Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?

A Europa beneficiava de se situar numa zona temperada e estimulante, num território menos sujeito a catástrofes naturais, e foi capaz de desenvolver uma sociedade global que, da Escandinávia ao Mediterrâneo e da Hispânia às terras da Moscóvia se organizava em sociedades assentes num sistema de três ordens (guerreiros, sacerdotes e trabalhadores), segundo a tradição indo-europeia; que partilhava uma religião comum, o Cristianismo, estruturada por uma instituição internacional hierarquizada, a Igreja; que dispunha de uma língua de comunicação falada por todas as elites, o latim, e um sistema de saber que circulava rapidamente e que estava estruturado em torno das universidades; e que desenvolvia um sistema comercial integrado ávido de metais preciosos e sedento de produtos que eram produzidos em mercados distantes, sobretudo as joias, os tecidos finos de seda e de algodão e as especiarias.

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? Foi D. Afonso IV (r. 1325-1357) que definiu a doutrina expansionista da coroa lusa, ao obter uma bula de Cruzada que reconhecia o direito de Portugal à conquista do reino de Fez

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Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?

Ambiciosos, individualistas, empreendedores, crentes na superioridade da sua civilização e tendo a sua religião por absolutamente verdadeira, os europeus tinham as condições ideais para provocarem o desencravamento do mundo fragmentado dos alvores do século XV. Já haviam tentado sair dos seus limites pelas Cruzadas dos séculos XII e XIII, e tinham estado de novo à beira de atacar o Islão no século XIV, a partir da Península Ibérica.

Em meados de Trezentos, Afonso IV compreendia que o rectângulo peninsular era insuficiente e que Portugal tinha de se projectar para o exterior de acordo com as suas próprias características de potência marítima.

Foi precisamente entre 1341 e 1345 que D. Afonso IV (r.

1325-1357) definiu a doutrina expansionista da coroa lusa, ao obter uma bula de Cruzada que reconhecia o direito de Portugal à conquista do reino de Fez, e que reclamava o senhorio das ilhas Canárias, sob o argumento da proximidade geográfica.

Em meados de Trezentos, o rei português compreendia que o rectângulo peninsular era insuficiente e que Portugal tinha de se projectar para o exterior de acordo com as suas próprias características de potência marítima.

Não sabemos se o monarca estava em condições de iniciar uma efectiva política de expansão ultramarina, mas é certo que o curso da História lhe bloqueou qualquer ousadia. Com efeito, em 1348 eclodiu a Grande Peste e a Europa mergulhou numa crise profunda, agravada por conflitos longos como a Guerra dos Cem Anos e o Grande Cisma.

Portugal foi o primeiro país a libertar-se desta crise e no início do século XV, abriu um novo capítulo da sua História ao sair dos seus limites continentais com a conquista do porto de Ceuta e a ocupação dos arquipélagos da Madeira e dos Açores.

Depois, um membro da família real, o infante D. Henrique (1394-1460), não se conformou com os limites milenares da Cristandade e quis descobrir as terras para lá do cabo Bojador, a última porção de terra conhecida da civilização euro-mediterrânica.

Buscava aliados militares para combater o Islão e novos mercados com quem pudesse comerciar, além de desejar conhecer esses territórios inexplorados e de dilatar a religião cristã.

No entanto, a passagem do cabo parecia ser uma viagem para a morte e durante doze anos as tripulações enviadas pelo Infante não se atreveram a tentar a passagem.

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? Como se vê pelo mapa de Martelus Germanus, desenhado em 1490, os primeiros 60 anos de explorações marítimas foram marcados pelo reconhecimento da costa ocidental africana e do oceano Atlântico

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Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?

Em 1434, finalmente, Gil Eanes e os seus homens venceram o medo e abriram uma nova era para a humanidade. Os Descobrimentos prosseguiram lentamente, ao longo do século XV, mas sempre imparáveis.

A porta aberta em 1434 nunca mais se fechou, e as explorações marítimas nunca mais pararam e as tripulações nunca mais recearam monstros marinhos ou águas ferventes.

Como se vê pelo mapa de Martelus Germanus, desenhado em 1490, os primeiros 60 anos de explorações marítimas foram marcados pelo reconhecimento da costa ocidental africana e do oceano Atlântico.

Depois, porém, as viagens de Cristóvão Colombo (1492), Vasco da Gama (1497-1499) e Pedro Álvares Cabral (1500-1501) abriram novos horizontes, como nos testemunha o mapa de Cantino, composto em 1502. O rei D. Manuel I de Portugal (r.1495-1521) foi, por isso, o primeiro soberano do mundo a ter oficiais às suas ordens em quatro continentes diferentes.

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? O mapa de Cantino, composto em 1502, já nos mostra um mundo completamente diferente, mostrando a costa da América e indo até à Ásia

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Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?

Os Descobrimentos correspondem, pois, a uma Revolução Geográfica, que alterou radicalmente a relação do Homem com o planeta. Os seres humanos apreenderam, finalmente, qual era a configuração da Terra e abriram novas vias de circulação. O Atlântico, que fora uma barreira até ao século XV, a partir de Quinhentos tornou-se no grande eixo das comunicações inter-continentais.

