um verdadeiro ponteiro direito e tinha uma habilidade rara: era um exímio cobrador de faltas. Três anos depois aconteceu a transação mais polêmica da história do futebol botucatuense. Pulga recebeu uma proposta de emprego para trabalhar como ferroviário, deixou a AAB e assinou contrato com a AAF.

“Minha média era um gol por partida e o pessoal da AAB não admitiu minha saída e ficou muito tempo uma situação muito ruim entre os dois times. Isso durou muitos anos. Depois que deixei o futebol essa rixa continuou, mesmo com os dois times deixando de disputar a primeira divisão do Campeonato Paulista e jogando apenas o Campeonato Amador da Cidade”, lembra Pulga.

Recorda que num jogo entre os dois times no estádio da Ferroviária, houve uma briga generalizada e foi uma pancadaria geral. “Só eu, que fui o pivô do surgimento daquela rixa, e o Souzinha, ponteiro esquerdo muito habilidoso e veloz da AAB, que não brigamos. Demorou para a partida ser reiniciada, mas o placar foi 3 a 2 para a Ferroviária. Fiz dois gols”.

E foi na AAF, jogando contra o Jaboticabal em 18 de setembro de 1963, que Pulga, então com 25 anos de idade, fez seu grande feito e que nenhum outro jogador conseguiu fazer: dois gols olímpicos no primeiro tempo de partida, do lado esquerdo do campo com a bola entrando duas vezes no mesmo canto.

O resultado da partida? 2 a 0. “Foi um marco. O segundo gol foi um vídeo tape do primeiro. Tudo exatamente igual.

Já tinha feito gol olímpico antes, mas não dois numa só partida, num só tempo e na trave esquerda do estádio em frente da linha da ferrovia, que foi que foi o motivo que me fez trocar a AAB pela AAF”, conta o ex-atleta.

O impressionante é que ele lembra a escalação daquele time que, na sua opinião, foi o melhor todos os tempos da Ferroviária: Neuri; Pando, João Preto, Lourenço e Wilson Botão; Adésio e Celso; Pulga, Passarinho, Wilson Bauru e Evanil.

Uma particularidade do futebol daquela época era que não havia substituição. O time tinha que terminar a partida com a mesma escalação que iniciou. Mesmo se um jogador se machucasse não podia entrar outro em seu lugar.

A única substituição permitida era do goleiro.

Mas, mesmo um grande batedor tem seu dia infeliz. Depois de ser notícia em todos os jornais que cobria o Campeonato Paulista daquele ano, Pulga passou por um dissabor. “Jogávamos em casa contra o Bragantino. A partida estava empatada em 2 a 2.

O Wilson Bauru caiu na área e o juiz nos “arrumou” um pênalti. O estádio lotado gritou meu nome, pois era eu o cobrador oficial. Coloquei a bola na marca, tomei distância. Quando fui chutar minha chuteira enroscou numa saliência do gramado e a bola foi parar nas mãos do goleiro.

Quase que não chega no gol”, recorda.

Pulga abandonou o futebol profissional com menos de 30 anos de idade, mas não deixou de jogar bola e faz parte da história do futebol botucatuense. Até o ano passado, ou seja, com 75 anos de idade ele compunha o time de veteranos da AAF, mas decidiu abandonar de vez o gramado e hoje faz suas tabelas apenas no escritório de contabilidade.

Que Futebolista É Conhecido Como A Pulga?

A moda do ‘Novo Messi’

Que Futebolista É Conhecido Como A Pulga?Maxi Rolón, o mais novo Messi do futebol mundial

Há algum tempo, na Argentina, sempre que surgia um novo talento do futebol era inevitável a comparação com Maradona. Hoje, a comparação ainda existe, porém não é mais com el Diez, e sim com Lionel Messi. São tantos os “novos Messis” que aparecem no futebol argentino e mundial que não é possível falar de todos eles aqui. Mais do que a expressão de um novo talento, “novo Messi” virou um assunto. Tanto é assim que o Real Madrid o coloca sempre na pauta de suas reuniões com prioridade, sempre que no clube se trata de planejamento para aquisição de novas promessas. Desde o ano de 2007, dirigentes do Real procuram exaustivamente por um talento que tenha as características de la Pulga.

E o assunto voltou à tona por dois motivos: a contratação pelo Real Madrid do jovem argentino Julián Álvarez, de apenas 11 anos, com características semelhantes a de Messi e a nova aquisição do Barcelona, foi jovem Maxi Rolón, de apenas 15 anos, gera um novo furor do Novo Messi.

