Porque Freud Abandonou A Hipnose Como Técnica Terapêutica?

Porque Freud Abandonou A Hipnose Como Técnica Terapêutica?

Desabafo não é tratamento. Foi por se dar conta disso que Freud abandonou o método catártico. Lucas, mas o que é esse tal de método catártico de que você fala?

Vamos lá: no final do século XIX, Freud, um jovem neurologista que desejava ser pesquisador universitário, começou (meio a contragosto) a atender pacientes com o objetivo de fazer algum dinheiro. Com efeito, o pobre rapaz queria desposar sua amada Martha Bernays.

Um amigo e colega mais experiente chamado Josef Breuer, cuja clínica já era bastante reconhecida e bem-sucedida na Viena dos anos 1890, vinha experimentando um novo método de tratamento da histeria, baseado na aplicação da famigerada técnica da hipnose.

O tal método consistia em hipnotizar o paciente histérico e, durante esse estado de consciência rebaixada, exortar o doente a se lembrar e relatar as ocasiões exatas em que seus sintomas haviam aparecido.

Quando o paciente conseguia fazer isso, o resultado era uma explosão emocional, indicando que a narrativa dos episódios que estavam na origem dos sintomas possibilitava a DESCARGA de sentimentos que estavam represados na mente do paciente.

Não por acaso, após tais relatos acompanhados desses arrebatamentos emocionais, o paciente se via livre do sintoma que estava sendo investigado.

Eis, portanto, o método catártico. Esse termo foi cunhado por Breuer e Freud tomando como referência o termo “catarse”, de origem grega (“kátharsis”) e que designa a ideia de purificação ou purgação. Num sentido metafórico, o método inventado por Breuer levava o paciente a se “limpar” das “sujeiras” emocionais que ele vinha inconscientemente guardando.

Influenciado por Breuer, Freud inicialmente também experimenta o método catártico com seus pacientes histéricos e conquista muitos êxitos.

Contudo, por não se considerar um hipnotizador muito bom e, principalmente, por se dar conta de que as melhoras obtidas por seus pacientes não se mantinham com o passar do tempo, o fundador da Psicanálise decide abandonar tanto a hipnose quanto o método criado por Breuer.

Freud se dá conta de que o método catártico possibilita que o paciente “coloque para fora” os sentimentos que lá atrás haviam sido sufocados, mas não ajuda o paciente a discernir os motivos pelos quais essa repressão havia acontecido. É por isso que a pessoa voltava a adoecer: com efeito, diante de novos desafios emocionais, o paciente voltava a utilizar a mesma estratégia defensiva do passado que havia dado origem aos antigos sintomas.

Além disso, Freud percebe também que não era necessário hipnotizar o doente para ter acesso à dimensão inconsciente da psique dele. Bastava exortar o paciente a falar de forma espontânea tudo o que lhe viesse à cabeça. É essa nova técnica, a associação livre, que estará na base do novo método terapêutico, desta feita inventado por Freud, denominado Psicanálise.

Freud, Charcot e a Hipnose na paciente Emmy

Muito se fala da ligação entre Freud e Charcot e entre eles e a Hipnose.

Para alguns, mais parece que a relação entre Freud e Charcot foi extremamente mal acabada e com fatídicas contradições.

Em algumas análises literárias, chega-se a personificar a hipnose como se tivesse havido uma separação digna das intensas batalhas judiciais muitas vezes verificadas nos dias atuais.

Vamos aprofundar este tema no presente artigo. Um foco especial será dado ao famoso caso da paciente Emmy, abordado por Freud em sua obra teórica. Será que, ao longo de sua trajetória, Freud abandonou a hipnose, definitivamente?

Freud não abandonou a hipnose

Segundo Peter Gay (1989), as sessões com a paciente Emmy permitiram a Freud ver que a hipnose era de fato “inútil e sem sentido”. Uma afirmação questionável, ainda mais quando se observa o trabalho desenvolvido por Charcot, Breuer e etc.