E homens, animais, plantas, objectos e ideias cruzaram o mundo em todas as direcções.

Hábitos localizados em áreas restritas do Globo foram-se generalizando, lenta mas irreversivelmente, como sucedeu, por exemplo, com o consumo do açúcar, da pimenta e da canela, do gengibre e do cravo, do tabaco, do café, do chocolate, do chá, do algodão e das porcelanas ou com a utilização de armas de fogo.

O mundo nunca mais foi o mesmo desde que Gil Eanes passou o cabo Bojador, em 1434, mas Portugal começara a mover-se antes – há 600 anos com a tomada de Ceuta

Os Portugueses foram os pioneiros deste movimento globalizador. Iniciaram-no e foram um dos seus actores principais nos séculos seguintes. Seguiu-se-lhes Castela, no final do século XV, e a partir do século XVII as potências do Norte da Europa criaram os seus próprios impérios coloniais.

De facto, o mundo nunca mais foi o mesmo desde que Gil Eanes passou o cabo Bojador, em 1434, mas Portugal começara a mover-se antes – há 600 anos com a tomada de Ceuta, a sua primeira conquista fora do seu rectângulo peninsular. E em 1515, estavam montados os alicerces de um império pluri-continental, de escala quase planetária, quando faleceu Afonso de Albuquerque, à vista de Goa – foi há 500 anos.

É sobre estas duas efemérides e a sua importância para a definição do Portugal contemporâneo que se debruça este texto.

A conquista de Ceuta, a 21 de Agosto de 1415, foi, sem dúvida, o acto fundacional da Expansão Portuguesa e deu origem a um secular império pluri-continental.

Nos anos seguintes a coroa incorporou definitivamente o arquipélago da Madeira nos seus domínios (1419-1425) e localizou de vez as ilhas dos Açores (1427), que logo ficaram sob a sua alçada política.

Nenhum príncipe da cristandade, incluindo o rei de Castela, se opôs à tomada destes espaços insulares pelos Portugueses, o que evidencia uma percepção generalizada entre os Europeus de que Portugal era uma potência marítima, cujo espaço natural se estendia às águas adjacentes.

Podemos dizer, assim, que Portugal se completou nos anos de 1415-1430, tendo então adquirido a configuração natural que perdurou até aos nossos dias. Só depois é que Gil Eanes venceu o cabo Bojador, e o país se estendeu para lá dos seus limites naturais e iniciou a aventura dos Descobrimentos.

Deste modo, o período que medeia entre 1415 e 1434, embora corresponda ao início da Expansão marítima – um ponto de partida, para uma nova fase da História de Portugal – também deve ser encarado como a fase de conclusão da definição territorial do próprio Portugal – o ponto de chegada do processo histórico iniciado por D. Afonso Henriques (r. 1143-1185) no longínquo século XII.

Como Portugal moldou a história do continente africano

Dizer que a presença de Portugal na África foi duradoura é um eufemismo.

No longo processo de exploração das riquezas do continente pelos europeus, os lusitanos não apenas abriram a porta, na primeira metade do século 15, durante as Grandes Navegações, como a mantiveram escancarada pelo máximo de tempo possível – e só foram fechá–la nos anos 1970, muito depois dos demais países do Velho Continente. Uma trajetória que teve efeitos profundos sobre a África, dilapidando recursos naturais e espalhando filhos e filhas do continente pelo mundo, dentro de navios superlotados de escravos.

Desde o Império Romano, os europeus tinham contato direto com o norte africano, algo que ia muito além do domínio sobre o Egito e dos flertes com Cleópatra.

A expansão islâmica a partir do século 7, porém, praticamente cortou o contato europeu com o norte da África e com as rotas trans–saarianas, que conduzem a região ao sul do deserto do Saara.

Na Península Ibérica, a reação dos cristãos europeus à presença dos mouros, oriundos de onde hoje ficam Marrocos e Argélia, só foi ganhar força a partir do século 11 – conduzida primeiro pelo reino de Castela, hoje território espanhol, depois pela coroa portuguesa.

Ou seja, se você não tivesse um acordo com os muçulmanos, precisava partir para a briga para entrar na África – ou achar um jeito de dar um drible neles. E Portugal fez, basicamente, as duas coisas.

Com a conquista de Ceuta, ocorrida em 1415 sob comando do rei João 1o, o reino português estabeleceu sua primeira posse em solo africano e passou a ter relativo controle sobre o Estreito de Gibraltar, o canal que separa Espanha e o norte da África (hoje, Marrocos), na entada do Mar Mediterrâneo.

Além de fortalecer sua posição no litoral marroquino, isso tornou real o sonho de explorar o sul do Atlântico – uma vantagem importante para Portugal no cenário comercial da época.

A ideia de contornar a África para chegar à Ásia não era exatamente inédita. O grego Heródoto, considerado o pai da história, relata que teriam sido navegadores fenícios os primeiros a fazer a viagem, a partir de 600 a.C.

A estratégia portuguesa, porém, tinha uma outra lógica, estritamente de negócios.

