Porque Movimentos Como O Estado Islâmico Consegue Atrair Muitos Jovens?

Mohamed Amimour viajava havia três semanas, sob ardentes 50 graus. Atravessou a fronteira da Turquia com a Síria, onde embarcou em um micro-ônibus, repleto de homens, mulheres e crianças, russos, europeus e africanos, todos com uma missão oposta a sua.

Os outros passageiros rumavam para o território do Estado Islâmico com o anseio de se unir à luta dos terroristas. Mohamed, um franco-argelino, infiltrava-se no território do Estado Islâmico para resgatar seu filho, Samy, dessa luta.

Para convencê-lo a voltar a Paris, apesar dos mandados de prisão que pesavam contra o rapaz. Mohamed avistou as primeiras bandeiras negras do Estado Islâmico a 80 quilômetros de Alepo, na Síria, na cidade de Minjeb.

No micro-ônibus, todos aplaudiram: chegavam ao “califado islâmico entre o Iraque e a Síria”, que nascera naquele mesmo dia, 29 de junho de 2014, o primeiro do Ramadã.

Enfraquecido por uma forte intoxicação alimentar, Mohamed, então com 67 anos, aguardava angustiado o reencontro com seu menino. Não lhe era permitido sequer fumar para aplacar a ansiedade. No dia seguinte, Samy apareceu. Seu sorriso era distante. Ele usava muletas, mas não contou ao pai como fora ferido.

Samy leu, em silêncio, uma carta de sua mãe, trazida por Mohamed. Devolveu sem titubear os € 100 que estavam no envelope. “Aqui, não precisamos de dinheiro.” Mohamed voltou para Paris sem o filho e sem esperança.

Samy, que nasceu em outubro de 1987, em Drancy, subúrbio a 10 quilômetros do centro de Paris, e até 2012 era motorista de ônibus, mudara seu nome para Abu Hajia e corrompera seu espírito. Um ano e meio depois do encontro com o pai, na noite de 13 de novembro de 2015, Samy estava em sua cidade natal.

Agora, com uma kalashnikov nas mãos, um colete de bombas e carregado de ódio. Samy atirou sem misericórdia nos jovens que estavam no Bataclan. Em seguida, explodiu-se. Entregou sua vida ao califado, ao Estado Islâmico.

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Outros envolvidos no atentado de 13 de novembro e no ataque ao semanário Charlie Hebdo, em janeiro, tinham o mesmo perfil de Samy. São jovens, filhos de imigrantes, que vivem distantes do centro boêmio de Paris e que se sentem à margem da sociedade.

É possível encontrar esses jovens aos borbotões nos subúrbios de Paris, os banlieues, palavra que, em francês, adquiriu um significado pejorativo parecido ao das favelas, aqui no Brasil – embora tenham um padrão de vida bem superior.

Dentro dos banlieues, dominados por imigrantes, existem as cités: colossais projetos de habitação em concreto construídos durante as décadas do pós-guerra, no estilo do arquiteto Le Corbusier. Esses subúrbios ficam separados da Paris central por um rodoanel, chamado Périphérique.

Ali, os moradores brincam que para cruzar a via expressa e entrar em Paris é preciso visto e um cartão de vacinação.Fora da Paris dos cartões-postais, os imigrantes e seus descendentes nascidos na França têm um padrão de vida abaixo da média, embora provavelmente melhor do que teriam em seus países de origem.

Enquanto o desemprego na França é de 10,5%, entre os imigrantes sobe para 15%, segundo dados do primeiro semestre. Entre os de ascendência africana o número é de 22%. Entre os jovens franceses que acabaram de terminar os estudos, 11% não conseguem trabalho. Entre filhos e netos de imigrantes, o percentual chega a 34%. Perdidos e sem rumo, muitos desses jovens vão parar na prisão.

A França tem 12% de muçulmanos, mas eles representam entre 60% e 70% dos prisioneiros do país. Estima-se que 1.200 franceses estejam lutando na Síria ao lado de jihadistas. São jovens com menos de 30 anos, em sua maioria aliciados nas prisões.

Foi o caso de Samy e de Omar Ismaïl Mostefaï, francês filho de pai argelino, mais um dos terroristas que participaram do ataque à casa de shows Bataclan na sexta-feira 13 de novembro. E também de Cherif Kouachi e Amedy Coulibaly, dois envolvidos no atentados ao Charlie Hebdo, em janeiro.

“Na prisão, sem receber visitas e fragilizados, esses jovens são cooptados por recrutadores”, afirma Farhad Khosrokhavar, um sociólogo iraniano que passou três anos estudando a dinâmica dos recrutamentos em prisões francesas e escreveu o livro Radicalisation (Radicalização).

“Através do jihadismo eles nascem de novo, se sentem parte de algo maior.”

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A França é o país europeu com mais cidadãos nas hostes do Estado Islâmico. Proporcionalmente, porém, a Bélgica é o maior celeiro de terroristas da Europa. Segundo o International Center for the Study of Radicalisation, de lá saíram 40 jihadistas por milhão de habitantes – o dobro da França, quatro vezes mais do que o Reino Unido.

Foi de lá que saíram cinco terroristas envolvidos nos atentados de Paris. Foi de lá também que saiu Abdelhamid Abaaoud, acusado de ser o mentor dos atentados, morto na operação da  polícia francesa, na última quarta-feira, em Saint-Denis, subúrbio ao norte de Paris.

