Novela Ninguem Como Tu Quem Matou O Antonio?

Novela Ninguem Como Tu Quem Matou O Antonio?

Estávamos no final do século passado, em 1999, quando a TVI decidiu apostar na primeira novela portuguesa do canal, escrita e representada por profissionais portugueses. «Todo o Tempo do Mundo» iniciou esta longa caminhada, que ficou marcada com vários sucessos na história do canal e da ficção nacional.

Apesar de dezenas de novelas produzidas pela TVI, existiu uma que se destacou, e que ainda hoje permanece na memória dos portugueses. Falo-vos da novela «Ninguém Como Tu», emitida em 2005.

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«Ninguém Como Tu» estreou no dia 3 de abril de 2005, e permaneceu no canal com um total de 199 episódios, terminando a 20 de dezembro do mesmo ano. Foi escrita por Rui Vilhena, sendo a primeira novela do autor para a TVI.

«Ninguém Como Tu» contou com um elenco de luxo, com nomes bastante conhecidos do público português, tais como Alexandra Lencastre, Dalila Carmo, Manuela Couto, Nuno Homem de Sá, Sofia Aparício, Rosa Lobato de Faria, entre muitos outros.

Novela Ninguem Como Tu Quem Matou O Antonio?

A história central da novela envolvia três mulheres, irmãs, Luíza Albuquerque (Alexandra Lencastre), Dulce da Silva (Manuela Couto) e Júlia dos Santos (Dalila Carmo).

As três irmãs tinham feitios muito distintos, sendo Luíza Albuquerque uma mulher que ambicionava chegar à fama e às grandes elites sociais.

As outras duas irmãs, opondo-se a Luíza Albuquerque, eram humildes e mostravam um grande orgulho pela família.

Uma parte do enredo de «Ninguém Como Tu» estava ligado aos dramas existentes nas famílias destas três irmãs. No entanto, o que tornou esta novela tão especial foi o mistério criado pela morte de uma personagem.

Luíza Albuquerque, para subir na vida, decidiu conquistar um homem rico, que lhe poderia dar tudo o que ela queria. António Calado (Nuno Homem de Sá) era esse homem, que depois de se ter separado, caiu nos braços de Luíza Albuquerque.

Numa noite de tempestade, António Calado foi morto, no seu próprio quarto, sem que se tenha revelado a identidade do assassino. Durante os restantes episódios, o enredo da novela girava à volta de quem o tinha morto, onde todos os personagens, excepto as crianças, eram suspeitos. Todos tinham razões para o ter morto, mas só um tinha levado essa tarefa em frente.

Durante meses, o país perguntava a si mesmo, «Quem matou o António?», mas só no último episódio é que a verdadeira identidade do assassino foi revelada. Quem o tinha morto foi a melhor amiga e conselheira de Luíza Albuquerque, Guida Martins (Sofia Aparício), com o objetivo de fazer as vontades que Luíza Albuquerque, inconscientemente, lhe ia revelando.

No final, Luíza Albuquerque morre, com uma cena surpreendente, onde a sua mãe, Milú (Rosa Lobato de Faria) a vem buscar em espírito.

Para além do enredo central, «Ninguém Como Tu» abordou temas como a homossexualidade e a cleptomania.

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Esta novela, para além de todo o seu sucesso em audiências, foi premiada, em outubro de 2005, com o Prémio Arco-íris, da Associação ILGA Portugal, pelo seu contributo na luta contra a discriminação e homofobia.

Em termos audiométricos, o primeiro episódio obteve 14,3% de rating e 33,9% de share. O último episódio, onde foi revelado a identidade do assassino obteve 25,9% de rating e 67,2% share. Com um total de 199 episódios, a novela obteve uma audiência média de 16,5% rating e 42,3% de share.

O mesmo autor, Rui Vilhena, dois anos mais tarde, repetiu o sucesso com «Tempo de Viver», que actualmente é emitida nas tardes da TVI.

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Ninguém Como Tu

Ninguém como Tu foi uma telenovela portuguesa transmitida na TVI entre 3 de Abril e 20 de Dezembro de 2005. É da autoria de Rui Vilhena e contou com 199 episódios. A novela está a repetir nas tardes da TVI no horário das 14h00 desde 4 de Março de 2013. A acção narrativa decorre entre Lisboa e Almada.

Sipnose

No primeiro episódio desta história, os personagens são-nos apresentados em três acontecimentos de grande suspense: um casamento que está na iminência de não se realizar, um desfalque e o desaparecimento de uma criança.

Luíza Albuquerque (Alexandra Lencastre) está a braços com a preparação do casamento da sua filha Teresa Albuquerque (Benedita Pereira). A noiva não está muito convencida do passo que vai dar e nas vésperas da cerimónia conhece Miguel Rosa (José Fidalgo).

Este salva-a de um conflito em pleno aeroporto quando Teresa vai buscar a sua irmã Isabel Albuquerque (Liliana Santos), vinda de Nova Iorque para o casamento.

Teresa apaixona-se por Miguel mas põe o amor dos dois nas mãos do destino: se não voltarem a encontrar-se até ao dia seguinte, cada um seguirá a sua vida.

No dia do casamento, enquanto Teresa se debate com a dúvida da decisão que tem que tomar, a família Albuquerque é assombrada pela notícia de que a empresa de Mário Albuquerque (Vítor Norte) sofreu um desfalque feito pelo seu director financeiro e pela sua secretária Leonor Esteves (São José Correia), deixando-os na miséria. Luíza vê-se, assim, entre uma filha que não quer casar com um homem rico e um marido na falência. O destino dos Albuquerque fica nas mãos de Teresa.

