Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Muitas Linguas?

Compreender as mudanças na fala e na escrita, ocorridas naturalmente ou por causa de leis, é sentir de perto o idioma em movimento

POR: Amanda Polato 01 de Outubro | 2007 Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Muitas Linguas? Tradução: “Já imaginou ter de encarar um texto escrito todo assim? Mas não é tão difícil”. Foto: arquivo pessoal

A linguagem começa com um sopro. O ar que vem dos pulmões é modelado por inúmeras possibilidades de abertura da boca e movimento dos lábios e da língua. Sobe, desce, entorta, recolhe. A cada mexida são formadas vogais, consoantes, sílabas, palavras. Se você tivesse nascido e crescido isolado de outros seres humanos, provavelmente emitiria apenas gemidos. Apesar de ninguém saber exatamente quando surgiram os idiomas, há algumas certezas: a língua é viva, acompanha um povo ao longo dos tempos, expressando uma maneira de organizar o mundo em nomes e estruturas lingüísticas, mudando e reinventando-se com as pessoas.

As transformações acontecem nas ruas e nos prédios de grandes instituições, na linguagem dos sermões, das palestras, dos discursos de políticos e advogados (com seus vocabulários tão particulares). As mudanças também ocorrem na escrita, seja aquela feita com a ponta do lápis, na máquina de escrever ou no computador.

Das poesias aos documentos, nada permanece igual por muito tempo.

Existem as alterações que vêm naturalmente e ainda as que são determinadas por lei, como é o caso do Acordo de Unificação Ortográfica, elaborado em 1990 e recentemente ratificado pelo Brasil, que pretende aproximar as maneiras de escrever de todos os países que têm o Português como idioma oficial.

A fala e a escrita

 Geralmente, a maneira de falar se renova mais rápido do que o modo como se escreve, já que este requer a padronização para ser compreendido por mais gente durante mais tempo.

Alice Saboia, professora de pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que isso se dá porque a oralidade precede a escrita e é muito mais utilizada.

De todos os jeitos de se expressar oralmente e de registrar os termos que pipocam diariamente, só alguns são incorporados aos dicionários e se tornam eternos (enquanto durarem).

Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e um dos maiores gramáticos do país, Evanildo Bechara esclarece que um vocábulo entra no dicionário quando é usado amplamente e quando escritores ou certos profissionais sentem a necessidade de incluí-lo. Calcula-se que existam mais de 300 mil palavras na Língua Portuguesa, mas o Aurélio traz 160 mil verbetes, e o Houaiss, 228 mil. No dia-a-dia, porém, utilizam-se de 1,5 mil a 3 mil deles. A expectativa é que um aluno de 1a a 4a série conheça pelo menos mil.

A língua faz um recorte do real e define, em palavras, os contornos do que vemos. Mário Perini, no livro A Língua do Brasil Amanhã e Outros Mistérios, cita a forma como diferentes idiomas categorizam as cores.

Segundo ele, enquanto os portugueses dividem o espectro solar em seis cores – azul, amarelo, verde, vermelho, laranja e roxo -, os galeses (povo que habita o País de Gales, na Europa) usam apenas duas: gwyrdd, correspondente ao roxo, azul e verde, e glas, para definir as cores quentes (do vermelho ao laranja). “Eles percebem todos os matizes, mas criaram apenas duas categorias”, escreve Perini.

Por que muda? “Mudanças são inevitáveis”, afirma Marcos Bagno, escritor e professor de Lingüística na Universidade de Brasília. A Língua Portuguesa deste texto que você lê, é a usada no Brasil, no século 21, em 2007, bem diferente do Português falado na década de 1940 e em épocas anteriores.

No latim do Império Romano, mal se reconhece o tronco que deu origem ao nosso idioma (leia mais sobre as transformações no rodapé desta reportagem). Lá, solitate significava solidão. As derivações soidade e suidade aparecem em cantigas portuguesas do século 13 para expressar sentimentos relacionados à ausência da pessoa amada.

Só no século 15, saudade foi incorporada à “última flor do Lácio”. Bagno aponta os diferentes agentes de mudança. Um deles é o cognitivo, que diz respeito ao modo como se processa a linguagem no cérebro. Ao usar a analogia, altera-se uma palavra para adaptá-la a um modelo preexistente (por exemplo: friorento tem “or” por analogia com calorento).

Na metaforização, há a transposição de sentido. Depois de um dia de trabalho, quando um falante diz “estou quebrado!”, ele não quer dizer que está em vários pedacinhos. Ocorre aí um exemplo de derivação do sentido original concreto para um conceito abstrato. Esses são alguns exemplos de fenômenos cognitivos.

