Penso Nisto, Não Como Quem Pensa, Mas Como Quem Não Pensa?

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do Mundo?Sei lá o que penso do Mundo!Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?Que tenho eu meditado sobre Deus e a almaE sobre a criação do Mundo?Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhosE não pensar. É correr as cortinasDa minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!O único mistério é haver quem pense no mistério.Quem está ao sol e fecha os olhos,Começa a não saber o que é o SolE a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,E já não pode pensar em nada,Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentosDe todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que fazE por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvoresA de serem verdes e copadas e de terem ramosE a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,A nós, que não sabemos dar por elas.Mas que melhor metafísica que a delas,Que é a de não saber para que vivemNem saber que o não sabem?

‘Constituição íntima das coisas’…‘Sentido íntimo do Universo’…Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.É incrível que se possa pensar em coisas dessas.É como pensar em razões e finsQuando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvoresUm vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisasÉ acrescentado, como pensar na saúdeOu levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisasÉ elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.Se ele quisesse que eu acreditasse nele,Sem dúvida que viria falar comigoE entraria pela minha porta dentroDizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidosDe quem, por não saber o que é olhar para as coisas,Não compreende quem fala delasCom o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvoresE os montes e sol e o luar,Então acredito nele,Então acredito nele a toda a hora,E a minha vida é toda uma oração e uma missa,E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as floresE os montes e o luar e o sol,Para que lhe chamo eu Deus?Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;Porque, se ele se fez, para eu o ver,Sol e luar e flores e árvores e montes,Se ele me aparece como sendo árvores e montesE luar e sol e flores,É que ele quer que eu o conheçaComo árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,Como quem abre os olhos e vê,E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,E amo-o sem pensar nele,E penso-o vendo e ouvindo,E ando com ele a toda a hora.

— Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

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Penso Nisto, Não Como Quem Pensa, Mas Como Quem Não Pensa?Fernando Pessoa e um guardador de rebanhos — Montagem por ~zhiomn~

Copiado de arquivopessoa.net/textos/1482. Referência bibliográfica: “O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). — 28.

Leitura do poema:

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O verso dos enganos: erro no exame de Português está a levantar dúvidas mas IAVE minimiza

No cerne da questão, está o grupo I-A do exame, que tem por referência um poema de Fernando Pessoa, do seu heterónimo Alberto Caeiro, “E há poetas que são artistas…”. Com efeito, a versão do poema apresentada não está em conformidade com o original do emblemático escritor português. No verso “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa”, deveria estar “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”. Uma diferença de alguma dimensão que pesa naturalmente ao nível da interpretação, uma vez que as três questões formuladas aos estudantes incidem sobre este texto e em particular sobre o verso da polémica, nomeadamente a questão dois, “Interprete o verso “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa” (v.9), atendendo à especificidade da poesia de Alberto Caeiro”.

A controvérsia tem existido nas redes sociais. Mas, segundo divulgou o jornal digital “Observador”, o IAVE não se revê nestas críticas e assegura pela voz do seu presidente, Hélder Sousa, que “não há erro nenhum”.

Noticia o “Observador”que, “no comunicado enviado à imprensa, o IAVE esclarece que “o verso em apreço apresenta, na obra citada na prova, a redação que dela consta”.

A edição da obra que foi citada no exame “diverge de outras edições”, mas “o seu teor não impede nem condiciona a resposta ao item 2 do grupo I”: o aluno deve apenas responder à pergunta com base no poema citado, não com base em qualquer outro.

A opção da edição do poema que figurou em exame incidiu sobre Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.72, com o título Poesia de Alberto Caeiro.

Outras opções estranhas constam desta versão do poema, nomeadamente o verbo “construi”, embora com a nota no poema a apontar para a forma adequada, “constrói”, assim como uma vírgula a separar um sujeito nulo subentendido. Mas são dúvidas que para o IAVE não colhem.

Para muitos estudantes, o heterónimo Caeiro é de longe o mais acessível dos estudados, embora as questões formuladas demandem dos alunos um poder de interpretação, raciocínio e redação que nem sempre está ao alcance de todos, agravada com as variáveis típicas do exame como a ansiedade e o nervosismo.