Luíza e as suas duas irmãs, Júlia Gaspar dos Santos (Dalila Carmo) e Dulce Paredes da Silva (Manuela Couto), filhas de Luciano Gaspar dos Santos (Sinde Filipe) e Milú Gaspar dos Santos (Rosa Lobato de Faria), têm uma relação pouco próxima e tensa, ponto de partida para os grandes conflitos familiares.

No primeiro episódio, Luíza vai ainda ao encontro de outra situação familiar. Jaime Gaspar dos Santos (João Pedro Cary), filho adoptivo de Júlia, desaparece sem deixar rasto, deixando todos desesperados.

Luíza não se mostra muito preocupada, pois o casamento da filha é a sua única prioridade.

A procura de Jaime faz com que Luíza e Pedro Paredes da Silva (Ricardo Carriço), seu cunhado, casado com Dulce, se encontrem e fiquem sozinhos por momentos ao fim de muitos anos, despertando o grande amor adormecido que os une desde sempre.

Dulce e Pedro têm dois filhos, Ana Paredes da Silva (Márcia Leal), que esconde também um segredo do seu passado, e João Paredes da Silva (Frederico Barata), um jovem à descoberta da sua sexualidade.

Teresa acaba por fugir do casamento, passando a ser uma noiva em fuga, em busca do amor. Acaba por se perder entre o Restelo e Almada e vai parar a casa de Alexandre Costa (Joaquim Horta), um cartomante cheio de boa disposição.

Este é filho de Conceição Costa (Lia Gama), uma senhora religiosa que vive bem com a orientação sexual do filho, mas a quem não agrada a presença do tarot em sua casa. Com eles virá morar Henrique Arvana (Guilherme Barroso), sobrinho de Conceição, que vem para Lisboa estudar Medicina.

Pelos menos, é o que todos pensam, já que Henrique esconde um segredo surpreendente.

Alexandre e Conceição são vizinhos de Júlia. No mesmo prédio vivem Paula Duarte (Vera Alves) e Frederico Duarte (António Pedro Cerdeira), um casal tradicional que não aparenta grandes complicações. No entanto, o temperamento machista de Frederico será o cerne de problemas.

Juntos têm um filho, Guilherme Duarte (João Secundino), amigo de Jaime e o grande cúmplice na fuga deste.

Eugénia Macieira (Márcia Breia), mãe de Paula, deixa a vila onde vive e vem para a cidade ajudar a sua filha, entrando em contacto com um mundo novo, que lhe faz confusão em quase todos os detalhes.

Beatriz Paiva Calado (Suzana Borges) é casada com António Paiva Calado (Nuno Homem de Sá) e mãe de dois filhos, Nuno Paiva Calado (Alexandre Ferreira) e Inês Paiva Calado (Maria João Falcão), uma jovem cleptomaníaca.

Beatriz, amiga de Luíza, não é uma mulher feliz devido às sucessivas traições de António.

Quem apoiará Beatriz em todas estas situações por que passará é o seu cunhado, Gabriel Paiva Calado (Pedro Lima), um cirurgião plástico, viúvo e com uma filha, Carmo Paiva Calado (Patrícia Franco) que tudo faz para arranjar uma namorada ao pai.

No dia 20 de Dezembro de 2005 (último capítulo) foi revelada Guida Martins (Sofia Aparício), a melhor amiga de Luíza, por interesse, como sendo a assassina de António.

A novela acaba com um desfecho no mínimo perturbante – morre Luíza Albuquerque.

A cena final contém um misto de drama e transcendência quando se assiste à libertação corporal de Luíza, levada deste mundo pela mãe, Milú, falecida a meio da trama, num acidente rodoviário.

Elenco

  • Actores Convidados:
  • Participações especiais:
  • Elenco Infantil:
  • Elenco adicional:

Curiosidades

  • Luiza teve um desfecho trágico no enredo: morreu com um aneurisma que lhe tinha sido diagnosticado. Ainda hoje, a personagem Luiza Albuquerque é uma referência entre os vilões da ficção portuguesa para muita gente.
  • Há quem considere que Luiza Albuquerque deve ser considerada uma anti-heroína e não uma vilã. Ao longo da trama ficou explicito que Luiza ajudou a família sempre que pôde e muitos dos seus esquemas traziam beneficios às suas vitimas.
  • A novela foi premiada, em Outubro de 2005, com o Prémio Arco-íris, da Associação ILGA Portugal, pelo seu contributo na luta contra a discriminação e homofobia.
  • A personagem Júlia foi inicialmente proposta a Sofia Alves, porém, a actriz recusou o papel, que foi entregue a Dalila Carmo. O mesmo aconteceu com a personagem Miguel, recusada pelo actor Pedro Granger, sendo então entregue a José Fidalgo.
  • Destaque também para São José Correia como a emergente Leonor, Maria João Falcão como a cleptomaníaca e conflituosa Inês e Sofia de Portugal no papel da impostora Glória, que juntamente com o seu marido (Lourenço Henriques), faziam-se passar por um casal de milionários, armando os maiores esquemas para pertencer ao jet-set português. A sua personagem teve enorme brilho, conseguindo “roubar a cena”, devido à carga cómica, porém, por motivos profissionais ou de roteiro, acabou por sair a meio da novela, não permanecendo até ao final.
  • As gravações dos primeiros episódios acabaram por ser repetidas. Erros técnicos levaram a NBP a refazer tudo e alguns papéis foram alterados. José Fidalgo e Alexandre Ferreira trocaram entre si os papéis inicialmente previstos.
  • Grande parte das audiências deveram-se também ao mistério à volta do assassinato de António Paiva Calado, personagem de Nuno Homem de Sá, encontrado morto com uma bala na cabeça. António fora um personagem indelicado, imponente e impiedoso, o que faz com que crie muitas inimizades e o que faz com que grande parte das personagens sejam suspeitas do sua morte, pois todas elas tinham motivos para o fazer. Desde razões relacionadas com dinheiro, outras relacionadas com vingança, praticamente todo o elenco podia ter morto António, porque quando alguém não se preocupa com sentimentos de ninguém, é fácil criar ódios e é fácil as pessoas não gostarem do mesmo. De ressaltar que Guida, a verdadeira culpada, era talvez a personagem que menos se pensava ter morto António. O autor poderá ter pensado bastante até encontrar a forma de matar António, pois na altura da sua morte acontecem vários atos da sua parte que poderiam ter levado à mesma. A ameaça a Júlia, o confronto com Gabriel, em que o acusa de ter morto a mulher, a destruição da empresa de Beatriz e Mário, causada por António, os assédios, cada vez mais frequentes, a Paula, a revelação dos mesmos assédios a Frederico, que promete vingança, etc… Todo um conjunto de ações mostram o quão impiedoso António fora para cada uma das personagens e reforça a ideia de que todos pensaram em matar António.
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Suspeitos da morte de António Paiva Calado