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Embora mais penosa, a trilha pela costa africana era o trajeto possível à Coroa, já que os mercadores de Gênova e Veneza, grandes adversários comerciais, se entendiam bem demais com os islâmicos, o que fechava as rotas asiáticas aos portugueses.

Além da briga pelas Índias, a criação de entrepostos no Atlântico (as chamadas “feitorias”) era a chance de passar a rasteira nos genoveses e disputar o acesso a produtos de grande valor, em especial o cobiçado ouro africano.

“Era sabido que o ouro que surgia na Península Ibérica islâmica vinha do interior da África.

Os portugueses tinham certeza de que havia ouro em algum lugar e queriam conquistar essas cidades”, explica Valdemir Zamparoni, professor de história da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O avanço português foi deixando rastros – muitos deles, visíveis até hoje. A exploração dos rios entre as bacias do Senegal e Níger, por exemplo, é a origem do nome Lagos, que batiza a capital da Nigéria e é referência direta à cidade homônima em solo português.

Foram os lusitanos quem involuntariamente batizaram Camarões, em referência à grande quantidade de crustáceos na foz do Rio Wouri, onde chegaram em 1472. E os desembarques nos futuros territórios de Guiné–Bissau (1446) e Cabo Verde (1460) são eventos decisivos para a história dessas regiões e de todo o continente.

Em meio à busca por metais e especiarias, os escravos também faziam parte do comércio português.

Ocorrida em 1441, a expedição de Nuno Tristão ao Cabo Branco, na costa da atual Mauritânia, não foi apenas o primeiro grande avanço rumo ao sul do continente, mas foi também a primeira remessa de escravos africanos para Portugal.

No caso, um pequeno grupo de pescadores, atacados e feitos prisioneiros. Porém, embora fosse desde sempre um negócio lucrativo, a captura de escravos não era, ao menos no começo, a essência da empreitada.

A importância desse comércio mudou a partir do estabelecimento dos engenhos de açúcar na Madeira e em outras ilhas da costa atlântica – modelo que, depois, viraria uma vantajosa fonte de renda também nas Américas.

Para abastecer a demanda crescente por trabalhadores forçados, os portugueses estabeleceram acordos com líderes locais. O mais comum era que os vendidos fossem prisioneiros de batalhas conta povos rivais, embora vítimas de sequestros e criminosos da própria comunidade também virassem moeda de troca de vez em quando.

O que não quer dizer, é claro, que os portugueses não tenham tentado obter escravos à força. Tentaram, e bastante. O problema é que enfrentar os povos locais não era nada fácil.

Textos históricos como a Crônica do Felicíssimo Rei Dom Manuel, de Damião de Góis, demonstram que, desde o século 16, era comum a presença de batelões portugueses onde hoje é costa da África do Sul, tentando atacar aldeias próximas ao mar para fazer prisioneiros. Resultado: na maioria das vezes, os europeus tomaram uma surra.

Após o sucesso em cruzar o Cabo das Tormentas (hoje Cabo da Boa Esperança), no extremo sul da África, com Bartolomeu Dias, em 1488, o alcance português ganhou contornos mais definitivos, especialmente nos territórios de Angola e Moçambique.

Com o fim do tráfico de escravos na segunda metade do século 19, a lógica europeia na África mudou. Até então, as expedições dependiam do pagamento de impostos e da tolerância de líderes africanos.

A perda do Brasil, disparada pela declaração de independência de 1822, fez com que Portugal olhasse com mais atenção para as colônias africanas.

Já em 1834, o político Sá da Bandeira apresentou um projeto de desenvolvimento para o continente, que previa a abolição do tráfico negreiro e o uso dos habitantes na agricultura das próprias regiões onde residiam.

Mas a resistência dos mercadores de escravos demorou a ser vencida e só a partir do final do século 19 a ideia começou a prosperar.

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Até aquela época, Angola e Moçambique serviam a funções distintas: a primeira fornecia escravos, enquanto a segunda era pouco mais que uma sequência de entrepostos no contato com a Índia Portuguesa.

No começo do século 20, a instabilidade política e econômica em Portugal era enorme, e a ordem passou a ser incentivar a ida de portugueses à África.

Mas a ideia não empolgava muito, com cerca de mil a 2 mil portugueses indo morar no continente africano por ano – quase nada comparado às dezenas de milhares que embarcavam de Portugal, na mesma época, em direção ao Brasil.

A partir do golpe que instaurou o Estado Novo em Portugal, regime autoritário que vigorou de 1933 até 1974, as subdesenvolvidas e subpovoadas colônias africanas passam a ser vistas como um complemento ao fornecimento de produtos para Portugal.

Nos anos 1950, António Salazar vai na contramão das demais nações colonizadoras: enquanto Inglaterra e França planejavam sua retirada, Lisboa apresentava os territórios africanos como orgulho nacional e bancava terras, gado e sementes para quem quisesse tentar a sorte lá.

Quando estouraram as guerras de independência, havia algo em torno de 200 mil portugueses em Angola e 80 mil em Moçambique. A maioria levava uma vida confortável, enquanto os negros viviam nas periferias, deixando a “cidade do asfalto” quase toda para os brancos.

