Penso Nisto Não Como Quem Pensa Mas Como Quem Nao Pensa?

  • 1. Tópicos
  • – Processo de criação poética dos «poetas que são artistas» (v. 1):
  • • trabalho minucioso/rigoroso/artesanal, à semelhança do trabalho do carpinteiro e do pedreiro;
  • • poesia pensada/consciente.
  • – Processo de criação poética dos poetas que sabem «florir» (v. 4):
  • • ato involuntário/espontâneo;
  • • em harmonia com a própria natureza, «única casa artística»; logo, o único modelo de arte.
  • Exemplo de resposta

No poema, são apresentados dois processos distintos de criação poética. De acordo com o primeiro processo – o dos «poetas que são artistas» (v.

1) –, a poesia corresponde a um trabalho minucioso, rigoroso e artesanal. Neste contexto, as comparações com o carpinteiro (v. 3) e com o pedreiro – «como quem construi um muro» (v. 5) – enfatizam o trabalho formal e, por conseguinte, consciente do poeta.

O segundo processo – defendido pelo sujeito poético – é o que se deduz do verso 4, em que o «eu» manifesta a sua tristeza e estranheza por haver poetas que não são capazes de «florir», ou seja, de fazer da criação poética um ato involuntário, espontâneo e tão natural quanto o ato de «florir».

Deste modo, o primeiro processo, o de uma poesia pensada, opõe-se à ideia de uma poesia espontânea e simples, dado que está em contradição com a própria natureza que, na sua diversidade e harmonia, constitui o modelo da verdadeira arte.

  1. 2. Tópicos de resposta
  2. •  Existência de uma contradição entre aquilo que o sujeito poético afirma («não como quem pensa, mas como quem não pensa») e o que ele faz («Penso nisto»).
  3. • Recusa do pensamento puro e valorização das sensações.
  4. Exemplo de resposta

No verso «Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa» (v.

9), o sujeito poético exprime a ideia de que o pensamento é algo natural e espontâneo, recusando, por isso, o pensamento puro, na medida em que se afasta das sensações.

Ao pensar, incorre, porém, naquilo que combate: a intelectualização. Assim, verifica-se a existência de uma contradição entre o que o «eu» poético afirma (pensar como se não pensasse) e o que faz (pensar).

  • 3. Tópicos de resposta
  • – Valorização das sensações:
  • • privilégio da realidade captada pelos sentidos (vv. 10 e 17);

• negação/recusa do pensamento (vv. 11-12).

  1. – Valorização da comunhão com a natureza:
  2. •  o «eu» é um elemento da natureza tal como as flores, partilhando com elas uma «comum divindade»(v. 14);
  3. • a «Terra» é a mãe natureza, acolhedora e protetora (vv. 15-17)
  4. Exemplo de resposta

Na quarta estrofe do poema, a valorização das sensações é evidenciada pelo facto de o sujeito poético privilegiar a realidade captada pelos sentidos, concretamente a visão e a audição, como se comprova nos versos «E olho para as flores e sorrio…» (v. 10) e «E deixar que o vento cante para adormecermos» (v. 17).

Nega-se, assim, a necessidade de compreender algo mais além daquilo a que se acede através das sensações, atitude evidenciada nos versos «Não sei se elas me compreendem / Nem se eu as compreendo a elas» (vv. 11-12).

A comunhão com a natureza decorre, por um lado, do facto de o «eu» considerar que é um elemento da natureza tal como as flores, partilhando com elas uma «comum divindade» (v. 14) que permite aceder à «verdade» (v. 13) e, por outro lado, do facto de «a Terra» ser caracterizada como a mãe natureza, acolhedora e protetora.

Por esta razão, o homem entrega-se à natureza, numa atitude de desprendimento e de aceitação, sem qualquer mediação reflexiva (vv. 15-17).