Luiza – cansada dos desaforos do novo marido, seria a principal beneficiária da morte deste. Com o marido morto, poderia ter dinheiro para tudo o que quisesse e tornar-se-ia uma mulher rica. Torna-se a culpada mais óbvia.

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Gabriel – manteve sempre uma relação conflituosa com o irmão, que o acusou de ter levado a sua mulher ao suicídio;
Mário – viu-se obrigado a vender a sua mansão a António, que também atentou contra a sua empresa, para além de ter casado com a sua ex-mulher, Viu a sua nova empresa destruída por ele;
Beatriz – foi constantemente humilhada pelo ex-marido, durante o casamento e após o divórcio. Viu a sua nova empresa destruída por ele;
Leonor – uma das inúmeras amantes de António, mas nunca a preferida;
Frederico – sempre nutriu um enorme despeito pelo patrão, que lhe negou uma promoção na carreira e tentou ainda seduzir a sua mulher;
Pedro – matar António seria criar uma oportunidade para finalmente ficar com Luiza;
Paula – assediada várias vezes pelo patrão, logo após ter sido promovida na empresa;
Júlia – chantageada por António, que ameaçou denunciar a adopção ilegal de Jaime, caso Júlia continuasse a pressionar Luiza por dinheiro;
Tiago – soube que a namorada Júlia estava a ser vítima de uma grave chantagem por António;
Alexandre – não aparenta motivos de vingança, nem tão pouco benefícios financeiros com a morte do ex-patrão, mas esteve sempre ausente nas horas suspeitas;
José – era pobre e vivia no desejo de conseguir para si a vida e o dinheiro de alguém como António; queria ainda conquistar a admiração da mulher, Glória;
Inês – sempre foi vingativa e as suas maiores frustrações, como a cleptomania, tinham origem nos tristes e pouco discretos episódios de traição do pai;
Nuno – apoiante incondicional da mãe, mostrou que já não via em António um pai, mas sim um alvo a evitar;
TeresaAntónio era a raiz de uma série de tensões na sua vida, nomeadamente quando atenta contra a sua agência de viagens;
Glória – matar António significaria ganhar um atalho para a sua ascensão social, nomeadamente porque seria mais fácil aproveitar-se de Luíza e conseguir mudar-se para a mansão;
Lurdes – está acima de todas as suspeitas, como qualquer empregada doméstica, e nunca foi respeitada pelo patrão; mais do que qualquer outra personagem, tinha o meio e a oportunidade;
CarlaAntónio era simplesmente um patrão desagradável e é, por norma, a secretária quem mais o sente na pele.

  • Em Agosto, descobriu-se que José tinha alvejado António, obrigando-o a simular o suicídio, para ficar com parte dos seus bens e extorquir Luiza, uma vez que tinha uma gravação em que a socialite diz desejar a morte de António. Porém, revelou-se que António havia sido envenenado antes do tiro (com veneno de escorpião), o que leva o caso ao verdadeiro assassino. A pergunta ao mistério “Quem matou António?” ficou nas bocas do público até ao último e derradeiro episódio, onde, após uma confusa troca de copos durante a festa (havendo um que estava envenenado), se descobre que Guida (Sofia Aparício) foi a responsável pelo crime.

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Ninguém como tu

por luís portela médico e administrador de empresas

21 Dezembro 2005 às 00:00

À hora em que escrevo esta crónica sou um português claramente menos informado que o meu estimado leitor. Não necessariamente menos feliz, mas menos informado.

Não sei quem matou o António e não sei quem acabou vivo no debate Soares-Cavaco.

Se no primeiro caso a curiosidade é nula porque não sigo a trama, no segundo, aquilo que já sei é que ninguém como eles teve oportunidade para provar que o problema não é o modelo do confronto, mas sim os seus contendores.

Voltando à novela há que dizer que não há ninguém como a TVI para valorizar os produtos que tem nos tempos que correm. Mesmo que possam pôr em risco a vida de portugueses inocentes. Falo por mim.

Ontem resolvi finalmente ir cortar o cabelo, sem cuidar de saber os planos que a televisão de Moniz tinha para essa hora. O que se revelou profundamente arriscado.

No Donna Fashion, do meu amigo Júlio Magalhães, que é onde me preparo para a “recuta”de todos os dias, ainda cortam o cabelo (pelo menos o meu) com recurso a uma navalha bem afiada.

Por favor sintam comigo o ambiente. A televisão está sintonizada na TVI, “patron oblige”. O José Eduardo Moniz (que não conseguiu proteger devidamente a Manuela dos impulsos reformistas do conúbio de Pais de Amaral com os espanhóis) guardou a sete chaves o super ansiado final da novela.