Neste momento, os estudantes nem tempo têm para refletir ou parar para pensar no assunto, porque estão pressionados pelas provas que ainda têm de realizar, nomeadamente hoje, com o grande desafio que é a prova nacional de Física e Química.

No entanto, os professores que conhecem bem os textos que trabalham anualmente, bem como as características dos alunos e toda a ambiência de exame não compreendem estas ocorrências, ainda mais numa prova nacional, quando é convocada uma equipa para a elaborar, ver e rever.

Além disso, o poema transcrito não deveria incidir sobre uma opção incomum ou divergente mas sobre a realidade conhecida e trabalhada em contexto de sala de aula.

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  • 1. Tópicos
  • – Processo de criação poética dos «poetas que são artistas» (v. 1):
  • • trabalho minucioso/rigoroso/artesanal, à semelhança do trabalho do carpinteiro e do pedreiro;
  • • poesia pensada/consciente.
  • – Processo de criação poética dos poetas que sabem «florir» (v. 4):
  • • ato involuntário/espontâneo;
  • • em harmonia com a própria natureza, «única casa artística»; logo, o único modelo de arte.
  • Exemplo de resposta

No poema, são apresentados dois processos distintos de criação poética. De acordo com o primeiro processo – o dos «poetas que são artistas» (v.

1) –, a poesia corresponde a um trabalho minucioso, rigoroso e artesanal. Neste contexto, as comparações com o carpinteiro (v. 3) e com o pedreiro – «como quem construi um muro» (v. 5) – enfatizam o trabalho formal e, por conseguinte, consciente do poeta.

O segundo processo – defendido pelo sujeito poético – é o que se deduz do verso 4, em que o «eu» manifesta a sua tristeza e estranheza por haver poetas que não são capazes de «florir», ou seja, de fazer da criação poética um ato involuntário, espontâneo e tão natural quanto o ato de «florir».

Deste modo, o primeiro processo, o de uma poesia pensada, opõe-se à ideia de uma poesia espontânea e simples, dado que está em contradição com a própria natureza que, na sua diversidade e harmonia, constitui o modelo da verdadeira arte.

  1. 2. Tópicos de resposta
  2. •  Existência de uma contradição entre aquilo que o sujeito poético afirma («não como quem pensa, mas como quem não pensa») e o que ele faz («Penso nisto»).
  3. • Recusa do pensamento puro e valorização das sensações.
  4. Exemplo de resposta
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No verso «Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa» (v.

9), o sujeito poético exprime a ideia de que o pensamento é algo natural e espontâneo, recusando, por isso, o pensamento puro, na medida em que se afasta das sensações.

Ao pensar, incorre, porém, naquilo que combate: a intelectualização. Assim, verifica-se a existência de uma contradição entre o que o «eu» poético afirma (pensar como se não pensasse) e o que faz (pensar).

  • 3. Tópicos de resposta
  • – Valorização das sensações:
  • • privilégio da realidade captada pelos sentidos (vv. 10 e 17);

• negação/recusa do pensamento (vv. 11-12).

  1. – Valorização da comunhão com a natureza:
  2. •  o «eu» é um elemento da natureza tal como as flores, partilhando com elas uma «comum divindade»(v. 14);
  3. • a «Terra» é a mãe natureza, acolhedora e protetora (vv. 15-17)
  4. Exemplo de resposta

Na quarta estrofe do poema, a valorização das sensações é evidenciada pelo facto de o sujeito poético privilegiar a realidade captada pelos sentidos, concretamente a visão e a audição, como se comprova nos versos «E olho para as flores e sorrio…» (v. 10) e «E deixar que o vento cante para adormecermos» (v. 17).

Nega-se, assim, a necessidade de compreender algo mais além daquilo a que se acede através das sensações, atitude evidenciada nos versos «Não sei se elas me compreendem / Nem se eu as compreendo a elas» (vv. 11-12).