  • TEXTO B
  • 4. Tópicos de resposta
  • – Os episódios da infância evocados por Vergílio Ferreira têm em comum o facto de serem:
  • •  partidas/despedidas de entes queridos que viajaram para longe;
  • •  situações de perda que não compreendeu e que lhe provocaram um sentimento agudo de solidão;
  • – Os episódios distinguem-se pelo modo como essas partidas foram experienciadas por Vergílio Ferreira:
  • •  a sugestão de imobilidade e a ausência de choro, no momento da partida do pai, contrastam com a corrida atrás da charrete e com o choro durante a noite, no momento da partida da mãe e da irmã mais velha;
  • • o sentimento de abandono/perda/dor foi mais intenso aquando da segunda partida;
  • •  no momento da escrita, não tem memória de ter estado acompanhado quando o pai se foi embora,mas recorda-se de ter havido muita gente na despedida da mãe e da irmã.
  • Exemplo de resposta

Os episódios evocados têm em comum o facto de corresponderem a situações de perda que o autor não compreendeu e que provocaram nele um sentimento agudo de solidão.

Estes episódios distinguem-se, no entanto, pelo modo como essas partidas foram experienciadas por Vergílio Ferreira: quando o pai partiu, ficou a vê-lo afastar-se, sem exteriorizar o seu espanto e a sua mágoa; todavia, quando a mãe e a irmã partiram, reagiu, correndo atrás da charrete, na tentativa de as alcançar, e, depois, chorando durante a noite.

  1. 5. Tópicos de resposta
  2. •  Tempo (cronológico) da infância reduzido (psicologicamente) a um «longo inverno».
  3. •  Descrição do inverno como um tempo lúgubre, tempestuoso e assustador.
  4. •  Perceção da infância como um tempo penoso, marcado pela angústia, pelo abandono e pela solidão.
  5. Exemplo de resposta

A afirmação «Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo inverno.» (ll. 13-14) sintetiza a perceção de Vergílio Ferreira em relação à sua infância, na medida em que todo esse período é reduzido a um «longo inverno» (l. 14), refletindo uma vivência psicológica do tempo marcada pela dor.

Efetivamente, o facto de a sua infância ter sido cristalizada na memória como um «longo inverno» sugere que se terá tratado de um tempo penoso, sofrido, marcado pela angústia, pelo abandono e pela solidão.

Neste contexto, a descrição do inverno, caracterizado como um tempo lúgubre e tempestuoso, triste e assustador, confirma essa perceção.

GRUPO II

VERSÃO 1 VERSÃO 2
1 C B
2 D C
3 A B
4 D A
5 A D
6 B A
7 A D
  • 8. (Deixis) pessoal
  • 9. (oração) subordinada (adjetiva) relativa (restritiva) 5
  • 10. “ensinar ciência”

GRUPO III

Dada a natureza deste item, não é apresentado exemplo de resposta.

APP JUNHO 2017

POEMAS COMPLETOS – Alberto Caeiro, Heterônimo de Fernando Pessoa..

  • Observações: os dois poemas apresentados acentuam a importância dos sentidos, viga mestra da poesia de Caeiro, e refutam o “pensar”.
  • Há metafísica bastante em não pensar em nada. 
  • O que penso eu do mundo? 
  • Sei lá o que penso do mundo! 
  • Se eu adoecesse pensaria nisso 
  • Que ideia tenho eu das cousas? 
  • Que opinião tenho sobre Deus e a alma 
  • E sobre a criação do mundo? 
  • Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
  • E não pensar. É correr as cortinas 
  • Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 

  1. O único mistério é haver quem pense no mistério. 
  2. Quem está ao sol e fecha os olhos, 
  3. Começa a não saber o que é o sol 
  4. E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
  5. Mas abre os olhos e vê o sol, 
  6. E já não pode pensar em nada, 
  7. Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
  8. De todos os filósofos e de todos os poetas. 
  9. A luz do sol não sabe o que faz 
  10. E por isso não erra e é comum e boa. 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? 

  • A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
  • E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
  • A nós, que não sabemos dar por elas. 
  • Mas que melhor metafísica que a delas, 
  • Que é a de não saber para que vivem 
  • Nem saber que o não sabem? 

