Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?

Poliglota é alguém que fala três idiomas ou mais. Certamente, dominar vários idiomas é o sonho de muita gente. Provavelmente você já leu Crime e Castigo e pensou “eu preciso saborear isso no russo original” ou mesmo leu Cem Anos de Solidão, e desejou ser um profissional do castelhano, por exemplo.

Primeiramente, a palavra poliglota vem do termo grego poluglōttos, onde “polu” é igual a “muitos” e “glōttos”, é igual a “língua/linguagem”. Consequentemente, quando alguém fala duas línguas é considerado bilíngue. Em contraste, quando alguém domina três línguas ou mais, essa pessoa é considerada poliglota.

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?

Acima de tudo, ser um poliglota não é simples. Isso porque para aprender um novo idioma requer anos de dedicação e envolvimento, então várias línguas exige ainda mais esforço. Consequentemente, a idade é um grande aliado. Aliás, quanto mais velho, mais tempo a pessoa teve para se aprimorar nas linguagens.

Além disso, aprender línguas na infância faz toda a diferença. Basicamente, após a puberdade, os hormônios dificultam a reprodução de um sotaque mais autêntico. Mas, claro, sempre é tempo de aprender, mesmo que não se tenha tanta facilidade quanto nessa fase inicial da vida.

Poliglota X Superpoliglota

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?Definição

Primeiramente, como já foi dito, poliglota é aquele que fala várias línguas, sendo que no minimo mais de três. Apesar disso, existe uma categoria acima dessa: os superpoliglotas. Também chamados de hiperpoliglotas, estas são pessoas que dominam pelo menos seis línguas diferentes.

Os termos superpoliglota e hiperpoliglota, aliás, foram definidos em 2003, pelo linguista britânico Richard Hudson. Basicamente, hiperpoliglotas são diferentes de bilíngues ou poliglotas. Isso porque essas pessoas testam os limites do cérebro e ajudam a ciência a entender como funciona a mente humana.

Depois da puberdade, o cérebro começa a ficar mais estável e menos flexível, por isso a dificuldade de aprender línguas novas depois de certa idade. Apesar disso, alguns pesquisadores acreditam que os hiperpoliglotas conseguem prolongar essa plasticidade.

Inclusive, vale lembrar que para falar outros idiomas, são exigidas tarefas do cérebro como: percepção auditiva, controle motor, memória semântica, sequenciamento de palavras.

Portanto, para assimilar um novo idioma, o cérebro precisa entender as estruturas do som e das palavras. Esse aprendizado, aliás, percorre pelos hemisférios esquerdo e direito do cérebro.

Apesar disso, o maior mérito de um hiperpoliglota, para os cientistas, é muito simples: acumulação de experiência. Ou seja, simplesmente memórias guardadas com mais fluidez depois de muito estudo.

Mente elástica

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?Canal de Ensino

Primeiramente, o córtex pré-frontal é uma área do cérebro que conta com a ajuda da memória ativa. Apesar disso, existe pouco espaço na memória ativa. Ou seja, informações novas chegam e as velhas vão para a memória de longo prazo.

Por causa disso, a memória de longo prazo tem um espaço maior e é mais flexível.Basicamente, ela ajuda a aprender várias línguas.

A genética, certamente, é outro fator decisivo na hora de aprender várias línguas. Segundo cientistas da Universidade de Münster, na Alemanha, a habilidade em aprender idiomas envolve diferenças genéticas nos neurotransmissores do hipocampo, a área que transforma informações temporárias em permanentes. Portanto, a velha e batida vontade de aprender.

Basicamente, é possível aprender a organizar as informações no cérebro e a traçar caminhos para encontrá-las. Para isso, é necessário ter a velha e boa vontade de aprender. Consequentemente, é possível expandir a capacidade de guardar informações sem precisar de um QI acima da média. A memória de longo prazo parece aumentar de acordo com a vontade de cada um.