Apesar de ainda persistir esta visão para algumas pessoas e do reforço por muitos de que a hipnose foi abandonada pela supremacia imperiosa da livre associação, há que se ponderar não só a importância da hipnose para o desenvolvimento da psicanálise.

O trabalho desenvolvido por Freud e Charcot

É preciso também entender que talvez tenha se tratado de uma separação muito mais amigável do que parece.
Na verdade, em uma análise mesmo que superficial dos trabalhos desenvolvidos por Freud e Charcot, é possível perceber que a hipnose teve um papel importantíssimo para Freud.

A experiência prevalece sobre a autoridade

As contestações sobre a eficácia da hipnose simplesmente com base em empirismos e com a mera argumentação de que esta foi “abandonada” por Freud merecem como resposta as próprias palavras do Pai da Psicanálise.

Porque Freud Abandonou A Hipnose Como Técnica Terapêutica?

Freud afirmou: “Em questões científicas, é sempre a experiência e nunca a autoridade, que dá o veredicto final, seja contra ou a favor”. Com estas palavras Freud defendia a hipnose daqueles que a condenavam sem nunca tê-la experimentado na clínica.

A preferência de Freud pela rememoração

Ao se analisar o próprio processo de construção para o início da utilização da livre associação, percebe-se que desde o início Freud demonstra uma preferência pela rememoração, em contraposição ao processo de sugestão, relacionado com a terapia sugestiva.

Tal preferência é ainda mais intensificada quando o pai da psicanálise começa a perceber com mais clareza a dinâmica do recalque na formação do inconsciente da histeria e a articulação dos sintomas a partir desta formação.

A transição do uso da hipnose pelo uso da livre associação de ideias

Posteriormente, Freud percebe que as reminiscências traumáticas, resultados da realidade psíquica do paciente e não da realidade em si. Essas reminiscências poderiam ser recordadas sem hipnose, através da associação livre dos pensamentos.

Percebe-se assim, uma transição em que não parece caber valoração qualitativa. Trata-se sim de uma adaptação ao seu perfil na busca da técnica mais adequada e efetiva para ele.

Uma análise do tempo em que Freud e Charcot trabalhavam juntos

Ainda sobre a relação de Freud com a hipnose, há quem afirme que Freud deixou a ferramenta por não ser um bom hipnotista. Entretanto, há mais um ponto final, que merece ser tratado com reticências. Freud e Charcot trabalharam juntos e Charcot chegou a afirmar que era um de seus melhores alunos.

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Mas é certo que fatores externos, como o uso exagerado de charutos que culminaram em problemas na voz e até mesmo o fato de só ter dois ternos, três mudas de roupa interior e três pares de sapatos, podem ter prejudicado o uso da ferramenta por Freud.

O insucesso de Freud com o hipnotismo

Afirma Weissmann (1958) que “talvez Freud tivesse dificuldades para hipnotizar; é possível que lhe faltasse a qualidade de um bom hipnotista e, isso também teria contribuído para ele abandonar o método da hipnose”.

De fato, Freud afirma “Quando constatei que, apesar de todos os meus esforços, só conseguia colocar em estado de hipnose uma pequena parcela de meus doentes, decidi abandonar esse método” (Freud apud Chertok, 1990).

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A busca de Freud por novos caminhos

Mas o objetivo fundamental aqui é demonstrar que a hipnose, não padeceu de uma sensação de abandono, mas de uma satisfação pela sua contribuição para que Freud buscasse novos caminhos, adequados ao seu perfil.

Diga-se, do mesmo modo que Jung faria em momento futuro, sem, por isso, desvalorizar a psicanálise freudiana.

Contextualizando as descobertas de Freud na época em que ele vivia

Agregado a tudo que já foi apresentado, há que se contextualizar as descobertas de Freud ao meio social em que ele vivia.