Assim como eles, jovens de vários países da Europa partem em busca dos conhecimentos jihadistas do Estado Islâmico. Estima-se que haja entre 20 mil e 30 mil combatentes estrangeiros no Estado Islâmico –  20% do total da força do EI, que tem entre 150 mil e 200 mil homens lutando no Iraque e na Síria.

São combatentes sunitas, atraídos pela ideologia do terror que promete vingança contra os inimigos do islã.

Porque Movimentos Como O Estado Islâmico Consegue Atrair Muitos Jovens?Abdelhamid Abaaoud | Belga (Foto: AP)Porque Movimentos Como O Estado Islâmico Consegue Atrair Muitos Jovens?

Por causa da guerra sectária dentro do islã, os inimigos podem ter várias faces – inclusive muçulmanas. Na Síria, é o regime do ditador Bashar al-Assad, no Iraque, o governo central, de maioria xiita e apoiado pelos Estados Unidos, acusado de reprimir a minoria sunita do país.

As várias correntes religiosas e escolas de pensamento dentro do islamismo (leia no infográfico abaixo), das mais moderadas às mais radicais, disputam o poder como nunca antes.

A ascensão do Irã, xiita, proporcionada pelas invasões americanas que derrubaram Saddam Hussein, no Iraque, e o Taleban, no Afeganistão, e impulsionada pelo acordo sobre o programa nuclear iraniano, acirrou ainda mais a disputa de poder com a Arábia Saudita e outras monarquias do Golfo Pérsico, de maioria sunita.

Sauditas e iranianos nunca se enfrentaram diretamente, mas travam “guerras por procuração” em todo o Oriente Médio. Hoje, o centro dessa disputa é a Síria.

A ira das comunidades sunitas, o apoio logístico prestado por outros Estados e grupos, as campanhas bem-sucedidas de mídia social do movimento e sua tática assassina são apenas parte da explicação para o fenômeno da ascensão do Estado Islâmico. Mas há algo mais.

“A pregação teológica ultraconservadora do Estado Islâmico atrai uma série de religiosos ultrafervorosos”, diz Bernard Haykel, professor de estudos do Oriente Médio na Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e um dos maiores especialistas em Estado Islâmico do mundo.

A teologia do EI bebe diretamente de um ramo do sunismo chamado salafismo, do árabe al salaf al salih, os “fundadores devotos”. A ideia é seguir Maomé e seus primeiros seguidores como modelo de todo e qualquer comportamento, da vida familiar aos costumes, da barba aos cuidados com os dentes.

Essa corrente de pensamento surgiu no período medieval, com os escritos do sírio Ibn Taymiyya (1263-1328), para quem o salafismo era o único movimento capaz de purificar a fé islâmica ao se concentrar na eliminação da idolatria (shirk) e na unicidade de Deus (tawhid).

Séculos mais tarde, o religioso islâmico Muhammad ibn ‘Abd al-Wahhab (1703-1792) retomou esse pensamento para criar o wahabismo. Abd al-Wahhab via no período que o profeta Maomé passou em Medina um ideal para a sociedade islâmica (“o melhor dos tempos”), que todos os muçulmanos deveriam tentar emular.

Um dos princípios mais importantes da doutrina de Al-Wahhab era a liberdade para considerar outros muçulmanos infiéis caso eles se envolvessem em atividades que de alguma maneira pudessem contradizer a soberania da autoridade absoluta – a doutrina tafkiri.

O islã wahabita proíbe rezas para santos e pessoas que tenham morrido, peregrinações a tumbas e mesquitas especiais e festivais religiosos. A defesa dessas visões ultrarradicais foi usada pela família Saud no século XVIII para tentar unificar as tribos do Nejd, na Península Arábica. No século XX, sob essa ideologia, os Sauds uniram as tribos e fundaram a Arábia Saudita.

Ao longo do século XX, com a bonança do petróleo, a família Saud, que governa a Arábia Saudita, patrocinou escolas de pensamento salafista pelo Oriente Médio, com a intenção de propagar o wahabismo pelo islã e reduzir a “multidão de vozes dentro da religião” a uma “crença única”.

Os países do Golfo investem bilhões na propagação da doutrina – o que levou ao nascimento de uma série de movimentos jihadistas nos anos 1990 e 2000, principalmente a al-Qaeda de Osama bin Laden. A palavra “jihad” significa “esforço” ou “luta”, em árabe.

No islã, isso pode significar a luta interna de um indivíduo contra instintos básicos, o esforço para construir uma boa sociedade muçulmana ou uma guerra pela fé contra os infiéis. Os grupos wahabistas radicais acreditam que essa acepção é essencial para sobreviver. “O Estado Islâmico elevou esses conceitos a um novo patamar na modernidade”, afirma Bernard Haykel, de Princeton. “É espantoso o literalismo e a seriedade obsessiva que eles têm com estes textos.”A ideia de jihad do Estado Islâmico é levar o mundo ao apocalipse. Como defensores radicais do wahabismo, os membros do EI comprometem-se a purificar o mundo matando todos os que se desviarem da perfeição inicial do Alcorão – incluindo todos os muçulmanos não wahabitas. Aos não seguidores do islã estão reservadas a escravização ou a crucificação, modalidades de castigo previstas no Alcorão. Constituir o califado em um largo território e atrair os infiéis para o campo de batalha é parte desse projeto apocalíptico. O califado não é apenas uma entidade política, mas um veículo de salvação. Morrer sem prestar fidelidade é morrer ignorante (jahil), algo inaceitável. Depois que Abu Bakr al-Baghdadi se nomeou califa, em um sermão em Mossul, no Iraque, em julho de 2014, centenas de jihadistas aderiram ao EI. Segundo Jürgen Todenhöfer, um autor alemão que visitou territórios dominados pelo Estado Islâmico por um mês, em dezembro de 2014, “mais de 100 combatentes chegaram a um centro de recrutamento na fronteira da Turquia em dois dias”. Há inúmeros relatos que sugerem uma afluência de estrangeiros, prontos para desistir de tudo por um vislumbre do paraíso no Juízo Final.

