Miguel Esteves Cardoso Como É Que Se Esquece Alguém Que Se Ama?

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Miguel Esteves Cardoso Como É Que Se Esquece Alguém Que Se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar.

A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos.

Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada.

É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução.

Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Miguel Esteves Cardoso: “Sou uma pessoa crente e trabalhadora”

Escritor e jornalista, Miguel Esteves Cardoso é apaixonado pela vida e por Portugal. Com uma brilhante carreira na área das letras, escreve diariamente para o jornal Publico. Aprendeu a dar valor à vida quando esteve prestes a perder o grande amor da sua vida, Maria João Pinheiro, 14 anos mais nova.

Estudou em Inglaterra, onde se licenciou em Estudos Políticos. Regressou a Portugal, em 1982. Como se sentiu? Foi a saudade que o fez regressar?
(Hesitação) Sim, foi a saudade.

Fui estudar para Manchester, no Norte da Inglaterra, porque pensava que estava bem em qualquer lado, achava-me um cidadão do Mundo. Passado um ano de lá estar, sem vir a Portugal, comecei a ter saudades de ouvir o português, porque não tinha amigos portugueses e nessa altura não havia internet.

Era caríssimo telefonar. Tinha muito pouco dinheiro e, portanto, não havia qualquer contacto para além das cartas escritas. Ao fim desse tempo, ouvi uma professora a falar português, e vieram-  -me as lágrimas aos olhos! Foi aí que percebei que estava com imensas saudades e que era realmente português.

A partir desse dia, pedia ao meu pai para me mandar produtos portugueses. Mandava-me uma garrafa de água ardente ou whisky, bebia um bocadinho e chorava imenso. Quando regressei a Portugal, em 1982, assim que cheguei, fui passear. Observei o Rio Tejo, os pescadores nas fragatas a tomar o pequeno- almoço.

Ouvir toda a gente a falar português parecia um milagre. Fiquei com a “doença” da saudade e foi sobre isso que fiz a minha tese de mestrado.

Foi o primeiro director do jornal O Independente, que, em 2006, teve o seu fim. Como foi a sensação de perder o seu menino, se me permite este paralelismo?
Fui embora do jornal muito mais cedo mas, quando soube que ia acabar, senti imensas saudades dos tempos que lá passei.

Quando se funda um jornal, não há nada, tem que se fazer tudo do zero, é um trabalho de equipa. Fomos o primeiro jornal a usar computadores, os outros eram muito, muito, atrasados. Hoje em dia, ao relembrar esse período de tempo em que estive no O Independente, sinto saudades.

Eramos todos muito novos e estávamos a fazer coisas novas pelas primeira vez na vida. Actualmente, os jornalistas estão “tramados” porque têm a concorrência gigantesca da internet que é gratuita, instantânea e muito actualizada.

Acaba por ser diferente porque não têm aquela “coisa” de grupo, que é fazer um jornal, estar no mesmo edifício com muitas pessoas onde umas dizem que sim e outras que não. Mas é isso que acaba por ser muito divertido e contribui para um bom jornal.

Miguel Esteves Cardoso Como É Que Se Esquece Alguém Que Se Ama?No seu livro ‘O Último Volume’ descreve como se esquece alguém que se ama. A minha questão é, consegue-se mesmo esquecer alguém que se ama? Ou um verdadeiro amor nunca se esquece?
Não, acho que um verdadeiro amor nunca se esquece. A intenção do texto é transmitir que as pessoas tentam enganar-se a si mesmas e pensam que se pode esquecer alguém muito rápido, mas para esquecer é preciso tempo. De qualquer modo, podendo ou não esquecer, penso que nunca se esquece alguém que se ama. Vai haver sempre algo que a faz lembrar.

O livro editado em 2013 tem o título Como É Linda a Puta da Vida, são estes dois adjetivos/ antítese que caracterizam a sua vida?
Sim. Primeiro, porque a vida é a única coisa que temos e, portanto, não há alternativa, a alternativa é a morte.