Não se sabe se Rolón é de fato um “novo Messi”, mas o que todos sabem é que existe uma lista enorme de jogadores que, apesar de terem ganhado essa aproximação, nunca corresponderam devidamente à altura.

Por isso, o Futebol Portenho tenta estabelecer um top ten dos “nuevos Messis”, na Argentina.

Começando pelos nomes menos óbvios ou pelos mais esquecidos. O primeiro deles é o do excelente Lavezzi, que hoje joga no Napoli, da Itália.

Parece estranho para alguém, que vê o jogo de Lavezzi, imaginar que ele pareça de alguma forma com la Pulga.

Ambos têm muita velocidade e força física, além de um jogo muito cerebral, talvez até com uma ligeira vantagem neste último quesito para o jogador do Napoli.

Um nome esquecido é o de Pablo Piatti, que depois de muita aproximação, hoje joga no modesto Almería, da Espanha. Mas, se no clube espanhol ao menos seus torcedores gostam de Piatti. O mesmo não se pode falar de um outro “nuevo Messi”, Defederico. O jogador chegou ao Corinthians com um grande prestígio.

Contudo, antes de se transferir ao Independiente, por empréstimo, a torcida do Timão já não suportava nem ouvir falar no nome do ex-enganche do Huracán. A impressão que ficou, ao menos para os corinthianos, é que mesmo que tenha jogado fora de sua posição, o jogador foi também responsável por sua baixa performance.

Por mais que o clube de Parque São Jorge tenha implementado um programa de ganho de massa muscular ao jogador, Defederico nunca conseguiu dispor sequer da força física de la Pulga. Outro armador conhecido que chegou a sofrer essa aproximação é Erik Lamela, do River.

Mas à medida em que o meia foi se firmando no clube de Núñez, perceberam que seu estilo era diferente.

Bom, Lionel chegou com menos de 13 anos à Catalunha. Então, quando se fala em “nuevo Messi”, essa aproximação se faz também para os jogadores de categorias de base. Daí surgem nomes como os de Guido Vedala, Lucas Trecarichi, Mauro Icardi e outros.

Vedala joga hoje na base do Boca, depois de ser reprovado em testes no Barcelona. Trecarichi também esteve na mira de grandes clubes europeus, mas é jogador do inexpressivo CSKA, de Sófia.

E Mauro Icardi, que foi um dos poucos realmente aproveitados pelo Barça, está sendo negociado com a Sampdoria da Itália. Curiosamente, este parecia ser o melhor entres os desconhecidos. Seu repertório de dribles é variado, é rápido e possui uma ótima colocação em campo.

Porém, não tem nada a ver com Messi, a começar pelo aspecto físico de ambos, já que o futuro jogador da Sampdoria é alto e tem passadas largas. Se fosse próximo de La Pulga o Barça certamente não o negociaria.

Um caso interessante é o de Javier Pastore, o craque do Palermo. Hoje muitos na Itália o comparam a Zidane, mas no passado ele também chegou a ser um “nuevo Messi”. Hoje Pastore é um dos grandes jogadores em atividade no futebol europeu. Tanto é assim que o próprio Messi intercedeu junto aos dirigentes do Barça para contratar Pastore. Na Itália, muitos já dão a transferência como certa.

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Por fim, a mais nova aproximação de um jogador com la Pulga é feita atualmente com Juan Manuel Iturbe. O “Paraguayo”, que jogará no Porto, a partir do meio do ano, é um jogador habilidoso, rápido e forte. Nenhum outro até agora conseguiu marcar gols tão parecidos com aqueles que La Pulga faz pelo Barça.

A comparação é inevitável pela incrível semelhança física e também pela confiança com que o jogador encara as defesas adversárias. Além disso, como o “original”, “el Paraguayo” parece ter o faro apurado para as decisões.

Esteve assim no jogo pelo Cerro, na Vila Belmiro; esteve assim no jogo decisivo para a sua seleção, no jogo contra o Brasil, no Sul-Ameicano Sub-20, quando saiu do banco para fazer um golaço e vencer ao bom selecionado brasileiro.