“Constituição íntima das cousas”… 

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“Sentido íntimo do universo”… 

  1. tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
  2. É incrível que se possa pensar em cousas dessas. 
  3. É como pensar em razões e fins 
  4. Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
  5. Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. 
  6. Pensar no sentido íntimo das cousas 
  7. É acrescentado, é como pensar na saúde 
  8. Ou levar um copo à água das fontes. 
  9. O único sentido íntimo das cousas 
  10. É elas não terem sentido íntimo nenhum. 
  11. Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
  12. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
  13. Sem dúvida que viria falar comigo 
  14. E entraria pela minha porta dentro 
  15. Dizendo-me, Aqui estou! 
  16. (Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
  17. De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, 
  18. Não compreende quem fala delas 
  19. Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 
  20. Mas se Deus é as flores e as árvores 
  21. E os montes e sol e o luar, 
  22. Então acredito nele, 
  23. Então acredito nele a toda a hora, 
  24. E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
  25. E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 
  26. Mas se Deus é as árvores e as flores 
  27. E os montes e o luar e o sol, 
  28. Para que lhe chamo eu Deus? 
  29. Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
  30. Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
  31. Sol e luar e flores e árvores e montes, 
  32. Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
  33. E luar e sol e flores, 
  34. É que ele quer que eu o conheça 
  35. Como árvores e montes e flores e luar e sol. 
  36. E por isso eu obedeço-lhe, 
  37. (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
  38. Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
  39. Como quem abre os olhos e vê, 
  40. E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
  41. E amo-o sem pensar nele, 
  42. E penso-o vendo e ouvindo, 
  43. E ando com ele a toda a hora.

Observações: a definição de Deus nesse poema aproxima-se do panteísmo, doutrina filosófica segundo a qual só o mundo é real e Deus é a soma de todas as coisas e nelas se manifesta. Assim, as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar são manifestações da própria divindade. Pode-se, assim, falar de uma verdadeira “religião da Natureza”.

  • IX 
  • Sou um guardador de rebanhos. 
  • O rebanho é os meus pensamentos 
  • E os meus pensamentos são todos sensações. 
  • Penso com os olhos e com os ouvidos 
  • E com as mãos e os pés 
  • E com o nariz e a boca. 
  • Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la 
  • E comer um fruto é saber-lhe o sentido. 
  • Por isso quando num dia de calor 
  • Me sinto triste de gozá-lo tanto, 
  • E me deito ao comprido na erva, 
  • E fecho os olhos quentes, 
  • Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
  • Sei a verdade e sou feliz. 
  • “Olá, guardador de rebanhos, 
  • Aí à beira da estrada, 
  • Que te diz o vento que passa?” 
  • “Que é vento, e que passa, 
  • E que já passou antes, 
  • E que passará depois. 
  • E a ti o que te diz?” 
  • “Muita cousa mais do que isso. 
  • Fala-me de muitas outras cousas. 
  • De memórias e de saudades 
  • E de cousas que nunca foram.” 
  • “Nunca ouviste passar o vento. 
  • O vento só fala do vento. 
  • O que lhe ouviste foi mentira, 
  • E a mentira está em ti.” 
  • XX 
  • O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
  • Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
  • O Tejo tem grandes navios 
  • E navega nele ainda, 
  • Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
  • A memória das naus. 
  • O Tejo desce de Espanha 
  • E o Tejo entra no mar em Portugal. 
  • Toda a gente sabe isso. 
  • Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
  • E para onde ele vai 
  • E donde ele vem. 
  • E por isso, porque pertence a menos gente, 
  • É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 
  • Pelo Tejo vai-se para o mundo. 
  • Para além do Tejo há a América 
  • E a fortuna daqueles que a encontram. 
  • Ninguém nunca pensou no que há para além 
  • Do rio da minha aldeia. 
  • O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
  • Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Observações: no poema XX, a oposição entre o mundo imaginado (o Tejo) e o mundo real (o rio que corre pela minha aldeia), entre o imaginário e o real, constrói-se através de uma linguagem poética próxima da prosa. A construção anafórica (reiteração de O Tejo…

) equilibra-se pela sucessão de epístrofes (repetições de fim de verso: “pela minha aldeia”, nos três primeiros versos, e “o rio da minha aldeia”).