“Submetemos a fala a diversos processos mentais intuitivos e inconscientes, fazendo novas inferências”, explica o pesquisador. A esses processos se juntam os fenômenos de ordem social e cultural. Modificam-se as formas de viver, as manifestações culturais e as organizações política e econômica da sociedade.

Além disso, os povos se deslocam, se influenciam e se distanciam em vários aspectos.

“A maneira como falamos hoje é muito mais próxima da falada no século 15 pelos portugueses do que a utilizada hoje em Portugal”, conta Ataliba Teixeira de Castilho, lingüista da Universidade de São Paulo (USP) e um dos consultores na criação do Museu de Língua Portuguesa, em São Paulo. “Era uma linguagem assisada, como se dizia ?ajuizada? na época, de fala devagar. Atualmente os portugueses mal pronunciam as vogais átonas.”

Diferenças no espaço

Há também uma série de palavras e construções usadas no Brasil e que, muitas vezes, se consideram erradas e caipiras, mas são exemplos da linguagem mais “correta” do passado. Castilho diz que construções recentemente ouvidas em Cuiabá, como “filha meu não casa”, eram utilizadas pelos colonizadores. E quando alguém diz “frecha” e “ingrês” (no lugar de flecha e inglês), acredite, está roçando na língua de Camões! Ouvir algo que soa estranho é comum em um país com tantas diferenças. Ao falar sobre transformações na linguagem, Maria José de Nóbrega, formadora de professores e elaboradora dos Parâmetros Curriculares Nacionais de 5a a 8a série, resume: “As línguas não mudam apenas no tempo, mas também variam no espaço”. Ao estudar variações de origem socioeconômica, gênero, faixa etária, nível de escolaridade e região, é possível perceber esse dinamismo. Cada grupo social é capaz de modificar o falar e o escrever, mas em geral, a população mais jovem é disparadora das mudanças. Maria José afirma que faz parte do papel da juventude se diferenciar, romper padrões e testar novidades. Professor de 8a série da Escola Internacional de Alphaville, em Barueri, na Grande São Paulo, José Eduardo Sena se surpreende com as gírias que os alunos trazem do universo da informática: “Na sala de aula, temos o privilégio de ouvir inovações lingüísticas em primeira mão”. Até regras sintáticas sofrem alterações. É comum ouvir frases em forma de tópicos e não mais organizadas no padrão sujeito e predicado. Começa-se a frase com um assunto e depois passa-se para a ação – “A casa, roubaram os portões dela” é uma fala que já chamou a atenção dos especialistas, mas ainda não chegou às gramáticas. Esse caso comprova a idéia de que o Português não padrão – aquele utilizado informalmente – tem suas próprias lógica e regras internas. Só não estão registradas. Luiz Carlos Cagliari, especialista em história da ortografia da Língua Portuguesa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma que todos os dialetos e variantes lingüísticas podem ser sistematizados e que, portanto a gramática tradicional é apenas o ordenamento de uma delas: o da língua-padrão.

Na cabeça dos jovens

O exemplo mais recente de todo esse dinamismo está na escrita cifrada usada na internet, que pode (e deve) ser discutida em sala de aula e usada em proveito da aprendizagem. O uso criativo da linguagem da comunicação via computador é uma novidade. Abreviações eram feitas desde a época do latim, mas nunca houve nada com a inventividade do internetês.”Trata-se de uma escrita praticamente instantânea, algo inédito”, comenta Ataliba de Castilho, da USP. Cagliari desmistifica a idéia de que essa variação seja fonética.”Toda escrita tem como objetivo permitir a leitura e não transcrever a fala”, diz. “Muitos professores se alarmam e acham que o fim da língua está próximo”, declara Dileta Delmanto, formadora de professores e autora de livros. Outros, no entanto, procuram se adaptar à novidade. Janaína Batista de Lima, do Colégio Abgar Renault, de Belo Horizonte, está nesse grupo. Quando viu, nas provas da turma da 5a série, palavras escritas de forma diferente, como vc, eh e naum (no lugar de você, é e não), não entendeu nada.”Eu não sabia nem de onde vinham as letras agrupadas daquela maneira. Só quando utilizei a internet compreendi essa linguagem.” Os especialistas acreditam que não há problema em discutir o uso desses termos na escola desde que os estudantes reflitam sobre eles e saibam que o local para praticar a nova criação é exclusivamente na internet. Uma dica: esteja sempre aberto às inovações trazidas pelos estudantes sem considerar a escrita errada nem alimentar preconceitos lingüísticos. Idelbrando Mota de Almeida, professor de Ensino Fundamental e Médio no Colégio Estadual Olavo Alves Pinto, em Retirolândia, na Bahia, explica aos alunos o porquê do uso daquela linguagem e conversa com eles por chats ou sites de relacionamento, como o Orkut, mas não abre mão de escrever de acordo com a norma-padrão.