Imagine, no início do século XX, surgir um “cidadão” falando em inconsciente e se manifestando no sentido de que toda aquela história de “movimento de útero” relacionado com a histeria não era real (ideia essa que já encontrava outros defensores).

A medicina tradicional e as novas técnicas terapêuticas

Somando-se a isso, apresenta-se a “cura pela fala”, mais uma inovação para uma medicina extremamente arraigada ao conceito tradicional de ciência. Era, sem dúvida, muita novidade para aquele momento.

Agora, imagine acrescentar a todo o exposto a hipnose, que até os dias atuais carrega um certo misticismo e é desacreditada por muitos.

O reconhecimento da hipnose por Freud

Será que não seria a faísca a deflagrar a pólvora que impediria Freud de exteriorizar ao mundo sua genialidade e a teoria psicanalítica?

A resposta para a pergunta acima não é simples, mas é certo que próximo do fim de sua pesquisa, Freud reconhece a utilidade da hipnose, porém afirma rejeitar o hipnotismo e a hipnoanálise como método terapêutico, devido ao insucesso de colocar seus pacientes em transe.

Freud não abandonou a hipnose

Freud não relacionou a rejeição por parte da classe médica e do meio acadêmico sobre a eficácia dessa técnica com a desistência da hipnose. O próprio meio sugeria esse “abandono” para que a psicanálise pudesse se desenvolver com mais força.

Diante de todo o exposto, fica fácil perceber que qualquer tentativa de minimizar a hipnose com a argumentação de que Freud a “abandonou”, só demonstra um desconhecimento a respeito da própria história da psicanálise e das origens do método da livre associação.

Autor: Pedro Ivo, exclusivo para o blog Psicanálise Clínica.

Por que Freud abandonou a hipnose?

Porque Freud Abandonou A Hipnose Como Técnica Terapêutica?

Já experimentou falar com algum estudante de psicologia (e infelizmente até mesmo alguns profissionais formados) sobre hipnose? Provavelmente você vai ouvir deles que “isso é bobagem”, “hipnose não existe” ou algo do tipo. E se você perguntar os motivos para eles acharem isso, a resposta certamente será: “Freud abandonou a hipnose e disse que hipnose não existe!”… bla bla bla

Este fato (que aconteceu há mais de 100 anos atrás) ficou marcado na história da hipnose como talvez a maior chance que ela perdeu de entrar para a história como terapia, como parte fundamental da psicanálise.

Mas este post não é para lamentar o passado… pelo contrário.

O objetivo é mostrar o que realmente aconteceu quando Freud publicamente abandonou a hipnose, que era a base dos seus tratamentos no que hoje conhecemos como a Psicanálise.

Freud abandonou a hipnose?

Comecemos pelo começo. É verdade que Freud abandonou a hipnose? Sim!

Existem registros de quando o pai da psicanálise disse ter deixado de lado a hipnose e preferido outros caminhos para seus métodos analíticos. Freud realmente disse  que a hipnose não seria mais a base dos seus estudos e ele inclusive deu alguns motivos para isso:

  1. “Eu não sou um bom hipnotista” – Freud alegava não ter sucesso considerável em levar pessoas ao transe. Isso pode ter acontecido por alguns motivos. O  primeiro é que os métodos da época eram mais limitados de fato. Sabia-se pouco do fenômeno do transe e de como colocar pessoas em transe. Certamente que se ele dominasse as técnicas que existem hoje, seus resultados com hipnose teriam sido totalmente diferentes. Outra possibilidade para seus resultados não satisfatórios seria sua voz. Freud era fumante compulsivo de charutos e isso inclusive foi a causa da sua morte. Sua voz era pigarreada, o cheiro de charuto devia ser constante e quando ele teve câncer na boca, provavelmente o cheiro era insuportável. Então, imagina você sendo guiado ao transe com um baita cheiro de charuto e por uma voz desagradável de ser ouvida?! Fato é que Freud sabia que tinha limitações na técnica e disse isso publicamente como uma das “justificativas” para descartar a hipnose. Não era culpa da técnica, mas de quem a usava.
  2. “A hipnose é uma técnica analgésica” – Freud disse que a hipnose não tratava nada, só mascarava sintomas ou dava um alivio analgésico ao paciente. Provavelmente ele estava certo. Na sua época, pouco se sabia sobre ressignificação, as técnicas que hoje sabemos serem as responsáveis pela mudança de perspectiva do cliente em relação ao seu problema e às elaborações que, de fato, trazem resultados em uma análise ou terapia (seja ela qual for). Com certeza, sem ressignificação a hipnose não traria resultados duradouros, assim como nenhuma terapia sem ressignificação o faz. Mas isso não é culpa da técnica e sim de como ela é aplicada. Em mais de 100 anos muita coisa mudou e ao meu ver, negar a evolução da hipnoterapia é no mínio ingenuidade.
  3. “O cliente fica dependente da hipnose” – Por conta do motivo anterior, o cliente precisaria voltar constantemente para a terapia se quisesse se sentir bem. Ele também tinha razão em pensar isso, pois se você não muda a forma do cliente enxergar seus problemas, ele vai voltar sempre. Só que mais uma vez, isso não é culpa da técnica e sim de como ela é aplicada. Mesmo na psicanálise ou em qualquer outra linha teórica da psicologia, se o terapeuta não consegue ressignificar ou fazer o cliente elaborar sobre seu problema, a terapia vai se estender pra todo o sempre e nenhum resultado considerável será alcançado.
  4. “A hipnose colocaria a mente do sujeito sob total controle do Hipnotista”– Aqui temos talvez o único erro completo de Freud. Em todas as suas  razões para abandonar a hipnose o pai da psicanálise até tem razão para o contexto da sua época, mas neste aqui ele errou grande! A hipnose não tem nada a vez com controle mental. Sabemos que as sugestões que são dadas em transe podem ou não serem aceitas pelo sujeito e tudo isso depende: (1) da sua vontade; (2) do contexto; (3) dos mapas mentais e crenças do sujeito. Sabemos que por mais profundo que seja o transe, o senso crítico, ou fator crítico nunca está 100% ultrapassado e desta forma o cliente sempre tem poder de escolha. É justamente por isso que na terapia com hipnose, assim como em qualquer outro processo terapêutico, o cliente precisa querer muar para que algo aconteça. Não existe mágica!
  5. “A hipnose atrapalha o processo de transferência e contratransferência”– Estes dois termos são fundamentais no processo de análise. Trata-se de um fenômeno natural quando temos um analista fazendo um bom trabalho com seu cliente. Na verdade, a transferência seria necessária em qualquer processo bem sucedido de análise. O que Freud dizia é que a hipnose cria um Rapport (uma conexão) tão profunda entre cliente e Hipnotista que a transferência e contratransferência – que deveriam ser processos naturais – seriam intensificadas e isso atrapalharia o processo de análise. Mais uma vez o cara tava certo… em partes. Sim a hipnose cria rapport e conexão extremamente profundos. Mas isso não é necessariamente ruim. Se bem conduzido, os elementos que tornam a hipnose perigosa para as transferências podem ser minimizados ao ponto de não mais atrapalhar, mas pelo contrário, tornar a hipnose um catalisador no processo de análise.
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Freud estava certo ou errado?

Não existe certo e errado nisso. Ele teve seus motivos para abrir mão da hipnose e na nossa opinião o maior deles não foi publicamente listado. Freud precisava emplacar uma teoria que não era bem vista no mundo acadêmico e que usava uma técnica com grande carga mística. Para ter mais credibilidade, Freud tinha que se desvincular da hipnose e do que ela representava no mundo científico.

Alguns fatores nos leva a pensar que esta foi uma jogada também política. Primeiro porque as razões que Freud lista, não são por si só definitivas para uma decisão destas, mesmo porque, mostramos que todas elas são corretas em partes, ou seja, poderiam ser revertidas facilmente.