Apesar da aparente simplicidade, há uma arquitetura equilibrada e complexa nas relações ocultas sobre as quais se sustenta a oposição mundo real e mundo imaginado.

  1. XXIV 
  2. O que nós vemos das cousas são as cousas. 
  3. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? 
  4. Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos 
  5. Se ver e ouvir são ver e ouvir? 
  6. O essencial é saber ver, 
  7. Saber ver sem estar a pensar, 
  8. Saber ver quando se vê, 
  9. E nem pensar quando se vê 
  10. Nem ver quando se pensa. 
  11. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), 
  12. Isso exige um estudo profundo, 
  13. Uma aprendizagem de desaprender 
  14. E uma sequestração na liberdade daquele convento 
  15. De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas 
  16. E as flores as penitentes convictas de um só dia, 
  17. Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas 
  18. Nem as flores senão flores, 
  19. Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores. 
  20. Análise da obra 
  21. 2- O Pastor Amoroso
  22. O amor é uma companhia. 
  23. Já não sei andar só pelos caminhos, 
  24. Porque já não posso andar só. 
  25. Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. 

VI 

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. Tenho uma grande distracção animada. Quando desejo encontrá-la, Quase que prefiro não a encontrar, Para não ter que a deixar depois. E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo. Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar ela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

  • Observações: embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece. 
  • Análise da obra 
  • 3- Poemas Inconjuntos  
  • a) Se eu morrer novo, 
  • Sem poder publicar livro nenhum, 
  • Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, 
  • Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, 
  • Que não se ralem. 
  • Se assim aconteceu, assim está certo. 
  • Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, 
  • Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. 
  • Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, 
  • Porque as raízes podem estar debaixo da terra 
  • Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. 
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Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. 

  1. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: 
  2. Nunca fui senão uma criança que brincava. 
  3. Fui gentio como o sol e a água, 
  4. De uma religião universal que só os homens não têm. 
  5. Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma, 
  6. Nem procurei achar nada, 
  7. Nem achei que houvesse mais explicação 
  8. Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. 
  9. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva – 
  10. Ao sol quando havia sol 
  11. E à chuva quando estava chovendo 
  12. (E nunca a outra coisa), 
  13. Sentir calor e frio e vento, 
  14. E não ir mais longe. 
  15. Uma vez amei, julguei que me amariam, 
  16. Mas não fui amado. 
  17. Não fui amado pela única grande razão – 
  18. Porque não tinha que ser. 
  19. Consolei-me voltando ao sol e à chuva, 
  20. E sentando-me outra vez à porta de casa. 

Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído. 

b)Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. 

Sou fácil de definir. 

Vi como um danado. 

Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. 

  • Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. 
  • Fechei os olhos e dormi. 
  • Além disso, fui o único poeta da Natureza. 
  • c) Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. 
  • Ambos existem, cada um como é. 
  • d)Todas as opiniões que há sobre a Natureza 
  • Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor. 
  • Toda a sabedoria a respeito das cousas 
  • Nunca foi cousa em que pudesse pegar, como nas cousas. 
  • Se a ciência quer ser verdadeira, 
  • Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência? 
  • Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito 

Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem. Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas. 

  1. (ditado pelo poeta no dia de sua morte)  
  2. É talvez o último dia da minha vida. 
  3. Saudei o sol, levantando a mão direita, 
  4. Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus. 
  5. Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada. 
  6. Observações:
  7. •  Alberto Caeiro reforça a postura do poeta dos sentidos, sem filosofias, sem metafísica, que tem consciência das coisas do jeito como elas são, sem rodeios ou artificialismos.
  8. •  embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece. 
  9. Teste VestibUOL 
  10. Veja se você assimilou bem a história que Guimarães Rosa escreveu em “Poemas Completos de Alberto Caeiro” 
  11. Textos para as questões 01 e 02: 
  12. “Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
  13. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
  14. Sem dúvida que viria falar comigo 
  15. E entraria pela minha porta dentro 

Dizendo-me, Aqui estou! (…) 

  • Mas se Deus é as flores e as árvores 
  • E os montes e sol e o luar, 
  • Então acredito nele, 
  • Então acredito nele a toda a hora, 
  • E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. (…)”  

(Alberto Caeiro) 

“Todo o panteão, como os dos gregos, supõe múltiplos deuses; cada um tem suas funções próprias, seus campos reservados, seus modos de ação particulares, seus tipos específicos de poder.