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Para o mundo ocidental moderno, que não vive uma guerra religiosa desde o século XVI, essa distopia religiosa é incompreensível. Em dezembro de 2014, o jornal The New York Times publicou declarações confidenciais do major Michael K.

Nagata, o comandante de Operações Especiais dos Estados Unidos no Oriente Médio. “Não conseguimos derrotar a ideia por trás do Estado Islâmico”, disse. “Nem sequer conseguimos entender a ideia.

” Sem entender a ideia, será impossível evitar que milhares de jovens do mundo todo se unam à maior ameaça à civilização.

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Porque Movimentos Como O Estado Islâmico Consegue Atrair Muitos Jovens?Inforgráfico (Foto: Infografia/ÉPOCA)

Por que o ‘EI’ atrai cada vez mais mulheres? – BBC News Brasil

  • Frank Gardner
  • Analista para Assuntos de Segurança da BBC

Porque Movimentos Como O Estado Islâmico Consegue Atrair Muitos Jovens?

Crédito, Hand

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As adolescentes Kadiza Sultana, Amira Abase e Shamima Begum, que teriam se juntado ao “EI”

Funcionários da Casa Branca afirmaram à BBC que, ao contrário dos recentes anúncios, o número de cidadãos da Grã-Bretanha que emigraram para a Síria para viver sob as regras do grupo autodenominad “Estado Islâmico” atingiu seu auge dois anos atrás.

Entretanto, a proporção de mulheres entre aqueles que se juntam ao grupo extremista tem crescido dramaticamente. O que há por trás disso e qual é exatamente a estratégia do “EI” para atraí-las?

O grupo, também conhecido como “Isis”, adota duas atitudes diferentes com relação às mulheres.

Por um lado, mantémaquelas que considera hereges em condições quase subumanas e as trata como commodities para serem trocadas e oferecidas como prêmio para combatentes jihadistas.

Imagens chocantes de um mercado de escravas sexuais em Mosul, no Iraque, mostram militantes discutindo os preços a serem pagos por garotas yazidis capturadas no ano passado, muitas delas menores de idade.

Ao menos duas mil mulheres yazidis ainda estão detidas pelo grupo – apenas algumas delas conseguiram escapar.

“Eles nos colocaram à venda”, conta uma das mulheres, que escapou recentemente. “Muitos grupos de combatentes vieram para comprar. Nada que nós fizéssemos – chorar, implorar – fazia a menor diferença.”

Por outro lado, o “EI” tem grandes planos para as mulheres muçulmanas que migram para o território controlado pelo grupo para exercer um papel-chave na construção do pretenso califado.

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Grupo autodenominado “Estado Islâmico” quer atrair mulheres muçulmanas para tentar criar pretenso califado

“Eles querem que mulheres se juntem a eles”, afirma Katherine Brown, especialista em estudos islâmicos no King's College, de Londres. “Eles veem as mulheres como pilares do novo Estado e querem cidadãos.”

“É muito interessante que as pessoas falem do 'EI' com um culto à morte, mas isso é o oposto do que eles estão tentando criar. Eles querem criar um novo Estado… e querem muito, como parte de sua política utópica, a vinda de mulheres.”

Essa utopia inclui um tratado publicado em árabe em fevereiro estabelecendo um código de conduta que remonta a 1,4 mil anos atrás.

O texto é direcionado principalmente a mulheres árabes de países do Golfo e do Oriente Médio e inclui passagens que são incompreensíveis para a maioria dos ocidentais.

“É considerado legítimo para uma garota se casar aos 9 anos de idade. A maioria das garotas puras irão se casar aos 16 ou 17 anos, enquanto ainda são jovens e ativas”, afirma o tratado.

Ex-integrante da Al-Qaeda, Aimen Deen tem um profundo conhecimento da mentalidade jihadista. Segundo ele, a abordagem do “EI” para as mulheres é diferente daquela da Al-Qaeda ou do Talebã.

“Ao contrário da Al-Qaeda, o 'EI' procura estabelecer uma sociedade permanente, com raízes. Eles estão trazendo famílias de todo o mundo muçulmano, não só da Europa e dos Estados Unidos, mas também da Ásia Central… trazendo famílias para o 'Estado Islâmico'.”

Mensagens online de recrutamento são disparadas continuamente, em diferentes idiomas, dizendo a muçulmanos para abandonarem suas seguras, mas conflituosas vidas no Ocidente e se juntarem ao califado.

Os recados são ignorados pela grande maioria, mas há um número crescente de mulheres atendendo a esse chamado.