Já Ana Maria Nasser Furtado, da 8a série do Colégio Humboldt, em São Paulo, aderiu ao internetês. Ela realiza debates com a garotada sobre o assunto e alguns acham esquisito que ela escreva como eles.

“Sei que é uma questão de identidade para os jovens”, conta, lembrando-se dos pais que reclamam por não entender o que os filhos digitam. Na verdade, é essa a intenção! O conflito não se dá só entre pais e filhos, mas entre os próprios jovens.

“Quem tem 15 anos se comunica de forma diferente dos irmãos mais novos”, relata Ana. E, com as gerações, muda a língua, que não pára de se recriar.

Entender as mudanças da língua ajuda a… ?  Combater o preconceito. ?  Conhecer as diferenças entre as modalidades oral e escrita.

?  Adequar o uso das variantes lingüísticas de acordo com o contexto.

  • LINHA DO TEMPO
  • História da Língua Portuguesa no Brasil
  • 1500
  • 1530
  • 1538
  • 1580
  • 1700
  • 1759
  • 1808
  • 1850
  • 1922
  • 1950
  • 1980
  • 1990

Os cerca de 5 milhões de indígenas (estimativa), que habitam as terras ocidentais da América do Sul na época da chegada dos portugueses, falam mais de mil línguas, com dois grandes grupos principais: jê (no Brasil Central) e tupi-guarani (no litoral). Com a criação das vilas de São Vicente (1532) e Salvador (1549), se dá a entrada oficial do Português no território. Os colonizadores adotam os idiomas indígenas. Mas depois surgem as línguas gerais – próximas às dos índios -, faladas pelos filhos de portugueses e nativas. Os africanos escravizados trazem sua cultura (a banto e a sudanesa são as principais), também influenciando o Português. Do banto vêm línguas como o quicongo e o quimbundo. Palavras como bagunça, moleque e caçula são desse grupo e que falamos até hoje. A língua geral paulista, de base tupi, é registrada por expedicionários. Os jesuítas e os bandeirantes são responsáveis por difundi-la. Para dizer gafanhotos verdes, fala-se tucuriurie, para esbofetear, eipumpa n sovâ. Ela desaparecerá no século 18. Surge a língua geral amazônica, ou nheengatu, de base tupinambá. Algumas palavras: tapioca, açaí, tipóia. Ela ainda é falada por 8 mil brasileiros. Nasce o dialeto de Minas, mistura do Português com a evé-fon, falada por negros originários da região da Costa da Mina, na África. Os jesuítas, que conheciam o tupi e ensinavam as línguas gerais aos índios, são expulsos. O marquês de Pombal promulga uma lei para impor o uso do Português. No entanto, as três línguas (tupi, africanas e Português) coexistem por muito tempo no território. A chegada da família real portuguesa marca a difusão da língua, com a criação da Biblioteca Real e das escolas de Direito e Medicina. O fim da proibição da existência de gráficas possibilita o surgimento de jornais e revistas e a massificação de uma maneira de falar. Com a chegada de imigrantes e o início da urbanização, há a intensa assimilação do Português popular pelo culto e a incorporação de estrangeirismos. Em vez de “tu és”, fala-se “você é” e “nós fizemos” divide espaço com “a gente fez”. A Semana de Arte Moderna leva o Português informal para as artes. Ao mesmo tempo, os migrantes vão para a cidade e o rádio e as novidades urbanas chegam até o campo. Assim, as variedades lingüísticas passam a se influenciar mutuamente. Com o advento da TV, o americanismo chega ao Brasil e, com ele, novos termos. A criatividade na fala e nas manifestações artísticas movimentam o mundo das palavras. Expressões populares ganham a boca de todos, como “acabar em pizza” e “jogar a toalha”. A Constituição de 1988 garante o direito de índios e negros residentes de antigos quilombos (local onde viviam escravos fugidos) preservarem seu idioma. Atualmente mais de 220 povos indígenas falam cerca de 180 línguas no território brasileiro. A entrada da TV em mais de 90% dos lares acaba com o isolamento lingüístico, mas as comunidade reagem às influências, absorvendo, adaptando ou rejeitando-as, mas sempre mantendo sua identidade. Surgem leis contra o analfabetismo. Nasce o internetês.  Fonte: Museu da Língua Portuguesa