Esses deuses, que nas suas relações mútuas compõem uma sociedade hierarquizada do além em que as competências e os privilégios são objeto de uma repartição bastante estrita, limitam-se necessariamente uns aos outros, ao mesmo tempo que se completam.

Não mais que a unicidade, no politeísmo, o divino não implica, como para nós, a onipotência, a onisciência, a infinitude, o absoluto. 

Esses deuses múltiplos estão no mundo, fazem parte dele. Não o criaram por um ato que, no deus único, marca sua completa transcendência em relação a uma obra cuja existência deriva e depende inteiramente dele. Os deuses nasceram no mundo.” 

(VERNANT, Jean-Pierre- Mito e religião na Grécia Antiga).

  • 1.

    Da relação entre os textos, podemos concluir que: 

  • A concepção que Caeiro apresenta de Deus destoa da apresentada por Vernant, posto que Caeiro crê em uma Deus transcendente; 
  • Só interessa a Caeiro tratar da existência de Deus no plano metafísico, reafirmando a concepção grega de deuses; 
  • Para Caeiro, Deus existe porque rege, de um outro plano, as coisas do mundo, tais como flores, montes e árvores; 
  • Para os gregos, assim como para Caeiro, os deuses habitam planos que vão além do físico; 
  • Caeiro acredita em deuses que estão presentes no mundo real-sensível, conforme afirma Vernant ao tratar dos deuses da Grécia Antiga; 
  • 2. Da leitura do poema, depreende-se que: 
  • O eu lírico assume uma postura religiosa diversa da tradicional; 
  • O Deus de Caeiro está presente somente nos templos religiosos; 
  • A religiosidade de Caeiro é católica tradicional; 
  • Ao descrer de Deus, o poeta assume uma postura veementemente atéia; 
  • Ao considerar a figura de Deus onipresente, o eu lírico a despreza; 
  • 3. O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro XI 
  • Aquela senhora tem um piano 
  • Que é agradável mas não é o correr dos rios  
  • Nem o murmúrio que as árvores fazem …  

    • Para que é preciso ter um piano?  
    • O melhor é ter ouvidos  
    • E amar a Natureza  
    • Assinale a alternativa que não se aplica ao poema acima: 
    • A análise do poema revela um lirismo instintivo e espontâneo sem qualquer idealização ou mitificação; 
    • Pode-se concluir que o poeta é basicamente sensorial e que sua relação com o mundo surge dos sentidos; 
    • O eu-lírico não procura pensar o mundo, mas antes senti-lo; 
    • Segundo o poema, o piano, objeto feito pelo homem, assume papel superior ao dos sons produzidos pela natureza; 
    • O eu-lírico refugia-se na natureza, pois crê que pensar o mundo o afasta da essência das coisas; 

    4. Segundo o professor Álvaro Cardoso Gomes, em Alberto Caeiro, “a Natureza não é meramente decorativa, (…) porque ela é determinante. O homem só tem existência a partir da Natureza. Descobre-se como ser, nela.” (Fernando Pessoa: as muitas águas de um rio). Assinale a alternativa em que a teoria acima possa ser aplicada: 

    “Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada / É livre: quem não tem, e não deseja, / Homem, é igual aos deuses.” 

    “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido.” 

    “Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço.” 

    “Pobre velha música! / Não sei por que agrado, / Enche-se de lágrimas / Meu olhar parado.” 

    “Caiu chuva em passados que fui eu. / Houve planícies de céu baixo e neve / Nalguma cousa de alma do que é meu.”

