És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?

À velocidade de uma contemporânea Sunset Party, à boleia de uma tradicional regata, acompanhando toda a refeição ou num arrojado cocktail, festejar é a palavra de ordem. Dias e noites para descobrir e provar, sempre de copo (de Vinho do Porto) na mão.

És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?

A Port Wine Day Sunset Party, que decorre no coração da cidade, e a regata que navega as tranquilas águas do Douro Vinhateiro são dois pontos altos do programa do Port Wine Day que se prolonga até 10 de setembro – Dia Internacional do Vinho do Porto. A data assinala o dia em que o Marquês de Pombal começou a constituir a mais antiga região demarcada do Mundo, em 1756. Ao longo destes dias e noites não faltam momentos para celebrar as várias idades e momentos marcantes deste néctar singular.

Até lá, com ou sem companhia gastronómica, restaurantes e bares dedicam-se a explorar as potencialidades do Vinho do Porto que se apresenta na simplicidade elegante dos seus Vintage, em elaborados cocktails ou harmonizado com as mais diversas criações.

No arranque do fim-de-semana, uma prova especial Vintage traz ao Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões meia centena de produtores que dão a conhecer os seus Vintages 2016 no dia do 7 de setembro pelas 16h00. A prova, organizada pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, requer inscrição prévia através do email: [email protected]

No dia seguinte, sábado, 8, é a partir do centro do Porto que o seu emblemático vinho promete dar nas vistas: Na Port Wine Day Sunset Party – de entrada livre – todos são convidados a dançar de copo na mão, bem recheado de vinhos do Porto oriundos de quase 30 produtores, na sua versão clássica ou transformado em cocktail. A festa decorre no Jardim das Oliveiras, nos Clérigos, entre as 17h00 e as 22h00.

És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?

Já na segunda-feira, 10 de setembro – o dia do Vinho do Porto – é tempo de navegar pelas águas experientes do Douro Vinhateiro. A 2ª Regata do Vinho do Porto acontece pela primeira vez no incrível cenário desta região por onde já viajaram tantos barcos carregados do típico néctar.

Nesta regata, com início em Bagaúste, pelas 15h00, participam uma dúzia de rabelos, representativos de empresas de Vinho do Porto como a C. da Silva, The Fladgate Partnership, Gran Cruz, Rozès, Sogevinus, Sogrape Vinhos e Symington Family Estates.

Estima-se que, pelas 17h30, no Pinhão, seja hora de a dar por terminada a “corrida”, apurados os vencedores e entregues os prémios.

Fogo que arde e depois se prova Uma tradicional abertura a fogo de um Vinho do Porto Vintage – há um diferente em cada dia da semana – é uma das diversas iniciativas que marcam por estes dias a atividade das caves de Vinho do Porto.

Esta – um momento habitualmente reservado a ocasiões (muito) especiais – acontece na Taylor’s, sempre pelas 15h00 (Rua do Choupelo 250, Vila Nova de Gaia. Tel. 223 742 800) e, depois do simbólico momento da abertura a fogo, o vinho está disponível para saborear a copo, dependendo o preço da garrafa aberta nesse dia.

Reservas por telefone ou através do email: [email protected]

Na Quinta de Santa Eufémia (Rua de Santa Marinha 77, Vila Nova de Gaia. Tel. 254 331 970) além da visita temática que inclui diversas abordagens a temas comuns ao vinho, do xisto, às cepas, da cortiça, às pipas e o vinho propriamente dito, promove também provas de Vinho do Porto com harmonizações. A entrada é livre.

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Harmonias felizes Em elaborados jantares vínicos em que o Vinho do Porto se presta às mais diversas harmonias com comida ou em pequenos petiscos sempre bem acompanhados de um Porto, a festa do Vinho do Porto também se faz – e muito! – à mesa.

Cinco restaurantes – um dos quais no Algarve – gozam de um menu especialmente concebido para casarcom este néctar centenário. No The Wine Barrels (Rua da Fonte Taurina, 89, Porto. Tel.

22 201 1198) o menu de três momentos custa €40; no clássico Barão Fladgate (Rua do Choupelo 250, Vila Nova de Gaia. Tel. 22 377 2951) os três momentos – entre vieiras, vitelão e crème brullé – harmonizam com néctares da Taylor’s (custa €48) e no Vinum (Rua do Agro, 141, Vila Nova de Gaia. Tel.

22 093 0417) as conjugações, também em três pontos, a que não falta o Entrecôte de Vaca Velha, ficam por €55.

Se preferir algo mais simples, algumas dezenas de espaços espalhados pela cidade criaram pequenas harmonizações doces e salgadas com um copo de vinho de Porto. Alguns (bons) exemplos são a Francesinha com Tawny do Café El-Reys (Passeio das Virtudes 49 RC, Porto. Tel. 917872764); as Canilhas do Dudu com Fereira Tawny da Casa de Pasto da Palmeira (R. do Passeio Alegre 450, Porto. Tel.

226 168 244); o Chocolate e 5 especiarias com Sandeman Tawny do Mundo (Rua da Picaria 56, Porto, Portugal. 912 090 029); um tradicional Pão de Ló com Tawny 10 Anos sugerido pelo Gaveto (R. Roberto Ivens 826, 4450-249 Matosinhos. Tel. 229 378 796) ou as arrojadas propostas de niguiri e gunkan com Dalva Tawny do Unique Sushi Lab, em Lisboa (Travessa do Enviado de Inglaterra 9, Lisboa. Tel.

910 509 675).

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Se a sua praia são mais copos, há diversos locais a servir, por estes dias, criativos cocktails com Vinho do Porto. À noite, alguns dos mais emblemáticos bares da cidade associam-se à festa servindo alguns dos seus vinhos do porto “favoritos” em formato clássico ou em criativos cocktails de autor.