Crédito, Spencer Platt l Getty Images

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“EI” trata mulheres que considera “hereges” como subumanas, mas têm planos para muçulmanas

Algumas são como as garotas britânicas de Bethnal Green, no leste de Londres, que quiseram se tornar noivas jihadistas, ou seja, casar-se com combatentes que irão dar a elas algum status.

“Há um elemento romântico aqui”, continua Aimen Deen, antes de alertar que isso frequentemente acaba em tragédia.

“A expectativa de vida de um jihadista é de um mês ou dois. Então, o que acontecerá é que uma mulher irá se casar com alguém, ele morrerá e, por quatro meses e dez dias, ela ficará em luto”, diz.

“Se ela estiver grávida, isso leva ainda mais tempo. E então ela irá se casar com outro, que será mais um mártir. Seguem-se outros quatro meses de luto e ela irá reiniciar esse processo de novo.”

“Não é uma vida alegre, e, sim, extremamente infeliz.”

Porém, ao contrário do Talebã e da Al-Qaeda, o “Estado Islâmico” tem permitido que muitas de suas recrutas ocidentais tenham um proeminente papel nas redes sociais.

Possivelmente a mais conhecida delas seja Aqsa Mahmoud, de 20 anos, uma fugitiva de Glasgow, na Escócia, que se denomina Umm Laith.

Ela ficou famosa por distribuir conselhos – desde mundanos a filosóficos – para mulheres que pensam em abandonar suas famílias na Grã-Bretanha.

Crédito, Aamer Anwar and Co Solicitors

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Aqsa Mahmood fugiu da Escócia para casar-se com um combatente do “EI” e aconselha outras mulheres a fazer o mesmo

A norueguesa Mah-Rukh Ali, pesquisadora da Universidade de Oxford especializada em mulheres e propaganda no “EI”, acredita que há uma estratégia deliberada em dar a elas um papel de destaque na Internet.

“O 'Estado Islâmico' usa mulheres mais ativamente do que já vimos ocorrer no Talebã ou na Al-Qaeda”, diz.

“Há cerca de 100 mil tuítes pró-'EI' todos os dias, e muitos deles aparentemente são de mulheres que se juntaram ao 'Estado Islâmico' vindas de sociedades ocidentais.”

Pesquisadores afirmam que muitas dessas mulheres que atravessam a fronteira turca para chegar ao território controlado pelo 'EI' acabam frustradas com os papéis que lhe são atribuídos.

Mulheres não casadas são mantidas em uma casa segura, geralmente com outras que falam sua língua, e recebem doutrinação religiosa e aulas de árabe, enquanto um marido é encontrado para elas o mais rápido possível.

Qualquer ideia de participar de batalhas e empunhar uma Kalashnikov no fronte é logo frustrada. Mas algumas se juntam à brigada Khansaa, uma força de vigilância formada apenas por mulheres, que patrulha cidades como Raqqa e Mosul para reforçar as severas regras islâmicas.

“Elas têm sido conhecidas por executar punições severas, como espancar e chicotear alguém por não vestir as roupas certas”, afirma Katherine Brown.

Elas também são famosas por colocar armadilhas para animais nos seios de mulheres que foram vistas amamentando em público, segundo a especialista.

Porém, por trás da crueldade e das práticas chocantes que têm dado ao “EI” a má fama internacional, há o desconfortável fato de que seu pretenso califado não está desaparecendo.

Questionado sobre se o grupo vê as mulheres como essenciais para as chances de sobrevivência do grupo, o ex-jihadista Aimen Deen responde:

“Certamente, não há dúvidas disso. Elas são metade da sociedade e estão desempenhando importantes papéis em várias áreas: a médica, a educacional e até mesmo a coleta de impostos. Então, elas são essenciais para a sobrevivência do 'Estado Islâmico'.”

O mistério do Estado Islâmico

Ahmad Fadhil tinha 18 anos quando seu pai morreu, em 1984. Fotografias mostram um jovem relativamente baixinho, gorducho, de óculos grandes. Não era mau aluno – concluiu o ensino fundamental com nota boa –, mas decidiu abandonar os estudos.

Embora sua cidade natal, Zarqa, na Jordânia, oferecesse emprego em fábricas de roupas e artigos de couro, ele optou por trabalhar numa videolocadora, onde ganhou dinheiro suficiente para fazer algumas tatuagens.

Ingeria álcool, consumia drogas e se meteu em encrenca com a polícia. A mãe resolveu enviá-lo a um curso islâmico de autoajuda – ele ficou mais ajuizado e enveredou por um novo caminho.

Ao morrer, vinte e dois anos depois, Fadhil havia lançado as bases para um Estado islâmico independente com 8 milhões de pessoas, controlando um território maior que a própria Jordânia.

A ascensão de Ahmad Fadhil – ou Abu Musab al-Zarqawi, como mais tarde ficou conhecido na jihad – e do Estado Islâmico, ou EI, o movimento que fundou, permanece quase inexplicável.

O ano de 2003, durante o qual ele deu início às operações no Iraque, para muitos era apenas mais um, numa época marcada por novas empresas de internet e por um sistema de comércio global em lenta expansão – uma era banal, desprovida de qualquer forma de heroísmo.

A fronteira da Síria com o Iraque apresentava-se estável, apesar da invasão do Iraque liderada pelos Estados Unidos. O nacionalismo secular árabe parecia haver triunfado sobre as forças tribais e religiosas mais antigas.

