Porque D Sebastião Também Foi Conhecido Como O Desejado?

Porque D Sebastião Também Foi Conhecido Como O Desejado?

Hoje há 442 anos nas areias quentes do norte do Marrocos acontecia um dos episódios mais marcantes da história de Portugal, além de ser emblemática para a nossa história colonial: a Batalha de Alcácer Quibir, também conhecida como a Batalha dos Três Reis. E por que essa batalha é importante? Vem comigo que eu te explico.

Alcácer Quibir marca o final da decadência do reino de Portugal, pois dom Sebastião I, o Desejado, tenta recuperar antigas possessões lusitanas no norte da África. E para isso ele se alinhou com o sultão do Marrocos Abu Abdallah Mohammed II contra o novo sultão Abd Al-Malik I.

Um fato interessante é que os três monarcas morreram em batalha, o que levou, do lado marroquino a ascensão do Império Saadi, e do lado lusitano a consolidação do mito conhecido como sebastianismo, pois o corpo de dom Sebastião I nunca foi recuperado das terras marroquinas. E também não ocorreu nenhum pedido de resgate, prática comum na época.

O sebastianismo foi uma crença milenarista portuguesa que um monarca iria surgir e restaurar a glória do Império Português.

Tal mito é transversal na história de Portugal, e o sebastianismo ocorreu antes de dom Sebastião I, como por exemplo nas trovas do Bandarra, durante ou logo após o seu reinado, como por exemplo no padre Antônio Vieira e também nos tempos modernos com Fernando Pessoa e seu Mensagem.

Com a morte de dom Sebastião I a dinastia de Avis chega ao final e quem ascende ao trono português é Filipe II, dos Habsburgos, e começava assim a chamada União Ibérica, que irá durar até 1640, depois da Guerra de Restauração.

A União Ibérica seria importante para o Brasil Colônia, porque foi graças a ela ocorreu a exploração dos interiores brasileiros, antes domínios espanhóis, além de ter levado às invasões holandesas no Pernambuco e na Bahia, uma das fagulhas do sentimento nativista brasileiro.

A imagem mostra o detalhe da única representação conhecida da batalha de Alcácer-Quibir publicada por Miguel Leitão de Andrade na obra Miscelânea (1629): nele está ilustrado o exército português, numericamente inferior, prestes a ser cercado pelas forças islâmicas.

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Sebastianismo – Wikipédia, a enciclopédia livre

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Retrato do Rei D. Sebastião (1571-74), O Desejado, por Cristóvão de Morais, Museu Nacional de Arte Antiga
Retrato d’El Rei Dom Sebastião, galeria Câmara dos Azuis

O sebastianismo foi uma crença ou movimento profético que surgiu em Portugal em fins do século XVI como consequência do desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, que gerou a crise em Portugal. Dado que não havia um corpo, acreditava-se que D. Sebastião voltaria para salvar o Reino de Portugal de todos os problemas desencadeados após o seu desaparecimento. As primeiras pretensões reais do regresso de Dom Sebastião deram-se no arquipélago dos Açores. Lá, havia de fato uma espera pelo regresso imediato e real do rei-mártir.[1]

O desaparecimento

A notícia de que a empreitada liderada por Dom Sebastião ao Norte da África, a fim de estreitar as relações e reforçar o poder sobre os territórios do Magrebe, teria dado errado, começou a chegar a Portugal a partir do dia 10 de agosto de 1578.

Segundo Jacqueline Hermann[2], primeiro tentou-se esconder o mensageiro, a fim de não alardear a notícia entre os que tinham ficado em Portugal.

Depois, começou-se a buscar um sucessor para o trono, a fim de “aquietar o povo que bramava com magua do damno geral”.

Não se sabia ainda se o rei estava morto e se o trono estava de fato vago, mas a certeza de que as tropas portuguesas tinham sucumbido aos mouros em Alcácer-Quibir foi ficando mais próxima à medida em que faltavam notícias e, aos poucos, raros sobreviventes que tinham partido junto com D. Sebastião voltavam a Portugal. As reações foram diversas: uns maldiziam a empreitada, outros culpavam o próprio D. Sebastião, a Câmara de Lisboa e até o cardeal D. Henrique, seu tio, que tinha sido contra a ida a Marrocos.