Caipirinha de Vinho do Porto e Maracujá, no Fabrik (Rua da Galeria de Paris 109, Porto); Porto Tónico, no Bonaparte Foz (Avenida do Brasil 130, Porto. Tel. 226 188 404); Seara d'Ordens Ruby no Café Candelabro (Rua da Conceição 3, Porto) ou Porto Sour, no Vogue Café (Rua de Avis 10, Porto. Tel.

932 100 297) são algumas propostas.

Junte-se à festa e brinde com um vinho cuja história já longa se confunde com a do Douro e do Porto e da qual hoje, continuam a escrever-se novos capítulos.

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Este artigo foi originalmente publicado no Expresso Diário de dia 5 de setembro de 2018.

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Quanto mais velho melhor? Olhe que não. 10 mitos sobre o vinho

Cerca de 40 minutos separam Lisboa de Torres Vedras, onde está sediada a Comissão Vitivinícola de Lisboa (CVR Lisboa), um intervalo de tempo significativamente mais curto do que aquele que separa a verdade do mito — sabe-se lá há quantos anos se crê que quanto mais velho for um vinho, melhor. Ou que o vinho verde é feito da vindima de uvas que ainda não estão maduras.

A pensar em desfazer ideias falsas, que foram ganhando uma espécie de legitimação com a sua repetição e com o passar do tempo, o Observador falou com Vasco D’Avillez, presidente da CVR Lisboa, para apurar a verdade em nome dos enófilos: porque há brancos capazes de envelhecer bem e porque o vinho tinto até faz bem à saúde, se bebido com moderação.

Eis os 10 mitos a que chegámos:

Quanto mais velho for o vinho, melhor

“Não é bem assim. Só vale a pena envelhecer alguns vinhos”, começa por dizer o presidente da CVR Lisboa, admitindo que embora haja vinhos que façam jus a esse ditado — quem nunca comentou um solene “quanto mais velho, melhor”? –, para um vinho ser bom não tem de ter necessariamente muita idade.

Vasco D’Avillez atribui a existência do mito à história vitivinícola ao explicar que, até à década de 1950, a falta de tratamento dos néctares fazia com que os vinhos fossem bebidos mais tarde, depois de o tempo fazer uma espécie de curadoria (nos vinhos de melhor qualidade o envelhecimento corrige muitas coisas).

Com o avançar do tempo, conta o homem que está no universo vinícola há mais de quatro décadas, a tecnologia permitiu alterar não só a qualidade dos vinhos mas também o hábito de quem os prefere: “hoje em dia apanham-se as uvas em setembro e outubro. O vinho é feito até dezembro e em março já está nas lojas.

Toda a gente os quer porque são novos.”

Certo que a maior parte dos vinhos é feita para ser consumida num curto espaço de tempo, e há motivos para isso. Um deles é o facto de as pessoas não terem onde guardar o vinho para envelhecer. “Hoje em dia vivemos todos num segundo esquerdo, não temos onde guardar um vinho, só se o pusermos debaixo da cama.

Ninguém tem caves com temperatura mais baixa”, comenta o presidente. “A outra razão é que a maior parte das pessoas não quer investir muito em vinho para beber daqui a 15 anos.

”Apesar disso, Vasco D’Avillez destaca alguns tipos de vinho do Porto, do LBV ao Vintage, com os quais devemos “perder tempo”, ao permitir que envelheçam no conforto da pipa ou na praticidade da garrafa.

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Vasco D’Avillez trabalha no setor dos vinhos há mais de 40 anos. © HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Um Reserva é sempre melhor do que um vinho normal

Alguém terá tido, um dia, a brilhante ideia de pôr de parte um pouco do vinho que fez e que lhe soube bem no palato — um vinho próprio reservado ao consumo da casa. De uma realidade semelhante terá nascido o conceito Reserva, explica D’Avillez.

Atualmente, todas as CVR do país têm uma câmara de provadores, composta por pessoas de olfato e gosto afinado, às quais compete a responsabilidade de determinar quais os vinhos regionais e os Reserva. Mas, às vezes, a diferença não é assim tanta.

“Para um vinho ser considerado Reserva [no caso da CVR Lisboa] tem de ter pelo menos mais um ponto.

Isto é, para ser regional tem de ter 12 pontos em 20, logo um Reserva terá de ter pelo menos 13”, explica o presidente, salientando ainda que é o próprio produtor que pede para que um vinho seja considerado enquanto Reserva.

O vinho branco não envelhece tão bem como o tinto

“Quando comecei a trabalhar em 1970 na José Maria da Fonseca, que era uma das cinco melhores e mais conceituadas firmas de vinho em Portugal, um dos vinhos que tinha imenso sucesso era um Camarate branco velho [da Quinta de Camarate] — tinha para aí uns dez anos”, recorda D’Avillez. O presidente opta por falar em tendências e pôr de lado o debate sobre a qualidade dos brancos em detrimento dos tintos, explicando que as pessoas, no geral, tomaram gosto ao vinho branco jovem. Hoje em dia assiste-se à produção de vinhos de tom de ouro mais envelhecidos, embora em pouca quantidade. São poucos os vinhos brancos que conseguem envelhecer bem — até porque não são feitos para isso –, mas há castas bem-sucedidas nessa missão, como o Encruzado, no Dão, e a Vital, mais predominante na região vitivinícola de Lisboa e na Península de Setúbal.

O vinho rosé é uma mistura de vinho branco com tinto

Não há cá misturas e, quando a fazer um rosé, o tinto é rei. Isto porque é a película da uva que dá cor ao mosto e, em última análise, ao vinho — as uvas brancas não têm pigmento de cor, mas o mesmo não se pode dizer das tintas.