Confira um vídeo de Maxi Rollón, no mais novo ‘Novo Messi’
httpv://www.youtube.com/watch?v=cHxGM9ttJLw

Messi é ‘La Pulga‘! Veja apelidos de craques que jogaram na Espanha – Fotos – R7 Fora de Jogo

  • Fora de Jogo | Do R7
  • 09/05/2020 – 16h03
  • O Campeonato Espanhol já foi palco de alguns dos maiores craques da história do futebol. Alguns deles, criaram tanta identificação com seus clubes que até mesmo ganharam apelidos de torcedores e jornalistas. Recorde os mais marcantes: Montagem/R7
  • 1. Lionel Messi – “La Pulga” (A Pulga) Os problemas de crescimento de Lionel Messi, quando ele era jovem, são bem conhecidos – na época, o Barcelona deu todo o tratamento necessário, logo que ele se mudou da Argentina, com apenas 13 anos de idade. Esses problemas, no entanto, deram a ele o apelido de “La Pulga”, desde tenra idade, o que não impediu o atual capitão blaugrana de quebrar alguns recordes históricos, como os 438 gols que marcou – até hoje – em sua carreira na LaLiga Reprodução/Instagram @leomessi
  • 2. Cristiano Ronaldo – “El Bicho” (O Bicho) Ex-jogador do Real Madrid, Cristiano Ronaldo é conhecido na Espanha como “El Bicho” desde que o jornalista espanhol Manolo Lama cunhou o termo durante um comentário na rádio, no início de sua passagem pela LaLiga. O próprio Lama explicou que Ronaldo “assustou e devorou” os zagueiros adversários a caminho dos 311 gols marcados na competição, ao longo de nove anos no Santiago Bernabéu Reprodução/Instagram @cristiano
  • 3. Alfredo Di Stéfano – “La Saeta Rubia” (A Flecha Loira) A lenda do Real Madrid era conhecida como “Saeta Rubia”, desde seus dias no clube argentino River Plate. Dizem que o renomado jornalista de Buenos Aires Roberto Neuberger foi quem inventou o apelido, quando ficou impressionado com a mistura dos cabelos loiros e trepidantes do jovem Di Stéfano Reprodução/Instagram @alfredo_di_stefano
  • 4. Ronaldo – “El Fenómeno” (O Fenômeno) “Vamos ver se esse Ronaldo é realmente um fenômeno'”, disse o zagueiro italiano Paolo Maldini ao companheiro de equipe Fabio Cannavarro, antes de um jogo entre Itália e Brasil pelo Torneio da França, preparatório para a Copa do Mundo no país europeu, disputado em 1997. O então atacante do Barcelona, ​​que acabara de vencer o prêmio de artilheiro da LaLiga, com apenas 20 anos, conquistou tal apelido após um gol ‘fenomenal’ em um empate por 3-3. Mais tarde, Ronaldo ganharia outro prêmio de artilheiro, agora com o Real Madrid. Atualmente, ele é presidente e acionista majoritário de um clube da LaLiga, o Real Valladolid Reprodução/Instagram @ronaldo
  • 5. Carles Puyol – “El Tiburón” (O Tubarão)O estilo temível do ex-zagueiro do Barcelona Carles Puyol ganhou o apelido de “El Tiburón”, cunhado pelo amado comentarista espanhol Andrés Montes. A defesa estava segura quando Puyol entrava em campo pelo Barça ou pela seleção espanhola, com o defensor de cabelos compridos conquistando nada menos que seis títulos da LaLiga, além dos troféus da Eurocopa de 2008 e da Copa do Mundo de 2010 Reprodução/Instagram @Carles5puyol
  • 6. Christian Rodríguez – “El Cebolla” (O Cebola)Entre os apelidos mais enigmáticos da LaLiga, com toda certeza está o do ex-atacante do Atlético de Madri Christian 'Cebolla' Rodríguez. Alguns fãs podem ter pensado que o apelido do campeão da LaLiga na temporada 2013/2014 veio de sua estrutura robusta. No entanto, a verdadeira razão para tal foram seus dribles, que fizeram os defensores rivais chorarem nos primeiros dias no clube uruguaio Peñarol Reprodução/Instagram @cristiancebollarodriguez
  • 7. Esteban Granero – “El Pirata” (O Pirata)A aparência grosseira de Esteban Granero ganhou o apelido de “El Pirata” ao longo de sua carreira, quando vestiu as cores de Getafe, Real Madrid, Queens Park Rangers, Real Sociedad e Espanyol. Durante os quais o meio-campista costumava celebrar seus gols cobrindo um dos olhos com a mão, em um gesto característico. O vencedor da LaLiga na temporada 2011/2012, agora combina seu trabalho na equipe do Marbella, que disputa a Segunda B (equivalente à terceira divisão espanhola), com a empresa de tecnologia esportiva Olocip Reprodução/Instagram @egranero11
  • 8. Pablo Alfaro – “El Cirujano” (O Cirurgião)Mais conhecido como o “agressivo central” do Sevilla no início dos anos 2000, o apelido de Pablo Alfaro, “El Cirujano”, pode ter vindo da maneira exata como ele tirava a bola de atacantes rivais – ou do número de curativos que eles precisavam ao confrontar o defensor. Na verdade, o jogador espanhol era um cirurgião treinado e formado em medicina. Desde sua aposentadoria, ele permaneceu no mundo do futebol e atualmente é o treinador do UD Ibiza, uma ambiciosa equipe da Segunda B Reprodução/Instagram @elfutboldeayer
  • 9. Iker Muniain – “Bart” (Bart Simpson) A precocidade e a audácia que Iker Muniain mostrou ao entrar no cenário do Athletic Club com apenas 16 anos de idade lhe renderam o apelido de 'Bart Simpson', em homenagem ao personagem de desenho animado mundialmente famoso. Embora Muniain não seja mais o artilheiro mais jovem da história da LaLiga, o apelido foi mantido em mais de 300 jogos da competição, antes de seu aniversário de 28 anos Reprodução/Instagram @ikermuniain10
  • 10. Juan Carlos Valerón – “El Mago” (O Mago)Ninguém que viu Juan Carlos Valerón controlar e passar uma bola, precisa se perguntar por que ele era conhecido como “El Mago”. Uma carreira de mais de 20 anos na LaLiga incluiu temporadas em seu clube da cidade, Las Palmas, no RCD Mallorca e no Atlético de Madri, mas Valerón é lembrado acima de tudo por suas habilidades e visão do jogo – que abrilhantou os duelos do Deportivo La Coruña durante mais de uma década Reprodução/Instagram @juan_carlos_valeron