Raros eram os que chegavam a estudar em escolas, que dirá subir na vida. E embora a convivência fosse bem menos tensa do que no Apartheid da África do Sul, os castigos físicos eram comuns até pelo menos o começo da década de 1970. Com a revolução de 1974, os contrários à continuidade da colonização assumiram o poder no país.

A partir daí, finalmente, os portugueses começaram a deixar a África.

Nossa África

  • Os diferentes povos cujo sangue está no DNA do brasileiro.
  • Moçambique
  • Nhanjas

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante

É um subgrupo dos povos de origem Bantu, que se espalham pela África sul-equatorial. Foram maciçamente trazidos ao Brasil a partir dos territórios de Moçambique e Angola. Por aqui, os bantu criaram a capoeira e influenciaram a música, com berimbaus e cuícas. Mas a principal contribuição foi linguística, uma das bases do nosso português. Se chamamos nosso irmão menor de “caçula” em vez de “benjamim”, como em Portugal, é por influência deles.

Angola

Ovimbundos

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante

Um dos subgrupos Bantu, foram trazidos ao Brasil a partir de Angola – eles hoje ainda se concentram somente nesta região e representam 37% da população do país.

É um dos grupos étnicos mais homogêneos, vivendo até hoje em aldeias onde criam gado e cultivam plantações. Mantêm sua cultura própria (as mulheres usam roupas multicoloridas), apesar das influências externas.

No século 18, constituíram reinos importantes, que intermediavam o comércio de escravos.

Benim

Iorubás

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa? Rodrigo Bastos Didier/Superinteressante

Também chamados de nagôs, são originários da região que hoje engloba o sul da Nigéria, o Togo e o Benim, principalmente.

O animismo iorubá – a visão de que animais e plantas e entidades não humanas têm essência espiritual – é um dos pilares do candomblé, baseado no culto a orixás, como Iemanjá, Xangô e Ogum.

Para evitar a fúria cristã, os nagôs batizaram suas divindades com nomes de santos católicos, como São Jorge. Mais tarde, essas tradições ajudariam a moldar a umbanda brasileira.

Brasil no meio do caminho

Por conta da escravidão, o território brasileiro também começou a ser povoado pelos africanos. Vindos de diferentes regiões e com vivências diversas, eles traziam consigo uma ampla gama de culturas.

Os portugueses, é verdade, fizeram grande esforço para “branqueá-los”, forçando a conversão ao catolicismo e a adoção de língua e nomes portugueses, além de castigar os que se recusavam a abandonar os costumes nativos. Mas os escravizados não cederam.

Além da resistência física, com os quilombos, emboscadas e motins, os negros que forjaram o nosso país foram mantendo viva a memória de suas raízes.

Foi nesse Brasil colonial cada vez mais impregnado pelo imaginário africano que surgiram religiões como a umbanda e o candomblé, seguidas hoje por milhões de brasileiros.

Se você curte uma roda de samba, um chorinho ou mesmo uma bossa nova, é porque tradições musicais de origem africana, em especial o lundu, deram tom e ritmo ao que viria depois. Juntando dança e arte marcial, a capoeira brasileira chegou a ser perseguida pelos portugueses e hoje é patrimônio cultural da humanidade.

A feijoada, o vatapá e o azeite de dendê não existiriam no Brasil. E várias palavras foram incorporadas ao nosso vocabulário, como moleque, caçula e farofa, por exemplo.

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Conquista de Ceuta: o começo das grandes navegações

Juliana Bezerra

Professora de História

A Conquista de Ceuta ocorreu em 1415 e simboliza o começo da expansão ultramarina portuguesa.

O objetivo da Coroa, impulsionada pela burguesia, era se apoderar da cidade que recebia as caravanas de mouros que transportavam ouro, marfim, especiarias e escravos.

Expansão Marítima Portuguesa

Quando o rei Dom João I (1351-1433) assumiu o trono português, em 1385, o reino enfrentava dificuldades financeiras. Portugal encarava a falta de produtos agrícolas, mão de obra e sua moeda se encontrava desvalorizada.

A insuficiência de metais preciosos influenciou na edição de uma lei, em 1402, que proibia a exportação do ouro, pois sem o metal, não era possível cunhar moedas.

Por isso, o rei começou a buscar alternativas para a crise econômica. Uma das ideias foi a de expandir o reino para o Mediterrâneo e não para a Europa.

Assim, influenciado pelos filhos, começa construir uma enorme armada a fim de conquistar a praça de Ceuta.

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?No mapa, vemos em laranja, os territórios muçulmanos; em vermelho, a rota do ouro; em verde, das especiarias; em azul, a rota utilizada pelos mercadores venezianos e genoveses.

Causas

Vários motivos foram considerados para a escolha de Ceuta. Inclusive chegou a se cogitar a conquista do Emirado de Granada. A garantia do apoio da Coroa de Castilha contribuiu para que Ceuta fosse escolhida. Além disso:

  • Ceuta era uma rica localidade junto ao Estreito de Gibraltar, ponto de encontro das caravanas que vinham do Oriente e um meio de chegar aos mercados de cereais do Marrocos;
  • Seria uma forma de ajudar a superar a crise econômica
  • Conquistando Ceuta, todos os setores da sociedade portuguesa seriam envolvidos na esperança de benefícios;
  • Possibilitaria a expansão da fé cristã em território muçulmano.
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Política Interna

A nação lusa estava em paz, e unificada em torno a um rei, diferente da maioria dos vizinhos ainda em guerra. De todas as maneiras, as conquistas ultramarinas canalizavam o espírito guerreiro da nobreza e ajudavam a manter a concórdia dentro das fronteiras.