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É quase uma regra de três simples: quanto mais tempo o mosto estiver em contacto com a película das uvas tintas, mais cor terá o vinho. “O rosé é um vinho cujo mosto tem menos contacto com as películas das uvas tintas”, explica D’Avillez.

“Esse tempo é uma decisão do enólogo, consoante ele queira vinhos com mais ou menos cor”, continua, explicando que atualmente estão na moda os rosé mais claros, que na gíria do vinho são apelidados “olho de perdiz”.

Mas há mais a dizer: as uvas tintas, de tão versáteis que são, conseguem dar menos ou mais cor consoante as castas — as castas tintureiras, que podem ser representadas pela Alicante Bouschet e pelo Souzão, “são capazes de deixar os dentes encarnados durante uma tarde inteira”, brinca o presidente, ao mesmo tempo que sorri e aponta para a boca. A título de exemplo há ainda vinhos brancos feitos a partir de uvas tintas, tal como acontece com a maior parte do champanhe da região francesa Champagne. Em Portugal o exemplo remete para a região da Bairrada, com as Caves Aliança a produzir espumantes com uma formulação que quase parece mágica.

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D’Avillez já foi presidente da ViniPortugal e diretor da Symington. © HUGO AMARAL/OBSERVADOR

O vinho verde é feito a partir de uvas verdes (e não maduras)

Não, o vinho verde não é feito a partir de uvas verdes, ao contrário do que o nome leva a crer. Sobre isso, já antes o presidente da CVR dos Vinhos Verdes, Manuel Pinheiro, explicou ao Observador que a vindima acontece no momento de perfeita maturação da uva.

“A cor verde é sobretudo justificada pela paisagem do Minho [a Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se pela zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho]. Toda a região é verde por causa da enorme quantidade de humidade”, acrescenta D’Avillez.

Mais, existem vinhos verdes brancos, tintos e rosados, tal como espumante de vinho verde, aguardente bagaceira e aguardente vínica.

O vinho branco só pode ser servido com peixe e o tinto com carne

Nem tudo é preto (ou tinto) no branco. Acontece que existem vinhos tintos mais leves que, por exemplo, fazem boa companhia a um linguado grelhado, tal como existem brancos mais pesados capazes de um casamento feliz com diferentes tipos de carne.

Os últimos são chamados brancos de inverno e, por norma, estagiam em madeira e têm mais corpo, garante D’Avillez.

E se há brancos para carne, também há tintos para peixe, como o Pinot Noir, um vinho menos encorpado e com menos cor — a casta equivalente portuguesa é a trincadeira, embora seja raro os produtores portugueses dedicarem-se a vinhos varietais.

O vinho faz mal à saúde

Já diziam as mães desta vida que comer de tudo um pouco faz bem (além de ser a desculpa ideal para, volta e meia, cometer pecados capitais como devorar uma bola de Berlim em pleno areal algarvio).

Serve isto para explicar que o truque está na moderação. O mesmo acontece quando se fala em vinhos: “Se bebido com moderação, o vinho tem benefícios para a saúde.

A quantidade é, de facto, muito pequena”, diz Vasco D’Avillez, referindo-se a um copo de vinho tinto por dia (há quem refira dois copos por dia).

O tema não é novo e já antes o tentámos explicar no Observador com a ajuda de Conceição Calhau, professora de Bioquímica e Toxicologia Alimentar na Universidade do Porto e investigadora do CINTESIS.

Foi ela quem à data argumentou que o facto de o vinho proveniente de castas tintas ser rico em polifenóis faz com que a bebida tenha efeitos antioxidantes e antiflamatórios, além de permitir a diminuição de células tumorais.

A isso pode-se acrescentar, entre outras vantagens, a ideia de que a bebida preferida de Baco possibilita alterações microbióticas, ou seja, estimula o aumento de bactérias boas nos intestinos, órgão onde se encontra a segunda maior concentração de neurónios.

Claro que nem tudo é bom, com o álcool a ter sempre peso na saúde de uma pessoa, além de que o vinho tinto pode provocar, em alguns casos, dor de cabeça ao fim de dois copos — o porquê não é de todo consensual.

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O atual presidente da CVR Lisboa foi considerado “Personalidade do ano 2015” pela Associação dos Municípios Portugueses do Vinho. © HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Vinhos biológicos são melhores do que os outros

A questão é delicada e D’Avillez responde assim: “Os vinhos biológicos têm uma forma de trabalhar diferente, sem uso de pesticidas. Isso tudo é ótimo: tanto a terra como nós agradecemos essa atitude. No entanto, a maior parte das vezes isto só pode ser feito em pequena escala — é preciso haver muito controlo porque as doenças das vinhas existem.”

Em Lisboa não há vindimas

Em causa não estão as Denominações de Origem da Região Vitivinícola de Lisboa, que compreendem áreas como Carcavelos e Colares, mas a existência de vinhas em pleno centro urbano da capital.

E há duas a registar: uma na Ajuda, que pertence ao Instituto Superior de Agronomia, e outra junto à Rotunda do Relógio, a caminho do aeroporto.

A última consiste num projeto da Câmara Municipal de Lisboa em parceria com a Casa Santos Lima e pretende ter uma função didática, isto é, mostrar como o vinho é produzido. O novo parque vinícola vai abrir as portas à população já em setembro, o mês que a tradição há muito associa às vindimas.

“A câmara tem o desejo de constituir corredores verdes em Lisboa”, acrescenta o presidente da CVR de Lisboa, fazendo referências aos terrenos da CM que podem ser reabilitados, muito à imagem e semelhança das hortas urbanas. “Isto é útil porque ajuda ao pulmão de Lisboa.”