A comunhão com a natureza decorre, por um lado, do facto de o «eu» considerar que é um elemento da natureza tal como as flores, partilhando com elas uma «comum divindade» (v. 14) que permite aceder à «verdade» (v. 13) e, por outro lado, do facto de «a Terra» ser caracterizada como a mãe natureza, acolhedora e protetora.

Por esta razão, o homem entrega-se à natureza, numa atitude de desprendimento e de aceitação, sem qualquer mediação reflexiva (vv. 15-17).

  • TEXTO B
  • 4. Tópicos de resposta
  • – Os episódios da infância evocados por Vergílio Ferreira têm em comum o facto de serem:
  • •  partidas/despedidas de entes queridos que viajaram para longe;
  • •  situações de perda que não compreendeu e que lhe provocaram um sentimento agudo de solidão;
  • – Os episódios distinguem-se pelo modo como essas partidas foram experienciadas por Vergílio Ferreira:
  • •  a sugestão de imobilidade e a ausência de choro, no momento da partida do pai, contrastam com a corrida atrás da charrete e com o choro durante a noite, no momento da partida da mãe e da irmã mais velha;
  • • o sentimento de abandono/perda/dor foi mais intenso aquando da segunda partida;
  • •  no momento da escrita, não tem memória de ter estado acompanhado quando o pai se foi embora,mas recorda-se de ter havido muita gente na despedida da mãe e da irmã.
  • Exemplo de resposta

Os episódios evocados têm em comum o facto de corresponderem a situações de perda que o autor não compreendeu e que provocaram nele um sentimento agudo de solidão.

Estes episódios distinguem-se, no entanto, pelo modo como essas partidas foram experienciadas por Vergílio Ferreira: quando o pai partiu, ficou a vê-lo afastar-se, sem exteriorizar o seu espanto e a sua mágoa; todavia, quando a mãe e a irmã partiram, reagiu, correndo atrás da charrete, na tentativa de as alcançar, e, depois, chorando durante a noite.

  1. 5. Tópicos de resposta
  2. •  Tempo (cronológico) da infância reduzido (psicologicamente) a um «longo inverno».
  3. •  Descrição do inverno como um tempo lúgubre, tempestuoso e assustador.
  4. •  Perceção da infância como um tempo penoso, marcado pela angústia, pelo abandono e pela solidão.
  5. Exemplo de resposta

A afirmação «Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo inverno.» (ll. 13-14) sintetiza a perceção de Vergílio Ferreira em relação à sua infância, na medida em que todo esse período é reduzido a um «longo inverno» (l. 14), refletindo uma vivência psicológica do tempo marcada pela dor.

Efetivamente, o facto de a sua infância ter sido cristalizada na memória como um «longo inverno» sugere que se terá tratado de um tempo penoso, sofrido, marcado pela angústia, pelo abandono e pela solidão.

Neste contexto, a descrição do inverno, caracterizado como um tempo lúgubre e tempestuoso, triste e assustador, confirma essa perceção.

GRUPO II

VERSÃO 1 VERSÃO 2
1 C B
2 D C
3 A B
4 D A
5 A D
6 B A
7 A D
  • 8. (Deixis) pessoal
  • 9. (oração) subordinada (adjetiva) relativa (restritiva) 5
  • 10. “ensinar ciência”

GRUPO III

Dada a natureza deste item, não é apresentado exemplo de resposta.

APP JUNHO 2017

Erro no exame de Português? Não, apenas uma versão diferente do poema

Há uma polémica em redor do exame de Português do 12º ano que se realizou na última segunda-feira de manhã. O poema de Fernando Pessoa, no heterónimo de Alberto Caeiro, escolhido para o primeiro grupo de perguntas não era igual à versão original, o que provocou confusão aos estudantes.

Na versão original, o nono verso do poema XXXVI de “O Guardador de Rebanhos” diz: “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”. No entanto, no exame — que cita a terceira edição da obra “Poesia de Alberto Caeiro”, de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, publicada em 2009 –, o verso diz antes: “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa”.

Veja aqui a correção do exame de Português de 12º ano

O poema, que surge na parte A do primeiro grupo do exame serve de base para três perguntas. A segunda pergunta é precisamente sobre o verso em questão e pede aos estudantes que o interpretem “atendendo à especificidade da poesia de Alberto Caeiro”.