Diferentes comunidades religiosas – yazidis, shabaks, cristãos, kakais, xiitas e sunitas – seguiam vivendo lado a lado, como vinham fazendo havia mil anos ou mais.

Iraquianos e sírios usufruíam de renda, educação, sistema de saúde e infraestrutura melhores, bem como de um futuro aparentemente mais promissor do que a maioria dos cidadãos do mundo em desenvolvimento. Quem, pois, teria imaginado que um grupo concebido por um funcionário de videolocadora do interior da Jordânia arrebataria um terço dos territórios da Síria e do Iraque, destruiria tantas instituições históricas e – após derrotar a coalizão de forças militares de uma dezena dos países mais ricos do mundo – criaria um mini-império?

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Narrar essa história é relativamente fácil, o difícil é compreendê-la. Ela começa em 1989, quando, inspirado por seu curso islâmico de autoajuda, Zarqawi partiu da Jordânia para “fazer a jihad” no Afeganistão.

Ao longo da década seguinte, ele lutou na guerra civil afegã, organizou ataques terroristas na Jordânia – onde passou anos numa prisão – e, com a ajuda da Al-Qaeda, voltou ao Afeganistão para montar um campo de treinamento em Herat, no oeste do país.

Foi expulso pela invasão de 2001, liderada pelos norte-americanos, mas o governo iraniano o ajudou a se reerguer. Então, em 2003 – auxiliado pelos legalistas pró-Saddam Hussein –, implantou uma rede de insurgentes no Iraque.

Com ataques aos xiitas e a seus templos mais sagrados, conseguiu transformar uma rebelião contra as tropas norte-americanas numa guerra civil entre xiitas e sunitas.

Zarqawi foi morto num ataque aéreo dos Estados Unidos em 2006.

Seu movimento, porém, por mais improvável que pudesse parecer, sobreviveu à gigantesca e repentina escalada das tropas norte-americanas no Iraque a partir de 2007: 170 mil homens a um custo de 100 bilhões de dólares ao ano.

Em 2011, após a saída dos americanos, o novo líder do movimento, Abu Bakr al-Baghdadi, tratou de expandi-lo Síria adentro e de restabelecer sua presença no noroeste do Iraque.

Em junho de 2014, o EI se apoderou de Mosul, a segunda maior cidade do Iraque, e, em maio de 2015, de Ramadi, também no Iraque, além da cidade síria de Palmira, ao passo que seus afiliados tomaram o aeroporto de Sirte, na Líbia. Hoje, trinta países, incluindo Nigéria, Líbia e Filipinas, abrigam grupos que se declaram parte do movimento.

A despeito de ter mudado de nome sete vezes, sob quatro líderes diferentes, o Estado Islâmico continua a tratar Zarqawi como seu fundador e a propagar grande parte de suas crenças originais e técnicas de terror.

O New York Times se refere ao movimento como “Estado Islâmico, também conhecido como ISIS [Islamic State of Iraq and Syria] ou ISIL [Islamic State of Iraq and the Levant]”.

Zarqawi também o chamava de “Exército do Levante”, “Monoteísmo e jihad”, “Al-Qaeda no Iraque” e “Shura dos Mujahidin”. (Ainda que conhecido pela sua capacidade de marketing, o EI raras vezes se importou com a coerência de sua marca.

) Vou simplificar as muitas alterações de nome e liderança e me referir a ele como EI, embora o movimento com certeza tenha se modificado ao longo de seus quinze anos de existência.

O problema não está em relatar seus êxitos, e sim em entender como algo tão improvável se tornou possível.

As explicações frequentes para a ascensão do EI – o ódio nas comunidades sunitas do Iraque,[1] o auxílio logístico prestado por outros Estados e grupos, as campanhas do movimento nas mídias sociais, sua liderança, as táticas, a gestão, o fluxo de receitas e a capacidade de atrair dezenas de milhares de combatentes estrangeiros – não bastam para formular uma teoria convincente que dê conta de tamanho êxito.

A britânica Emma Sky, que atuou como consultora no Iraque entre 2003 e 2010, escreveu The Unraveling: High Hopes and Missed Opportunities in Iraq [O Esclarecimento: Grandes Esperanças e Oportunidades Perdidas no Iraque], um relato matizado e muitas vezes divertido dos anos em que trabalhou no país, ilustrando o crescimento da raiva entre os sunitas. A autora mostra como as políticas norte-americanas, tais como a des-baathização[2] de 2003, promoveram a alienação dos sunitas, e como isso se exacerbou com as atrocidades cometidas por milícias xiitas em 2006 (diariamente, nas ruas de Bagdá, eram abandonados cinquenta corpos com o crânio perfurado por furadeiras elétricas). Sky também explica as medidas para reconquistar a confiança das comunidades sunitas durante o reforço das tropas americanas em 2007, e como o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, mais uma vez se afastou dessas mesmas comunidades após a desocupação em 2011, ao prender líderes sunitas e agir de forma discriminadora e brutal, dispersando suas milícias.

Contudo, muitos outros grupos insurgentes pareciam estar em melhor posição que o EI para se tornar o veículo dominante da “ira sunita”.