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D’Avillez assumiu ainda funções na José Maria da Fonseca Internacional Vinhos. HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Na hora de escolher, quem tem razão é o crítico

É certo que há quem ganhe a vida a pontuar vinhos ou a harmonizá-los com determinados pratos. Um trabalho louvável e, para uns, invejável.

Mas no final — como quem diz no momento em que o vinho chega ao copo –, o que interessa é o gosto de quem prova ou bebe um néctar.

É como a velha máxima, por vezes discutível, de que o cliente tem sempre razão: neste caso, um bom vinho é aquele que o consumidor quiser e não necessariamente o que é escolhido pelo crítico ou escanção.

Será que quanto mais velho, melhor é o vinho?

Por Bruno Hermenegildo em 2/fev/2016 20:00:49

Para quem gosta de um bom vinho e pretende se aprofundar nos sabores desse universo, é preciso começar o aprendizado quebrando um mito que costuma ser o erro número 1 dos iniciantes: acreditar que a expressão “Vinho – quanto mais velho melhor” é verdadeira. Diferente do que muitos costumam dizer, essa regra não se aplica a todos os tipos de vinho e pode ser explicada por muitas razões. Continue lendo para saber!

O que é maturidade quando se fala de vinhos?

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O que faz um vinho estar no ponto para consumo é o seu grau de maturidade. O que isso significa? Que a maturação é o auge de sabor da bebida, pois é nesse momento que as suas propriedades estarão em perfeita harmonia, realçando e valorizando os componentes taninos e aromáticos.

Sendo assim, não é que o vinho terá um sabor melhor porque ficou mais tempo guardado. Na verdade, existem características próprias da produção de cada tipo de vinho que exigem que ele seja consumido depois de algum tempo de fabricado ou não.

Uma das razões que propicia o envelhecimento do vinho por um longo período é a quantidade de tanino com a qual ele foi produzido, já que existem reações químicas durante o processo de maturação que reduzem o efeito “amarrar a boca” causado por ele, deixando o vinho mais leve para consumo.

Vale lembrar que o tanino é uma substância química que já faz parte da uva, concentrando-se na sua casca. A sua presença é mais comum em vinhos tintos, secos e encorpados. Por isso, é normal que os vinhos de guarda, normalmente com as características anteriores, sejam os que necessitam de um tempo maior de amadurecimento.

Afinal, qual a diferença entre os vinhos jovens e envelhecidos?

Como já contamos, o tanino ajuda no envelhecimento do vinho, ou seja, em sua conservação, principalmente na dos tintos. A quantidade desta substância vai dizer se a bebida deve ser consumida imediatamente ou se pode esperar por anos. Vamos entender melhor como isso funciona?

Vinhos simples e jovens

És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?Sua composição não exige grande tempo para maturação. Os tipos tintos podem possuir uma vida média de cinco a oito anos; e os brancos, de dois a três anos. São marcados pela forte presença de aromas frutados e, em suas cores, predominam o vermelho rubi e o violeta nos tintos, e tons esverdeados ou amarelos nos brancos.

Vinhos fortificados e maduros

Por serem ácidos e com alta concentração de açúcar e álcool, costumam serconservados por anos em barricada de carvalho para suavizar sua tanicidade e ganhar mais corpo. Os tintos de qualidade chegam entre 10 e 15 anos, e os brancos podem chegar a 6 anos. Já os vinhos de guarda, de safras especiais, podem ultrapassar os 50 anos de para maturação.

A conservação influencia no tempo de vida do seu vinho

És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?

  • Mantenha a bebida em um ambiente com a temperatura fresca e equilibrada, por volta de 15 °C;
  • Evite que as garrafas entrem em contato com luz em excesso, pois isso provoca calor e altera as propriedades da bebida, interferindo no seu sabor e aroma;
  • Cuidado com a umidade: se ela estiver acima de 65%, pode apodrecer os rótulos. Por outro lado, se estiver inferior a isso, pode influenciar a rachadura das rolhas e a entrada de ar nas garrafas, o que provoca a oxidação do vinho.

No geral, deixe de lado a ideia de que um vinho envelhecido é melhor do que aqueles de consumo imediato, até porque a grande maioria das safras atuais são compostas de tipos jovens, com vida média útil de até 5 anos.

És Como O Vinho Do Porto Quanto Mais Velho Melhor?

"Estás como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor…" – Rede Angola – Notícias independentes sobre Angola

“Estás como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor…”

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Vinho do Porto Branco, Tawny e Ruby [Visual Hunt ]

Esta frase, que bem se pode aplicar a mim (não riam, é verdade!), não representa a realidade. Por mais chocante que isto vos possa parecer é mesmo um dos mitos em torno dos vinhos, e o prometido é devido, uma vez que eu disse que tentaria escalpelizar o maior número possível deles.

Estou convencido que muito boa gente pensa que apenas existem dois tipos de vinho do Porto mas, de facto, existem três e são de estilos bem diferentes:

Os brancos, que usualmente se vendiam muito jovens, ora num estilo seco ora doce, e que desde há uma meia dúzia de anos têm aparecido, primeiro sob a designação de Old Whites, agora datados como os tawnies, com uma qualidade óptima, e a pedir meças aos melhores tawnies, pois têm a mesma complexidade, são menos doces e são muitas das vezes mais profundos, graças a uma superior acidez.

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Os tawnies, que são vinhos tintos envelhecidos em barricas velhas de 550 litros e que por isso oxidam rapidamente, o que os faz “perder” cor e ficar alourados (daí a designação Tawny).