    Por: Stockler Vestibulares

    Oxímoro

    O oxímoro, enquanto  figura de pensamento e enquanto uma das formas de desenvolvimento da antítese, teria de ocupar um lugar retórico dominante e multiplamente presente na construção poética pessoana.

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    Na maioria dos casos, como é próprio desta figura, o oxímoro constitui-se pela aproximação de termos opostos, que se associam semanticamente.

      Deste procedimento encontramos uma profusão de ocorrências na poesia de Fernando Pessoa, sobretudo do ortónimo : “Que não vejo, mas vejo,/ Que não ouço, mas ouço,/ Que não sonho, mas sonho, /Que não sou eu, mas outro…” (1916): “Eu sofro sem pena a vida” (1927); “Dormir até acordado” (1927); “Tenho bastante em ter nada” (1932), etc.

    No entanto, quer associe termos opostos, quer se desenolva numa proposição contraditória, o oxímoro, em Pessoa, deu forma a muito pensamento construído sobre a contradição e suas irresoluções, apresentando-se assim como a mais sintética fórmula do movimento antitético desta poesia.

    Em “Chuva Oblíqua” (1915), por exemplo, o uso do oxímoro, por junção de termos opostos, integra-se na prática interseccionista como se a sobreposição absurda fosse uma ilustração da fusão sensacionista: “uma horizontalidade vertical”, “bailam parados”; “Noite absoluta na feira iluminada”, “luar no dia de sol”.

    Em «Ela canta, pobre ceifeira» (1924) o oxímoro está ao serviço de duas oposições centrais, aquela cujos pólos são pensar e sentir e a que, como modo de superação desta oposição, opõe o bloco pensar-sentir (com a implicação “ter consciência de”) e viver (implicando “não ter consciência de”).

    A primeira antítese expressa-se no oxímoro: “O que em mim sente está pensando”; a segunda antítese exprime-se nos oxímoros: “Ah (…) / Ter a tua alegre inconsciência e a consciência disso”.

    Em “Autopsicografia” (1931), o próprio desenvolvimento da ideia do poema consiste em definir o poeta e, portanto, a actividade poética como o que existe quer na própria condição de contradição, expressa no oxímoro “fingir… deveras”, quer no próprio paradoxo que supera a oposição: fingindo «que é dor / A dor que deveras sente».

    E a mesma ideia aparece, num outro poema, cujo título “Quero ser livre, insincero” (1930), sublinha, pela ironia, o conteúdo do oxímoro: “Quando canto o que não minto/ E choro o que sucedeu, /É que esqueci o que sinto/ E julgo que não sou eu” (FP II 382). Também em “A Casa Branca Nau Preta” (1916) uma sequência de oxímoros se constitui como a fórmula sintética de experiências intelectuais contraditórias: “Não há substância de pensamento na matéria de alma com que penso… / Há só janelas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz, / E o quintal cheio de luz sem luz…”.

    Deste modo, o oxímoro pessoano, como forma sintética da contradição, aparece-nos afecto à ideia obsessiva da irrealidade da realidade, que é também o sentimento da não-realidade do Eu e, assim, ao sentimento de necessidade e  impossibilidade de idealizar um absolutamente real, como se pode ler em formulações várias:  “Hoje, descrente até do que não há/ Vagueio em mim sem mim” (1927); “Aquele que sou agora/ Se existe, é porque morreu” (1930); “Eu vejo-me e estou sem mim,/ Conheço-me e não sou eu” (1931); “ O nada temporal de tudo” (1931); “O Nada que é tudo é o Ser” (1934), ou “Sei que a morte, que é tudo, não é nada” (1934). Ainda na mesma linha, releve-se que o oxímoro pessoano está com frequência anexado à ideia do absurdo da morte, como, por exemplo, em “O Menino de sua Mãe” (1926), “fita com olhar (…) cego”, ou “naquela expressão fixada / Pela falta de expressão” (1927).