Kaiser, o futebolista que passou 26 anos a enganar toda a gente

Uma das frases mais citadas da humanidade, atribuída ao ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln, diz-nos que “pode-se enganar todas as pessoas por algum tempo e algumas pessoas durante todo o tempo, mas não se pode enganar todo o mundo por todo o tempo”. Para Carlos Henrique Raposo, isso não foi problema. O ex-avançado brasileiro é dono de uma das histórias mais invulgares, e também inverosímeis, do futebol mundial.

A história de Carlos 'Kaiser', “o grande jogador que nunca jogou futebol”, é tão boa que virou filme. E chega este sábado a Portugal, inserido na programação do festival de cinema documental Porto/Post/Doc, no Porto (o filme é exibido no Cinema Trindade, às 21.45).

Um bom pretexto para darmos a conhecer aquele que Ricardo Rocha, antigo jogador do Sporting e da seleção brasileira, catalogou como “o maior 171 da história do futebol”. Ora, um-sete-um é o código utilizado a nível penal no Brasil para o crime de “estelionato”. Impostorice. A arte de enganar.

Durante toda a carreira de futebolista, foi isso que Carlos Kaiser fez. Enganar os clubes por onde assegura ter passado.

De vários emblemas históricos do Rio de Janeiro, como Botafogo, Fluminense, Flamengo, América, Bangu, até clubes do exterior, do México à Argentina, dos EUA a França, com um breve passagem por Portugal, pelo Louletano, onde garante ao DN ter passado “três meses sem jogar” em 1988. [pode ler a entrevista na parte final deste texto].

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Cena do filme “Kaiser, o grande futebolista que nunca jogou futebol”, que passa este sábado no Porto

© DR

De resto, foi nisso em que se especializou por todos os clubes. Não jogar.

Por regra, Kaiser convencia os clubes a assinar contratos de curta duração e, na altura, de mostrar o que valia, inventava uma lesão ou uma outra forma qualquer de não entrar em campo.

Foi assim que alimentou uma carreira de 26 anos. Bons malandros, o futebol teve muitos. Mas nenhum com a astúcia de Carlos Kaiser. Ele foi o melhor a enganar os outros.

Na verdade, talvez até continue a sê-lo, pois fica difícil encontrar a fronteira entre a ficção e o real nas histórias que dão colorido à sua biografia.

Alguns clubes, como o Independiente, negam que tenha passado por lá. O jogador brasileiro que alegadamente terá levado Carlos para o Ajaccio, também nega essa versão no filme.