Entre estes, temos os que apenas apresentam a palavra Tawny e que eu não aconselho a ninguém (funcionam em alguns cozinhados não muito exigentes), são vinhos de lote com vinhos de vários anos, como aliás são todos os tawnies com excepção dos Colheita, com uma média a rondar os 4 anos, os Reserva que já rondam os 7 anos e, por fim, os merecidamente mais conceituados e que são os datados com 10, 20, 30 e mais de 40 anos. Os Colheita são como o nome indica, vinhos de um só ano, mas cuja análise é mais complexa por envolver o ano da colheita e o ano do engarrafamento. É aqui que a frase é mais verdadeira, pois quanto mais tempo o vinho passou na madeira melhores serão à partida os vinhos. A partir do momento que é engarrafado, não se pode dizer que o Tawny não evolui mas fá-lo muito lentamente.

Os rubys, que são vinhos vermelhos escuros, com sabores a frutos vermelhos e pretos, por oposição aos frutos secos e mel presentes nos tawnies, porque são colocados em recipientes enormes, nalguns casos com mais de 50.000 litros, o que evita a oxidação do vinho.

Entre estes destacam-se os LBV (iniciais de Late Bottled Vintage) que são vinhos de uma colheita só, engarrafados entre os 4 e os 6 anos após a colheita, e os famosos Vintage que também são vinhos de uma colheita só, engarrafados entre o 2º e o 3º ano após a colheita.

Estes são os únicos que verdadeiramente envelhecem em garrafa, pois o LBV atinge habitualmente o seu melhor momento entre o 8º e o 11º ano após a colheita.

O nível atingido por alguns destes Vintage após algumas décadas em garrafa é de tal ordem que faz com que quando se fale de vinho do Porto se fale quase exclusivamente destes vinhos, o que é uma injustiça para alguns grandes tawnies.

Isso tem sido invertido nos últimos tempos com o lançamento de alguns vinhos a custar mais de Kz 165 mil a garrafa e com mais de cem anos de estágio em barrica, trazendo para a ribalta o estilo Tawny. Convém ainda ter presente que são muito poucos os Vintage que atingem esse patamar de excelência.

A maior parte deles começa a morrer ao fim de 20 ou 30 anos e alguns são mesmo para beber bem novinhos (de preferência na companhia de um bom queijo da serra amanteigado), pois é assim que eles mostram toda a sua garra. Tenho no entanto de dizer que o melhor que provei foi um Niepoort de 1945, tinha 63 anos quando o bebi, e foi um dos melhores vinhos que provei até hoje, mas também já provei um com mais de 100 anos e não me entusiasmou nem um pouquinho…

Espero que com isto tenham ficado com uma ideia da diversidade que existe no Vinho do Porto e que comecem a duvidar de todas aquelas frases fáceis que sentenciam “verdades” acerca do vinho.

Sommelier/ Escanção Club DiWine Signature
([email protected])

Quanto mais velho…melhor?

Quem nunca ouviu a frase: “sou como o vinho, quanto mais velho, melhor”, de algum engraçadinho que estava fazendo aniversário? Ou até preferiu fazer uma compra de um vinho mais velho, por achar que teria mais qualidade.

Porém, definitivamente, nem sempre um rótulo com safra antiga é melhor…

Talvez essa “lenda” tenha origem no fato de que somente vinhos de qualidade podem envelhecer por mais tempo, sem “morrer”.

De qualquer maneira, vinhos de qualidade superior, como os melhores tintos de Bordeaux, Borgonha e Côte-Rôtie ou, ainda, brancos de Borgonha e Graves, conseguem essa proeza.

Esses vinhos, geralmente, são comercializados dois ou três anos após sua colheita, enquanto os seus melhores exemplares, em suas melhores safras, devem (e merecem) esperar alguns anos até atingir o seu ápice. Continuando no Velho Mundo, o italiano Brunello di Montalcino é um ótimo exemplo de vinho que também consegue envelhecer bem.

Diversas reações químicas acontecem enquanto o vinho “descansa” na garrafa. Uma delas diz respeito a polimerização dos taninos que, tornando-se cadeias moleculares maiores, ficam menos agressivos na boca.

Inclusive, o tanino ajuda a conservar o vinho por mais tempo. Ele, sem dúvida, é fundamental para a longevidade dos vinhos, em especial os tintos.

Por isso, muitos que têm essa substância em abundância, como os vinhos com Cabernet Sauvignon e Nebbiolo, são os que podem envelhecer por mais tempo.

Os vinhos fortificados, licorosos e muito ácidos, também podem envelhecer durante anos e décadas, porque a sua alta concentração de açúcar, álcool e acidez ajudam a conservar a bebida.

Já os leves, frutados e mais simples, devem ser bebidos em sua plena juventude, pois não resistem muito tempo. “Vinhos comuns são feitos para consumo imediato. Dois anos, três, no máximo. Um branco simples ainda menos. Nunca compre um vinho branco muito barato com mais de dois anos.

O risco de estar estragado é enorme”, avisa Edson Barbosa, sommelier e Diretor de Produtos do Sonoma.

No geral, pode-se dizer que, para vinhos tintos, uma média de vida entre cinco e oito anos; brancos, entre dois e três anos, isto é, se tratando de vinhos simples.

Já bons vinhos tintos, entre dez e 15 anos; brancos, entre quatro e seis. Grandes vinhos, de safras excepcionais, podem durar de dez até 50 anos, enquanto os brancos – apesar de serem raros – entre 20 e 30 anos.

No entanto, os vinhos do Porto, Madeira, Jerez podem durar uma vida inteira.

Contudo, você deve estar se perguntando: “mas como vou saber se chegou ou não a hora de abrir a garrafa”? Infelizmente, meu amigo, você não saberá nunca o momento certo sem que abra o vinho.

“Na verdade, é muito difícil saber quando uma garrafa está pronta sem abri-la.

A partir de uma garrafa aberta, os especialistas fazem estimativas de quando um vinho estará bom e até quando irá durar, mas muitos fatores interferem no amadurecimento. O principal é a forma de armazenamento”, explica.