    Próximo também do mesmo olhar sobre a estranheza ou a irrealidade da realidade está o oxímoro em Campos, quer na transformação do excesso sensacionista em experiência estética futurista – como acontece, por exemplo, quando a junção de contrários é usada como um dos recursos utilizados na enumeração caótica como, por exemplo, em “Ode Triunfal” (1914): “ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis” (1927)  –, quer na expressão melancólica da experiência moderna do vazio:  “Ah, não poder estar parado nem andar,/ Não estar deitado nem de pé,/ Nem acordado nem a dormir,/nem aqui nem noutro ponto qualquer”, E em “Lisbon Revisited(1923)” lê-se: “Lisboa de outrora de hoje”, “que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento”, “à busca de não buscar”. E, ainda, em “Lisbon Revisited (1926)”: “Definidamente pelo indefinido”, “(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas)”. Aliás, no poema “Mestre, meu mestre querido” (1928), a realização poética que é Alberto Caeiro é definida pelo oxímoro: “Alma abstracta e visual até aos ossos”.

    Verifica-se, assim, que o oxímoro em Pessoa aparece também afecto ao desdobramento heteronímico, moldando-se à invenção singular de cada voz e ligando-se às grandes figuras da disjunção, como a ironia. Mas é em Ricardo Reis que esse carácter de fórmula culminante da contradição atinge maior concisão.

    Porque as odes de Reis, na maioria dos casos, expõem uma ética de vida que é uma ética decorrente da consciência da inevitabilidade da morte, o oxímoro ganha mais fortemente uma configuração aforística ou até sentenciosa.

    Diz Robert Bréchon algures que Reis se inscreve em duas tradições contraditórias: o “sustine et abstine” dos estóicos e o “carpe diem” de Horácio e dos epicuristas, e sintetiza atribuindo a Reis “a livre escolha do inevitável”.

    Alguns dos oxímoros de Ricardo Reis aparecem na forma explícita de sentença: “ finge sem fingires”; “Para folgar não folgas”; “Abdica/ E sê rei”.

    Outros são exemplares pela contracção sintética: “Quão breve tempo é a mais longa vida”;  “não tendes cura/ De ter cura”; “Que a Sorte nos fez postos/ Onde houvemos de sê-lo”; “Teus infecundos, trabalhosos dias” e “os nove abraços da frieza…”; “De quanto a flauta sorrindo chora”; “crianças adultas”; “Nesse desassossego que o descanso/ Nos traz”; “um fado voluntário”; “o que vemos mesmo/ Sem o vermos”; “Com que fingis, sinceros,/ Dar-me os dons que me dais”.

    A regra estóica em Reis define-se pela injunção de não devermos querer mais do que o que nos é dado, no que se aparenta a Alberto Caeiro na sua fórmula de não vermos mais do que o que vemos.

    Então pode dizer-se que a fórmula do oxímoro “quero não querer”, é afinal uma litotes: “não quero mais que não querer”, essa outra figura retórica pessoana, e que estas duas figuras, com frequência, se sobrepõem quer em Reis, quer em Caeiro.

    De facto, neste último heterónimo, o oximoro aparece em versos que se constituem como fórmulas-cláusula da poética explícita: “Só a natureza é divina e ela não é divina” (“O Guardador de Rebanhos”, XXVII); “só eu, porque não a fui achar, achei” (XLVII); “O único mistério é não haver mistério nenhum”; “Porque o único sentido oculto das cousas/  É elas não terem sentido oculto nenhum” (XXXIX); “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa” (XXXVI). Mas aparece noutros versos recorrendo à estrutura retórica da litotes: “não ver senão o visível” (XXVI): “mas para mim, que não sei o que penso/ O que o luar através dos altos ramos/ É, além de ser/ O luar através dos altos ramos,/ É não ser mais/ Que o luar através dos altos ramos” (XXXV).

    BIBL.: Roman Jakobson e Luciana Stegagno Picchio, “Les Oxymores Dialectiques de Fernando Pessoa”, in Luciana Stegagno Picchio, La Méthode Philologique, Écrits sur la LittératurePortugaise, I, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982

    Maria Sousa Tavares

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