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De acordo com Hélder Sousa, presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), “não há erro nenhum”. No comunicado enviado à imprensa, o IAVE esclarece que “o verso em apreço apresenta, na obra citada na prova, a redação que dela consta”.

A edição da obra que foi citada no exame “diverge de outras edições”, mas “o seu teor não impede nem condiciona a resposta ao item 2 do grupo I”: o aluno deve apenas responder à pergunta com base no poema citado, não com base em qualquer outro.

Esta não é a primeira vez que surgem dúvidas em relação aos enunciados dos exames de Português.

Em 2015, a Associação Nacional de Professores de Português denunciou a existência de critérios diferentes para corrigir respostas idênticas nos exames do ensino secundário, que podem servir de prova de ingresso ao ensino superior.

De acordo com esse grupo de professores, nem todos os classificadores das provas tinham recebido a mesma informação com as indicações para a correção do exame.

Mas o IAVE defendeu que “a questão relativa ao item do Grupo III, colocada nos media pela ANPROPORT, parece assentar num desconhecimento da versão final dos critérios de classificação, na qual se refere que a «apresentação de uma reflexão que associe os estímulos sensoriais apenas ao domínio da publicidade não implica, por si só, a desvalorização das respostas»”.

No ano anterior, em 2014, a mesma associação disse ter encontrado um erro nos critérios de correção do exame nacional de Português do 12º ano e que vale meio valor.

O erro era referente a um texto de Lídia Jorge sobre Eça de Queiroz em que o estudante tinha de identificar o ato ilocutório da expressão “como um dia veremos”.

A resposta certa seria ato ilocutório assertivo, mas os critérios de avaliação lançados pelo IAVE admitiam como resposta correta ato ilocutório compromissivo. Mas também nessa altura o IAVE garantiu que não havia qualquer erro.

POEMAS COMPLETOS – Alberto Caeiro, Heterônimo de Fernando Pessoa..

  • Observações: os dois poemas apresentados acentuam a importância dos sentidos, viga mestra da poesia de Caeiro, e refutam o “pensar”.
  • Há metafísica bastante em não pensar em nada. 
  • O que penso eu do mundo? 
  • Sei lá o que penso do mundo! 
  • Se eu adoecesse pensaria nisso 
  • Que ideia tenho eu das cousas? 
  • Que opinião tenho sobre Deus e a alma 
  • E sobre a criação do mundo? 
  • Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos 
  • E não pensar. É correr as cortinas 
  • Da minha janela (mas ela não tem cortinas). 
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O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! 

  1. O único mistério é haver quem pense no mistério. 
  2. Quem está ao sol e fecha os olhos, 
  3. Começa a não saber o que é o sol 
  4. E a pensar muitas cousas cheias de calor. 
  5. Mas abre os olhos e vê o sol, 
  6. E já não pode pensar em nada, 
  7. Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos 
  8. De todos os filósofos e de todos os poetas. 
  9. A luz do sol não sabe o que faz 
  10. E por isso não erra e é comum e boa. 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? 

  • A de serem verdes e copadas e de terem ramos 
  • E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, 
  • A nós, que não sabemos dar por elas. 
  • Mas que melhor metafísica que a delas, 
  • Que é a de não saber para que vivem 
  • Nem saber que o não sabem? 