Confira 6 famosos poliglotas históricos

1 – L.L. Zamenhof

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Primeiramente, este médico e linguista era fluente em russo, polonês, alemão, ídiche e francês. Além disso, ele também estudou latim, grego, hebraico e aramaico. Ele também se dedicou ao idioma artificial volapük. Ou seja, ele ficou famosos pela criação de um idioma que se tornou o mais bem sucedido do mundo.

Zamenhof acreditava que forçar imigrantes a aprender o idioma local os colocava em desvantagem quando competiam com os falantes nativos. Consequentemente, um idioma artificial poderia fornecer uma base neutra adequada para a comunicação e nivelar o aprendizado para todos.

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?Rainhas Trágicas

A Rainha Virgem possuía habilidades linguísticas. Ela aprendeu com maestria francês, flamengo, italiano, espanhol, latim, grego e córnico. Apesar disso, o seu grande legado é como tradutora.

Ela traduziu Cicero, Sêneca e Calvino para o inglês e também traduziu o trabalho religioso de Katherine Parr Prayers or Meditations para o latim, francês e italiano quando ela era apenas uma adolescente.

3 – Friedrich Engels

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?Causa Operária

O filósofo alemão é conhecido pelo seu trabalho crítico sobre o capitalismo, desenvolvido com Karl Marx. Apesar disso, ele também era conhecido como um linguista que dominava diversos idiomas: russo, italiano, português, gaélico irlandês, espanhol, polonês, francês, inglês, dialeto de Milão, gótico, nórdico antigo e saxão antigo. Supostamente ele aprendeu árabe em 3 semanas.

4 – Alexander Argüelles

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Alexander Argüelles é um linguista que domina cerca de três dúzias de idiomas, fala a maioria deles fluentemente e ainda estudou muitos outros. Sua maior motivação para aprender alemão foi a literatura. Além disso, ele desenvolveu um método intenso, estudando 16 horas por dia, transcrevendo os idiomas e fazendo uma imersão nos sons, nas estruturas e nas dinâmicas do idioma escolhido.

De acordo com ele, qualquer pessoa estudada deveria aprender no mínimo 6 idiomas, priorizando:

  • as línguas clássicas de sua civilização;
  • os idiomas vivos das culturas mais expandidas;
  • inglês, o idioma internacional;
  • um idioma exótico de sua escolha.

5 – Kató Lomb

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Kató Lomb faleceu, em 2003, com quase 100 anos de idade. Ela foi um das primeiras intérpretes simultâneas do mundo e conseguiu aprender 16 línguas. Depois de estudar química e física, ela se jogou no inglês, com a intenção de se tornar professora do idioma. Ela escolheu livros e dicionários diversos, leu o máximo que pode em inglês e aprendeu basicamente praticando.

Além de sua língua nativa, ela falava o húngaro: búlgaro, romeno, polonês, russo, eslovaco, ucraniano, dinamarquês, inglês, francês, alemão, italiano, espanhol, hebreu, latim, japonês e chinês. Em seu livro É assim que aprendi idiomas, Lomb menciona ter entrado diretamente em uma aula avançada de polonês e falar para o professor que ela não tinha nenhum conhecimento prévio.

6 – J.R.R. Tolkien

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas? Somos Livres

Tolkien é famoso por incluir idiomas artificiais nos seus livros. O Senhor dos Anéis e o O Hobbit, são provas de que essas línguas inventadas possuem uma gramática e semântica comparáveis com idiomas que evoluíram naturalmente. Tudo começou com a mãe de Tolkien, que o ensinou latim, francês e alemão desde pequeno. Consequentemente, isso o levou a estudar outras ao longo de sua vida.

O seu favorito era o finlandês, que o inspirou a criar quenya, uma língua culta dos elfos. Da mesma forma, o seu amor por galês o influenciou a criar o sindarin, o segundo idioma mais complexo que ele inventou. Além disso, ele não acreditava que alguém devesse aprender um idioma por sua razão prática ou econômica, mas apenas por puro amor.