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“Pormenores” que só servem para mistificar ainda mais a lenda.

“Este ano, o festival está centrado no tema das 'Ficções do Real' e, para nós, este filme contém todos os ingredientes para confundir o real com a ficção. A personagem principal, Kaiser, construiu a sua própria realidade: a de ser um grande jogador de futebol.

Para não desvendar muito o filme, digamos que essa realidade estava suportada em alguns desvios à verdade.

Mas que importava isso no Rio de Janeiro dos anos 80? Jogadores de futebol eram estrelas sexy que desfilavam nas boîtes durante noites inteiras”, diz ao DN o diretor artístico do Porto/Post/Doc, Daniel Ribas.

No Bangu até andou ao murro para não jogar

Kaiser, que diz ter começado a jogar futebol em pequeno, no Botafogo, por imposição de uma família pobre e necessitada de dinheiro, aproveitou-se da amizade com grandes nomes do futebol brasileiro nos anos 80 e 90, como Renato Gaúcho – “meu pai, irmão, tudo na minha vida… “, diz – Bebeto ou Ricardo Rocha, para levar uma vida boémia de futebolista sem quase ter que tocar na bola.

A estratégia era simples. Era uma época sem internet nem ressonância magnética. Então eu simulava contusões no treino.

Às vezes pedia a um zagueiro [defesa] para simular uma entrada mais forte, outras vezes pedia a alguém para me levantar a bola e eu fingia uma lesão na posterior da coxa. Era a minha palavra contra a do médico.

Se a coisa complicava, eu tinha um amigo dentista que passava um atestado de problema dentário”, revela.

Entre as histórias mais famosas do Kaiser estão a “briga” com a claque do Bangu no intervalo de um jogo, quando a equipa perdia e o presidente ligou ao treinador para fazer entrar o “craque”. Kaiser aquecia junto à bancada da claque quando ouviu o insulto que serviu de pretexto ideal.

Saltou a vedação e foi distribuir murros para o meio dos adeptos. Expulso pelo árbitro, já não teve de entrar em campo.

Mas tinha ainda de enfrentar o presidente do Bangu, Castor de Andrade, um barão do jogo ilegal no Rio de Janeiro, a quem deu a volta de tal forma que ainda acabou por ganhar uma extensão de contrato.

Em França, na apresentação no Ajaccio, tinha à sua espera no relvado uma série de bolas para mostrar os seus dotes perante os adeptos que acorreram ao estádio. Solução? Pegou em cada uma delas e atirou-as para as bancadas como oferta, fingindo não perceber francês perante os dirigentes.

Kaiser com a camisola do Ajaccio, de França, onde garante ter terminado a carreira aos 39 anos

© DR

Sósia de Renato Gaúcho

Um dia, aproveitando as semelhanças físicas com Renato Gaúcho, fez-se passar pelo antigo avançado e atual treinador do Grêmio para entrar numa festa numa boîte e conviver com as mulheres que suspiravam pelo verdadeiro craque, que acabou barrado à porta pela segurança por… se querer fazer passar por ele próprio.

Enfim, um sem número de histórias que alimentam a fama de Kaiser, “o maior futebolista que nunca jogou futebol”, frase de Renato Gaúcho que o realizador britânico Louis Myles adotou para título do documentário que hoje passa no Porto/Post/Doc. Myles vai estar presente no Porto. Kaiser, agora com 55 anos e um personal trainer dedicado ao Welness Fitness para mulheres acima dos 40, não pôde vir.

Personagem desconcertante, explica ao DN , por telefone, que vive “uma fase difícil”. Um problema numa vista, que o deixa “à espera de uma cirurgia à córnea”, impede-o de vir ao Porto.

Uma “separação recente”, acrescenta, ajuda a ensombrar estes dias em que a sua fama se espalha pelo mundo através do filme e do livro que contam a sua história. Meia hora depois, terminada a conversa, liga de volta para nos dar “um exclusivo”, garante.

A oportunidade de conversar com a sua namorada atual, Nany Kaiser, uma das suas atletas de Welness Fitness no Rio (“todas levam o apelido Kaiser”, diz).

“É uma pessoa maravilhosa, com um coração enorme. Tem essa fama de 171, mas é um ser humano incrível”, diz Nany sobre Carlos, um homem “com uma história difícil de acreditar”, concede. E que, assegura, continua a ser uma caixinha de surpresas. “Tem um evento novo por dia”.