“Constituição íntima das cousas”… 

“Sentido íntimo do universo”… 

  1. tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. 
  2. É incrível que se possa pensar em cousas dessas. 
  3. É como pensar em razões e fins 
  4. Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores 
  5. Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. 
  6. Pensar no sentido íntimo das cousas 
  7. É acrescentado, é como pensar na saúde 
  8. Ou levar um copo à água das fontes. 
  9. O único sentido íntimo das cousas 
  10. É elas não terem sentido íntimo nenhum. 
  11. Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
  12. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
  13. Sem dúvida que viria falar comigo 
  14. E entraria pela minha porta dentro 
  15. Dizendo-me, Aqui estou! 
  16. (Isto é talvez ridículo aos ouvidos 
  17. De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, 
  18. Não compreende quem fala delas 
  19. Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) 
  20. Mas se Deus é as flores e as árvores 
  21. E os montes e sol e o luar, 
  22. Então acredito nele, 
  23. Então acredito nele a toda a hora, 
  24. E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 
  25. E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. 
  26. Mas se Deus é as árvores e as flores 
  27. E os montes e o luar e o sol, 
  28. Para que lhe chamo eu Deus? 
  29. Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; 
  30. Porque, se ele se fez, para eu o ver, 
  31. Sol e luar e flores e árvores e montes, 
  32. Se ele me aparece como sendo árvores e montes 
  33. E luar e sol e flores, 
  34. É que ele quer que eu o conheça 
  35. Como árvores e montes e flores e luar e sol. 
  36. E por isso eu obedeço-lhe, 
  37. (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), 
  38. Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, 
  39. Como quem abre os olhos e vê, 
  40. E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, 
  41. E amo-o sem pensar nele, 
  42. E penso-o vendo e ouvindo, 
  43. E ando com ele a toda a hora.

Observações: a definição de Deus nesse poema aproxima-se do panteísmo, doutrina filosófica segundo a qual só o mundo é real e Deus é a soma de todas as coisas e nelas se manifesta. Assim, as flores, as árvores, os montes, o sol e o luar são manifestações da própria divindade. Pode-se, assim, falar de uma verdadeira “religião da Natureza”.

  • IX 
  • Sou um guardador de rebanhos. 
  • O rebanho é os meus pensamentos 
  • E os meus pensamentos são todos sensações. 
  • Penso com os olhos e com os ouvidos 
  • E com as mãos e os pés 
  • E com o nariz e a boca. 
  • Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la 
  • E comer um fruto é saber-lhe o sentido. 
  • Por isso quando num dia de calor 
  • Me sinto triste de gozá-lo tanto, 
  • E me deito ao comprido na erva, 
  • E fecho os olhos quentes, 
  • Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 
  • Sei a verdade e sou feliz. 
  • “Olá, guardador de rebanhos, 
  • Aí à beira da estrada, 
  • Que te diz o vento que passa?” 
  • “Que é vento, e que passa, 
  • E que já passou antes, 
  • E que passará depois. 
  • E a ti o que te diz?” 
  • “Muita cousa mais do que isso. 
  • Fala-me de muitas outras cousas. 
  • De memórias e de saudades 
  • E de cousas que nunca foram.” 
  • “Nunca ouviste passar o vento. 
  • O vento só fala do vento. 
  • O que lhe ouviste foi mentira, 
  • E a mentira está em ti.” 
  • XX 
  • O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, 
  • Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 
  • O Tejo tem grandes navios 
  • E navega nele ainda, 
  • Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, 
  • A memória das naus. 
  • O Tejo desce de Espanha 
  • E o Tejo entra no mar em Portugal. 
  • Toda a gente sabe isso. 
  • Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia 
  • E para onde ele vai 
  • E donde ele vem. 
  • E por isso, porque pertence a menos gente, 
  • É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 
  • Pelo Tejo vai-se para o mundo. 
  • Para além do Tejo há a América 
  • E a fortuna daqueles que a encontram. 
  • Ninguém nunca pensou no que há para além 
  • Do rio da minha aldeia. 
  • O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. 
  • Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Observações: no poema XX, a oposição entre o mundo imaginado (o Tejo) e o mundo real (o rio que corre pela minha aldeia), entre o imaginário e o real, constrói-se através de uma linguagem poética próxima da prosa. A construção anafórica (reiteração de O Tejo…

) equilibra-se pela sucessão de epístrofes (repetições de fim de verso: “pela minha aldeia”, nos três primeiros versos, e “o rio da minha aldeia”).

Apesar da aparente simplicidade, há uma arquitetura equilibrada e complexa nas relações ocultas sobre as quais se sustenta a oposição mundo real e mundo imaginado.