Para os mais curiosos, vale a pena conferir o site Cellar Tracker, que tem mais de 25 milhões de avaliações de vinhos, onde pessoas comuns avaliam os rótulos e opinam se o vinho é bom para beber de imediato ou se deve esperar mais tempo. No entanto, as avaliações são em inglês, mas também pode-se encontrar em português e espanhol.

Adeus, companheiro…

Quando um vinho morre, ele perde cor e os toques frutados tornando-se menos encorpado e ácido. Os vinhos tintos ficam mais claros, os brancos têm tendência de adquirir um tom mais escuro.

O fato é que vinho de qualidade pode envelhecer muito e se tornar ainda melhor. Os vinhos brancos tendem a viver menos, uma vez que perdem com mais facilidade sua acidez e se tornam “chatos”.

“É importante ressaltar que, a maior parte dos vinhos, são para consumo imediato. Poucos são para guarda”, afirma.

Armazenamento X Vinho

Sem dúvida alguma, o armazenamento inadequado pode ajudar a acelerar a “morte” do seu vinho, por mais que ele possa evoluir com o passar do tempo. Se você não tem uma adega para garantir a sobrevivência do mesmo, mantenha suas garrafas em um local onde a temperatura é estável, preferencialmente, mais fresco, entre 12ºC.

É importante também mantê-los longes da luz excessiva, uma vez que ela pode estragar o vinho, por isso, escolha um local mais escuro. Deixe os seus rótulos bem longe de produtos de limpeza, já que os mesmos podem prejudicar o sabor e aroma dos vinhos.

A umidade também exerce influência. O local não pode ter umidade em demasia, pois ela pode apodrecer as rolhas. Já a falta de umidade pode ressecá-las.

Opte por um lugar que não seja nem úmido demais, nem de menos – entre 75 e 80% de umidade. A circulação de ar é outro ponto importante: deve ter algum tipo de ventilação e entrada de ar.

Já locais com muita vibração não são recomendados, sendo assim, não os deixe embaixo de uma escada, por exemplo.

Por fim, as garrafas devem ficar inclinadas para que a rolha permaneça em contato com o vinho, evitando o ressecamento. De outra forma, aumentará o contato da bebida com o ar e poderá acelerar o seu amadurecimento e oxidação – quando já entrou ar em abundância e estragou a bebida -, o famoso “se tornou vinagre”.

E você, tem algum bom exemplo de vinho de guarda que, precisou de paciência, mas valeu a pena após abrir?

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Vinho: quanto mais velho melhor?

A delicadeza da cor levemente alaranjada, com tons atijolados, logo é completada por uma mistura de aromas intrigantes – com os quais nem sempre estamos acostumados, como trufas, café, couro, tabaco etc – e, ao se sorver gentilmente o líquido, pode-se sentir aquele tipo de suavidade que somente o tempo traz aos vinhos (no caso, os tintos).

Há sensações (cheiros e sabores) que só são proporcionadas por um vinho velho.

Esse espectro aromático, que vai dos frutos secos, passando por tons defumados até notas de trufas (e além), por exemplo, só é revelado quando a bebida evolui em garrafa.

Eles são chamados de aromas terciários, e só são formados durante a lenta oxidação pela qual o líquido passa com os anos. É isso que os especialistas nomeiam como “buquê” – termo que está intimamente ligado a vinhos envelhecidos.

Com o tempo, a oxidação dos ácidos em conjunto com o álcool resulta em novos aldeídos e, especialmente, ésteres, assim como em novas combinações entre eles, o que cria aromas tão diferentes dos puramente frutados encontrados na juventude.

Durante o envelhecimento em garrafa, os íons de hidrogênio (mais presentes em vinhos com baixo pH – ou seja, mais ácidos) tendem a catalisar a formação de ésteres dos ácidos e álcoois presentes na bebida. Por outro lado, esses íons também ajudam os ésteres a se dividirem novamente em ácidos e álcoois.

E essas duas ações, com o tempo, costumam levar a um estado de equilíbrio entre álcool, ácidos, ésteres e água. Assim, durante a “vida” de um vinho, os aromas mudam de acordo com as diferentes concentrações desses compostos.

O mesmo ocorre com as percepções no palato, que se tornam mais redondas e suaves do que as encontradas em um vinho jovem, graças à evolução dos taninos. Acredita-se que, no começo, após macerados, esses polifenóis apresentam peso molecular baixo.

Mas, com o tempo, a tendência é eles se polimerizarem, alongando as cadeias de carbono e, com isso, aumentando o peso. Quanto maior o peso molecular, mais macia se sente a bebida – e assim também se formam os sedimentos. Essa crença, no entanto, vem sendo questionada por pesquisadores (veja box).

Verdade ou não, o certo é que, com o tempo, a combinação entre taninos, ácidos e álcool tende a ficar mais sutil, proporcionando uma sensação mais sedosa na boca.

Velho X Novo

“Ninguém que bebeu do vinho velho, quer já do novo, porque diz: ‘O vinho velho é melhor’”. Apesar de alegórica, esta passagem do evangelho de São Lucas mostra o quanto a premissa está enraizada nas mentes até de quem não se considera um enófilo.

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No entanto, muito da explicação para essa crença ter perdurado até os nossos dias está no processo de produção dos vinhos que, durante milênios, fazia com que os jovens, recém-fermentados, fossem “duros”, tânicos, difíceis de beber.

Eram vinhos rústicos, que somente com o tempo se tornavam mais palatáveis.

Os séculos passaram e, com as novas técnicas de produção e mais conhecimentos sobre a videira, a uva, as leveduras, o envelhecimento em barricas etc, os vinhos tornaram-se bebíveis tão logo chegavam ao mercado.