Portugal contava com uma posição geográfica que favorecia a busca de rotas alternativas pelos mar para a compra de mercadorias.

A burguesia enxergava vantagens comerciais devido à posição estratégica da cidade. Já a nobreza, pensava em aumentar suas possessões e títulos; enquanto o clero, imaginava conquistar mais almas. Para o povo, a crença era em mais trabalho.

Diante de tantas vantagens e necessidades foi iniciado o processo de conquista de Ceuta.

Expedição

A expedição partiu de Lisboa dia 25 de julho de 1415. Estava constituída por uma frota de 212 embarcações e destas 59 eram galés, 33 naus e mais 12 embarcações de pequeno porte.

Foram embarcados:

  • 7.500 cavaleiros
  • 500 besteiros (os que manejavam a besta, uma arma de arco e flecha)
  • 21.000 soldados a pé

No dia 22 de agosto de 1415, tomaram a cidade e a saquearam durante a noite.

Imediatamente, começou a transformação da urbe de Ceuta. Houve a substituição dos símbolos muçulmanos pelos de cristãos e a mesquita foi transformada numa igreja.

A Coroa portuguesa deixou 2,7 mil homens que ficaram sob o comando de Dom Pedro de Meneses (1370-1437), primeiro governador de Ceuta.

Quando E Como Ceuta Deixou De Ser Portuguesa?O Infante Dom Henrique na Conquista de Ceuta, painel de azulejos, na cidade do Porto

Ocupação

O que a Coroa e a burguesia imaginavam, contudo, não ocorreu. Conquistar Ceuta pressionou mais ainda os cofres portugueses e foi preciso contrair empréstimos para pagar a incursão e retribuir o apoio espanhol.

Além de tudo, a cidade, agora, precisava ser mantida, protegida e até alimentada, pois sua produção de trigo era insuficiente.

Em 1419, por exemplo, os exércitos do Sultanato do Marrocos e do Emirado de Granada tentam reconquistar a cidade e lhe impõe um cerco durante um mês. Posteriormente, as caravanas, que tanto lucro davam ao local, foram desviadas para outras cidades costeiras.

Embora houvesse tantos elementos desfavoráveis, os portugueses resolveram permanecer em Ceuta.

Mesmo com todos os problemas, Portugal continuaria a investir nas navegações. O passo seguinte foi ocupar as ilhas de Madeira, em 1419, e posteriormente, o Arquipélago dos Açores, em 1427.

No entanto, vários nobres se mostravam indecisos com a política de expansão ultramarina por conta da falta de recursos e da baixa densidade demográfica portuguesa.

O impasse perdurou até 1433, quando os Infantes Dom Henrique e Dom Fernando (1402-1443), e mais conde de Arraiolos, Dom Fernando de Portugal, insistem em prosseguir com as expedições marítimas. Neste ínterim, o rei Dom João I morre e sobe ao trono o seu filho, Dom Duarte.

Desta maneira, o rei Dom Duarte I (1391-1438) aprovou uma incursão para a tomada do Tânger (Marrocos) em outubro de 1437.

Em combate, o Infante Dom Fernando foi feito refém pelos marroquinos e sua vida negociada em troca da entrega de Ceuta.

O impasse gera tensão na corte com partidários de ambos os lados. Sem acordo, Dom Fernando morreu no cativeiro, Ceuta continuou em posse de Portugal.

  • Ceuta passou a mão dos espanhóis em 1668 após o fim da União Ibérica e permanece espanhola até hoje.
  • A influência portuguesa se faz sentir na arquitetura, nos brasões e na devoção a Nossa Senhora de África.
  • Na estação de São Bento, na cidade do Porto, em Portugal, existe um enorme painel de azulejo sobre a conquista de Ceuta. Isto se deve porque a maioria das embarcações usadas na expedição saíram dos estaleiros da região.

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Bacharelada e Licenciada em História, pela PUC-RJ. Especialista em Relações Internacionais, pelo Unilasalle-RJ. Mestre em História da América Latina e União Europeia pela Universidade de Alcalá, Espanha.

A conquista de Ceuta foi há 600 anos

Passam hoje seiscentos anos da conquista de Ceuta pelos portugueses, que ocorreu a 21 de Agosto de 1415 e poucos dias após essa vitória sobre os mouros, o Rei D. João I aí armou cavaleiros os seus filhos, o príncipe herdeiro D. Duarte e os infantes D. Pedro e D. Henrique.

Esta conquista foi considerada por Joaquim Veríssimo Serrão e muitos outros historiadores como o primeiro marco da expansão portuguesa.
Ceuta situada entre dois mares, olhando de frente para Gibraltar, segundo Gomes Eanes de Zurara era a chave de todo o Mediterrâneo.