Segundo porque em vários registros das sessões que Freud fazia, ele descreve técnicas utilizadas por ele que são técnicas de hipnose… pura e simplesmente técnicas de transe e sugestão direta.

Terceiro porque a mesma pessoa que publicamente abandonou a hipnose disse o seguinte:  “Tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da fantasia. . . ”

Quer entender melhor tudo isso? Veja a série de 4 vídeos que preparamos sobre os motivos que levaram Freud a abandonar a hipnose!

O que é a associação livre? – A mente é maravilhosa

A associação livre é uma ferramenta da psicanálise criada pelo próprio pai deste campo clínico, Sigmund Freud. Consiste em convidar o paciente a expressar tudo aquilo que passe pela sua mente durante uma sessão de terapia. A intenção é que haja o menor número de filtros possível ou de preconceito entre o que o paciente pensa e o que ele diz ao terapeuta.

A associação livre tem seus fundamentos teóricos, assim como toda uma técnica. Há formas específicas de aplicação e também objetivos. É a técnica primordial da psicanálise utilizada em diversos contextos. Um deles é a aplicação de testes projetivos, como o teste de Rorschach e o teste de apercepção temática (TAT).

História da associação livre

Sigmund Freud desenvolveu e foi aperfeiçoando esse conceito ao longo do tempo. Isso se deu entre os anos de 1892 e 1898. Freud foi substituindo progressivamente o método da hipnose e o método catártico – que utilizava no início – pela associação livre. Essa evolução foi motivada por um objetivo muito concreto: evitar que o paciente fosse sugestionado.

A partir de uma intervenção com uma de suas pacientes, a senhora Emmy Von N, em 1982, Freud começou a criar o método da associação livre. Essa paciente pediu diretamente a Freud que ele parasse de intervir em seu discurso, e que a deixasse falar livremente.

Posteriormente, em sua obra “O método psicanalítico” de 1904, Freud explica as razões pelas quais teria abandonado a hipnose. A partir dos trabalhos de Breuer, outro psicanalista, Freud se dá conta de que a hipnose produzia resultados apenas parciais e transitórios.

Ao contrário, o método da associação livre suprimia as resistências do paciente. Desse modo, o acesso ao material inconsciente, como as lembranças, afetos e e representações, era muito mais confiável.

Além disso, os efeitos alcançados pela associação livre eram permanentes, com a vantagem de não colocar ninguém sob efeito da hipnose. Dessa forma, o método catártico e hipnótico foi definitivamente substituído pela associação livre.

Esta se converteu na regra fundamental e meio privilegiado de acesso e investigação do inconsciente.

Fundamentos teóricos da associação livre

Quando uma pessoa fala, ela faz uma seleção das palavra que quer utilizar para criar um sentido coerente com a mensagem que pretende compartilhar.

Apesar desse processo de seleção, que é mais ou menos rápido, costumam aparecer falhas na linguagem. Alguns exemplos são os lapsos de linguagem, esquecimentos, repetições, etc.

Estas falhas nas conversas fora do contexto terapêutico não costumam ser analisadas. No contexto analítico, porém, elas têm enorme importância.

“O inconsciente está estruturado como uma linguagem.”
-Jaques Lacan-

Precisamente, no contexto analítico essas falhas são entendidas como uma manifestação do inconsciente. É como se, de algum modo, o conteúdo ultrapassasse a barreira defensiva do inconsciente da pessoa. Algo parecido acontece com a associação livre.

O paciente, ao se ver liberado pelo terapeuta de qualquer controle, de necessidade de disciplina e de dar um sentido lógico a suas ideias, cai no cenário perfeito para se deixar levar pelo inconsciente. Este adquire força, chega à mente, e se expressa na linguagem. A barreira defensiva, as resistências, são enfraquecidas, e é possível então ter acesso ao conteúdo inconsciente.