Segundo, tem coisas muito más, mas também outras boas. Geralmente, as pessoas comportam-se como se só houvesse más. A vida é horrível e, a cada ano que passa, estamos cada vez mais perto da morte. Isso é uma coisa chata. A vida acaba muito, muito mal, acaba na morte.

Não só uma pessoa morre, como isso também causa tristeza às pessoas que deixa cá.

“As poucas vezes que rezei, tive sorte”

Nesse mesmo livro é possível ler-se: “Ajuda a Maria João, se puderes, se não puderes, não dificultes a quem puder ajudar. Reduz-te à tua insignificância que é tão grande”. Está a falar com Deus? É crente?
Sim, sou. Acredito em Deus porque, as poucas vezes que rezei tive sorte.

Deus existe, independentemente de nós. Ou seja, Ele pode existir ou não. Ninguém tem a certeza absoluta de que existe, mas, mesmo não tendo, é uma espécie de último apelo. Se realmente existir, que nos ajude quando precisamos.

Mas, lá está, Deus não deve ficar muito contente de só nos lembrarmos dele só quando precisamos…

Foi essa fé que o fez acreditar que a Maria João estava a desmorrer?
A fé não ajudou nada, quem ajudou foram os médicos.

O acesso a bons médicos é muito importante porque, com fé e sem médicos, não vamos a lado nenhum. A Maria João estava morta e eu também. Nestes casos de doença, o que ajuda são os bons médicos e a sorte.

Há pessoas que não têm sorte nenhuma, mas há outras que têm imensa sorte.

“Sou uma pessoa muito trabalhadora”

Já deu para perceber que, a nível pessoal, o Miguel é uma pessoa muito cuidadosa, carinhosa e com medo da perda.

E enquanto profissional como se caracteriza?
Uma pessoa para escrever tem de ser muito metódica, quase fria, porque tem de adquirir aquele hábito de escrever e isso dá muito trabalho. Infelizmente, não é como tirar uma fotografia.

Um sentimento para ser bem expresso dá muito trabalho, há uma parte toda técnica. Quanto mais fácil parecer quando se lé, mais trabalho deu a quem escreveu. Em resposta à sua pergunta, digo que sou uma pessoa muito trabalhadora.

Tem a vida que sonhou?
(Hesitação) Agora, tenho a vida que quero, mas há alturas em que sinto que a desperdicei.

A minha juventude toda, li demais, esforcei-me muito, estudei exageradamente, não era preciso ter notas tão boas. Entre os 19 e os 28 anos, não me lembro de viver.

Não ia à praia, não fazia mais nada a não ser estudar e ler livros. O meu problema foi tentar ser aquilo que os outros queriam que eu fosse.

“A Maria João é a minha vida”

O que se imagina a fazer daqui a 20 anos?
Daqui a 20 anos vou ter 80, já sou velho (risos). Se Deus quiser e eu estiver vivo, vou continuar a escrever. Felizmente, escrever é algo que vai evoluindo com o tempo.

Comecei a escrever aos cinco anos, depois aos 11 já escrevia correctamente. Escrevi aos 24, 34, 44 e, agora, daqui a 20 anos, vou escrever sobre a velhice. Vou dizer a verdade, porque essa coisa da velhice está muito mal contada.

Imagina-se a continuar a fazer crónicas para a sua Maria João?
Sim, Deus queira que sim, se ela estiver viva serão sempre para ela, porque ela é a minha vida.

Não é só gostar um do outro, também gostamos muito da companhia um do outro. Isso às vezes é irritante para os outros casais, porque é muito “nho nho nho”.

Às vezes até dizem que “mete nojo!”, Mas tive tantos anos triste e desgraçado que, agora, tive a sorte de encontrar a pessoa ideal para mim.

Processo de luto: como lidar com a perda?

Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver?

Quando alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? (excerto do texto «Como se esquece alguém que se ama?, de Miguel Esteves Cardoso).

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O processo de luto acontece aquando uma perda significativa na vida de uma pessoa, uma perda que pode ser vivida em diferentes situações e que não se prende, somente, com a vivência da morte de uma pessoa importante.