À entrada do Mar Mediterrâneo, era “ponto de confluência das rotas das caravanas no Saará Ocidental, na Baixa Idade Média e urbe vigilante da mais importante rota marítima da Europa de então, a que ligava o Mediterrâneo às costas atlânticas, que conduziam ao canal da Mancha e ao Mar do Norte” como nos foi apresentada na Exposição Temporária na cidade do Porto ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’. Já Luís Filipe Thomaz, referenciando Jaime Cortesão no livro ‘De Ceuta a Timor’ escreve: “a chave de dois universos mercantis, o mediterrâneo e levantino e o magrebino e sudanês. Para além do seu valor como escala de comércio há, porém, que não esquecer o seu valor estratégico, como testa de ponte para a conquista de Marrocos, ou mesmo para a de Granada e como base o corso marítimo”.
Afastada a guerra com Castela, após a vitória em Aljubarrota a 1385 e o Tratado de Paz de Ayllón em 1411, ficavam os nobres e as classes emergentes portuguesas sem lugar para mostrar a sua valentia e por actos heróicos ganhar acesso a terras e títulos e assim serem armados cavaleiros, num acto medieval da nobreza. Precisavam de guerras, onde se enriquecia pelas pilhagens, ou despojos e se adquiriam títulos de cavaleiros.
Já com o território possível conquistado, a Portugal só sobrava o mar. Por isso, nada melhor que ir ao terreno muçulmano, no outro lado da entrada do Mediterrâneo, conquistar as praças marroquinas do Norte de África. Essas conquistas por parte dos portugueses, indirectamente desanuviariam o Reino de Castela da pressão que lhe fazia o islâmico Reino de Granada, ainda no interior da Península Ibérica.

D. João I, o Rei de Boa Memória, reinou desde 6 de Abril de 1385 a 14 de Agosto de 1433 e foi o primeiro de uma nova dinastia, a de Avis, em que a família real portuguesa se ligava à da realeza inglesa.

Do casamento entre D. João I e Dona Filipa de Lencastre nasceu a Ínclita Geração, com novos horizontes e atenta ao que se passava pelo mundo, sendo com ela que se deu o início da expansão marítima portuguesa.

Ceuta de portas abertas

Em 1410, Portugal encontrava-se próximo de celebrar um tratado de paz com Castela e nesse ano “teve D. João I o propósito de organizar umas festas reais para armar cavaleiros os três filhos mais velhos: o príncipe herdeiro D. Duarte, com 19 anos, e os infantes D. Pedro e D. Henrique que contavam, respectivamente, as idades de 18 anos e 16 anos.

” E continuando com Veríssimo Serrão: “Mas tendo notícia do projecto objectaram os infantes que não queriam aceitar o grau de cavalaria numa cerimónia festiva, mas em luta contra os Mouros em África.”
Com a Paz de Ayllon de 1411, segundo Veríssimo Serrão, os portugueses prestaram ajuda militar à coroa de Castela, em guerra contra Granada e D.

João I teve a garantia de poder organizar a expedição a Marrocos, sem receios de uma invasão de Castela.
A empresa de conquistar Ceuta começou a ser planeada em 1409 e “Pressionado pelos seus filhos e pelo vedor da sua fazenda João Afonso, D. João I, que aspirava desde algum tempo a realizar uma expedição a Marrocos, voltou então os olhos para a cidade de Ceuta.

Mais arriscada do que a de Granada, porque cortada da retaguarda cristã, a conquista de Marrocos servia melhor (…) a política de afirmação e de prestígio dinástico que a nova casa real, maculada de bastardia, projectava conduzir; para ali se poderia exportar também a nobreza excedentária, conservando-a muito embora sob a suserania portuguesa.

Aparentemente a maioria dos membros desta preferia o empreendimento de Granada; mas a recusa castelhana não lhe deixava outra alternativa”, como refere Luís Filipe Thomaz na sua obra ‘De Ceuta a Timor’.
Só foi comunicada à Alta Nobreza do Reino a empresa de conquistar Ceuta no Conselho Régio de Torres Vedras em 1414.

Informação do Guia da Exposição Temporária na cidade do Porto ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’ e com a qual seguirei para relatar esse episódio, descrito por Gomes Eanes de Zurara na ‘Crónica da Tomada de Ceuta’.

Em Lisboa, a Peste Negra em 19 de Julho de 1415 levava deste mundo a Rainha Dona Filipa de Lencastre, o que devido ao luto fez adiar o início da empresa para a qual chegavam barcos e homens de Castela, da Biscaia, da Flandres, da Alemanha, da Bretanha e da Inglaterra. Os preparativos no Porto desenvolveram-se sob a orientação do Infante D.

Henrique, aí nascido há vinte anos e devido ao seu sucesso no desempenho conseguido com o envio para Lisboa de mais de setenta naus e barcas, “uma frota bem preparada, como por homens que tem vontade de me servir” segundo palavras de D. João I, terá desde logo se posicionado como um excelente dinamizador de uma empresa maior já planeada pelo menos desde D.