“A voz do inconsciente é sutil, mas nunca deixa de ser ouvida.”
-Sigmund Freud-

Para Freud, expor as resistências e então analisá-las é completamente essencial para alcançar o inconsciente e a cura. Isso só acontece por meio da associação livre.

Junto à associação livre, a interpretação dos sonhos e a análise de outros atos falhos são as três técnicas essenciais da clínica analítica. Sendo assim, a associação livre se torna imprescindível, tanto que para Freud é a técnica que mais identifica a psicanálise.

É a técnica que a diferencia de forma mais marcante de outras abordagens terapêuticas.

Como acontece a associação livre?

A associação livre pode surgir espontaneamente ou ser induzida a partir de um sonho, fantasia ou qualquer outro pensamento. Para que ela ocorra, no entanto, e para que realmente se configure como uma associação livre, são necessárias algumas condições.

Uma delas é que haja uma confiança na relação com o analista. Na psicanálise, essa confiança é chamada de transferência. Outra condição é que se tenha compreendido que o discurso analítico está em um lugar diferente do que uma simples conversa habitual fora do contexto da consulta. Nada do que é dito numa sessão será julgado, nada está certo ou errado. Tudo que é falado é válido.

No momento em que o paciente se deixa levar por seus pensamentos e consegue expressá-los abertamente com seu analista, o inconsciente se expressa.

As representações inconscientes afloram, são permitidas, e podem então ser analisadas, interpretadas e trabalhadas. Obtendo acesso ao material inconsciente, é possível elaborá-lo de maneira consciente.

O objetivo dessa elaboração é que o conteúdo deixe de ser uma fonte de mal-estar ou de conflito.

“Há em todo ser humano desejos que não querem ser comunicados aos outros, e desejos que não querem nem confessar sua existência.”
-Sigmund Freud-

Como facilitar a associação livre?

Podemos concluir que a associação livre surgirá com mais facilidade se o paciente se sente cômodo tanto no espaço analítico quanto com seu analista. Deve haver também a menor estimulação possível pelo ambiente que o rodeia.

Classicamente, usa-se o divã para tanto.

Nele, o paciente se encosta e o analista fica fora de seu campo de visão, evitando assim que o paciente se sinta observado, julgado, e possa então se concentrar completamente em suas associações.

O enunciado que o analista dá para o paciente é muito simples. Por exemplo: “diga qualquer coisa”. Ou: “diga tudo o que surgir na sua mente, como uma imagem ou qualquer lembrança que se apresente”.

A partir daí, o paciente tem absoluta liberdade para expressar tudo aquilo que passe por sua mente. Ele não deve se preocupar em fazer um discurso elaborado ou em agradar seu analista.

Finalmente, a prática de uma boa associação livre permitirá uma análise que renda muitos frutos e, em última instância, uma melhora subjetiva do estado do paciente.

Por que a hipnose foi abandonada?

Com a hipnose, alcançava-se sim o material inconsciente. O problema era que, na maioria das vezes, quando o paciente saía do estado hipnótico, ele não se lembrava conscientemente do que havia dito. Desse modo, voltavam para o jogo de resistências. O resultado era a palavra do analista contra a palavra do paciente, criando assim um embate.

Por outro lado, como a associação livre acontecia em um estado de plena consciência, esse embate não era criado. Não restava opção ao paciente senão incorporar o falado e tentar lidar com aquilo que havia dito e que chamou a atenção do analista.

Sob o estado hipnótico o material inconsciente era acessado, mas novamente reprimido após o término da hipnose, e o paciente poderia duvidar do analista. Com a resistência novamente agindo, isso provavelmente aconteceria. Isso dificultava muito o trabalho do analista e colocava a transferência entre o paciente e o terapeuta em perigo.

POR QUE FREUD ABANDONOU A HIPNOSE?

Freud iniciou sua jornada na psicanálise utilizando a técnica da hipnose. À medida em que foi aplicando a hipnose, foi se deparando com algumas dificuldades: alguns pacientes não eram hipnotizáveis.