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  • Fontes: Mosalingua Super Interessante +Babbel
  • Imagem de destaque: BetterLyf

Por que algumas pessoas são melhores em aprender vários idiomas do que outras?

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Varias Linguas?Ilustração por Chelsea Back/Gizmodo

Algumas pessoas aprendem idiomas como quem pega um resfriado ou queimaduras de sol – sem esforço algum, apenas pela imersão no ambiente.

Outros não conseguem ouvir a palavra ‘conjugar’ sem voltar, envergonhados, para as salas de aula onde fracassaram, há muito tempo, em se livrar da maldição do monolinguismo.

O que exatamente é o que permite que o primeiro grupo saia conversando em espanhol e lendo Kafka em alemão, enquanto o resto de nós tem problemas com apenas um idioma? Para o Giz Pergunta desta semana, contatamos vários especialistas em idiomas para descobrir.

Arturo Hernandez

Professor de Neurociência do Desenvolvimento, Comportamental e Cognitivo e Diretor do Laboratório de Bases Neurais do Bilinguismo da Universidade de Houston, e autor de The Bilingual Brain.

As pessoas não têm controle total sobre quando (ou se) eles aprendem uma segunda língua – grande parte é o ambiente. Se você é exposto a um segundo idioma quando é mais jovem, há evidências de que será melhor não apenas nesse idioma, mas também no aprendizado de um terceiro ou quarto.

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Mas a grande pergunta que as pessoas fazem é: o que está no meu controle? E, para os alunos de línguas, as pesquisas mostram que o que se torna cada vez mais importante é o ouvido musical.

Quando as pessoas me perguntam “por que tenho tanta dificuldade em aprender outro idioma?”, Pergunto: “você sabe cantar parabéns?” Invariavelmente, as pessoas que têm problemas para aprender outro idioma dizem que não sabem cantar afinados.

Tem a ver com a capacidade de fazer discriminações sonoras estrangeiras. Você pode detectar a diferença em uma nota – você pode ouvi-la. Você também pode detectar a diferença entre, digamos, o ‘D’ em inglês (como em ‘dead’ ou ‘door’) e o som D em espanhol, que é quase como um ‘th’ em inglês (como em ‘the’), mas não exatamente.

Michael Erard tem um livro chamado Babel No More sobre o que ele chama de super aprendizes de idiomas ou hiperpoliglotas. Ele ressalta que essas pessoas têm um bom ouvido e a capacidade de pensar abstratamente sobre a gramática.

Enquanto isso, as pessoas que não têm um bom ouvido musical tendem a ter sotaques mais fortes, mas podem confiar muito na gramática, porque precisam das regras para orientá-las. Bons aprendizes de línguas podem fazer as duas coisas – eles podem entender as regras de maneira abstrata.

Ao mesmo tempo, eles têm uma boa noção do idioma e podem ouvir intuitivamente o que está certo e errado.

“…os super aprendizes de idiomas, ou hiperpoliglotas… têm um bom ouvido e a capacidade de pensar abstratamente sobre a gramática”

Alissa Ferry

Professora de Comunicação Humana, Desenvolvimento e Audição, da Universidade de Manchester.

Como pesquisadora de desenvolvimento de idioma, a resposta mais óbvia para mim é que a idade é um fator importante na forma como as pessoas aprendem idiomas adicionais. Quanto mais jovem você for quando começar a aprender um novo idioma, melhor será nesse idioma e soará mais nativo.

Uma razão para isso é que, na verdade, existe uma enorme variedade de sons de linguagem que os humanos podem produzir, mas qualquer idioma usa apenas um pequeno subconjunto para criar palavras (o inglês, por exemplo, possui aproximadamente 40 sons diferentes).

Os bebês começam inicialmente bastante sensíveis a tudo isso: eles podem entender a diferença entre esses sons e produzir sons que não são usados ​​em seu idioma. Mas quando eles começam a aprender seu idioma, eles se concentram apenas nos sons mais importantes.