Dinis, quando este rei da primeira dinastia mandou plantar pinhais de verde pinho, investiu na construção naval, abriu a Universidade e transformou os Templários na Ordem de Cristo.
A 25 de Julho partiu de Lisboa a galera real com D.

João I e a fina flor portuguesa, onde não faltavam Nuno Álvares Pereira e os três filhos mais velhos do rei, incluindo o próprio príncipe herdeiro, D. Duarte. A armada tinha aproximadamente duzentos barcos (cinquenta e nove galés, trinta e três naus e cento e vinte pequenas embarcações) e cerca de vinte mil homens. Foi só na escala em Lagos que “numa solene pregação é dado conhecimento público do destino da empresa”.

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Navegando pelas águas do Atlântico, fazendo escala em Faro e em Tarifa, a frota ficou dispersa ao ser atingida por um temporal e veio a reunir-se na Baía de Algeciras. A 13 de Agosto tem à vista a península de Ceuta e o Mediterrâneo para Leste. Todas as embarcações sob o comando de D.

João I e D. Pedro colocaram-se em frente à Praia de Santo Amaro, onde no dia 21 fundearam.

Tal levou a população da cidade a correr para esse lado, enquanto do lado oposto, pela ainda aberta porta de Fuente Cabalo conseguiram entrar, sem grande resistência para o interior da fortaleza, os que vinham com D. Henrique e D. Duarte.

“Logo no instante em que Vaz de Almada hasteou a bandeira de São Vicente na Torre da Vela, nos arredores do que é hoje a Porta Califal, os assaltantes tomaram posse da cidade” como refere Gabriel Fernandez Ahumada em ‘Desembarque dos Príncipes’.

A Mesquita Alhama passa a igreja

Nesse próprio dia, 21 de Agosto de 1415, os portugueses sem dificuldade submeteram a praça marroquina de Ceuta, abrindo assim no Norte de África, um novo destino para Portugal.
“Poucos dias depois, na antiga mesquita, já consagrada como templo cristão, o rei arma cavaleiros os seus filhos e, sucessivamente, também vários participantes na empresa.

Nomeado capitão da praça D. Pedro de Meneses, o monarca regressa à Península a 2 de Setembro”, segundo Luís Adão da Fonseca, Comissário da Exposição Temporária ‘Ontem Ceuta – 600 Anos de Encontro de Culturas entre Atlântico e Mediterrâneo’.

E continuando com Gabriel Fernandez Ahumada, no Guia da Exposição Temporária: “Os dias 22 e 23 de Agosto foram dedicados à consolidação e limpeza dos subúrbios que havia dentro da zona conquistada, isto é, estes foram saqueados e os habitantes que ainda restavam foram expulsos; tudo isto foi feito com uma grande violência, espalhafato e falta de previsão, uma vez que foram destruídas casas e foram derramados grão, azeite e outros produtos que teriam dado muito jeito às tropas que ficaram a proteger a cidade.

No dia 24 procedeu-se à limpeza da Mesquita Alhama, foram pendurados dois sinos que tinham sido subtraídos numa razia que teve lugar na vila de Lagos e foi transportado da Galera Real um altar para a solene cerimónia de armar os Infantes cavaleiros no dia seguinte.

” E recorrendo ainda à informação dos textos da exposição, no dia seguinte, domingo, dia 25 de Agosto, o monarca mandou aí colocar a imagem que trouxera de Nossa Senhora do Vale e celebrar uma missa solene, tendo feito o Frei João Xira um longo sermão.

Finda a “cerimónia religiosa, foram armados cavaleiros os três Infantes e o conde de Barcelos, e muitos outros. Vale a pena recordar o comentário de Zurara a respeito do monarca: “. “Todos (em palavras de Zurara) vestidos mui ricamente por honra de tamanha festa.

” E regressando a Gabriel Fernandez Ahumada: “entre os dias 26 a 31, após a demolição das casas anexas à muralha do Frente de Terra, que estavam a obstaculizar a visão do inimigo, o Rei iniciou a fase de consultas para designar um capitão de praça que ficasse em Ceuta à frente das forças militares, constituídas por dois mil e setecentos homens e duas embarcações que deveriam ser capazes de resistir a qualquer ataque por terra e por mar.” Dom Pedro de Meneses era Alferes do Infante D. Duarte e ofereceu-se como voluntário para ser Governador, cargo que ocupou durante vinte e dois anos, até à sua morte, a 22 de Setembro de 1437.
Ainda em 1415, ligado à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos, dá-se o início do Padroado, que foi confiado à Ordem de Cristo e não a Portugal, sendo o Vigário de Tomar, Prior-mor da Ordem de Cristo, o primeiro a dirigir o Padroado. Logo a seguir à conquista, o Rei D. João I solicitou ao Papa a criação em Ceuta de um bispado, o que foi aceite em 1420, altura em que se ergueu a Sé, ficando como primeiro bispo, o Frei Aimaro de Aurillac, franciscano inglês trazida pela Rainha Dona Filipa de Lencastre. “De facto, (já) em 1299, o papa criava, simbolicamente, um bispado em Marrocos, atribuindo o direito da apresentação alternativamente aos reis de Castela e Portugal” de Filipe Thomaz como informação de A. Dias Dinis.