Se antes nem sempre as uvas eram colhidas no ponto exato de maturação (de açúcar e fenóis), por exemplo, agora isso é quase impensável (estudos mostram que as datas de colheita ao redor do mundo ficaram cada vez mais tardias) e explica uma parte da “suavidade” encontrada nas bebidas jovens atualmente.

No entanto, diversos outros processos (fermentação malolática, bâtonnage e maceração carbônica, por exemplo) se somam para resultar em algo prazeroso desde o início.

Não à toa, hoje a ampla maioria dos rótulos é planejada para ser consumida jovem, dentro de um ou dois anos depois de lançada. Neles, tudo (taninos, acidez, fruta) foi programado para estar equilibrado logo de cara e o tempo não é capaz de fazer com que ganhem nada (apenas percam).

Isso não quer dizer, porém, que não existam vinhos que podem envelhecer bem. Mas, a questão que levantamos não reside na possibilidade de um bom envelhecimento, mas se é válido ou necessário esperar por esse envelhecimento para desfrutar de um vinho “melhor”.

O crítico Robert Parker chegou a escrever sobre o tema. “É importante ter uma definição do que significa envelhecer um vinho.

Eu defino o processo como nada mais do que a habilidade de, com o tempo, o vinho: 1- desenvolver mais nuances prazerosas, 2- expandir-se e se suavizar em textura e, para os tintos, exibir uma dissolução adicional de taninos e, 3- relevar aromas e sabores mais atraentes. Em suma, o vinho precisa entregar uma complexidade adicional, maior prazer e gerar mais interesse do que quando lançado”.

Há sensações (cheiros e sabores) que só são proporcionadas por um vinho velho

Quase todos os vinhos estão sendo feitos de forma que o consumo imediato seja pelo menos possível, mesmo que nem sempre desejável

Parker contesta o dito “milagre da garrafa” (de que o vinho melhora com o tempo), afirmando que, na maioria das vezes, uma longa guarda é um “caro exercício de futilidade”. Para ele, os processos pelos quais os vinhos passam hoje diminuem a capacidade de a bebida evoluir e se tornar mais complexa com o tempo. Daí, guardá-las para consumir posteriormente não faria sentido.

Outros críticos, porém, defendem o envelhecimento. Um deles é Eric Asimov, que escreve para o New York Times. “Amo vinhos velhos, mais do que posso pagar por eles, infelizmente…”, brinca.

Para ele, quanto melhor o vinho, mais você precisa apreciá-lo com o tempo – quando é jovem, na meia idade e na velhice, e entre essas etapas. “É assim que você realmente conhece o melhor do vinho.

Quando opta por atalhos, você se ilude”.

Para Robert Parker, uma longa guarda é um “caro exercício de futilidade”

Em seu Altas Mundial do Vinho, os críticos Hugh Johnson e Jancis Robinson escrevem: “O momento em que se deve beber um vinho é certamente uma questão de gosto pessoal e até mesmo nacional.

Sabidamente, os ingleses têm preferência pelos vinhos velhos, enquanto os franceses e os norte-americanos, com frequência, bebem seus vinhos uma década antes dos ingleses.

O certo é que, atualmente, quase todos os vinhos estão sendo feitos de forma que o consumo imediato seja pelo menos possível, mesmo que nem sempre desejável”.

Percepções

Diante dessas ponderações, resta-nos escolher entre a pungência da juventude e a sutileza da idade – vale lembrar que, um vinho velho, mesmo que tenha passado de seu ponto de apreciação ideal, não fará mal à saúde. Portanto, cabe a cada um decidir o que mais lhe agrada.

Para alguns, o importante será perceber os tons frutados tanto na boca quanto no nariz, a exuberância da cor (nos tintos), a gostosa adstringência dos taninos, a refrescância da acidez em seu auge, enfim, toda a volúpia de uma bebida quando jovem. Outros, contudo, vão deixar tudo isso de lado em favor de uma maior sutileza no palato e de uma gama aromática completamente diferente, e que só é alcançada com o envelhecimento.

Em favor dos vinhos velhos, também podemos lembrar que apreciá-los não é somente uma experiência sensorial distinta, mas também cultural, pois obrigatoriamente nos leva a uma viagem no tempo, a um passado que une a nossa história à daquele produtor. Se a bebida é melhor ou não, difícil dizer, mas esse tipo de experiência, somente um vinho velho pode proporcionar.

Então, na dúvida, opte pela máxima: “O vinho melhora com a idade. Quanto mais velho fico, mais gosto dele”.

Durante muito tempo, os cientistas acreditaram que os taninos, com o tempo, formavam cadeias cada vez maiores e mais pesadas e, com isso, precipitavam-se. Ou seja, a bebida, além de ficar menos adstringente, teria menos taninos. Contudo, ao analisar os vinhos em uma degustação vertical com safras de 50 anos, pesquisadores australianos notaram que as garrafas mais antigas tinham tanto ou mais taninos que as mais jovens. Ou seja, eles não somem com o tempo. E, recentemente, um estudo liderado por franceses mostrou que quanto maior a cadeia de taninos, mais adstringente ela é, já que consegue se ligar às proteínas mais facilmente. Enfim, a resposta para a menor percepção de tanicidade em vinhos velhos ainda não está 100% explicada.

Durante a “vida” de um vinho, os aromas mudam de acordo com as diferentes concentrações de álcool, ácidos, ésteres e água

Alterações no vinho durante o período de guarda

Tintos

Ao envelhecerem, adquirem caráter mais suave e macio, em contraste à possível aspereza apresentada quando de seu engarrafamento. A coloração também costuma alterar-se de violeta profundo para um leve vermelho-tijolo. Normalmente, quando envelhecidos, têm mais sedimentos do que vinhos jovens.