Sebastianismo em Portugal

Após o desaparecimento de D. Sebastião no norte da África, foi seu tio, o cardeal D. Henrique (Henrique I de Portugal ou Cardeal-Rei), quem assumiu o trono. Na época, D. Henrique já tinha 66 anos e era cardeal da Igreja Católica.

A princípio, ele aceitou ser somente governador e defensor do reino, mas aceitou a Coroa de Portugal e se retirou do Mosteiro de Alcobaça, onde vivia recolhido, para ser coroado no dia 28 de agosto de 1578, 14 dias após a chegada da primeira notícia do desaparecimento de Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir.

Dom Henrique ficou somente dois anos no poder: ele morreu em janeiro de 1580.

Com o desaparecimento de Dom Sebastião e a morte de seu tio, Dom Henrique, houve uma disputa por quem sucederia o trono português por falta de herdeiros diretos. Logo após a morte do cardeal-rei, um colegiado de cinco governadores precisou assumir o reino.

Meses depois, quem reivindicou o trono e chegou a ser aclamado em algumas cidades foi o Prior do Crato, D. António, sobrinho de D. Henrique. Embora não fosse considerado filho legítimo do Infante Dom Luís (portanto, neto do Rei Dom Manuel I), D.

António gozava de muita popularidade entre os portugueses, uma vez que havia sido prisioneiro na Batalha de Alcácer-Quibir, na qual lutou junto com Dom Sebastião[1].

Mas a empreitada de D. António foi infrutífera e o trono terminou nas mãos de seu primo, o rei Filipe II da rama espanhola da casa de Habsburgo.

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Mesmo passados mais de dois anos do desaparecimento de Dom Sebastião, havia em Portugal esperança de que ele retornasse para salvar o Reino – é a isso que se chama de sebastianismo. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e à cultura de Portugal.

Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através do retorno de um morto ilustre.

Vários setores da população não acreditavam na morte do rei, divulgando a lenda de que ele ainda se encontrava vivo, apenas esperando o momento certo para voltar ao trono e afastar o domínio estrangeiro.

De certa maneira, isso ecoava uma crença no chamado “rei encoberto”, que povoara a Península Ibérica, e que se manifestara fortemente durante as revoltas das “Germaníadas” em Valência, durante o reinado do imperador Carlos V.[3]

Os impostores

Entretanto, foi com o aparecimento dos chamados falsos “D.

Sebastião” que aquilo que era uma crença difusa acabou por ganhar contornos políticos mais definidos, e em alguns casos, mais preocupantes para Madri que, com o reinado de Dom Filipe I (da Espanha, II em Portugal), era sede da União Ibérica.

O caso mais emblemático e importante para a constituição do que se chamou de sebastianismo foi o do “Sebastião de Veneza”, um calabrês, Marco Túlio Cattizzone, que se fizera passar por D. Sebastião.

Cattizzone tinha mulher e filhos vivos, mas, ainda assim, foi tão convincente que, por pouco, não escapou da empreitada com vida, já que, exceto o fato de não falar português, houve pessoas próximas a Dom Sebastião que garantiram estar vendo o próprio. Mesmo assim, todos acabaram condenados à morte.

Antes do Sebastião de Veneza, uma série de outros pretendentes tentaram se passar pelo rei desaparecido e as tentativas foram punidas com a morte. Outro caso emblemático foi o do “Confeiteiro de Madrigal”, um jovem de nome Gabriel de Espinosa, que tinha mulher e filho, era bonito, sabia falar francês e alemão, mas não português – assegurava que tinha esquecido no cativeiro. Foi enforcado[1].

Incrivelmente, o Sebastião de Veneza obteve o apoio de vários fidalgos, letrados e religiosos portugueses, muitos deles ligados a “corte” exilada de D. António, prior do Crato, que disputara com Filipe II a sucessão da coroa portuguesa.

Entre eles, João de Castro (1551-1623), neto do homônimo navegador e vice-rei português da Índia (1500-1548)[4], que dedicou seus anos finais de vida a provar e defender a causa sebastianista.

Como indicado por Jacqueline Hermann, foi João de Castro que deu forma letrada e constituiu um corpo mais teórico ao que antes era um conjunto de esperanças no retorno de um rei desejado.[2]

João de Castro, em seus tratados, uniu uma tradição exegética e apocalíptica em torno dos sonhos do livro de Daniel com o encobertismo e com os fundamentos proféticos da monarquia portuguesa.