Um flash ao momento

Com a tomada de Ceuta dava-se o primeiro passo para encontrar um caminho alternativo à rota do Mediterrâneo, controlada pelos mamelucos que governavam o Egipto e venezianos, que iam buscar as mercadorias a Alexandria e as distribuíam pela Europa. Ao Egipto chegavam os apetecíveis produtos da Ásia, via Mar Vermelho, vindos pelo Oceano Índico.

No outro lado do mundo, na China durante esse período, o Imperador Yongle (1403-1424) enviara o Almirante Zheng He para divulgar, aos países tributários e amigos, a chegada ao Trono do Dragão da nova dinastia Ming.

Essas embaixadas chinesas foram realizadas de 1405 a 1433, em sete expedições marítimas ao Sudeste Asiático, à África Oriental e ao Mar Vermelho. Só para se ter uma noção, quando ocorreu a conquista de Ceuta, acabava de chegar a Nanjing a quarta viagem, realizada desde Dezembro de 1413 até Julho de 1415 e que vinha de Mogadíscio, na África Oriental.

“A afirmação política da dinastia de Avis, junta ao ideal da Cruzada, foi determinante no objectivo da empresa.

Mas outras causas, sociais, económicas e marítimas, têm sido apontadas na génese da Expansão: a posse de Ceuta como zona cerealífera, para ocorrer aos défices frumentários da Metrópole; a conquista de uma base naval para impedir os ataques da pirataria mourisca ao Algarve; a aproximação, por meio de Ceuta, Argel e Tunes, das fontes auríferas do Sudão; e a necessidade de obter um campo de luta em Marrocos, para ocupar a nobreza ociosa desde a paz com Castela”, segundo refere Joaquim Veríssimo Serrão.
Com a conquista de Ceuta em 1415, o Infante D. Henrique, já armado cavaleiro, dava início à empresa de tomar o lugar dos muçulmanos no Norte de África, em território marroquino, ficando “desde 1416 encarregue da defesa e provimentos de Ceuta, o que implicava o controlo da actividade corsária portuguesa na área do Estreito.” E continuando com Luís Filipe Thomaz: “De 1415 a 1422, (…) a armada tem por base Ceuta e actua (provavelmente com galés) na zona nevrálgica do Estreito, fazendo guerra do corso à navegação muçulmana e provavelmente periódicos ataques às costas de Granada e da Barbaria.”

Ceuta só deixou de ser portuguesa pois a Espanha não a entregou após o Tratado de Lisboa de 1668, que reconhecia aos portugueses a sua independência perdida em 1580.

Ceuta

Ceuta é um enclave espanhol que faz fronteira com Marrocos, no norte de África, muito próxima também da colónia britânica de Gibraltar e de Algeciras, ambas situadas na Península Ibérica, na margem oposta do Mediterrâneo.

História[editar | editar código-fonte]

Ocupada sucessivamente por Fenícios, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Bizantinos e muçulmanos, a sua conquista por Portugal (1415) assinala o início da expansão marítima deste país. A cidade foi reconhecida como possessão portuguesa pelo Tratado de Alcáçovas (1479) e pelo Tratado de Tordesilhas (1494).

No contexto da Dinastia Filipina, Ceuta manteve a administração portuguesa, tal como Tânger e Mazagão. Todavia, quando da Restauração Portuguesa em 1640 não aclamou o Duque de Bragança como rei de Portugal, ficando sob domínio espanhol.

A situação foi oficializada em 1668 com o Tratado de Lisboa, assinado entre os dois países e que pôs fim à guerra da Restauração, no entanto, a cidade decidiu manter a sua bandeira que é composta por gomos brancos e pretos, à semelhança da da cidade de Lisboa, ostentando ao centro o escudo português.

Ceuta foi diocese em 1417 por bula do Papa Martinho V. A partir de 1645 a diocese de Ceuta deixa de pertencer a Portugal, e passa a ser cidade espanhola.

Geografia[editar | editar código-fonte]

  • Localização: 35º 55' – 35º 32' Latitude Norte e 01º 35' – 01º 41' Longitude
  • Superfície: 18,5 km²
  • Clima: O clima é mediterrânico.

População[editar | editar código-fonte]

Ceuta conta com 74.093 habitantes actualmente, a maioria da população procede da Península Ibérica; também conta com população árabe de origem marroquina, e de alguns imigrantes gibraltinos.

Língua: O idioma oficial é o castelhano. Existem resquícios do idioma galego-português A população de origem magrebina também fala língua árabe, mas esta não tem o reconhecimento oficial.

Património edificado[editar | editar código-fonte]

Em termos de património edificado, a cidade conserva inúmeros vestígios da ocupação portuguesa.

Além de restos das fortificações que compunham a Praça-forte (alguns troços das antigas muralhas, do fosso e um baluarte sobre a praia), destacam-se as antigas igrejas de Nossa Senhora da Assunção (hoje uma mesquita), de Santa Maria de África, do Espírito Santo, de São Sebastião, de Santo António, o edifício do antigo Convento de Nossa Senhora do Socorro, entre outros.

Ver também[editar | editar código-fonte]

  • Ceuta
  • Enclaves e exclaves

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