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Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA A Língua de Eulália, Marcos Bagno, 216 págs., Ed. Contexto, tel. (11) 3832-5838, 33 reaisA Língua do Brasil Amanhã e Outros Mistérios, Mário A. Perini, 176 págs., Ed. Parábola, tel. (11) 6914-4932, 15 reais 

A Educação em Língua Materna: A Sociolingüística na Sala de Aula, Stella Maris Bortoni Ricardo, 112 págs., Ed. Parábola, 18 reais 

A Língua Falada no Ensino de Português, Ataliba Teixeira de Castilho, 160 págs., Ed. Contexto, 25 reais.História da Língua Portuguesa, Paul Teyssier, 148 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3266-4603, 31,50 reais Origens do Português Brasileiro, Anthony Julius Naro e Maria Marta Pereira Scherre, 208 págs., Ed. Parábola, 30 reais  Compartilhe este conteúdo:

Grego que fala mais de 30 línguas diz que segredo para aprender idioma é ‘se apaixonar pela cultura’

“Sou muito curioso. Quando tinha três, quatro, cinco anos eu escutava com muita curiosidade os turistas em Creta. Para mim, eles falavam apenas sons sem nenhum sentido. Aos seis, sete anos, eu comecei estudando inglês, como todo menino na Grécia. De repente, aconteceu uma maravilha na minha vida: eu comecei a entender que os sons tinham sentido”, lembra.

“Entendia coisas muito simples, como ‘vamos naquele restaurante’ ou ‘que calor’, mas para mim foi uma revelação. Isso me entusiasmou e quis entender mais e mais”, conta. Realmente empolgado, o menino não parou mais de estudar idiomas.

Um ano depois, de novo de férias em Creta, ele se lançou em seu segundo desafio: alemão. “No começo para mim, era uma língua muito difícil. Meus pais sabiam inglês e podiam me ajudar, mas não sabiam nada de alemão. Não foi fácil, mas outra maravilha aconteceu: consegui entender mais do que diziam os turistas”, constatou.

Como Se Chama Uma Pessoa Que Fala Muitas Linguas?

Poliglota que fala mais de 30 línguas dá dicas para aprender novos idiomas

“Foi a confirmação de que as línguas abrem caminhos para o entendimento entre seres humanos tão diferentes, é uma ponte entre civilizações, culturas, países. Senti que não podia parar e queria aprender mais e mais”.

E quando ele tinha 9 anos foram os amigos italianos dos pais que despertaram a curiosidade para mais uma língua. “Mesmo sem ter professor, eu comprei uma gramática. Durante as férias, ao invés de ir brincar com os outros meninos, eu ficava na nossa casa de férias, perto de Atenas, estudando italiano.”

Os pais, uma professora e um jurista, não se preocupavam com o comportamento recluso do filho. “Eles liam bastante e sempre me incentivavam a estudar línguas, mas sem nunca me pressionar.”

Por volta dos 12 anos, Ιoannis teve contato com a cultura russa pela televisão e estabeleceu um novo desafio: ler os clássicos dos russos Dostoievski e Tolstoi na língua original. Os pais encontraram uma professora russa e pronto:

“Sabia que não era fácil, mas acabei por ler o livro 'Anna Karienina', de 814 páginas. Eu me lembro até hoje desse número. Demorou muitos meses. Hoje seria muito mais fácil, mas foi uma vitória”, afirmou.

Satisfeito com o resultado dos estudos, ele escolheu seu próximo alvo: aprender turco. Rivais históricos dos gregos, os turcos não mantinham escolas de idioma no país. Os seus pais encontraram uma professora para ele durante uma manifestação com refugiados políticos turcos. Mais um idioma para a conta de Ιoannis.

Pouco a pouco, ele foi ampliando a lista.

Além de grego, sua língua materna, e inglês, alemão, italiano, russo e turco, ele fala também: português, francês, árabe, hindi e urdu, hebraico, búlgaro, espanhol, holandês, norueguês, sérvio e croata, finlandês, polonês, sueco, persa, curdo, islandês, romeno, húngaro, tcheco, eslovaco, esloveno, macedônio, amárico (idioma oficial da Etiópia), japonês, lituano e mandarim. Conseguiu contar?

Com tanto talento para o aprendizado de línguas, ele se dedicou aos estudos de linguística em Tessalônica (na Grécia). Depois, seguiu para os Estados Unidos, onde fez um mestrado em sânscrito, na Universidade de Columbia, e estudos de linguística indo-europeia comparativa em Harvard.