Carlos Kaiser é atualmente um personal trainer no Rio de Janeiro

© DR

É esse o personagem que pode ficar a conhecer este sábado, com o filme que passa no Porto/Post/Doc e que foi premiado já este ano no Festival Tribeca em Nova Iorque. E, antes disso, nesta entrevista que Carlos Kaiser concedeu ao DN:

Entrevista com Carlos Kaiser

Quem é verdadeiramente o Carlos Henrique Raposo? Carlos é um rapaz que foi roubado muito cedo. A minha mãe vendeu o meu passe para um empresário, com uma multa rescisória alta que eu não podia pagar e, por isso, tinha de ir para onde ele queria. Eu não queria ser jogador de futebol, queria ser professor de Educação Física.

Nunca quis ser jogador de futebol? Foi forçado a isso pela pobreza da família? Imagine o que é trabalhar e 80% do seu salário não ir para si, mas para um empresário. Claro que eu não queria isso. Mas com 10 anos eu já sustentava a minha família, quando jogava lá no Botafogo.

A sua vida foi uma grande mentira? Vivi a vida dos outros. Cuidei deles, de muitos fui babá. Hoje me arrependo, podia ter aproveitado melhor, mas não sabia como me livrar do empresário.

Deve ter ouvido muitas vezes a expressão “A sua vida dava um filme”. Deu mesmo. Era este o filme que queria para a sua vida? Gostou? Deu um filme e um livro. Eu nunca quis ser famoso, hoje tenho essa agitação toda com a promoção do filme, mas eu gosto de vida tranquila.

O que me dá um grande orgulho é ter os maiores jogadores da minha geração, anos 70/80/90, como Renato Gaúcho, Bebeto, Ricardo Rocha e outros, mais de 70, a falar de mim como falam no filme.

Quem for ver o filme pode pensar que é um filme de um artista, ou de um burlão, mas vai ver que é uma história triste, de um homem que já ficou viúvo três vezes, que perdeu um filho com 18 anos… É uma história de sobrevivência.

Podemos acreditar em tudo o que está neste filme, em todas as histórias que você conta? Podem acreditar. É tudo verdade. Sabe, eu só joguei em terra de mafioso. Lá na França, joguei no Ajaccio, na Córsega, que é a terra da máfia francesa.

O rapaz que me levou para lá nega agora no filme que me levou para França, mas esquece que há três anos confirmou à Four-Four-Two, que é a mais famosa revista britânica de futebol, que foi ele quem me levou. Agora nega porque não quer problemas com os corsos.

“Quem for ver o filme pode pensar que é um filme de um artista, ou de um burlão, mas vai ver que é uma história triste”

Quantos anos (não) jogou e em quantos clubes? Sabe de cor? Sei, sim. Foram 26 anos. Parei aos 41 lá no Ajaccio. Joguei no Botafogo, Fluminense, Flamengo, Bangu, Vasco, América, Puebla (México), El Paso (EUA), Independiente (Argentina), Ajaccio (França) e estive três meses aí no Louletano, mas não cheguei a jogar.

Esteve mesmo em Portugal? Sim, três meses, em 1988. Mas não cheguei a jogar porque o clube [Louletano] vivia um momento muito ruim.

E o que recorda do Algarve? Ah, é um dos lugares mais bonitos do mundo, belas praias, um magnífico litoral. Sabe, eu sinto-me muito ligado a Portugal e para mim Portugal é a terra do melhor do mundo, que é o Cristiano Ronaldo.

Ronaldo não é nenhum Kaiser em campo, não finge lesão para não jogar… Não, é um jogador muito objetivo, muito determinado, mas também veio de uma infância pobre como a minha. Sabe, para mim os melhores jogadores portugueses da história são o Cristiano, o Eusébio, o Figo e o Futre, que quase veio jogar aqui no Brasil. Também gostei muito do Fernando Couto.

Fernando Couto que também tinha assim uma cabeleira à Kaiser. Como é que ficou com essa alcunha? Ah, porque eu tinha qualidade, sabia jogar a bola. Quando era novo tinha um estilo parecido com o do Beckenbauer e fiquei Kaiser.

“Estive três meses em Portugal, em 1988. Mas não cheguei a jogar porque o clube [Louletano] vivia um momento muito ruim”

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Há a fama de nunca ter feito um jogo por qualquer dos clubes por onde passou, mas não é bem assim, certo? Jogo completo tem poucos, uns 20 talvez. Arranjava quase sempre forma de não ter que entrar em campo, simulava umas contusões, passava uns 20 dias no departamento médico e quando a coisa apertava um amigo meu dentista passava um atestado de foco dentário.