Com relação ao olfato e ao palato, normalmente a mudança é latente: tornam-se mais complexos, com traços mais evoluídos e camadas de aromas secundários e terciários – tais como notas de madeira, frutos secos, mel, couro, carne crua, estrebaria, tostados, defumados, tabaco, café, trufas etc– desenvolvem-se e passam a ser percebidos na degustação.

O vinho muda de cor, sabor e ganha aromas terciários, que só aparecem com o tempo de guarda

Brancos

Visualmente, vinhos brancos adquirem tonalidade mais escura quando envelhecem, tais como tons dourados profundos e até âmbares, provavelmente devido a um processo lento de oxidação de seus compostos fenólicos.

Também pode surgir algum sedimento, ainda que em bem menor quantidade do que ocorre nos tintos.

No nariz e na boca, geralmente a acidez e a crocância da juventude dão lugar a aromas mais suaves e evoluídos, com delicadas notas de mel, frutos secos, manteiga, baunilha, tostados ou defumados, dependendo das castas presentes em sua composição.

Os principais vinhos bordaleses podem chegar ao auge em 15 ou 20 anos

Clássicos com bom potencial de envelhecimento

França

  • Bordeaux: os grandes ícones como Pétrus, Latour, Mouton, Lafite, Haut-Brion, Margaux e todos os Grand Cru, sejam eles tintos ou brancos, inclusive os doces de Sauternes, como Yquem, Rieussec e Guiraud que, dependendo da safra, podem se manter no auge por mais de 30/40 anos, e, em alguns casos, períodos bem superiores a isso.
  • Borgonha: os vinhos de grandes produtores, como Romanée-Conti, Montille, Comte Georges de Vogüé e, via de regra, de vinhedos com classificação Cru, sejam eles brancos ou tintos, podem se manter no auge por mais de 10/20 anos.
  • Rhône: os Châteauneuf-du-Pape – Beaucastel e Château Rayas, por exemplo –, Côte-Rôtie de Guigal e os Hermitage de Chave e Paul Jaboulet, entre outros, evoluem bem.
  • Champagne: os safrados e Cuvée Prestige geralmente podem ser bebidos quando lançados, mas permanecem no auge e muito complexos com os anos de garrafa.
  • Grandes Châteaux de Bordeaux e os clássicos italianos são exemplos de vinhos que podem envelhecer

Itália

Piemonte: os clássicos Barolo e Barbaresco atingem, via de regra, seu auge com pelo menos 10/20 anos de garrafa e assim podem se manter por décadas. Gaja, La Spinetta, Elio Grasso e Pio Cesare fazem vinhos que são exemplos de longevidade.

Toscana: os Chianti Classico Riserva – Badia a Coltibuono, Mazzei, por exemplo – e os Brunello di Montalcino de Biondi Santi, Soldera, entre outros, são tintos feitos para envelhecer e precisam de 5/10 anos, pelo menos, para mostrarem todas as suas virtudes.

Vêneto: os Amarone de Valpolicella, vinhos que podem ser bebidos jovens, mas que se beneficiam do tempo de garrafa, podendo se manter no auge por décadas. Os produzidos por Dal Forno Romano e Quintarelli exemplificam isso.

Espanha

Rioja e Ribera del Duero: os tintos Reserva e Gran Reserva da Rioja e de Ribera del Duero podem se manter no auge por décadas. Um exemplo disso são os vinhos de Vega Sicilia, Tondonia e Marques de Riscal, entre outros tantos.

Jerez: os bons Jerez, principalmente os Amontillados com 10, 20, 30 e 40 anos de envelhecimento.

Vinhos do Porto e Madeira estão entre os mais longevos do mundo

Portugal

Porto: os Porto Colheita e Vintage se beneficiam de uma longa guarda, podendo facilmente serem apreciados com mais de 50 anos. Casas como Dow’s, Taylor’s, Graham’s e Fonseca, entre outras, vêm produzindo vinhos longevos e com grande capacidade de envelhecimento há anos.

Madeira e Setúbal: os vinhos Madeira – Justinos e Blandy’s, por exemplo – e Moscatel de Setúbal – José Maria da Fonseca e Bacalhôa, entre outros – também podem durar por muitas décadas.

Alemanha

Os Riesling alemães, principalmente os Spätlese e Trockenbeerenauslese, apesar de poderem ser bebidos jovens, podem permanecer no auge por décadas. Eugen Müller, Dönnhoff, Prüm e Bürklin-Wolf, entre outros, atestam isso.

Hungria

Os grandes Tokaji 5, 6 Puttonyos e Eszencia podem se manter no auge por mais de 30 anos, como os produzidos por Oremus, Royal Tokaj e Pendits, entre outros.

Vinhos do Novo Mundo estão provando que podem ganhar muito com a guarda em garrafa

Áustria

Há grandes vinhos de sobremesa de produtores como Kracher, por exemplo, que podem se bebidos quando lançados, mas podem permanecer no auge por muitas décadas.

Novo Mundo

Os vinhos ícones de produtores: como Penfolds na Austrália com seu Grange e os grandes Cabernet dos Estados Unidos produzidos na Califórnia, por exemplo, pela Ridge, Stag’s Leap, Heitz Cellar, Opus One, podem permanecer no auge por décadas.

Na América do Sul também há vinhos que podem se manter no auge por, pelo menos 10/20 anos, e exemplos disso são os feitos pela López e Weinert, entre outros, na Argentina; os ícones Almaviva, Don Melchor, Casa Real, Clos Apalta, Montes Alpha e Manso de Velasco, entre diversos outros do Chile, que demonstram grande capacidade de envelhecer com qualidade; e, por último, o Brasil, que está provando também ter condições de produzir vinhos longevos (como demonstrado nesta reportagem: /artigo/brasil-velho-mundo_4313.html).

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