Eles param de discriminar esses sons que não estão em seu idioma e restringem sua produção aos sons que estão em seu idioma. Isso significa que, à medida que você envelhece, fica mais difícil escolher e usar sons que não estão no seu idioma nativo.

Também vemos diferenças de idade ao aprender coisas como regras gramaticais, sobre como as palavras em um idioma são organizadas e usadas. Quanto mais cedo um idioma é aprendido, menor a probabilidade de um falante cometer erros gramaticais.

Por exemplo, alguns idiomas, como o italiano, usam artigos em mais casos do que em inglês.

Quanto mais tarde o falante aprender o idioma, maior será a probabilidade de cometer erros gramaticais (por exemplo, falantes de italiano usando muitos artigos em inglês; falantes de inglês usando muitos poucos artigos em italiano) e ter dificuldade em aprender novas regras gramaticais.

O que isso mostra é que os jovens têm uma enorme vantagem que os torna melhores no aprendizado de vários idiomas. Mas aprender vários idiomas quando mais jovem também parece influenciar o quão bem uma pessoa aprenderá idiomas adicionais.

Há evidências de que pessoas que já são bilíngues são mais rápidas e eficientes em aprender outro idioma que os monolíngues.

Isso pode ocorrer porque eles têm um conhecimento de idiomas mais diversificado para se relacionar com o novo idioma ou já possuem habilidades bem desenvolvidas para alternar entre idiomas diferentes.

Portanto, ser mais jovem e já ter um segundo idioma em seu currículo parece facilitar o aprendizado de vários idiomas.

“Há evidências de que pessoas que já são bilíngues são mais rápidas e mais eficientes em aprender outro idioma que os monolíngues. Isto pode ocorrer porque eles têm um conhecimento de idiomas mais diversificado para se relacionar com o novo idioma ou já tem habilidades bem desenvolvidas em alternar entre diferentes idiomas”

Joshua Hartshorne

Professor assistente de Psicologia, Boston College, e Diretor do Laboratório de Aprendizado de Línguas.

Há dois fatores cruciais que afetam quantos idiomas você pode aprender: ambiente e idade. As pessoas que estão imersas em um idioma aprendem muito melhor. Existem boas e más aulas, mas nada supera ter que usar o idioma todos os dias. O efeito dessa prática diária da vida real é enorme.

Quanto à idade: as crianças são aprendizes fenomenais de idiomas, principalmente se estiverem imersas no idioma.

As crianças que crescem em comunidades poliglotas (onde vários idiomas são frequentemente falados e você precisa conhecer todos eles para sobreviver) aprendem todos os idiomas extremamente bem e sem necessariamente nenhuma instrução explícita.

Portanto, se você quiser meu conselho para aprender muitas línguas: seja jovem e ande com pessoas que falam essas línguas. Além disso, há alguma variação de pessoa para pessoa, mas na maioria das vezes isso é muito pouco em comparação com os dois grandes efeitos do ambiente e da idade.

“… se você quiser meus conselhos para aprender muitas línguas: seja jovem e ande com pessoas que falam esses idiomas”

Emily Sabo

Aluna de doutorado de Linguística na Universidade de Michigan, cujas pesquisas se concentram no contato com o idioma e variações em populações que falam espanhol.

Existem vários fatores que determinam o quão bem alguém aprenderá um idioma adicional.

Primeiro e mais importante é a motivação. Existem dois tipos de falantes bilíngues: eletivos e circunstanciais. Um falante eletivo-bilíngue seria alguém que aprende espanhol no ensino médio ou na faculdade para conseguir emprego ou aumentar sua habilidade.

Um bilíngue circunstancial é alguém que, por exemplo, emigra para um novo país e não fala o idioma, uma pessoa para quem aprender esse idioma se torna uma questão de aprender ou se dar mal.

Alunos circunstanciais tendem a aprender o idioma mais rapidamente, porque precisam.