Guardado estava este bocado para se vingar do sorteio que deu à RTP o brinde Soares – Cavaco. A operação anti – presidenciais envolveu um aparato policial nunca visto.

A cassete do episódio final está a caminho de Queluz num carro blindado, daqueles que transportam os euros entre os bancos e os multibancos.

No Donna Fashion eu sou só mais um cliente e o cortejo da cassete no carro blindado, seguido por câmaras instaladas em helicópteros, põe a navalha a descrever círculos de oportunidade duvidosa entre o meu cabelo e o meu pescoço. Sou salvo pelo “gong” e pelo Goucha bendita publicidade!

Se ainda não chegou à página do JN que o informa das audiências de ontem (e que se calhar só saberá amanhã…) eu dou-lhe já o resultado sem precisar de telefonar à Maya houve muito mais gente a saber quem matou o António, do que a ver quem sobreviveu ao debate entre a múmia e a esfinge das nossas presidenciais.

Não vale a pena gastar dinheiro a encomendar uma sondagem ou a pagar um estudo para perceber as razões da preferência. São de duas ordens, ainda que não tenha a certeza sobre a hierarquia. Pouca gente percebe para que é que servem as presidenciais e muita gente sabe para que é que serve o último episódio de uma novela esticada até ao limite.

Por outro lado, se os programas da TV atractivos precisam de um boa promoção, imagine-se do que precisam os outros. Se há quem ache que Moniz exagerou porque mandou chover no molhado (e é para isso que servem os “manda-chuvas” da televisão…

), na RTP continuaram a pregar no deserto como dizem as minhas sobrinhas, foi uma seca a promover outra seca.

Os intelectuais optimistas, mas caducos, como os Prado Coelho desta vida, estão fartos de profetizar que um novo tempo substituirá estes tempos.

Por mim acho que é tempo de pensar que os cemitérios, como o do Biritiba Mirim, estão cheios de insubstituíveis.

Ou a política se decide de uma vez por todas a ter uma relação menos envergonhada com o marketing e mais embrenhada com os sentimentos do povo, ou um dia destes vamos poder dizer, até no Natal, que estes debates não interessam nem ao menino Jesus.

Manuel Serrão escreve no JN, semanalmente, às quartas-feiras

Ama os teus inimigos

Vivemos num mundo onde os intelectuais prevalecem e onde frequentemente se admite a inteligência como a característica mais superior do homem. Contudo, quando procuramos os mais elevados valores universais, pode-se colocar a questão de o valor dos valores ser a inteligência ou o amor ou a harmoniosa conjugação dos dois.

Considerando a Terra um mundo-escola onde vimos para aprender a corrigir os nossos erros, conquistando a evolução no sentido da plenitude, valerá a pena ponderar qual será a maior dificuldade a vencer, o valor mais difícil de conquistar. Esse será provavelmente o que nos aproximará mais da perfeição.

Muitos pensadores admitem que nós somos aquilo que pensamos e que temos aquilo que merecemos. Quando nos esforçamos honestamente para conseguir algo, mais cedo ou mais tarde conseguimo-lo.

Por outro lado, quando fazemos algo de errado, mais cedo ou mais tarde a Natureza proporcionar-nos-á uma situação que nos permita perceber o erro, corrigir a nossa perspectiva e passar a actuar correctamente. Pelo nosso livre arbítrio sempre temos a possibilidade de estar atentos à situação ou não, de a percebermos ou não e de concentrarmos esforços para a corrigir ou não.

Mas enquanto não aprendemos, sempre surgem novas oportunidades para o fazermos, provavelmente com um grau de sofrimento crescente, o qual funcionará como sinal de alerta, procurando despertar-nos para a realidade. A lei de causa-efeito parece ser impessoal, imparcial, automática, inteligente, justa, inevitável, independente do tempo e de quaisquer condições sociais, económicas, intelectuais, políticas, religiosas, etc.

Aparentemente não estamos condenados a um determinado destino. Sempre temos a possibilidade de aprender ou não. Aparentemente os nossos actos, mais do que por qualquer outra entidade – terrena ou celestial – são julgados por nós próprios, por uma consciência cada vez mais desperta, mais rica, mais transparente, mais pura.

Quando Jesus disse “ama os teus inimigos”, quis provavelmente alertar a humanidade para a necessidade de preencher esse requisito no caminho de aprendizagem espiritual. Talvez o último degrau, mas, sem dúvida, um degrau necessário, embora bastante difícil.

Serão certamente poucos os homens que conseguem olhar para os seus semelhantes que os procuram prejudicar, atacar, ferir e encontrar em si próprios a força necessária para se desviarem das suas investidas e para as relativizarem, olhando com pena para esses seres por não serem ainda capazes de fazerem melhor. Talvez até tentando ajudá-los a perceberem essa sua debilidade e a vencê-la, numa atitude de verdadeiro amor espiritual.

Este poderá ser o passo mais difícil, de busca inteligente para a harmonia, para o Amor Total. E quem for capaz de amar sem restrições, provavelmente, mais cedo ou mais tarde, também será amado sem restrições. Quando qualquer de nós, de facto, amar todas as partículas do Todo, estará profundamente sintonizado com ele; será apenas Amor. Será, verdadeiramente, uma partícula do Amor Universal.

Luís Portela escreve no JN, quinzenalmente, às quartas-feiras

o último episódio de uma novela esticada até ao limite

Ninguém como Tu | Brinca Brincando

Luiza Albuquerque (Alexandra Lencastre) cedo chegou aos escaparates das revistas cor-de-rosa e a uma vida descontraída, graças a um casamento financeiramente proveitoso com o empresário do ramo da construção civil Mário Albuquerque (Vítor Norte). Nunca fora pobre, mas o dinheiro não abundava.