De início, os sunitas no Iraque tinham muito pouca simpatia pelo culto à morte promovido por Zarqawi e pela imposição, por parte de seu movimento, de códigos sociais semelhantes aos dos primórdios da Idade Média.

A maioria ficou horrorizada quando ele explodiu o quartel-general da ONU em Bagdá; quando divulgou uma gravação em que, pessoalmente, serrava a cabeça de um civil americano; quando mandou pelos ares o grande santuário xiita em Samarra e matou centenas de crianças iraquianas.

Depois que Zarqawi articulou três bombardeios simultâneos a hotéis jordanianos – matando sessenta civis numa festa de casamento –, os principais líderes de sua tribo jordaniana e seu próprio irmão assinaram uma carta pública de repúdio aos seus atos.

O jornal inglês The Guardian apenas dava eco a esse sentimento quando, no obituário de Zarqawi, concluiu: “Em última instância, sua brutalidade maculou toda e qualquer aura, ofereceu-nos pouco mais que niilismo e repugnou muçulmanos do mundo todo.” Outros grupos insurgentes pareciam mais eficazes.

Em 2003, por exemplo, baathistas seculares eram mais numerosos, estavam mais bem equipados e organizados e contavam com comandantes militares mais experientes; em 2009, a milícia Despertar Sunita– dispunha de mais recursos, e seu braço armado estava bem mais arraigado no cenário local.

Em 2011, o Exército Livre da Síria– incluindo ex-oficiais do regime de Bashar al-Assad– configurava-se uma liderança muito mais plausível para a resistência na Síria, assim como, em 2013, a milícia Jabhat al-Nusra, mais extremista.

No livro Estado Islâmico: Desvendando o Exército do Terror, o analista sírio Hassan Hassan e o jornalista americano Michael Weiss mostram que a Al-Nusra forjara vínculos bem mais estreitos com grupos tribais do leste da Síria, inclusive casando seus combatentes com mulheres dessas tribos.

Esses grupos já justificaram seus próprios colapsos e insucessos, assim como a ascensão do EI, atribuindo a culpa à falta de recursos.

O Exército Livre da Síria insiste há tempos que poderia ter suplantado o Estado Islâmico caso seus líderes tivessem recebido mais dinheiro e armas de Estados estrangeiros.

E os líderes da Despertar Sunita no Iraque argumentam que perderam o controle de suas comunidades apenas porque o governo de Bagdá parou de lhes pagar salário. Todavia, não há prova de que, no início, o EI tenha chegado a receber mais dinheiro e armas do que esses grupos – muito pelo contrário.

Hassan e Weiss sugerem que esse apoio inicial ao Estado Islâmico tenha sido em grande medida limitado porque o movimento era inspirado por ideólogos que, na verdade, também desprezavam Zarqawi e seus seguidores.

O dinheiro da Al-Qaeda que em 1999 lançou Zarqawi, por exemplo, seria “uma ninharia, se comparado ao que a Al-Qaeda era capaz de desembolsar”.

Bin Laden, filho de mãe xiita, tinha horror à matança de xiitas levada a cabo por Zarqawi, cujas tatuagens também lhe repugnavam – daí não ter destinado montante maior de recursos ao líder jordaniano.

Embora os iranianos lhe tenham concedido ajuda médica e refúgio seguro em 2002, quando Zarqawi era um fugitivo, ele logo perdeu a simpatia do Irã por ter enviado o próprio sogro, vestindo um colete suicida, para matar o aiatolá Mohammed Baqir al-Hakim, o principal representante político do país no Iraque, e por ter explodido um dos mais sagrados santuários xiitas. E embora o EI se fie há mais de uma década nas habilidades técnicas dos baathistas e do general sufista iraquiano Izzat al-Douri – que esteve no controle de uma milícia baathista clandestina depois da queda de Saddam Hussein –, essa relação se desgastou. (O movimento não faz segredo de seu desprezo pelo sufismo,[3] da destruição que promoveu de santuários sufistas ou de sua aversão a tudo que os nacionalistas seculares árabes baathistas defendem.)

A liderança do EI tampouco tem se mostrado especialmente simpática, magnânima ou competente – ainda que se deva dar algum desconto à compreensível repugnância dos biógrafos.

Zarqawi já foi descrito como “semiletrado”, “um valentão e um facínora, fabricante clandestino de bebidas e beberrão, e, segundo dizem, proxeneta” (Mary Anne Weaver); “um intelectual peso-pena” (Weiss e Hassan); um “facínora que virou terrorista”, “estudante medíocre que não era nada quando chegou ao Afeganistão” (Jessica Stern e J. M.

Berger); mentor de “operações grosseiras” na Jordânia e do emprego de “um infeliz como candidato a homem-bomba” (Weaver). Foi rejeitado por Bin Laden e seus seguidores porque “era um rufião metido a besta, sem quase nenhuma educação” (Stern e Berger).

Se os autores têm bem menos a dizer sobre o atual líder do EI, Al-Baghdadi, isso se deve ao fato de sua biografia, como admitem Weiss e Hassan, “ainda pairar não muito acima de conjecturas e rumores, muitos dos quais promovidos por concorrentes da jihad”.

A própria visão que o EI tem da insurgência – desde o controle de territórios até o combate a exércitos regulares – não representa nenhuma vantagem óbvia.