O luto pode ocorrer quando se perde o emprego, quando existe uma separação, quando acontecem alterações corporais drásticas ou repentinas, quando se alteram as condições de vida, quando se muda de residência e até no percurso do processo natural de crescimento psico-emocional.

A dor de perder alguém ou algo é tão poderosa que cada um recorre a diversas formas de se defender perante o sofrimento. Segundo o psicanalista Bowlby, quanto maior a vinculação (ou seja, o apego, a ligação) ao objecto perdido (alguém ou algo), maior será o sofrimento e a dor do luto.

Costuma-se dizer, na gíria, que o tempo cura tudo e, de facto, o factor tempo é um importante aliado na questão do luto.

Mas esperar que o tempo passe não basta; é necessário realizar-se uma série de tarefas que permitam ultrapassar esta dor, preparando o espaço deixado vazio para, mais tarde, ser novamente preenchido.

Apesar de ser um processo que varia consoante a pessoa e a idade, são comuns os sentimentos de tristeza, de raiva e de culpa, a ansiedade e o sentimento de solidão, a apatia e o desinteresse, o estado de choque e a sensação de desamparo.

Também se podem desenvolver sintomas físicos como vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, extrema sensibilidade ao barulho, sensação de falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e sensação de boca seca.

Em conjunto com estes vários sentimentos e emoções, é natural que se desenvolvam perturbações de sono (principalmente insónias), perturbações de apetite (mais comum a diminuição, mas também pode ocorrer o aumento de apetite), perturbações na atenção e concentração e isolamento social.

Estas emoções e comportamentos vão surgindo ao longo das tarefas do processo de luto que, segundo Bowlby, organizam-se da seguinte forma:

  • Fase de choque e negação, na qual a pessoa pode sentir-se como desligada da realidade, meio atordoada e desamparada, imobilizada e perdida. A negação surge como defesa contra a dor da aceitação da perda;
  • Fase do protesto, que se caracteriza pelas emoções fortes, pelo sofrimento psicológico e pelo aumento da agitação física. Nesta altura, podem manifestar-se sentimentos de raiva contra si próprio (por não ter conseguido fazer mais nada) ou contra outros significativos;
  • Fase do desespero, que se associa a momentos de apatia e depressão e que pode conduzir a um isolamento social e a um desinvestimento nas actividades diárias, aumentando o desinteresse, as dificuldades de concentração e os sintomas físicos (como insónias, perda de peso e de apetite, entre outras);
  • Fase da desorganização e reorganização que permite que a pessoa aceite a perda, integrando a a importância do objecto perdido e do seu significado no dia-a-dia.

E o que acontece quando não se consegue realizar estas tarefas? Poderá desenvolver-se uma situação de luto patológico, na qual se assiste a uma fixação numa das fases. No luto patológico, a pessoa vive com maior intensidade os sintomas acima descritos, prolongando-os no tempo e conduzindo a complicações efectivas na vida quotidiana.

Nestes casos, deve-se recorrer a ajuda especializada. A psicoterapia poderá ser encarada como uma mais-valia, pois constitui-se como o espaço no qual a pessoa pode livremente expressar as suas emoções e verbalizar os seus pensamentos, trabalhando estratégias e mecanismos internos que permitam evoluir no processo do luto.

Miguel Esteves Cardoso Como É Que Se Esquece Alguém Que Se Ama?

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

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“Mas esperar que o tempo passe não basta; é necessário realizar-se uma série de tarefas que permitam ultrapassar esta dor, preparando o espaço deixado vazio para, mais tarde, ser novamente preenchido.”

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Como esquecer alguém que se ama

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Como é que se esquece alguém que se ama ?  Belo e espinhoso tema. Não me frustro, antes o contrário, quando um autor  consegue dizer tudo sobre um tema que almejo saber dizer. Assim foi com Miguel Esteves Cardoso ,escritor português, com quem tenho uma curiosa relação, digamos, intelectual.