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Poliglota afirma que o segredo para aprender uma língua é se apaixonar pela cultura — Foto: Arquivo Pessoal/G1

Poliglota afirma que o segredo para aprender uma língua é se apaixonar pela cultura — Foto: Arquivo Pessoal/G1

Ιoannis deu prosseguimento em seus estudos em Viena, na Áustria, e também expandiu os estudos para várias línguas mortas, como o egípcio antigo, copta, persa antigo, pahlavi e outras línguas antigas iranianas, árabe clássico, grego e latim, eslavo eclesiástico, assírio, babilônico, hitita, gótico, avéstico, pali, turco otomano e armênio clássico.

Como tradutor profissional da Comissão Europeia, atualmente ele traduz para o grego e para o inglês. “Na maioria são documentos da União Europeia, sem poesia. Não tem nada de literatura, que eu adoro, mas faço um tributo à Europa unida, sou internacionalista, europeísta”.

'Transformar vida em literatura'

Ιoannis tem um objetivo nobre nesta busca incessante pelo conhecimento de idiomas.

“Eu quero transformar minha vida em literatura. Não estudo línguas para aprender verbos irregulares, ficar no quarto e no meu computador. Eu aprendo para procurar experiências, aventuras, para enriquecer a vida, me fazer mais humano”, afirma.

E foi neste espírito que o poliglota se lançou, por exemplo, no estudo de português, idioma com o qual ele afirma ter uma “relação de amor” e língua na qual conversou com o G1 (veja no vídeo acima).

“Eu sou um lusófono fanático”, garante. Expressando-se de maneira clara e tropeçando em pouquíssimas palavras, ele passa mesmo essa impressão.

O tradutor começou seu contato com a língua aprendendo português de Portugal e foi se aprimorando nas quatro visitas que fez ao Brasil. A primeira delas aconteceu na década de 90, para o Rio de Janeiro.

“Não sou um turista convencional. Não gosto de ir onde a maioria dos turistas vai. Eu gosto de passear na orla, mas eu entrei também nas favelas, no Cantagalo. Fui a um ensaio da Mangueira. Fiz amizades. Eu me sentia tão feliz no Rio”, afirmou.

“Conheço muitas pessoas que aprendem francês ou russo e vão viajar só para ir a museus, óperas. Para mim, é diferente. No Rio, eu passei dias em uma favela de Duque de Caxias e isso me fez muito mais humano do que se eu tivesse visitado mil museus de arte moderna. Convivi com pessoas muito ricas e muito pobres”.

Para manter o contato com a língua portuguesa, ele se dedica à literatura. “Adoro Jorge Amado. Li quase todos os livros dele. Também vejo muitos filmes brasileiros modernos, porque me dá muita nostalgia de momentos mágicos que eu vivi. Tenho uma relação muito forte, eu me sinto um pouco brasileiro.”

Ιoannis afirma que consegue ter “mais ou menos” o mesmo domínio de todas as línguas. “Mas, às vezes, passo meses sem contato, preciso praticar, viajar para lá. Hoje ficar em contato com as línguas não é tão difícil por causa da internet”.

Manter o entusiasmo: Ιoannis observa que muitas pessoas começam a aprender uma língua com muito entusiasmo, mas depois desistem. Para ele, é preciso “se apaixonar pela cultura”.

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Ιoannis Ikonomou diz que viajar é um estímulo para aprender idiomas, mas que é possível se aperfeiçoar sem sair de casa — Foto: Arquivo Pessoal/G1

Ιoannis Ikonomou diz que viajar é um estímulo para aprender idiomas, mas que é possível se aperfeiçoar sem sair de casa — Foto: Arquivo Pessoal/G1

“Isso é normal, porque entendem que aprender uma língua é absorver um modo de vida do país. A novela que eu assisto na televisão não me ajuda só com a gramática, com o vocabulário, me ajuda a mergulhar na cultura deles. Para aprender, você tem que escutar a música, comer a comida do país”, afirma.

“Só aprender os verbos irregulares vai ser coisa chata, você vai desistir. Se você se apaixona pela cultura você vai progredir e não vai desistir tão facilmente”, garante.

Viajar é um estímulo: Saber que vai visitar um país serve de estímulo para estudar.

“Eu também tenho a sorte de viajar muito. Para cada país que viajo, eu procuro aprender o dialeto deles, o vocabulário próprio para falar como eles. Eu aproveitei 10 dias de folga na Páscoa para visitar Hong Kong.

Eu posso falar mandarim, mas não falo o cantonês. Passei a estudar um pouco, não de maneira muito séria, para poder começar conversações também em cantonês.