Em que clube passou mais tempo? No Ajaccio. Fiquei lá uns 12 anos, mas era sempre emprestado. Para clubes brasileiros.

Então e com que camisola fez mais jogos? Com a do Bangu. Fui vice-campeão brasileiro em 1985. Joguei com o Ado, que jogou aí em Portugal, penso que no Estoril [Ado é um antigo avançado brasileiro que jogou no Sp. Espinho entre 1988 e 1993]. Também joguei no Flamengo com o Valtinho, que jogou no Sporting e foi quem ensinou o Figo a conduzir, sabia?

No Bangu também viveu um dos episódios mais famosos, quando foi expulso por provocar uma briga antes de entrar em campo e teve de enfrentar o presidente, que acabou até por lhe renovar o contrato. O presidente era Castor de Andrade, um barão do jogo ilegal no Rio de Janeiro. Era barra pesada? Era… barra pesada. Mas eu era um inconsequente, não tinha medo de nada não.

“Portugal é, para mim, o país do melhor do mundo: Cristiano Ronaldo”

Foi o momento mais difícil por que passou ao longo de uma carreira inteira a enganar os clubes? Tive vários.

Lá na Córsega, no Ajaccio, houve um dia em que vários jogadores foram lá ao Club Med e foram barrados na entrada.

No dia seguinte, os mafiosos mandaram por uns pós lá na água dos clientes do clube e tiveram que ir todos para o hospital. A partir daí, nunca mais barraram os jogadores, podiam entrar quando quisessem.

Não gostava de jogar, mas atraía-o o lado social da vida de futebolista. As festas, o contacto facilitado com mulheres, o sexo. Tem fama de ter participado em várias festas e orgias… Já que era obrigado a estar no futebol, eu aproveitava, não é? Até casar pela primeira vez eu era como o Michael Douglas, o ator, que tinha uma adição pelo sexo.

Teve mais mulheres do que golos na carreira, é isso? Muito mais. Muitas mulheres famosas, mas isso não pode dizer não, que dá até processo. Aliás, o realizador do filme teve que omitir algumas partes para não ter problemas desses.

Kaiser aproveitou o lado boémio do futebol e relacionou-se com “milhares de mulheres”

© DR

Se esse convívio com muitas mulheres bonitas sempre fez parte do entorno dos futebolistas, a homossexualidade continua a ser um tema tabu. Encontrou homossexuais nos balneários que frequentou? Vários. Há homossexuais em todas as profissões, no futebol também.

Aliás, tive um presidente de um clube no exterior que era homossexual e eu era dos poucos que sabiam. E ele não me queria deixar sair porque sabia que eu sabia. Mas eu respeito todo o mundo, nunca iria revelar essa história para ninguém.

Aliás, estas minhas histórias só saíram cá para fora porque aqui há uns anos alguns jogadores começaram a contar as histórias do Kaiser. E então eu tive de assumir.

Também diz ter salvado muitos jogadores e servido de “babá” de alguns na noite… É, fui mesmo. Dei conselho, arranjei professor… Vi muitos perderem-se na bebida. Sobretudo depois de deixarem de jogar, sabe? Costuma dizer-se que um jogador morre duas vezes e a primeira é quando termina a carreira.

Considera-se uma espécie de Robin Hood, um vingador dos futebolistas. Porquê? Ah, porque os dirigentes passam a vida a enganar os jogadores. Então, eu passei a vida a enganá-los a eles.

Hoje era impossível uma história como a sua? Era. Hoje em dia, com a internet, era impossível enganar esses clubes todos.

“Os dirigentes passam a vida a enganar os jogadores. Então, eu passei a vida a enganá-los a eles”

O que faz hoje em dia? Sobrou o quê do dinheiro do futebol? Sou personal trainer de Wellness Fitness Masters, uma vertente do fisiculturismo destinada a mulheres acima de 40 anos que desejam desenvolver um físico menos musculoso.

Fui eleito treinador do ano por cinco federações, fui convidado na semana passada para vice-presidente da Brasil Fitness Show e tenho dois programas televisivos sobre o Wellness Fitness. Sou muito melhor nisso do que no futebol.

Do futebol, sobram dois apartamentos, mas principalmente a cultura, a admiração e o respeito.