Não o conheço pessoalmente,é bom que se diga, mas lhe louvo a verve, a ousadia , a provocação. Por ele tenho velada admiração desde 1991 quando morei fugazmente em Portugal e convivi com amigos que prezavam o estilo do autor.

Li com estupefação e contentamento seu livro “O amor é fodido” e muitas de suas ácidas crônicas.

Miguel Esteves Cardoso não tem similar na mídia brazuca. Seria, grosso modo, um grande mix entre Pepe Escobar, Paulo Francis e Reinaldo Azevedo ? Não , sacanagem , pois Azevedo não serve para lamber as solas das pantufas de Miguel Esteves. Só o citei pela petulância similar com o Miguel.

Pois há pouco mais de dois anos Miguel escreveu um texto primoroso sobre o tema “esquecer quem se ama” . Descobri a pérola faz pouco tempo e queria arriscar umas mal traçadas sobre .

O autor português diz, por exemplo :  “Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar”.

Esquecer devagar parece o conselho mais comum. Se é que existem conselhos a serem ouvidos quando há amores desfeitos envolvidos. O que parece terrível e Miguel Esteves aponta é que o esforço de esquecer para sempre e de repente uma pessoa pode surtir efeito contrário. Ela pode ficar colada para sempre na gente como musgo em parede úmida. Algo difícil e custoso de remover.

Outro detalhe: quem pretende adiar o luto da perda acaba por vivê-lo por mais tempo e com mais intensidade. Amor desfeito não obedece vontade racional mesmo que o racional nos aponte que o amor desfeito era um equivoco, algo tóxico , inviável .

O problema é cuidar, suportar, cevar a dor para que ela não nos drague. Não falo só em causa própria mas pelo que percebo por relações afora de amigos, amigas e afins.

Talvez porque ninguém suporte estar sozinho, talvez porque nos sentimos impotentes por não sabermos lidar com os conflitos das relações.  Ora, pois, elas demandam paciência e até um pouco de obediência  , disciplina e renuncia de ambas as partes.

Mas eu não vou ficar aqui dissertando sobre o tema que tanto aborrece sobretudo os homens . As terríveis “DRS” (discussões sobre relações) enfadonhas  e muitas vezes inócuas e redundantes.

Ao fim e ao cabo nada vai dar certo se ninguém  transformar a própria persona em nome da persona do casal. Disso sabem poucos como o Miguel Esteves Cardoso. Ou a psicanalista e poeta Maria Rita Kehl que disse um dia que o “amor é uma droga pesada”.

Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Dirigiu 12 documentários e publico 8 livros. O mais recente “Amor de mãe” pela editora Patuá.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.

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Como Esquecer?, por Miguel Esteves Cardoso

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!

É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou de coração. Ninguém aguenta estar triste.

Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de termina de lembra-lo. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doida, devidamente honrada.

É uma dor que é preciso, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta magoa esta moínha, que nos despedaça o coração e que nos moí mesmo e que nos da cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos distrairmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos, amigos, livros e copos, pagam-se depois em conduídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Porque é que é sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais falta das pessoas que amamos? O cansaço faz-nos precisar delas. Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. A minha mãe. O meu amor.

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As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se. Mas é preciso aceitar, é preciso sofrer, dar murros na mesa, não perceber. E aceitar. Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração.

Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio de remoinho de erros que nos resolve as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor, temos de encontrar a raiz daquela paixão, a razão original daquele amor.

As pessoas magoam-se, separam-se, abandonam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las, é preciso chocá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparem como ainda temos esperanças de contorna-la.

Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas nas Caraíbas, livros de poesia. Só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar o fôlego.

Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amámos de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum.

Tudo isto conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste, uma barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.

Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar. Como é que se pode esquecer o que só se consegue lembrar!
Aí, está o sofrimento maior de todos.

  • Aí está a maior das felicidades.
  • Miguel Esteves Cardoso, in “Último Volume”

Como é que se esquece alguém que se ama?

O Deus do Amor, escreveu Platão em O Simpósio, “vive num estado de necessidade”. E em lugar algum essa necessidade é tão palpável e aguçada quanto a do amante que anseia pelo seu ex.