  1. XXIV 
  2. O que nós vemos das cousas são as cousas. 
  3. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra? 
  4. Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos 
  5. Se ver e ouvir são ver e ouvir? 
  6. O essencial é saber ver, 
  7. Saber ver sem estar a pensar, 
  8. Saber ver quando se vê, 
  9. E nem pensar quando se vê 
  10. Nem ver quando se pensa. 
  11. Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!), 
  12. Isso exige um estudo profundo, 
  13. Uma aprendizagem de desaprender 
  14. E uma sequestração na liberdade daquele convento 
  15. De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas 
  16. E as flores as penitentes convictas de um só dia, 
  17. Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas 
  18. Nem as flores senão flores, 
  19. Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores. 
  20. Análise da obra 
  21. 2- O Pastor Amoroso
  22. O amor é uma companhia. 
  23. Já não sei andar só pelos caminhos, 
  24. Porque já não posso andar só. 
  25. Um pensamento visível faz-me andar mais depressa 

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. 

VI 

Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela. Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala, E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança. Amar é pensar. E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela. Tenho uma grande distracção animada. Quando desejo encontrá-la, Quase que prefiro não a encontrar, Para não ter que a deixar depois. E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo. Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só pensar ela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

  • Observações: embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece. 
  • Análise da obra 
  • 3- Poemas Inconjuntos  
  • a) Se eu morrer novo, 
  • Sem poder publicar livro nenhum, 
  • Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, 
  • Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, 
  • Que não se ralem. 
  • Se assim aconteceu, assim está certo. 
  • Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, 
  • Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. 
  • Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, 
  • Porque as raízes podem estar debaixo da terra 
  • Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. 
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Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. 

  1. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: 
  2. Nunca fui senão uma criança que brincava. 
  3. Fui gentio como o sol e a água, 
  4. De uma religião universal que só os homens não têm. 
  5. Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma, 
  6. Nem procurei achar nada, 
  7. Nem achei que houvesse mais explicação 
  8. Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. 
  9. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva – 
  10. Ao sol quando havia sol 
  11. E à chuva quando estava chovendo 
  12. (E nunca a outra coisa), 
  13. Sentir calor e frio e vento, 
  14. E não ir mais longe. 
  15. Uma vez amei, julguei que me amariam, 
  16. Mas não fui amado. 
  17. Não fui amado pela única grande razão – 
  18. Porque não tinha que ser. 
  19. Consolei-me voltando ao sol e à chuva, 
  20. E sentando-me outra vez à porta de casa. 

Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído. 

b)Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, Não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus. 

Sou fácil de definir. 

Vi como um danado. 

Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma. Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei. Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver. Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras; Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento. Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais. 

  • Um dia deu-me o sono como a qualquer criança. 
  • Fechei os olhos e dormi. 
  • Além disso, fui o único poeta da Natureza. 
  • c) Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. 
  • Ambos existem, cada um como é. 
  • d)Todas as opiniões que há sobre a Natureza 
  • Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor. 
  • Toda a sabedoria a respeito das cousas 
  • Nunca foi cousa em que pudesse pegar, como nas cousas. 
  • Se a ciência quer ser verdadeira, 
  • Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência? 
  • Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito 

Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem. Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas. 

  1. (ditado pelo poeta no dia de sua morte)  
  2. É talvez o último dia da minha vida. 
  3. Saudei o sol, levantando a mão direita, 
  4. Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus. 
  5. Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada. 
  6. Observações:
  7. •  Alberto Caeiro reforça a postura do poeta dos sentidos, sem filosofias, sem metafísica, que tem consciência das coisas do jeito como elas são, sem rodeios ou artificialismos.
  8. •  embora pareça perturbado diante do amor, ele não se esquece do sentir, “quase” se esquece. 
  9. Teste VestibUOL 
  10. Veja se você assimilou bem a história que Guimarães Rosa escreveu em “Poemas Completos de Alberto Caeiro” 
  11. Textos para as questões 01 e 02: 
  12. “Não acredito em Deus porque nunca o vi. 
  13. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, 
  14. Sem dúvida que viria falar comigo 
  15. E entraria pela minha porta dentro 

Dizendo-me, Aqui estou! (…) 

  • Mas se Deus é as flores e as árvores 
  • E os montes e sol e o luar, 
  • Então acredito nele, 
  • Então acredito nele a toda a hora, 
  • E a minha vida é toda uma oração e uma missa, 

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. (…)”  

(Alberto Caeiro) 

“Todo o panteão, como os dos gregos, supõe múltiplos deuses; cada um tem suas funções próprias, seus campos reservados, seus modos de ação particulares, seus tipos específicos de poder.