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Antes de embrulhar os milhões de Mário na carteira, apaixonara-se por Pedro (Ricardo Carriço) com quem vivera ardente romance, mas a voz do dinheiro falou mais alto.

O mesmo dinheiro, que Mário descobre não ter – depois de um golpe certeiro aplicado por Afonso (José Neves), diretor financeiro da empresa –, abre-lhe a porta à penúria e dita o fim do casamento.

O ego escalavra-se também porque Teresa (Benedita Pereira), a filha mais nova de Luiza e de Mário, se apaixona à primeira vista por Miguel (José Fidalgo), na véspera do casamento, e manda, sem pestanejar, o enlace para as urtigas, lançando-se na demanda do seu sonho com um rapaz remendado e sem capacidade para lhe sustentar caprichos. A outra filha, Isabel (Liliana Santos), parece viver à sombra do dinheiro: dada a futilidades como a mãe, vive em Nova Iorque e bate o pé a ter de regressar à boçalidade de Portugal.

Sem um chavo, e com a vida de pernas para o ar, Luiza põe astúcia na manha e lança a rede a António Paiva Calado (Nuno Homem de Sá), marido da sua amiga Beatriz (Suzana Borges), achando que dessa forma recuperará o seu conforto financeiro.

António enriqueceu à custa do casamento com Beatriz, que transformou num mero pró-forma. Gaba-se de ser um conquistador inveterado, para desgosto da mulher, que, amargurada, procura libertar-se do colete-de-forças onde está metida.

Luiza desafoga-lhe as mágoas apresentando-a a Rafael (Paulo Rocha), um pintor de rua que a encanta. Sem medo de perder o pé, Beatriz apaixona-se por Rafael e dá o seu grito de liberdade, para espanto dos filhos, Nuno (Alexandre Ferreira) e Inês (Maria João Falcão).

Nuno trabalha com o pai, moendo-lhe o juízo pelas ideias modernas que tenta trazer ao negócio. Já Inês é cleptomaníaca e amiga de Teresa.

O casamento com António não dá a Luiza o céu, deixa-a antes num limbo: agarrado ao dinheiro, António racha-lhe os sonhos de riqueza.

Angustiada e com a felicidade em corda bamba, notícia bombástica deixa-a sem chão: tem um aneurisma não curável que pode rebentar a qualquer instante. Para viver no paraíso em que sonhara, tem de inverter rumos.

Conseguirá ir a tempo de acertar contas com o coração? Lança-se em frenesim sobre o cunhado Pedro (Ricardo Carriço), um amor ainda quente e avassalador, que precocemente interrompeu.

Pedro ainda sente a chama acesa, mas coloca água fria na paixão: é casado com Dulce (Manuela Couto) – irmã de Luiza – e, conservador e formal, não se vê com coragem para rasgar o casamento. A relação arrasta-se num tédio, virou rotina, o dinheiro rareia, e era a ajuda de Luiza que servia para compor a mesa e a vida.

Quando o desemprego de Pedro encurrala cada vez mais o orçamento familiar, Dulce arregaça as mangas e desperta dentro de si um talento: o de doceira. O filho João (Frederico Barata) tem uma particularidade: é gay.

Só o percebe quando nota que os olhos faíscam com as curvas elegantes de Henrique (Guilherme Barroso), um bailarino que diz a todos vir para Lisboa da província estudar para ser médico.

Com Henrique a não lhe corresponder no afeto, João sente o estigma da rejeição do pai, da mãe e do avô, que, preocupados, o tentam convencer a mudar a sua orientação sexual. Consegue desempoeirar-lhes a mente, levando-os a aceitá-lo na sua diferença.

Ana (Márcia Leal), a filha de Dulce e de Pedro, cursa jornalismo, mas tem amargo passado que sempre guardou para si: fez um aborto sozinha, por se sentir desamparada. O pai do filho que a deixou sem auxílio é Miguel – o mesmo que pôs o coração de Teresa em polvorosa. E pelo ex-namorado é capaz de tudo, declarando guerra à prima, de cujas indecisões sentimentais se aproveita.

Com a vida em negrume está também Júlia (Dalila Carmo), a irmã mais nova de Luiza, com quem vive num jogo de gato e do rato. Nunca amparou os golpes da irmã, critica-lhe os vícios e tenta ser uma mãe zelosa de Jaime (João Pedro Cary).

O filho faz finca-pé e foge de casa, por não aceitar a sua precária situação financeira. Sobre Jaime, o novelo vai-se desenrolando, colocando Júlia com o coração a palpitar: é que Jaime é seu filho adotivo.

Quem o teve foi Vera, a sua melhor amiga, na sequência de uma noite de farra bem regada, com pai cuja identidade se desconhece. As buscas de Jaime levam-no a descobrir, por entre espanto, que é filho de Gabriel (Pedro Lima), cirurgião plástico de renome e meio-irmão de António (com quem tem relação briguenta).

De Vera e da noite que acabou na cama, mais nada soube; julgou não ter tido consequências. Tem uma filha, Carmo (Patrícia Franco), que vive com o sonho de arranjar alguém que ocupe o lugar da mãe, morta, em casa.

Mal vê Júlia, a pulsação de Gabriel acelera. E em frenesim fica quando percebe que, por entre as angústias de Júlia, pode encontrar final feliz na sua história.

É que Jaime pressiona a mãe para que esta se case com o cirurgião, mas Júlia, que cedera ao amor à primeira vista com Tiago (Albano Jerónimo), não quer perder o romance que penou para arranjar.

Vive em angústia, temendo ser encarcerada por ter falsificado a certidão de nascimento de Jaime, caso o segredo venha à tona.

Tiago partilha casa com Leonor (São José Correia) – cujas extravagâncias a levaram a secar as contas de Mário e que, burlada por Afonso, regressa a Lisboa sem um cêntimo no bolso – e com Miguel.