Em caso de dúvida, a experiência da vida confirmaria a assunção daquele filósofo.

Afinal, quem nunca sofreu por amor? Quem nunca penou com a falta do seu amor que, repentinamente e sem dó nem piedade, o deixou de o ser para ganhar o prefixo de ex-amor?

The struggle is real, e a própria ciência é capaz de o explicar: Helen Fisher, antropóloga e bióloga americana, levou a cabo uma experiência em que conectou amantes abandonados a um scanner de ressonância magnética e os fez ver as fotos dos seus ex.

“Encontrámos atividade em muitas partes diferentes do cérebro”, disse Fisher, que leciona na Rutgers University. “Um deles é uma pequena seção do cérebro denominada de área tegmental ventral, que é a parte que produz a dopamina, um estimulante natural que está ligado ao amor romântico.

Quando se é rejeitado por alguém, ama-se ainda mais essa pessoa”.

E a dor, essa, é quase física. É agonizante. Insuportável, diríamos.

Então, como é que se esquece alguém que se ama? Num texto que descortina em torno desta questão, o escritor português Miguel Esteves Cardoso concede o seu ponto de vista: “Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente, como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa — como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre”.

O texto continua, mas a resposta encontramo-la aqui, neste parágrafo que atrás transcrevo: é, de facto, essencial que se esqueça o outro devagar. “É verdade que o esquecimento de alguém que se amou é um processo, e não um momento que ocorre ‘de repente’.

Tentar suprimir sentimentos não faz com que eles desapareçam nem diminuam, podendo até gerar o efeito inverso a médio prazo. É preciso desenvolver o músculo da paciência e tolerância pelo tempo que demora o processo de esquecimento”, confirma a terapeuta de casal Rita Fonseca de Castro.

Quando termina uma relação, perde-se uma pessoa que permanece viva, mas que “morreu” na função que desempenhava na nossa vida. Assim, e como em qualquer perda, o processo de luto é fundamental para se viver de forma funcional e adaptativa o término de um ciclo, para dar por encerrada uma fase da vida.

Aliás, esta percepção de que a vida se compõe de ciclos e de mudanças é fundamental para enfrentar o final de uma relação.

O luto. Um mal necessário que é tantas vezes colocado de lado, dando o seu lugar às mais-do-que-muitas distrações que deixam uma nuvem cinzenta a pairar sobre a imagem do ser amado, aparentando um desaparecimento que é tudo menos real.

O luto não só faz bem como se recomenda: “A conceptualização do luto relacional como sendo composto pelos cinco estágios de vivência do luto – negação, raiva, negociação, tristeza, aceitação – ajuda-nos a aprender a viver com a perda que sofremos e a identificar o que estamos a sentir – isto é, em que estágio nos encontramos – não esquecendo que o processo de luto não é linear e a sua vivência é idiossincrática. Nem todas as pessoas passam por todas as fases do luto – enquanto que algumas aceitam rapidamente que a relação terminou, outras há que ficam reféns da tristeza. O que é fundamental entender é que, embora o luto seja uma vivência dolorosa, não é passível de supressão ou evitamento, faz parte da vivência da perda e da preparação para uma nova fase da vida”, avança aquela terapeuta de casal.

A pessoa que ama alguém que a deixou de a amar encontra-se afundada num avassalador mar de sentimentos que têm de ir para algum lado. A questão é para onde?

E mantém a sua explicação: “As investigações têm demonstrado que o tempo de vivência de um luto relacional é de cerca de um ano. A fase de luto é fundamental para reflectir sobre a relação que terminou e sobre o nosso papel e contributo. Nesse tempo reorganizamos o passado e o presente.

Caso percebamos que repetimos comportamentos que conduziram a resultados indesejáveis ou padrões disfuncionais, podemos começar a operar mudança. Sem dar tempo para que este olhar crítico se instale, a probabilidade de se repetir padrões negativos em relações futuras é grande.