[5] Entre eles, o Milagre de Ourique, que ganhara novas cores com o Juramento de Afonso Henriques, diploma forjado nos anos 1590 no mosteiro de Alcobaça,[6] e, sobretudo, as Trovas de Gonçalo Annes Bandarra, escritas antes de 1540[4].

Foi João de Castro que editou e fez imprimir a primeira versão das Trovas que até então circulavam manuscritas ou oralmente.

No seu Paráfrase e concordância, lançado na França em 1603[7], transcreveu e comentou os versos do sapateiro de Trancoso, buscando mostrar como as trovas enigmáticas e proféticas só poderiam indicar a volta de Sebastião I para retomar o trono português e expulsar os castelhanos.

Outro sebastianista importante foi Manuel Bocarro Francês, um cristão-novo, médico, matemático e astrólogo – que, apesar do nome, era português.

Este, explica Jacqueline Hermann[2], “procuraria comprovar o destino da grandeza de Portugal através da interpretação combinada de textos, integrando, através de seus escritos, um variado conjunto de estudiosos das chamadas ‘ciências mágicas de seu tempo’”. Acabou morrendo em 1630 sem fazer a profecia astrológica que se esperava dele.

Novos contornos

Passados 62 anos após a notícia do desaparecimento de Dom Sebastião, o culto ganhou novos contornos, sobretudo após tanto tempo em que o Reino de Portugal permaneceu sob o comando de espanhóis, durante o período da União das Coroas – ou União Ibérica.

No dia 1º de dezembro de 1640, um grupo de conjurados chefiados pelo Duque de Bragança (futuro D. João IV – dinastia de Bragança), depôs em Lisboa o representante de Filipe III e restaurou a independência de Portugal.

Assim, o movimento tomou novas características por todo o Império Português.

Como demonstrado por Eduardo D'Oliveira França[8] e, mais tarde, por Luís Reis Torgal[9], houve uma adequação da crença sebástica para uma ideologia restauracionista à serviço da causa de João IV.

O jesuíta Antônio Vieira foi um dos principais articuladores dessa construção profética a partir do chamado sebastianismo.

Ainda que não tenha terminado suas obras proféticas, dedicou-se a elas de modo sistemático no fim da sua vida e já após o fim das Guerra de Restauração (1640-1668) contra a Espanha, escrevendo, entre outros, a Clavis Prophetaruam e a História do Futuro.

  • O poeta português Fernando Pessoa, em seu livro Mensagem, faz uma interpretação sebastianista da História de Portugal, em busca de um patriotismo perdido. O poema reinterpreta a História de Portugal em função de uma ressurreição de um passado heroico:
  • “Screvo meu livro à beira-magua.
  • Meu coração não tem que Ter.
  • Tenho meus olhos quentes de água.
  • Só tu, Senhor, me dás viver.
  • Só te sentir e te pensar
  • Meus dias vácuos enche a doura
  • Mas quando quererás voltar?

Quando é o Rei? Quando é a Hora?

  1. Quando virás a ser o Christo
  2. De a quem morreu o falso Deus,
  3. E a despertar do mal que existo
  4. A Nova Terra e os Novos Céus?
  5. Quando virás, ó Encoberto?
  6. Sonho das eras portuguez,
  7. Tornar-me mais que o sopro incerto
  8. De um grande anceio que Deus fez?
  9. Ah, quando quererás, voltando,
  10. Fazer minha esperança amor?
  11. Da nevoa e da saudade quando?
  12. Quando, meu sonho e meu Senhor?”[10]

A ideia de nacionalismo relacionada ao sebastianismo também está presente em História de Portugal, de Joaquim Pedro de Oliveira Martins[11], quando este diz que “Para nós, o Sebastianismo é uma prova póstuma da nacionalidade. Na hora das agonias derradeiras, os soluços violentos do povo traziam aos lábios a voz íntima, e proferiam de um modo eloquente e altissonante o pensamento natural orgânico”.

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Sebastianismo no Brasil

O sebastianismo também influenciou certos movimentos brasileiros em todo o país, desde o Rio Grande do Sul até ao norte do Brasil, principalmente no início do século XX.

Por exemplo, Antônio Conselheiro empregou-o em seus discursos à população de Canudos, no sertão baiano, entre 1893 e 1897.