Esses deuses, que nas suas relações mútuas compõem uma sociedade hierarquizada do além em que as competências e os privilégios são objeto de uma repartição bastante estrita, limitam-se necessariamente uns aos outros, ao mesmo tempo que se completam.

Não mais que a unicidade, no politeísmo, o divino não implica, como para nós, a onipotência, a onisciência, a infinitude, o absoluto. 

Esses deuses múltiplos estão no mundo, fazem parte dele. Não o criaram por um ato que, no deus único, marca sua completa transcendência em relação a uma obra cuja existência deriva e depende inteiramente dele. Os deuses nasceram no mundo.” 

(VERNANT, Jean-Pierre- Mito e religião na Grécia Antiga).

  • 1.

    Da relação entre os textos, podemos concluir que: 

  • A concepção que Caeiro apresenta de Deus destoa da apresentada por Vernant, posto que Caeiro crê em uma Deus transcendente; 
  • Só interessa a Caeiro tratar da existência de Deus no plano metafísico, reafirmando a concepção grega de deuses; 
  • Para Caeiro, Deus existe porque rege, de um outro plano, as coisas do mundo, tais como flores, montes e árvores; 
  • Para os gregos, assim como para Caeiro, os deuses habitam planos que vão além do físico; 
  • Caeiro acredita em deuses que estão presentes no mundo real-sensível, conforme afirma Vernant ao tratar dos deuses da Grécia Antiga; 
  • 2. Da leitura do poema, depreende-se que: 
  • O eu lírico assume uma postura religiosa diversa da tradicional; 
  • O Deus de Caeiro está presente somente nos templos religiosos; 
  • A religiosidade de Caeiro é católica tradicional; 
  • Ao descrer de Deus, o poeta assume uma postura veementemente atéia; 
  • Ao considerar a figura de Deus onipresente, o eu lírico a despreza; 
  • 3. O guardador de rebanhos – Alberto Caeiro XI 
  • Aquela senhora tem um piano 
  • Que é agradável mas não é o correr dos rios  
  • Nem o murmúrio que as árvores fazem …  

    • Para que é preciso ter um piano?  
    • O melhor é ter ouvidos  
    • E amar a Natureza  
    • Assinale a alternativa que não se aplica ao poema acima: 
    • A análise do poema revela um lirismo instintivo e espontâneo sem qualquer idealização ou mitificação; 
    • Pode-se concluir que o poeta é basicamente sensorial e que sua relação com o mundo surge dos sentidos; 
    • O eu-lírico não procura pensar o mundo, mas antes senti-lo; 
    • Segundo o poema, o piano, objeto feito pelo homem, assume papel superior ao dos sons produzidos pela natureza; 
    • O eu-lírico refugia-se na natureza, pois crê que pensar o mundo o afasta da essência das coisas; 

    4. Segundo o professor Álvaro Cardoso Gomes, em Alberto Caeiro, “a Natureza não é meramente decorativa, (…) porque ela é determinante. O homem só tem existência a partir da Natureza. Descobre-se como ser, nela.” (Fernando Pessoa: as muitas águas de um rio). Assinale a alternativa em que a teoria acima possa ser aplicada: 

    “Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada / É livre: quem não tem, e não deseja, / Homem, é igual aos deuses.” 

    “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido.” 

    “Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço.” 

    “Pobre velha música! / Não sei por que agrado, / Enche-se de lágrimas / Meu olhar parado.” 

    “Caiu chuva em passados que fui eu. / Houve planícies de céu baixo e neve / Nalguma cousa de alma do que é meu.”

    Por: Stockler Vestibulares

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