É, assim, no processo de luto, que se revisita a relação e se consegue, com o avançar do processo, ter uma visão cada vez mais nítida sobre o que nela se viveu. Estados de raiva permitem perceber que a relação não era tão perfeita como podemos estar a idealizar com a dor da perda, numa atitude de negação.

Depois de vivências emocionais mais turbulentas, virá a aceitação, acompanhada da sensação de libertação do sofrimento, e estar-se-á preparado para viver novos amores.”

Posto isto, apesar de, por vezes, a vontade maior seja a de beber — e de fazer tudo o que está ao alcance do ser amado — para esquecer, na prática tal escolha promete não trazer nada de bom.

Ainda assim, é importante destacar que cada pessoa tem a sua forma de viver e de sentir o final de uma relação, pelo que se deve, em primeira instância, respeitar as necessidades de cada um.

“Para que não haja um foco excessivo na perda e no sofrimento, a distracção é importante, sobretudo se for passado tempo na companhia das pessoas mais próximas, que desempenham um papel de suporte emocional.

Contudo, esta distracção deve ser equilibrada com tempo a sós e investimento no autocuidado, o que é indispensável para a vivência do luto relacional. Começar outras relações pode ser precipitado, se o objectivo for o de ‘tapar’ um espaço que era ocupado pela relação que se tinha, e pode tornar-se o motor para a vivência de novas frustrações e perdas, que podem agudizar a vivência da perda primordial”, explana aquela terapeuta de casal.

Então, como auxiliar alguém que perdeu a pessoa que amava? “Em primeira instância, caberá ao psicólogo normalizar todas as vivências emocionais, mesmo as mais desagradáveis, sublinhando que todas elas serão passageiras, ainda que seja difícil percebê-lo no momento da dor.

Deverá ainda ser fomentado uma mudança de foco do nós (e/ou do outro) para o eu. Depois de ter sido dedicado tempo a uma relação e ter havido um privilégio do nós, é importante que seja investido tempo no auto-cuidado, na capacidade de apreciar a própria companhia.

Pode-se reflectir sobre o que se gosta de fazer ou faz bem, e de que se possa, até, ter abdicado no curso da relação, retomando essas actividades, o que vai trazer uma sensação de bem-estar, para além de ajudar a auto-estima e/ou auto-confiança que, muitas vezes, ficam minadas após uma separação.

Embora possa parecer uma tarefa difícil, sobretudo quando existem sentimentos de rejeição e a separação não era desejada, é crucial entender que o valor próprio não se define pela presença de outrem na sua vida e que, não é porque alguém deixou de querer ter uma relação consigo, que a pessoa perdeu as suas qualidades.

Nestes casos mais penosos, é crucial procurar sentido para a vida para além da relação que terminou”, clarifica Rita Fonseca de Castro.

E se na teoria é tudo muito bonito, na prática a coisa complica-se. A bem ver, a pessoa que ama alguém que a deixou de a amar encontra-se afundada num avassalador mar de sentimentos que têm de ir para algum lado.

A questão é para onde? Onde é que se vai enfiar aquele amor todo? É que para quem não desejou separar-se, o amor pode dar lugar a alguns sentimentos de perda (“um vazio”), abandono, rejeição, impotência, culpa (pelo término da relação – O que é que eu podia ter feito de diferente? Onde é que eu falhei?), frustração ou solidão.

Sentimentos de mágoa, raiva e rancor em relação ao outro também podem surgir. Em casos mais extremos, podem surgir mesmo o desespero e a desesperança, como se nada mais valesse a pena e a vida não fizesse sentido sem a presença da outra pessoa.

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“Idealmente”, arremata Rita Fonseca de Castro, “e depois de concluído o processo de luto, o amor, assim como todas as vivências relacionais, passam a ser recordadas de uma forma mais leve, com sabor a nostalgia, e vão juntar-se a tantas outras recordações que habitam a nossa memória e nos deixam mais ricos”. Portanto, respondendo à questão de como é que se esquece alguém que se ama? Não se esquece. Ou, como diria Miguel Esteves Cardoso: “Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar”. E não é que, no final, ele sempre se cansa?