Lawrence da Arábia aconselhava insurgentes a ser como a névoa – estar por toda parte e em lugar nenhum – e a jamais se ater ao território conquistado ou desperdiçar vidas em batalhas contra exércitos regulares. O comandante Mao insistia que guerrilheiros deveriam ser peixes nadando no mar da população local.

Visões como essas são corolários lógicos da “guerra assimétrica”, em que um grupo menor e aparentemente mais fraco – como o EI – se defronta com um adversário poderoso, como as Forças Armadas norte-americanas e iraquianas.

Estudos do Exército dos Estados Unidos a respeito de mais de quarenta rebeliões históricas sugerem sistematicamente que insistir em manter terreno conquistado, engajar-se em batalhas ferozes e alienar-se da sensibilidade cultural e religiosa da população local são fatais.

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Mas são justamente táticas desse tipo que constituem a estratégia explícita do EI. Zarqawi perdeu milhares de combatentes na tentativa de manter Fallujah, em 2004, e desperdiçou as vidas de seus suicidas em ataques pequenos e constantes.

Além disso, ao impor castigos draconianos e códigos sociais obscurantistas, enfureceu as comunidades sunitas que dizia representar. Combatentes do EI deixam-se agora atrair pela capacidade do movimento de controlar território em lugares como Mosul.

Nada indica que essas táticas, embora sedutoras e até o momento associadas a uma campanha de sucesso, tenham se tornado menos arriscadas.

A postura do EI, no entanto, não se tornou menos temerária ou, do ponto de vista tático, menos bizarra desde a morte de Zarqawi.

O historiador norte-americano Larry Schweikart estima que, mesmo antes de 2006, quando os Estados Unidos começaram a enviar mais soldados ao Iraque, 40 mil insurgentes já haviam sido mortos; cerca de 200 mil, feridos; e 20 mil, capturados.

Por volta de junho de 2010, o general Ray Odierno declarou que 80% dos 42 líderes mais importantes do movimento haviam sido mortos ou capturados – apenas oito seguiam à solta.

Contudo, após a saída dos norte-americanos em 2011, em vez de reconstruir suas redes no Iraque, os combalidos remanescentes optaram por se lançar à invasão da Síria, enfrentando não apenas as forças do regime de Assad, mas também do bem estabelecido Exército Livre da Síria.

Além disso, atacaram os próprios militantes sírios do EI, cujo braço era a Jabhat al-Nusra, quando eles decidiram se separar do movimento; enfureceram a Al-Qaeda em 2014, matando seu principal emissário na região; provocaram, deliberadamente, dezenas de milhares de milicianos xiitas a se juntar à luta do lado do regime sírio e, depois, desafiaram a Força Quds[4] iraniana ao avançar rumo a Bagdá.

Em seguida, já em luta contra esses novos inimigos, em agosto de 2014 o movimento abriu outra frente de batalha ao atacar o Curdistão, provocando uma retaliação das forças curdas, até então alheias ao conflito.

Ainda em agosto o EI decapitou o jornalista americano James Foley e, no mês seguinte, o britânico David Haines, que prestava auxílio humanitário na Síria, o que atraiu a fúria dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Terminou 2014 com um assalto suicida a Kobane, na Síria, sob mais de 600 ataques aéreos dos americanos, resultando na perda de milhares de combatentes e nenhum terreno conquistado. Iniciou o ano de 2015 enfurecendo também o Japão ao pedir resgate de centenas de milhões de dólares por um refém já morto.

Assim, quando o EI perdeu Tikrit – a 170 quilômetros de Bagdá – em abril passado, e parecia estar em decadência, a explicação afigurava-se óbvia.

Os analistas estavam a ponto de concluir que o movimento tinha afinal perdido porque agia de forma temerária, repugnante, demasiado ampla, lutando em diversas frentes e sem nenhum apoio popular real, não só incapaz de transformar o terrorismo num programa popular como fadado a ser inevitavelmente derrotado por exércitos regulares.

Mas alguns analistas concentraram seus argumentos não na estratégia militar aparentemente contraproducente do movimento, e sim em sua gestão e recursos financeiros, no eventual apoio recebido da população e na confiança em dezenas de milhares de combatentes estrangeiros.

Em seu blog, Aymenn Jawad al-Tamimi, do centro norte-americano de estudos e pesquisas Middle East Forum, explicou recentemente que em algumas cidades ocupadas, como Raqqa, na Síria, o EI criou complexas estruturas de serviços públicos, controlando inclusive o sistema de esgoto.

Al-Tamimi também descreve os proveitos que o movimento obtém da renda local, dos impostos prediais e territoriais e do aluguel de ex-escritórios estatais para empresários, o que lhe conferiu uma base de rendimentos ampla e confiável, apenas complementada pelo contrabando de petróleo e a pilhagem de antiguidades.

O poder do EI viu-se reforçado pelo assombroso arsenal tomado dos exércitos iraquiano e sírio em fuga, o que inclui tanques, Humvees e grandes peças de artilharia.

Ao longo dos últimos doze meses, relatos do New York Times, do Wall Street Journal, da Reuters e da Vice News vêm mostrando que muitos sunitas no Iraque e na Síria têm a percepção de que hoje o EI é a única garantia de ordem e segurança em meio à guerra civil, bem como sua única defesa contra um revide brutal por parte dos governos de Damasco e Bagdá.