Dispensado da empresa de Mário, Tiago dá corda ao sonho de ser programador informático e lança-se na aventura de fazer um jogo que as empresas do ramo queiram fabricar.

Já Leonor não aquece o lugar: o palminho de cara e o corpo sensual oferecem-lhe um lugar na agência de António, mas quando a máscara lhe cai e revela que deseja compensações financeiras, atira-se sedenta a um lugar no consultório de Gabriel, tentando também seduzir o patrão.

Também o pai de Luiza, Dulce e Júlia, Luciano (Sinde Filipe), obriga a enfermeira a ter sempre aspirina na carteira: vive a vida em devaneios de um negócio que lhe traga a fortuna que sempre almejara. A vida em África deu-lhe um casamento feliz com Milu (Rosa Lobato de Faria) e, chegado a Lisboa, encheu a cabeça de sonhos.

Trabalhou na Lisnave e, quando veio a reforma, burilou esdrúxulas ocupações para a sua vida: um cabeleireiro para cães, uma casa de sestas e uma agência funerária para animais de estimação enlevam-no em fugaz travessia para conseguir patrocínios.

Quando um acidente de carro lhe rouba a mulher, Luciano desce à terra e, sedutor, deixa Eugénia (Márcia Breia) e Conceição (Lia Gama) perdidas de amor por ele.

Eugénia é a mãe de Paula (Vera Alves), a melhor amiga de Júlia, de quem é vizinha. Os filhos, Jaime e Gui (João Secundino) são compinchas e colegas da escola.

Eugénia vem da província para tentar encadear o casamento tumultuoso de Paula e de Frederico (António Pedro Cerdeira).

É que a promoção aberta na empresa de viagens de António, que Frederico ambiciona, é dada a Paula, e ele, contrafeito, não cala a revolta.

Conceição também tem um filho, o excêntrico Alexandre (Joaquim Horta), que trabalha na agência de António e tem um hobby: é cartomante. Ao ler as cartas, desvenda futuros e sacia curiosidades.

Com eles vai viver Henrique, para estudar Medicina, diz – para ser bailarino, descobre-se depois.

Para esconder a sua história, coloca à prova a tia, que, em dúvida, aperta o cerco ao sobrinho, por lhe parecerem pouco credíveis as histórias que este lhe conta.

Por Almada, também vivem Glória (Sofia de Portugal) e José Pires da Fonseca (Lourenço Henriques), cujas manigâncias espevitam a curiosidade, obrigando o espetador a prestar-lhes demasiada atenção.

Pelintras, tentam infiltrar-se no jet set, alardeando posses fictícias e parentescos inverdadeiros. Depressa apanham o calcanhar de Aquiles de Luiza e, em troca do silêncio, recebem amparo desta.

Posarão para a capa de uma das mais famosas revistas do jet set, a Beautiful, cuja editora-chefe, Guida (Sofia Aparício) é unha com carne com Luiza.

Subitamente, numa noite de invernia agreste, António aparece morto em casa. Investigação preliminar aponta para que tenha sido assassinado à queima-roupa. Os inspetores Rui (Jorge Mota) e Irina (Joana Seixas) vão lançando alvitres e logo chegam a uma conclusão: suspeitos para acabarem com a vida de António não faltam, e a esmo vão saindo da toca motivos que podem justificar o crime…

"Na Corda Bamba". Pusemos dois homens a ver a estreia da novela da TVI e o resultado é surpreendente

Rui Vilhena, argumentista e criador de “Na Corda Bamba”, foi um dos que fizeram com que o formato novela começasse a fazer parte da cultura pop portuguesa.

Estávamos em abril de 2005 quando a novela “Ninguém Como Tu” surgia em televisão e ainda hoje é conhecida pelo cliffhanger (ou final pendurado).

 Na novela, Nuno Homem de Sá (que interpretava a personagem António), morre no quarto depois de tomar uma bebida envenenada. A dúvida que ficou na cabeça de milhares de portuguesas foi só uma: “Quem matou o António?”.

O mistério foi tema de conversa de café, gerou manchetes em jornais e levou a TVI a fazer uma reportagem especial na qual acompanhava o transporte da cassete do último episódio da novela — onde iria ser revelado o assassino de António — desde o local onde estava armazenada até aos estúdios da estação. E tudo isto com uma aparatosa escolta policial.

Depois de vários projetos, e uma ausência das novelas portuguesas desde 2011, Rui Vilhena regressou com “Na Corda Bamba”, onde se juntou a um elenco de luxo composto por nomes como Paula Neves, Pêpê Rapazote, Dalila Carmo e Margarida Vila-Nova.

A MAGG viu o primeiro episódio em dose dupla. O publisher Ricardo Martins Pereira e o jornalista Fábio Martins viram a estreia e mostram duas visões sobre a história.

Como Ricardo Martins Pereira viu a estreia

Há dias, Rui Vilhena, autor da novela “Na Corda Bamba”, deu uma entrevista em que disse qualquer coisa como: “Se é para fazer mais do mesmo não contem comigo”. Mais do mesmo é exatamente a expressão que encaixa naquilo que temos visto nas últimas estreias da televisão nacional, sobretudo em matéria de novelas, como foi o caso da recente “Nazaré”, da SIC, que está no ar há uma semana.

Rui Vilhena não ia deixar o Brasil para vir para Portugal criar uma história igual a mil outras que já vimos ao longo dos últimos 20 ou 30 anos. A estreia de “Na Corda Bamba” parece confirmar o que ele diz.