O segundo fator é a idade do aprendizado. Quanto mais cedo você aprender um segundo idioma, melhor será. Sabemos que as crianças são melhores em aprender novos idiomas. As crianças bilíngues também tendem a aprender um idioma adicional mais rapidamente, porque tiveram mais exposição a diferentes maneiras pelas quais idiomas diferentes codificam gramática e vocabulário.

Em grego, por exemplo, existem duas palavras-base para a cor azul; e em quíchua, você deve colocar um morfema no final de cada verbo que codifica como você recebeu a informação que está dizendo – isto é, se você ficou sabendo em primeira mão ou por outra pessoa.

A amplidão do que chamamos de Período Crítico para o aprendizado de idiomas é bastante larga.

No entanto, alguns estudos demonstraram que, após seis meses de idade, os bebês expostos a apenas um idioma começam a demonstrar dificuldade em distinguir sons que não são do idioma deles.

Outro grande fator é o apoio institucional ao aprendizado de idiomas. Em muitos estados dos EUA, o aprendizado de um segundo idioma não é realmente priorizado. De uma perspectiva mais ampla, o que realmente importa é que cursos estão sendo oferecidos.

Eles estão oferecendo apenas espanhol, ou chinês? Existe um programa de educação bilíngue? Eles estão apenas ensinando espanhol como matéria ou é como um programa verdadeiramente bilíngue, onde ensinam matemática em chinês e ciências em inglês? Penso que diferentes tipos de modelos de educação bilíngue mudariam drasticamente a maneira como as pessoas nos EUA aprendem um segundo idioma.

“Os alunos circunstanciais tendem a aprender o idioma mais rapidamente, porque precisam”

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As dez línguas de Portugal

  • É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»
  • Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.
  • A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.
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Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

  1. Ah, a beleza do mundo visto à bruta…
  2. A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»
  3. Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

Olhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente.

A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense.

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Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar).

O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

Uma versão revista deste artigo foi publicada no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa.

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O que significa ser bilíngue?

Como mostra o vídeo acima, todos têm uma opinião diferente. Para alguns, ser bilíngue significa se comunicar sem esforço em duas línguas, mesmo que uma delas tenha sido aprendida mais tarde na vida e desvie um pouco da naturalidade falada da outra. Outros têm como referência falar sem erros de gramática e com pronúncia perfeita.

E não somos só nós, meros mortais, que estamos em dúvida; estudiosos estão igualmente divididos porque os critérios e medidas são simplesmente muito vagos e variados para se chegar a qualquer definição. Disso, podemos tirar uma conclusão: bilinguismo é um rótulo relativo, uma questão de grau e não de dicotomia.

É também fundamentalmente um fenômeno subjetivo, algo que primeiramente e principalmente é sentido.

Você sente isso?

Idiomas não são objetos inanimados, que podem ser adquiridos uma vez e depois guardados lá no fundo da sua cabeça. Eles são coisas vivas, capturam a nossa imaginação e definem a nossa realidade: linguagem, emoção e identidade são intrinsecamente ligados.

Pode ser que uma pessoa fale uma língua perfeitamente bem em sua infância, mas não se considere bilíngue porque não viveu no país onde esse idioma é falado e não tem conexão nenhuma com a cultura, humor e códigos sociais.

Outros já se sentem bilíngues no momento em que conseguem se expressar em outra língua sem hesitar ou ter restrições.

Mas, para o propósito deste artigo, vamos tentar achar uma definição comum: pessoas bilíngues são aquelas que cresceram falando duas línguas e são capazes de trocar entre uma e outra sem esforço. Se temos isso como ponto de partida, nós podemos perguntar: quais características são particulares a esses indivíduos? Ou colocado de outra forma: como o cérebro bilíngue funciona?

II – O cérebro bilíngue

O mundo e a linguagem

Independentemente se você vê a linguagem como uma série de sons articulados ou como um sistema complexo de comunicação, ela cria a nossa primeira conexão com o mundo.