Algumas pessoas simplesmente não se deixavam ser hipnotizadas. Já em outros casos, o paciente vinha de uma série de sessões sendo submetido à hipnose, porém, um belo dia, não era mais hipnotizado.

Freud assim se depara com o fenômeno da RESISTÊNCIA.

A resistência é um mecanismo inconsciente de defesa que nos faz evitar contato com determinados conteúdos psíquicos, certos pensamentos e sentimentos.

É o que nos faz resistir, em primeiro lugar, a procurar uma análise: resistimos ao máximo! Um sujeito só procura uma análise quando está sofrendo MUITO, de forma insuportável.

Porque num geral, é mais fácil nos acomodarmos e seguirmos a vida, evitando certas questões – fugindo de nós mesmos.

É a resistência que faz com que o sujeito inicie uma análise e não dê continuidade… criam-se diversos obstáculos: “hoje não tenho o que dizer…” (nunca entendi esse. Eu sempre tenho tanta coisa para dizer!), “estou sem dinheiro”, “preciso me resolver sozinho”, “não gostei dessa psicóloga”, e por aí vai…

É também a resistência que faz com que, mesmo num processo já estabelecido de tratamento, certos pensamentos e recordações surjam aos poucos para o sujeito (coisas nas quais ele não pensava há muito tempo!) Ou seja, a resistência é um mecanismo natural que atua em nome da defesa, para nos preservar da dor de termos contato com assuntos que nos magoam.

Resistimos também porque mudar causa transtorno. É mais prático seguir a vida no automático. Dá trabalho perceber que o namoro, o casamento, ou o emprego não vão bem, e concluir que é preciso fazer alguma coisa! A resistência é uma ajuda que atrapalha. Ela visa nossa proteção, mas acaba pecando pelo excesso. O que acontece é que, por muito resistir, continuamos paralisados.

Enfim, o fato foi que Freud se deparou com a resistência em seus pacientes, resistência em serem submetidos à hipnose. E, para superar essa dificuldade, ele criou o método da associação livre.

Ele manteve o divã, onde o paciente ficava deitado para ser hipnotizado, e passou a falar para os pacientes: fale o que vier à sua cabeça, sem censura ou pudor. Freud nos ensina que a associação livre é a regra de ouro da psicanálise.

Existem outras orientações teóricas e técnicas, mas não existem outras regras para o tratamento analítico.

Regra significa algo rígido; ou seja, a gente vai adaptando a teoria de acordo com cada paciente – lembrando que não se trata de auto-ajuda; a psicanálise é uma teoria complexa e que demanda muito estudo teórico. O que aprendemos, todavia, é que a teoria não pode ser aplicada nesse formato de regra para todos os pacientes, de forma engessada. A única regra da qual Freud não abre mão é a associação livre.

A hipnose diminui a resistência dos pacientes, de modo que o conteúdo inconsciente se torna acessível. O que Freud observa é que com a técnica da associação livre também se torna possível acessar o inconsciente, porém, de uma forma mais lenta.

Essa demora se torna vantajosa porque poder quebrar a resistência de modo “espontâneo”, sem a indução hipnótica, já é um avanço no tratamento: o sujeito se recordar de coisas das quais ele não lembrava é algo significativo! Além disso, pelo fato das recordações irem ocorrendo aos poucos, o sujeito pode ir processando as coisas de forma gradual.

Vão ocorrendo recordações e “insights” – a isso Freud chama de ELABORAÇÃO: dar um novo sentido para questões antigas.

Para finalizar, gostaria de esclarecer que a hipnose é reconhecida como terapia auxiliar, desde que praticada por profissionais capacitados. É usada em outras profissões, tais como odontologia, para tratamento da dor.

Dentro da psicologia, é utilizada pela corrente teórica ericksoniana. Ou seja, ela continua existindo e é reconhecida.

Mas hipnose não é mais utilizada pelos analistas freudianos e lacanianos, pelos motivos que discorri acima.

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