O primeiro episódio da nova novela da TVI está muito mais próximo da dinâmica de uma série norte-americana, ou do registo de uma novela brasileira disruptiva, como “Avenida Brasil” foi, do que de uma tradicional novela portuguesa dentro daquilo que temos visto na SIC e na TVI ao longo dos últimos anos.

Mas afinal em que é que a estreia de “Na Corda Bamba” foi diferente? Em quase tudo. E a estreia só teve coisas boas? Não, mas quase. Vamos por partes.

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A sequência de abertura e a cena manhosa do drone

A sequência de abertura da novela foi forte, enigmática, mas trouxe também aquele que foi provavelmente o momento mais inverosímil da história. Vimos, então, um homem a conduzir um carro por umas montanhas, e uma legenda indicou-nos que estávamos na Madeira e que corria o ano de 2009. Muito bem.

Este homem, que mais tarde se saberá que se chama Filipe Alves, chegou ao que parecia ser uma vila e montou um drone daqueles enormes.

Dúvida (é dúvida mesmo, porque não disponho de conhecimento técnico para responder): em 2009 já existiam drones domésticos daqueles? Sinceramente, não me parece. Talvez.

Ainda que existissem, quanto custaria um brinquedo daqueles? Se hoje vão para cima dos 5 mil euros, em 2009 upa, upa. Filipe era um milionário para ter um bicho daqueles? Não. Mas adiante.

Filipe montou então o drone e começou a pilotá-lo em direção à janela de uma casa, que ficava num primeiro andar. Pela câmara do drone percebemos que a casa é de um casal (Pipo e Lúcia, Pepê Rapazote e Dalila Carmo — fantástica, como sempre), já que se via uma foto de família na parede em que apareciam juntos.

Agora, a tal parte inverosímil: quem já pilotou um drone sabe que o aparelho perde sinal quando está numa zona fechada, já que as paredes bloqueiam o sinal. Ora, Filipe conduziu o drone por uma janela para dentro da casa e andou com o bicho a sobrevoar pelas várias divisões, a partir da rua. Pronto, é ficção, passa, mas se hoje não é assim, em 2009 não o era seguramente.

O facto de esta ser a única coisa que podemos apontar já diz qualquer coisa da qualidade da história.

A complexidade das personagens

Ao contrário das histórias tradicionais a que estamos habituados nas telenovelas, em “A Corda Bamba” não há aquele vilão mau como as cobras, nem o herói bonzinho, humilde e corajoso que lutará contra o mundo para fazer vingar o bem. Não.

Aqui há pessoas reais, com histórias de vida que as moldam e as levam a serem boas quando têm de ser boas e a serem más quando têm de ser más. Pipo (Pepê Rapazonte) aparece pela primeira vez a prender um bandido, logo, é um dos bons, um polícia, um justiceiro.

Percebemos depois que, afinal, ele também esteve envolvido num esquema de roubo de bebés, e é também ele que oculta o homicídio cometido pela mulher, e é ainda ele que enterra o corpo da vítima. Afinal, é dos bons? É dos maus? É só uma personagem complexa, enigmática.

Sara Pimentel (Margarida Vila-Nova, brilhante neste primeiro episódio) é amante de Filipe Alves, o morto. Amante, repito. Má, portanto.

É também a filha da mamã, menina rica, que não parece ter grande ocupação na vida, que rouba o marido a uma mulher humilde e que luta por um emprego e uma vida melhor, e que tem um filho a cargo. Tudo indica que temos aqui uma vilã das boas.

Só que a história mostra-nos que, afinal, Sara é uma mulher marcada por uma dor, a dor de não saber de uma filha, Alice, que continua desesperadamente a procurar. Afinal, não é uma vilã fútil, é uma mulher que luta para encontrar uma filha.

A complexidade das personagens é o que dá dimensão às histórias, é o que nos dá vontade de as querer conhecer mais, de lhes seguir os passos, de lhe conhecer a vida. O mau que é sempre mau é só previsível, e ao fim de 200 episódios é só um chato do caraças. Pior que ele só mesmo o bom que é sempre bom. Enjoo.

Estes são só dois exemplos. Há mais na história. Lúcia (Dalila Carmo — já disse que é das melhores atrizes de televisão em Portugal?) luta pelo amor dos filhos, mas, afinal, é também ela uma vilã, porque os tais filhos são afinal roubados, e ainda acaba por roubar mais um.

A estreia centrou-se, e bem, no núcleo central, não desenvolveu demasiado as tramas paralelas, mas, pela amostra, deu para perceber que as restantes personagens da trama não serão muito diferentes: continuarão a ser boas e más, humanas e sacanas, humildes ou pespinetas quando a vida o pedir.

O núcleo brasileiro

É seguramente propositado, mas não é muito claro o papel do núcleo brasileiro da novela, composto por Marília Montenegro (Lucélia Santos) e Gilberto Montenegro (Edwin Luisi), casados, residentes em São Paulo, pais de Carol (Cristina Lago), que tem um problema com drogas e um filho na barriga, que acaba por nascer e ficar nas mãos de Lúcia, mesmo no final do episódio — amanhã perceberemos melhor isto, seguramente. As cenas de Carol, sempre muito sofrida, sempre muito queixosa, sempre muito nervosa, talvez também sob efeitos da droga, repetem-se e acabam por ser um pouco enfadonhas, sobretudo as cenas musicadas, demasiado longas. A personagem Olívia Galvão (Maria João Bastos), tia de Carol, e que fala num brasileiro meio manhoso, é talvez a mais estereotipada, mas acredito que o salto na ação de 2009 para os dias de hoje a farão perder o sotaque e evoluir noutro caminho. Para já, é uma tia empertigada, que está de olho no dinheiro de Marília e Gilberto, e que nem se importa de ver a sobrinha Carol morrer, porque era menos uma a herdar a fortuna. Cá está, uma vilã-vilã, mas que ainda poderá crescer, e irá seguramente crescer.