Pureza Fleming nasceu em Lisboa, Portugal, há 39 anos. Uma obcecada por palavras, como boa geminiana que é, tem dedicado a sua vida às mesmas. Trabalhou como copywriter em agências de publicidade tais como BBDO Portugal e McCann Erickson.

É, no entanto, pelo mundo das revistas que, ao longo da última década, tem espalhado as suas palavras. Já foi editora de moda e hoje escreve essencialmente sobre questões de comportamento e de sociedade — um world que a fascina.

Atualmente divide a sua vida entre Búzios, Rio de Janeiro, e Lisboa

Miguel Esteves Cardoso – Portal da Literatura

Miguel Vicente Esteves Cardoso (Lisboa, 25 de Julho de 1955) é um crítico, escritor e jornalista português.

Miguel Esteves Cardoso cresceu no seio de uma família da classe média-alta lisboeta. O pai, Joaquim Carlos Esteves Cardoso, oficial da Marinha, e a mãe, Hazel Diana Smith, nascida em Inglaterra, deram-lhe uma educação privilegiada. O facto de ser bilingue deu-lhe uma espécie de visão distanciada de Portugal e dos portugueses

Aluno brilhante, fez estudos superiores no Reino Unido.

Em 1979, na Universidade de Manchester, licenciou-se em Estudos Políticos, prosseguindo o doutoramento em Filosofia Política, obtido em 1983, com uma tese que relacionava a Saudade e o Sebastianismo no Integralismo Lusitano.

Em 1982, no regresso a Portugal, entra para o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, como investigador auxiliar.

Foi ainda professor auxiliar de Sociologia Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, co-fundador do Gabinete de Filosofia do Conhecimento, visiting fellow do St. Antony's College, em Oxford, e fez um pós-doutoramento em Filosofia Política, sob orientação de Derek Parfit e de Joseph Raz. Em 1988 abandonou a carreira académica, para fundar o jornal O Independente.

A partir do contacto estreito com as bandas pós- punk e new wave da editora Factory, tais como Joy Division, New Order, Durutti Column ou The Fall, aquando da sua estada no Reino Unido, «MEC» (como era conhecido pelos fãs), deu-se a conhecer como autor de crónicas sobre música pop, publicadas nos jornais Se7e, O Jornal (actual Visão) ou Música & Som, avidamente lidas pelos jovens portugueses, em complemento à transmissão dessa música em programas como Rock em Stock, de Luís Filipe Barros, ou Rotação, Rolls Rock e Som da Frente, de António Sérgio, na Rádio Renascença e na Rádio Comercial. Na década de 1980 funda, com Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a Fundação Atlântica, a primeira editora portuguesa independente, produzindo discos de nomes como Sétima Legião, Xutos e Pontapés, Delfins, Paulo Pedro Gonçalves, Anamar e o supra-citado Amigos em Portugal dos Durutti Column. Daria também contributo directo à música pop portuguesa como letrista, com Alhur, de Né Ladeiras, e Foram Cardos Foram Prosas (com música de Ricardo Camacho, interpretada por Manuela Moura Guedes). Foi ainda autor e co-autor de diversos programas de rádio como Trópico de Dança, Aqui Rádio Silêncio, W, Dançatlântico e A Escola do Paraíso, todos na Rádio Comercial.

Nessa época, dedicou-se também à crítica literária e cinematográfica, no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Começou igualmente a ser presença assídua na rádio e na televisão, em parte devido à sua aparência invulgar e desajeitada de jovem intelectual ingénuo e perverso, e às suas intervenções imprevisíveis e desconcertantes, irónicas e irreverentes.

Estabeleceu polémicas com alguns intelectuais e escritores como Fernando Namora ou Eduardo Prado Coelho. A convite de Vicente Jorge Silva, tornou-se colaborador do Expresso, onde as suas crónicas satíricas A Causa das Coisas e Os Meus Problemas, conheceram o acompanhamento regular de muitos leitores e o sucesso junto da juventude de classe média.