Hoje eu posso falar uma espécie de ‘portunhol’, um mandarim à cantonês”, afirmou.

Ambiente multicultural: “Felizmente moro em uma cidade multicultural. Sou casado com um polonês e a maioria dos meus amigos são latinos, americanos, russos, turcos, árabes, espanhóis, italianos, alemães. Falo várias línguas na mesma noite”.

Mesmo sem sair de casa:

Os segredos de quem fala dezenas de idiomas – BBC News Brasil

  • David Robson
  • Da BBC Future

Em uma tarde ensolarada em Berlim, Tim Keeley e Daniel Krasa conversam sem parar. Começam em alemão, mas logo passam ao hindi, ao nepalês, ao polonês, ao croata, ao mandarim e ao tailandês. O papo flui como se não houvesse barreiras entre as línguas. Juntos, os dois são capazes de falar mais de 20 idiomas.

No mesmo endereço, encontro outros indivíduos como eles. Alguns se reúnem em grupos de três e parecem brincar de interpretar duas línguas ao mesmo tempo.

Para mim, tudo isso seria a receita para uma bela dor de cabeça, mas para eles, a situação é bastante comum: estamos todos em Berlim para o Polyglot Gathering, um encontro de cerca de 350 pessoas capazes de falar vários idiomas.

Uma grande parcela dos participantes da reunião é de “hiperglotas”, que, como Keeley e Krasa, dominam pelo menos dez línguas.

Um dos linguistas mais experientes que conheci em Berlim, Richard Simcott, lidera uma equipe de poliglotas em uma empresa chamada eModeration – e sabe falar 30 idiomas.

E eu, com meu inglês nativo, um parco domínio do italiano e um dinamarquês rudimentar, estou aqui para descobrir os segredos desses indivíduos.

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Legenda da foto,

Estudos mostram que o aprendizado de um novo idioma é a melhor 'ginástica mental'

Muitos de nós acreditamos que aprender uma nova língua é um esforço hercúleo. De fato, temos muitos sistemas diferentes de memória, e dominar um idioma requer todos eles.

Há a memória processual, que programa os músculos para os pequenos movimentos capazes de gerar a pronúncia e o sotaque, e a memória declarativa, que é a habilidade de lembrar fatos (ou seja, pelo menos 10 mil novas palavras se você quiser ter uma fluência quase nativa, sem contar a gramática).

Além disso, essas palavras e estruturas têm que estar na ponta da língua – a não ser que você queira soar como um robô. Isso é programado pelas memórias “implícita” e “explícita”.

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Tanto esforço mental tem suas recompensas. Para começar, trata-se da melhor “ginástica” que você pode dar a seu cérebro: vários estudos científicos já mostraram que falar muitos idiomas pode melhorar a atenção e a memória, formando uma “reserva cognitiva” que atrasa o desenvolvimento da demência.

Ao analisar a experiência de imigrantes, Ellen Bialystok, da Universidade York, no Canadá, descobriu que falar dois idiomas chegou a adiar em cinco anos os casos de demência. Os que sabiam três línguas foram diagnosticados 6,4 anos depois de indivíduos monoglotas, enquanto aqueles com fluência em quatro ou mais idiomas ficaram até nove anos sem sofrer da doença.

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Legenda da foto,

'Hiperglotas' em geral são mais abertos a novas culturas e a novas amizades

Mas até pouco tempo atrás, muitos neurocientistas sugeriam que a maioria de nós teria passado do melhor período para obter fluência em um novo idioma, que, segundo eles, seria a infância.

Ainda assim, a pesquisa de Bialystok indica que essa percepção pode ter sido exagerada. Ela descobriu que nossa capacidade de aprendizado apresenta apenas uma suave queda conforme envelhecemos.

Aliás, muitos dos hiperglotas que conheci em Berlim adquiriram o domínio de alguns idiomas em um estágio mais avançado da vida. Keeley, por exemplo, passou a infância na Flórida e só na idade adulta começou a viajar o mundo e aprender outras línguas, chegando hoje a uma fluência em 20 delas.

No entanto, duas perguntas ainda precisam ser feitas: como esses hiperglotas conseguem aprender tantos idiomas? E será que podemos ser como eles?

Bom, é verdade que muitos deles são bem mais motivados do que a maioria de nós; outros também tiveram a vantagem de mudar de um país, aprendendo uma nova língua praticamente na marra.