Segundo ele, Dom Sebastião iria retornar dos mortos para restaurar a monarquia no Brasil, atraindo assim a ira do recém-inaugurado governo republicano do Brasil. Antônio Conselheiro via também na realeza de D.

Pedro II e na Casa de Bragança o Direito Divino do Império do Brasil recebido na cristofania do milagre de Ourique. O resultado foi a destruição do Arraial de Canudos pelo Exército em 1897[12].

No nordeste destacam-se dois movimentos sebastianistas no interior do estado de Pernambuco, que, segundo a crítica aos movimentos na época, tiveram um caráter político-religioso violento e com líderes fanáticos, que ludibriavam a população de boa fé, já vítima dos problemas da seca[12].

O primeiro, A Tragédia do Rodeador, foi liderado por Silvestre José dos Santos que, em 1819, criou um arraial em um local denominado Sítio da Pedra. Ele foi destruído em 1820 pelo governador do estado, Luiz do Rego. Esta destruição, conhecida como Massacre de Bonito, matou 91 pessoas e feriu mais de 100.

Depois disso, mais de 200 mulheres e 300 crianças foram aprisionadas e mandadas para Recife.

O segundo movimento é conhecido como A Tragédia da Pedra Bonita. Foi criada uma espécie de reino na localidade de Pedra Bonita, na Serra Formosa, por João Antonio dos Santos.

Como o sucessor de João Antonio, João Ferreira, pregava que o rei D. Sebastião só voltaria se a Pedra Bonita fosse banhada de sangue, foi promovido um grande massacre no qual morreram 87 pessoas.

Este arraial foi destruído pelo major Manoel Pereira da Silva.

Este último movimento inspirou o escritor José Lins do Rego a escrever o romance Pedra Bonita.

No Maranhão, há uma crença, especialmente na ilha dos Lençóis, no litoral do estado, de que o Rei D. Sebastião viveria nesta ilha, havendo muitas lendas em torno de sua figura, como se transformar em um touro negro encantado, com uma estrela na testa.

O couro do boi do Bumba-meu-Boi, principalmente os de sotaque de zabumba e de pandeiros de costa de mão, das regiões de Cururupu e Guimarães, costuma ter a ponta dos chifres em metal dourado e traz, bordada na testa, uma estrela de ouro e jóias, em alusão à lenda.

Religiões de matriz africana no estado, como o tambor de mina e o terecô, também tem especial relação com o rei Sebastião, que figura como um encantado. [13]

Ver também

  • Sebastião de Portugal
  • Messianismo
  • Gonçalo Annes Bandarra
  • História de Portugal
  • Batalha de Ourique
  • A ver navios

Referências

  1. a b c BERCÉ, Yves-Marie (2003). O rei oculto: salvadores e impostores. Mitos políticos populares na Europa Moderna. São Paulo: Edusc; Imprensa Oficial do Estado 
  2. a b c Hermann, Jacqueline (1998). No Reino do Desejado.

    A construção do sebastianismo em Portugal, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras 

  3. ↑ NALLE, Sarah. “El Encubierto Revisited: Navigating between Visions of Heaven and Hell on Earth.” In Werewolves, Witches, and Wandering Spirits, ed. Kathryn A. Edwards (Kirksville, Mo.

    : Truman State University Press, 2002)

  4. a b O MESSIANISMO DO PADRE VIEIRA E A INQUISIÇÃO., acesso em 23 de outubro de 2016.
  5. ↑ Silvério Lima, Luís Filipe (2010). Impérios dos sonhos: profecias oníricas, sebastianismo e messianismo brigantino. São Paulo: Alameda. p. cap. 3 a 5.

     

  6. ↑ A bibliografia sobre o Juramento de Afonso Henriques é extensa, bem como a polêmica em torno de sua autenticidade. Sobre isso ver: BUESCU, Ana Isabel. O Milagre de Ourique e a História de Portugal de Alexandre Herculano. Uma Polémica Oitocentista, Lisboa, INIC, 1987.
  7. ↑ BANDARRA, Gonçalo Annes; CASTRO, João de.

    «Paraphrase et concordancia de alguas propheçias de Bandarra: çapateiro de Trancoso»  !CS1 manut: Nomes múltiplos: lista de autores (link)

  8. ↑ França, Eduardo (1997). Portugal na Época da Restauração 2a. ed. São Paulo: Hucitec. p. cap. 1 (Terceira Parte). ISBN 8527104164 
  9. ↑ Torgal, Luis (1981). Ideologia política e teoria do Estado na Restauração.

    Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. p. vol. 1, cap. III. 

  10. ↑ GEBRA, Fernando de Moraes (2006). «Entre Mito e História: o sebastianismo em Mensagem de Fernando Pessoa». Revista Letras. Consultado em 15 de fevereiro de 2018 
  11. ↑ OLIVEIRA MARTINS, Joaquim Pedro (1951). História de Portugal.

    Lisboa: Guimarães 

  12. a b GASPAR, Lúcia. Sebastianismo no Nordeste brasileiro. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: 24 out. 2017,
  13. ↑ «Na Ilha dos Lençóis, o Rei Sebastião é um pai para os nativos, que o veem». redeglobo.globo.com 

Bibliografia

  • AZEVEDO, João Lúcio de. A evolução do sebastianimo. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1918.
  • BASSELAAR, José Van Den. Sebastianismo: uma história sumária. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação e Cultura, 1987.
  • HERMANN, Jacqueline. No reino do desejado:. A construção do sebastianismo em Portugal. Séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • LIMA, Luís Filipe Silvério. Império dos sonhos: narrativas proféticas, sebastianismo e messianismo brigantino. São Paulo: Alameda, 2010. 382p .
  • MEGIANI, Ana Paula Torres. O jovem rei encantado. Expectativas do messianismo régio em Portugal. Sécs. XIII-XVI. São Paulo: Hucitec, 2003.

Ligações externas

  • HistoriaNet – Sebastianismo
  • A evolução do Sebastianismo, por João Lúcio de Azevedo

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O Desejado Rei D. Sebastião

A 20 de Janeiro de 1554 nascia Dom Sebastião de Portugal. Pelo facto, de ser o herdeiro tão esperado para dar continuidade à Dinastia de Avis foi cognominado O Desejado; mas é também recordado como O Encoberto, devido à lenda que prevê o seu regresso numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação Portuguesa.

Neto do Rei D. João III, torna-se herdeiro do trono depois da morte de D. João de Portugal, seu pai, apenas duas semanas antes do seu nascimento. Em 1557, com a morte do avô, ascende ao trono – Rei com apenas três anos. Na menoridade de Dom Sebastião a regência é assegurada pela avó D. Catarina da Áustria e depois pelo tio-avô Cardeal D. Henrique.

Aos 14 anos, Dom Sebastião I de Portugal é Coroado, Aclamado e Alevantado e assume os destinos e governação do Reino!

O Rei de Portugal ia combater em Pessoa, não mandava os soldados sozinhos, era o Comandante-em-Chefe e o primeiro a avançar. Adiantava-se mesmo, não ficava no conforto dos gabinetes, assarapantado em hesitações.

De resto com quase todos os Reis foi assim, para sempre servir os interesses supremos da Nação. Por isso não se pense que guerrear era um impulso básico, mas uma forma de manter a paz: si vis pacem, para bellum (lat) – se queres a paz, prepara a guerra.

Gnoma ainda, hoje, seguido pelas nações, que procuram fortalecer-se a fim de evitar uma eventual agressão.

Mens sana in corpore sano (lat) – mente sã em corpo são. Frase de Juvenal, utilizada para demonstrar a necessidade de corpo sadio para serviços de ideais elevados.

Os nossos Reis conciliavam a capacidade e a capacitação inerentes a um soldado apto para comandar um teatro de guerra, sem descurar as faculdades intelectuais – a educação de Dom Sebastião fora entregue aos Jesuítas -, até porque o melhor dos generais é o mais inteligente dos homens.

Nisso seguiam os exemplos clássicos de Alexandre e de César, os mais brilhantes generais e os mais ilustrados das respectivas épocas.

Muitas vezes, e não poucos, atribuem ao corajoso Rei Dom Sebastião I de Portugal a imaturidade na sua resolução na empresa de Alcácer-Quibir, ora que injustiça chamar irreflectido ao Rei-menino que com tão exemplar acto de bravura procurou manter o Império que herdara e que sofria as investidas das hordas mouriscas. A Coroa sempre serviu o Império português fosse em que parte fosse da sua dilatada extensão e que estivesse disso necessitada.

No Reinado de D. Sebastião os ataques dos piratas e corsários eram constantes na rota para o Brasil e a Índia, e os Almorávidas ameaçavam as possessões em Marrocos, pelo que investiu muito na protecção militar dos territórios construindo ou restaurando fortes e fortalezas ao longo do litoral, para proteger a marinha mercante.