Monárquico e antieuropeísta convicto, apresentou-se como candidato a deputado ao Parlamento Europeu, em 1987, como independente nas listas do Partido Popular Monárquico, não conseguindo a eleição.

Simultaneamente, é incentivado pela actriz Graça Lobo a integrar-se na Companhia de Teatro de Lisboa, o que o leva à dramaturgia. Publicou então Carne Cor-de-Rosa Encarnada (encenada por Carlos Quevedo), Os Homens (encenado por Graça Lobo) e traduziu várias peças de Samuel Beckett.

Depois, na televisão, colaborou com Herman José, como guionista do programa Humor de Perdição.

Em 1988, juntamente com Paulo Portas, fundou o semanário O Independente, que pretendia revolucionar o jornalismo português. Foi um contraponto conservador e elitista, mas simultaneamente libertário e culto, à imprensa esquerdista que prevalecia na época.

Teve como colaboradores nomes como Vasco Pulido Valente, António Barreto, João Bénard da Costa, Maria Filomena Mónica, Agustina Bessa Luís, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, M. S. Lourenço, Maria Afonso Sancho, Leonardo Ferraz de Carvalho, Pedro Ayres Magalhães, Rui Vieira Nery ou Edgar Pêra.

Atribuiu uma enorme importância à fotografia, contando com o trabalho de fotógrafos importantes como Inês Gonçalves, Daniel Blaufuks e Augusto Alves da Silva.

Enquanto Portas e Helena Sanches Osório faziam estremecer os alicerces do governo de Aníbal Cavaco Silva, com a denúncia semanal e impiedosa de escândalos políticos, «MEC» ocupava-se da parte cultural, no destacável Vida. Fazendo dupla com Paulo Portas entrevistou algumas das figuras mais marcantes da política e cultura portuguesa.

Em 1991, conforme combinado antes da fundação do jornal, deixa a direcção d' O Independente a Paulo Portas, para criar a revista mensal K, financiada pela Valentim de Carvalho, pela SOCI (a empresa de Luís Nobre Guedes proprietária d' O Independente) e, mais tarde, por Carlos Barbosa.

Apesar da qualidade gráfica e colaborativa, o projecto não durou mais que dois anos, vítima da pouca orientação comercial. No entanto, a dedicação à literatura vai-se intensificando, até que acaba por afastá-lo do jornalismo activo.

O seu primeiro romance, O amor é fodido em 1994, foi um best-seller, em boa parte devido ao título.

Em 1995, com o final do Cavaquismo e a saída de Paulo Portas (que trocou a direcção do jornal, pela política activa no Centro Democrático Social), O Independente iniciou o seu lento declínio, não obstante o regresso de Cardoso à direcção (em 2000), de onde saírá no ano seguinte, quando o semanário é comprado e dirigido por Inês Serra Lopes, até ao seu fecho (em 2006).

Ao longo dos anos 90, «MEC» colaborou em vários talk-shows, entre os quais o popular A Noite da Má-Lingua (SIC) onde, semanalmente, sob a moderação de Júlia Pinheiro e na companhia de Manuel Serrão, Rui Zink, Rita Blanco, Alberto Pimenta, Luís Coimbra, Constança Cunha e Sá e Graça Lobo, eram satirizadas figuras e situações da vida pública portuguesa e internacional.

No final dos anos 90, misteriosamente e por motivos que nunca revelou, abandonou os ecrãs televisivos, tornando-se mediaticamente invisível.

Publicou mais dois romances, A Vida Inteira e O Cemitério de Raparigas e continuou a escrever crónicas em jornais, primeiro n' O Independente, mais tarde no Diário de Notícias. Em 1999, criou também um blogue, chamado Pastilhas, que abandonou em 2002.

Assumiu, entretanto, problemas com alcoól e uso de cocaína. A partir de Janeiro de 2006 retomou a sua colaboração no Expresso. Lançou o livro Em Portugal não se come mal, em 2009.

(in Wikipedia)

Livros escritos por Miguel Esteves Cardoso

Diversos

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar.

As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo.

Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção.

Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Fonte: Último Volume

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