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Keeley, que está escrevendo um livro sobre os “fatores sociais, psicológicos e afetivos para o aprendizado de vários idiomas”, acredita que não se trata apenas de uma questão de inteligência. “Ter uma habilidade analítica torna o processo mais rápido, mas não é fundamental”, afirma.

Para ele, aprender uma nova língua faz uma pessoa reinventar a percepção que tem de si mesma – e os melhores linguistas são particularmente bons em assumir novas identidades. “Você se torna um camaleão”, diz ele.

Psicólogos há tempos sabem que as palavras que entoamos estão associadas à nossa identidade – cada língua é relacionada a normas culturais que afetam o comportamento de quem as fala. E muitos estudos descobriram que os poliglotas geralmente adotam comportamentos diferentes dependendo do idioma que falam.

Segundo Keeley, resistir ao processo de reinvenção pode atrapalhar o aprendizado.

Hoje professor de administração transcultural na Universidade de Kyushu Sangyo (Japão), ele recentemente fez uma pesquisa com chineses que estavam aprendendo japonês para testar a “permeabilidade” de suas personalidades.

Como suspeitava, as pessoas que mais pontuaram em quesitos como adaptabilidade e percepção dos outros tinham muito mais fluência no novo idioma.

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Como isso acontece? Os cientistas já sabem que quando uma pessoa se identifica com outra, ela tende a imitá-la, um processo que poderia melhorar o aprendizado de uma língua.

Mas a identidade adotada, e as memórias associadas, também podem evitar que você a confunda com seu idioma nativo, construindo barreiras neurais entre as línguas. “Isso mostra que o que conta não é só o tempo que você passa aprendendo ou usando os idiomas. A qualidade desse tempo é fundamental”, explica Keeley.

De todos os poliglotas, o ator americano Michael Levi Harris é quem pode melhor demonstrar esses princípios. Ele fala fluentemente dez idiomas e um conhecimento intermediário de outros 12.

Para Harris, qualquer pessoa pode aprender a adotar uma nova “máscara” cultural, e tentar imitar o som de outras línguas é um primeiro passo. A segunda etapa é não ter vergonha de produzir alguns ruídos “estranhos” que alguns idiomas têm, como os sons guturais do árabe, por exemplo.

“É uma maneira de se apoderar da língua, que é o que nós atores fazemos para convencermos a plateia de que aqueles diálogos são naturais”, explica. “Quando você se apodera do idioma, fala com mais confiança e estabelece uma relação com as outras pessoas”.

Os linguistas também acreditam que praticar um pouco e com frequência ajuda muito no aprendizado – nem que seja por 15 minutos, quatro vezes por dia. “A analogia com o exercício físico funciona muito bem”, diz Alex Rawlings, que criou uma série de oficinas poliglotas para ensinar suas técnicas. E não é preciso ir muito fundo: ouvir uma música ou praticar um diálogo naquela língua já ajuda.

Todos os hiperglotas que conheci são genuinamente entusiasmados com os benefícios que esse talento trouxe a eles – inclusive a chance de fazer amigos e conexões e até transpor barreiras culturais.

Como disse a organizadora do encontro em Berlim, Judith Meyer, ela viu russos conversando com ucranianos e palestinos trocando ideias com israelenses. “Aprender uma nova língua realmente abre a porta para um novo mundo”, define.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.

Mas afinal, o que é ser bilíngue

Contents

  1. Mas afinal, o que é ser bilíngue?

Mas afinal, o que é ser bilíngue?

Pensando na raiz da palavra, pode-se de imediato concluir que ser bilíngue é ter proficiência total em duas línguas, ou seja, fazer uso de duas línguas com a mesma fluência. Contudo, não existe um consenso entre os teóricos acerca de uma definição simples e concisa sobre as aptidões de um sujeito bilíngue.

Habilidade, competência, proficiência e performance são termos usados de forma diversa pelos estudiosos do bilinguismo. Não existe um uso padrão desta terminologia (Swain, 1992). A questão central é, como pode ser visto adiante, que existe uma série de dimensões a serem consideradas quando se pensa em bilinguismo.

Primeiro, coloca-se uma distinção entre competência e uso da língua. Ou seja, a pessoa pode falar duas línguas, mas na verdade só usa uma delas. Ou então, usa regularmente as duas, mas apresentando maior fluência em uma delas. A noção de uso, portanto, está ligada ao significado real da língua para a pessoa.

Segundo, a proficiência em uma língua é considerada sob quatro diferentes aptidões: fala audição, leitura e escrita.

Na maioria das vezes, uma pessoa apresentará maior fluência na escrita e menor na fala, uma melhor leitura e menor compreensão auditiva. Ou então, uma melhor compreensão auditiva e menor leitura.