Pontas soltas, pistas

O mais interessante de todo o episódio é mesmo o facto de nos deixar curiosos para saber o que vai acontecer em muitas situações diferentes. Lúcia disse aos vizinhos que tinha perdido o bebé e de repente aparece com um bebé nos braços.

Que história vai inventar? Lúcia disse à vizinha que não tinha entrado ninguém em sua casa, mas a vizinha viu Filipe a entrar e, quando foi a casa dela, apanhou a aliança que Filipe deixou cair quando foi assassinado por Lúcia.

Irá contar tudo à polícia? Como é que Lúcia ficou com o bebé de Carol? Como será que Sara vai reagir quando perceber que o amante desapareceu? E Leonor (Paula Neves, um pouco exagerada na interpretação de mulher traída) será que vai tentar saber o paradeiro do marido, mesmo sabendo que estava a ser traída? E Pipo e Lúcia vão fugir depois de terem assassinado e enterrado Filipe? O que aconteceu a Carol? É muita coisa, são muitas dúvidas, muitos ganchos para nos prender ao segundo episódio.

E o que ainda não foi mostrado?

A estreia de “Na Corda Bamba” tem outro mérito: conseguiu captar a atenção, agarrar, prender ao sofá, e ainda nem sequer mostrou os trunfos todos.

Pesos pesados como Alexandra Lencastre, Sílvia Rizzo, Lídia Franco, Nuno Homem de Sá, Pedro Granger ou até Júlia Palha (por razões diferentes) ainda nem sequer apareceram.

Seguramente que Rui Vilhena está a guardar trunfos para os próximos dias, até porque uma novela de 200 episódios quer-se intensa durante 200 episódios, e não durante os primeiros 10 e os últimos 2, o que obriga a que os restantes 188 sejam só a encher chouriços.

Como Fábio Martins viu a estreia

A estreia do primeiro episódio aconteceu este domingo, 15 de setembro, com a história a inicar-se em meados de 2009 e a introduzir uma família envolta em mistério e crime.

Uma das cenas iniciais mostra Filipe (Pedro Lacerda) a espiar a casa de alguém com um drone que tinha acabado de conduzir pela janela.

“Mas como é que ninguém ouve um drone dentro de casa?”, é a pergunta que depressa pode saltar à cabeça dos espectadores. A resposta é simples: não havia ninguém em casa. “Mas como é que ele sabia disso?”, poderá rematar. Temos de confiar que a personagem estudou a casa e os padrões daquela família.

A casa pertence a Lúcia (Dalila Carmo) e Pipo (Pêpe Rapazote), um casal que rouba os filhos de prostitutas e toxicodependentes com o objetivo de as salvar daquele ambiente e dar-lhes um lar.

O primeiro episódio da novela parece dar a entender que aquilo que Filipe procura é, na verdade, a filha de Sara (Margarida Vila-Nova), com quem mantém um caso extraconjugal e que terá sido afastada da filha após o parto.

Filipe confronta Lúcia na sua sala de estar e esta reage violentamente. Os dois lutam e Filipe acaba esfaqueado, morrendo pouco tempo depois.

Como é hábito das histórias de Rui Vilhena, o primeiro episódio fica sempre marcado por uma morte que depois serve como fio condutor de toda a trama — e este parece o crime perfeito. Filipe é enterrado por Pipo e Lúcia, que lhe retiram a roupa e os seus pertences.

Mas o facto de a aliança de Filipe ter caído na sala de Lúcia, e depois ter sido descoberta por uma vizinha, assinala o óbvio: que o crime perfeito e sem testemunhas depressa começa a ter buracos na história. Enquanto isto, o filho de Filipe celebra o seu aniversário sem o pai e a mulher traída (Paula Neves) confronta a amante, a quem Filipe prometeu encontrar a filha, em Lisboa.

“Na Corda Bamba” teve todos os ingredientes necessários para apelar aos espectadores: houve mistério, dilemas, crime e uma história que, apesar de corresponder às diretrizes do formato novela, não toma o espectador por parvo. Quanto muito, leva-o a tomar partido e querer saber mais do que o episódio mostra, só para o surpreender nas cenas seguintes.

As personagens são complexas onde os vilões são apenas pessoas que foram perdendo a bússola ética e moral que as guia e que acreditam estar a fazer o que é certo. E os bons são também eles humanos, com um lado negro que muitas vezes não controlam.

Tanto o é que, só no final do episódio é que temos a certeza absoluta de que a personagem de Dalila Carmo é mesmo uma antagonista que rouba bebés a prostitutas.

A cena em específico acontece à beira da estrada, num local onde várias prostitutas costumam estar, e Carol (Carolina Montenegro) entra em trabalho de parto. Lúcia, que por acaso também é enfermeira, está de passagem e ajuda-a. Quando o bebe nasce, foge com ele no carro.

Se achar que não percebeu muito bem o propósito das personagens brasileiras na história, não despere. A ideia desta novela é dar-lhe material para que sinta a necessidade de investir tempo na história e, por isso, são muitos os pontos a explorar (e a explicar) nos próximos episódios.

Ao contrário de “Nazaré”, a novela da SIC, “Na Corda Bamba” não tem pressa de desenvolver a sua história e as personagens. Prova disso é o facto de quem tenha visto a estreia da novela da TVI tenha ficado a saber o mesmo do que quando começou.

Mas os traços de Rui Vilhena estão lá, com os mistérios, os dilemas e as interrogações do costume que só vão ser respondidas no final da história. Não sei como vai ser o percurso, mas o primeiro episódio passou o teste. Quanto mais não seja, por ter focado grande parte do seu enfoque nos antagonistas que, convenhamos, são sempre os mais interessantes.

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