Carlos Xavier: “Jogar contra Maradona era fácil! Ele passava por nós, nem dava para o parar”

Com o símbolo da Real Sociedad ao peito, um jovem Carlos Xavier prepara-se para dominar um passe de um colega de equipa.

À sua frente tem Diego Simeone, à época jogador do Sevilha e actual técnico do Atlético de Madrid.

Nas costas, a olhar com expectativa para o desenrolar da jogada, o ídolo Diego Armando Maradona, que morreu nesta quarta-feira na sequência de uma paragem cardiorrespiratória.

Um futebolista irrepetível. Comentário de Nuno Sousa, editor de Desporto do PÚBLICO

Carlos Xavier encontrou-se por quatro vezes nos relvados com o ídolo, guardando duas camisolas como autênticos tesouros. Para muitos, a noite que antecedia uma partida frente ao número 10 era passada em branco.

Ao PÚBLICO, o ex-internacional português ironiza: “Jogar contra o Maradona era muito fácil! Ele passava por nós com tanta facilidade que nem havia forma de o parar.

Naquela altura – onde a canela ia até ao pescoço –, era muito mais difícil, mas ele conseguia sempre superar e mesmo levando boas ‘trancadas’ não caía. Era impressionante.”

O sucesso de Maradona nos anos 1980 e 90 era incomparável. Tornou-se uma lenda na Argentina, pelo Campeonato do Mundo conquistado pelo país da América do Sul. Em Buenos Aires, era idolatrado pela passagem no Boca Juniors. E em Itália levou o Nápoles à conquista do campeonato. Carlos Xavier considera que o argentino tinha a capacidade de transformar sozinho todo um clube.

São imagens de uma vida dedicada ao futebol, mas que em muito o ultrapassou. Morreu um ícone, morreu Diego Maradona. 

Ele era adorado porque, com um pé, fazia o que os restantes jogadores não faziam com os dois. A diferença era essa, a técnica, habilidade e execução.

No Mundial de 1986 foi ele que levou a Argentina ao título. Chegou ao Nápoles e ninguém dava nada por eles, mas a verdade é que pôs o clube no topo do mundo, com dois campeonatos seguidos.

O Nápoles é conhecido hoje à custa do Maradona”, explica o jogador.

Das quatro ocasiões em que defrontou Maradona, saiu apenas com uma vitória em carteira, na partida entre a Real Sociedad e o Sevilha em casa dos primeiros.

No Sporting, Carlos Xavier empatou ambas as partidas “a zero” contra os italianos do Nápoles, com os “leões” a serem eliminados no desempate por grandes penalidades e a ficarem pelo caminho na Taça UEFA.

Dessa eliminatória, o antigo jogador relembra o carinho das bancadas do Estádio de Alvalade para com o astro argentino.

“Nesse jogo, ficou no banco de suplentes. Já estava a passar por um momento difícil na sua vida. Mas os adeptos do Sporting tanto chamaram por ele que lá teve de entrar. Era um Deus, pronto”, resume. A luta com as dependências acelerou “o dia de hoje”, lamenta Carlos Xavier, considerando que o sucesso de Maradona poderia ter sido ainda maior – e prolongado. 

Após a carreira de jogador, Maradona transitou para o papel de treinador. Chegaria ao banco da selecção argentina, liderando o país no Mundial de 2010, na África do Sul. Na sua equipa estava Lionel Messi, considerado por muitos como o sucessor de Maradona.

Apesar de o palmarés de clubes da “pulga” no Barcelona ser invejável, a verdade é que nunca conseguiu a glória internacional que Maradona alcançou. Carlos Xavier traça logo uma diferença na vertente física entre os dois argentinos. “Fisicamente, o Maradona era muito forte.

Aguentava com muita coisa e estamos a falar de um tempo em que para o árbitro dar um cartão amarelo era quase preciso arrancar uma perna”, afirma.

O facto de ter tido sucesso em múltiplos clubes e países é outra diferença entre Maradona e Messi, fazendo referência ao facto de o segundo ter preferido a estabilidade no Barcelona, longos anos com os mesmos colegas de equipa. 

Mas será Maradona o melhor jogador de todos os tempos? Carlos Xavier aconselha cautela nesta avaliação. “Não vejo as coisas dessa forma. Para mim, o melhor jogador de sempre é o Ronaldo, pelo que ganhou e conquistou. Comparo os jogadores por época. Na minha era o Maradona, agora é o Ronaldo. É difícil comparar”, finaliza. 

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