Também aí, porém, os sinais são confusos e contraditórios. Um documentário da BBC sobre Mosul – realizado pela jornalista australiana de origem afegã Yalda Hakim – imputa à brutalidade acachapante o segredo da dominação do EI.

Por outro lado, Malise Ruthven, acadêmico e jornalista anglo-irlandês, o descreve como “uma organização bem gerida, que combina eficiência burocrática e expertise militar com um uso sofisticado da tecnologia da informação”.

Autor de um excelente relato sobre Tikrit, o ex-conselheiro da ONU Zaid al-Ali menciona a “incapacidade de governar” do EI, o colapso total do abastecimento de água e eletricidade, do sistema educacional e, em última instância, da população subjugada. “Explicações” com base em recursos financeiros e poder tendem a ser tautológicas.

O fato de o EI ser capaz de atrair o aparente apoio (ou a aquiescência) da população local e de controlar territórios, receita governamental, petróleo, monumentos históricos e bases militares resulta do sucesso do movimento e de seu monopólio da insurgência. Não é, portanto, causa, e sim consequência.

Conheça as estratégias do Estado Islâmico para atrair mulheres

O avanço do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, a partir do ano passado, causou temor em seus vizinhos e em todo o mundo pela rapidez com que conquistou territórios e estabeleceu um califado onde governa a partir da sharia –o código moral islâmico, interpretado de maneira radical pelo grupo. Quem desrespeita as leis, como aqueles que fumam cigarro, por exemplo, estão sujeitos a punições severas, como a pena de morte.

“Infiéis” e inimigos do regime liderado por Abu Bakr al-Baghdad –apontado como sucessor de Maomé e a quem o EI exige devoção– são assassinados de maneira brutal. Os vídeos são divulgados pelo próprio grupo na internet como alerta para o mundo ocidental e propaganda para aqueles que, de alguma maneira, se sentem atraídos pela violência e intransigência dos terroristas.

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O islamismo praticado no EI é interpretado como hostil às mulheres, de inteira submissão aos maridos e também aos líderes do próprio grupo terrorista, que muitas vezes determinam quando e com quais guerrilheiros elas devem se casar, de acordo com relatos de pessoas que escaparam da milícia. Denúncias de tortura, estupro e emprisionamento das mulheres também vieram à tona.

Apesar disso, o número de dissidentes ocidentais que se juntam ao grupo aumentou bastante nos últimos anos –em torno de 3.

400, de acordo com autoridades do Exército americano, em balanço de fevereiro.

E cerca de 550 mulheres, segundo levantamento da consultoria de segurança The Soufan Group, com sede nos Estados Unidos e no Reino Unido, engrossam o exército dos terroristas na Síria e no Iraque.

O UOL coletou informações de estudos e opiniões de especialistas, divulgadas em entrevistas ou em artigos à imprensa, para explicar as razões e circunstâncias que levam algumas mulheres a escolher o caminho do extremismo.

Estratégias diferentes para recrutamento

Imagem: Reprodução/Quilliam Foundation

Dentro de sua estrutura de recrutamento de estrangeiros, o Estado Islâmico possui diferentes estratégias para atrair as mulheres. Em um manifesto produzido em árabe pelo grupo de militantes femininas do EI, o Al-Khansa Brigade –que foi traduzido para o inglês pelo Quilliam Foundation, uma organização britânica de contraterrorismo–, são ressaltados aspectos mais religiosos e apelativos a mulheres da Árábia Saudita e outros países predominantemente islâmicos da região.

O foco do manifesto está em mostrar à mulher muçulmana que ela precisa servir apenas à religião, com uma vida mais sedentária, limitada ao próprio lar.

Sua formação educacional seria restrita até os 15 anos, e ela estaria pronta para casar, segundo o manifesto, a partir dos nove anos.

O ensinamento científico, com exceção da medicina, é inteiramente rejeitado, assim como o comportamento feminino no mundo ocidental.

No entanto, a abordagem às adolescentes ocidentais, de formação originalmente muçulmana ou convertidas ao Islã, é diferente. Menos próximas culturalmente do radicalismo religioso de países do Oriente Médio, elas são atraídas por outra estratégia, focada em explorar a imagem dos combatentes, futuros maridos das recrutadas, vistos como mártires que entregam a própria vida por uma causa maior.

Em busca de aproximar mulheres que queiram participar efetivamente do conflito armado, o grupo até sinaliza que elas podem fazer parte do exército –fotos de mulheres com metralhadoras aparecem eventualmente em postagens nos perfis ligados ao grupo nas redes sociais.

Apesar disso, a presença delas na linha de batalha não condiz com os dogmas do Estado Islâmico.

No manifesto da Al-Khansa Brigade, por exemplo, é ressaltado que as mulheres só ingressam na luta armada em caso de “extrema necessidade”, como a falta de homens para combater. No dia a dia, elas devem se restringir à vida familiar e à devoção religiosa.

“As fotos das garotas com metralhadoras definitivamente miram as jovens ocidentais”, diz Charlie Winter, do Quilliam Foundation, em entrevista ao UOL.

A publicação de imagens de comidas típicas do mundo ocidental e de gatos de estimação nas casas de militantes também contribui para se conectar com adolescentes que têm receio da privação completa em relação ao ambiente onde vivem hoje.

Aposta em ingenuidade e idolatria

Aqsa Mahmood

Imagem: Reprodução A estratégia online possui recrutadores específicos, como Aqsa Mahmood

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