O bebê recém-nascido respira fundo e chora, expressando seus desejos e fazendo com que o mundo saiba de sua existência.

Durante a infância, a gramática e o vocabulário emergem (em todas as culturas, se você acredita na ideia de Chomsky sobre uma Gramática Universal) e influenciam como você se engaja com o mundo (se você é adepto de uma visão Whorfiana de que a linguagem afeta a percepção).

E, o que acontece com as pessoas que possuem dois sistemas linguísticos possíveis para expressar uma ideia ou sentimento? Por um grande período de tempo, o bilinguismo foi considerado negativo.

A opinião geral surpreendentemente era de que tal educação poderia causar uma certa confusão mental, especialmente em crianças pequenas. Foi só em 1962 que um estudo de Peal e Lambert, sobre a relação entre a inteligência e linguagem, alterou essa visão.

Alguns estudos mais recentes ainda alegam que pessoas bilíngues têm uma “consciência metalinguística” mais forte, o que é aplicado em solução de problemas nas áreas fora da linguagem, como a matemática.

Brot, baguette e os sistemas de referência cognitivos

A ideia de ter diferentes sistemas linguísticos pode ser ilustrada pela diferença entre a palavra alemã brot e a francesa baguette – ambas se referindo a pão.

Por um lado, você tem aquela imagem de uma baguete crocante, quentinha, que você pode comer com um café ou servir com 5 tipos de queijo.

Já pelo outro temos o brot que é o o pão preto, com grãos, compacto, saudável e delicioso, da mesma forma que o abendbrot, ‘pão da tarde’, que geralmente é uma refeição com a família pelo fim da tarde ou um lanche antes de dormir.

As duas palavras não vivem no mesmo mundo imaginário, elas resgatam memórias e emoções diferentes, além de outras referências culturais.
Elas pertencem a sistemas cognitivos diferentes, e uma pessoa bilíngue que deseja falar sobre pão tem uma variedade de sentidos disponíveis para ela.

Uma comparação com a sinestesia pode esclarecer ainda mais esse conceito. Aqueles afetados pela sinestesia confundem dois sentidos, como visão e audição. Um sinestésico pode literalmente ver a música em diferentes cores, e, portanto, ter acesso a dois sentidos que o ajudam a descrevê-la.

Como consequência, sua descrição pode parecer mais rica, metafórica ou figurativa. Vários poemas com algumas expressões diárias se utilizam dos princípios sinestésicos – por isso que dizemos cores frias ou quentes.

Essa tão chamada flexibilidade cognitiva é associada com a criatividade e parece ser particularmente evidente entre as pessoas bilíngues.

III – Carpe diem

Apenas 13% dos países das Nações Unidas são oficialmente monolíngues. Se você cresceu em algum deles, não entre em desespero. Nunca é tarde para começar! Aprender uma nova língua é como esporte para o seu cérebro: ajuda a estimular e aumentar as conexões neurais.

Algumas pessoas afirmam que aprender uma nova língua influenciou profundamente a sua vida e personalidade, que eles são mais abertos, criativos, confiantes e tolerantes no novo idioma. É fato que o novo idioma pode mudar a pessoa – não é raro ver um lado diferente de alguém quando essa pessoa fala outra língua.

Libere o artista dentro de você!

Acidentes estranhos e maravilhosos entre línguas podem acontecer. Se uma palavra não vem à cabeça, ou se de fato não existe outra forma de expressar algo, você então usa a solução de uma outra língua…

Eu falei um dia para uma amiga alemã da capacidade que certas pessoas têm de ‘die Ecken rund machen’ a tradução literal para o português seria “arredondar as pontas”. Não somente essa ideia funcionou perfeitamente, mas também em vez de uma risada tirando um sarro eu recebi um olhar de admiração: Vocês falam isso em francês? É genial!

Portanto, deixe a criatividade fluir, libere o artista dentro de você e … aprenda uma nova língua!

traduzido por Sarah Luisa Santos

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