Porventura, ficou o Desejado, na penumbra de uma tenda de comando jogando xadrez com as suas peças de cavalaria ou com os seus peões?! Não, não ficou, avançou temerário! Não se conte o que sucedeu em seguida lançando o nome Sebastião no auto dos arrebatados, mas sim como o resultado de uma maquinação estrangeira para anexar o Portugal que havia perdido e cobiçava desde os tempos em que Aquele Dom Afonso I Henriques Rei de Portugal, ilustre descendente dos Reais Capetos de França e dos Imperadores da Hispâbia, formou a mais Augusta e Antiga Dinastia Peninsular, pois caso único no Mundo é um facto que a Monarquia Portuguesa conheceu quatro Dinastias, mas todas elas pertencentes à mesma Família.

E não foi no Reinado de Dom Sebastião que se avançou pela África e foi fundada a cidade de Luanda, e não foi, também, no Seu Reinado que se consolidou o domínio da costa brasileira?! E se adquiriu Macau?! Pergunta retórica, pois, necessária resposta não é!

A História diz qu’El-Rei Dom Sebastião I morreu em combate juntamente com o escol da Nobreza portuguesa, na Batalha de Alcácer Quibir, em 1578, a Lenda diz que voltará numa manhã de nevoeiro para nos libertar do jugo verde-rubro!

Miguel Villas-Boas – Plataforma de Cidadania Monárquica

Sebastianismo

O “Sebastianismo”, “Mito Sebástico” ou “Mito do Encoberto” foi um mito messiânico que surgiu em meados do século XVI em Portugal, o qual ficou conhecido por fazer referência ao curioso desaparecimento do Rei Dom Sebastião (1554-1578).

Nesse caso, criou-se um mito secular e cheio de misticismo em torno de sua figura, de maneira que muitas pessoas acreditavam que Dom Sebastião, chamado de “O Desejado”, não havia morrido, quando desapareceu no norte da África na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578.

Um dos fatos para o surgimento do mito, deve-se à morte dele e de seu tio, o Rei Dom Henrique, visto que não havia um herdeiro que pudesse ocupar o trono português.

Para tanto, a população de Portugal criou o mito de que Dom Sebastião estaria ainda vivo e esperando o momento certo para derrotar os espanhóis, que haviam tomado o trono, ocupado nesse momento, pelo Rei Filipe II, da Espanha.

O surgimento do sebastianismo esboça a esperança que alimentou o povo português durante longo tempo, na crença do porvir.

Resumo

A “Batalha de Alcácer-Quibir” ou a “Batalha dos Três Reis”, ocorrida em 04 de agosto de 1578, despontou no norte da África (região de Marrocos), disputada entre portugueses, liderados pelo Rei Dom Sebastião, e aliados ao exército liderado pelo sultão Mulay Mohammed, e, de outro lado, os marroquinos, liderados pelo sultão Mulei Moluco. O resultado da batalha foi a derrota dos portugueses, bem como o início da perda da independência nacional para Espanha, o que levou à criação do mito do Sebastianismo.

A partir disso, curioso notar que com o misterioso “desaparecimento” do Rei, o trono Português foi ocupado pelo Rei Felipe II da casa de Habsburgo, o que fez surgir “supostas” figuras que alegavam ser o Rei Sebastião.

O proclamado novo rei de Portugal deixou muitos portugueses descontentes e inconformados com a situação política vigente, isto é, a inexistência de um sucessor do rei para ocupar o trono, aguçando ainda mais o patriotismo o sentimento nacionalista, traduzido na crença e na enorme expectativa de “salvação”, ou seja, de que um dia ele retornaria e tiraria os portugueses das mãos dos inimigos, o que o levou a ser comparado, durante muito tempo, como o “salvador da Pátria”.

Não ficou declarado ainda quando Dom Sebastião foi morto ao lado de seus aliados, o que fez reforçar, quase durante um século, o mito de sua existência, que perdeu força na mentalidade portuguesa, em 1640, com o Golpe de Estado de Restauração da Independência, que resultou no fim da monarquia dualista da Dinastia Filipina, iniciada em 1580. O túmulo de Dom Sebastião encontra-se no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, Portugal.

Leia mais sobre Messianismo.

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