Ou seja, normalmente existe uma variação em proficiência dentre as quatro aptidões.

Terceiro, poucos bilíngues têm equivalente proficiência nas duas línguas. Uma das línguas tende a ser mais desenvolta do que a outra, tornando-se o que se chama de língua dominante. Mas esta não é necessariamente a língua materna.

A pessoa bilíngue faz uso das línguas por diferentes razões e contextos. Uma língua abre este espaço para a entrada no universo de uma nova cultura, com suas próprias características e particularidades. O modo como se expressa uma idéia, tão somente, já demonstra o modo de pensar daquela cultura.

Usam-se muitas palavras para se expressar uma ideia? Compõe-se uma frase na mesma ordenação de idéias em ambas as línguas? Desta forma, revelam-se as diversidades culturais de diferentes povos.

O universo do sujeito bilíngue amplia-se, portanto é comum que este indivíduo sinta-se mais confortável em falar uma língua em um contexto, e a segunda em um outro.

Por fim, ao longo do tempo, as competências em uma língua podem mudar, devido às circunstâncias de vida do momento, como uma mudança de país. Em se tratando de pessoas, estas estão inseridas em contexto socais, portanto o estudo do bilinguismo tanto social (grupal) quanto individual é produzido em uma realidade viva e a todo momento mutante.

Portanto, a clássica definição de bilinguismo de Bloomfield (1933) (apud Baker, 1996), “o controle que se assemelha a nativo de duas ou mais línguas” (tradução livre), é muito simplista e até vaga. Simplista, já que, como vimos, existe uma série de dimensões a serem consideradas ao pensar-se neste fenômeno vivo que é o bilinguismo.

Vaga, já que o que se quer dizer com controle neste contexto? Acredito que aponte para a proficiência, que por sua vez é considerada sob outras dimensões. Como manter o mesmo “controle” de fala, audição, escrita e leitura em dois idiomas diferentes? Difícil imaginar considerando que algumas pessoas são mais visuais, outras mais auditivas, etc.

São muitos os caminhos para se atingir o bilinguismo, e, como já se pôde notar, é primordial que se observe o contexto no qual o sujeito está inserido. Casa, rua, comunidade, educação infantil, educação fundamental, ensino médio, curso de línguas, etc.

O sujeito insere-se em uma combinação de ambientes: primeiro de tudo, o familiar, mas em seguida, abrindo-se para o social; bairro, escola e comunidade. A segunda língua pode estar inserida em um ou mais destes ambientes, em épocas distintas da vida do aprendiz. Pode aparecer com significado real, legítimo; ou desprovida de contexto real, como é o caso do curso de línguas.

Assim, o percurso de aprendizagem a ser trilhado pelo indivíduo pode ser um dentre muitas escolhas, e inúmeras são as questões envolvidas em cada uma destas.

No caso do bilinguismo na infância, existe uma importante distinção entre duas formas: o bilinguismo simultâneo e o sequencial. O primeiro se dá quando a criança adquire fluência nas duas línguas simultaneamente, ou seja, na fase inicial da vida. O exemplo mais comum desta circunstância é quando a mãe é de uma ascendência e o pai de outra, portanto cada um fala com a criança em uma língua.

Leopold (1939 a 1949) foi o linguista que melhor conduziu o estudo acerca do bilinguismo, ao estudar o caso de sua filha, crescendo numa família bilíngue – bilinguismo simultâneo (inglês e alemão). Analisou o desenvolvimento do vocabulário, sistema de sons, e combinação de palavras e frases.

Nos primeiros dois anos, constatou que Hildegard, sua filha, não separava as duas línguas. O vocabulário de ambas as línguas era geralmente misturado em suas pequenas frases. Foi aos três anos que se observava claramente como se dirigia ao seu pai em alemão, e em inglês à sua mãe.

Algumas palavras de alemão eram ainda usadas nas frases em inglês e vice-versa. Leopold sugeriu, contudo, que a razão da pequena mistura ainda aos três anos das duas línguas, ocorria devido a uma simplificação na produção da língua.

Do ponto de vista da criança, uma comunicação eficiente envolvia uma pequena mistura entre as línguas.

Um aspecto interessante sobre os estudos de Leopold é a sua descoberta da dominância variante das duas línguas. Quando Hildegard mudou-se para a Alemanha, seu alemão ficou mais forte. No entanto, quando voltou aos Estados Unidos e começou a frequentar a escola, o inglês tornou-se dominante.

Na adolescência relutou em falar alemão, e esta língua tornou-se mais fraca. Sua irmã menor entendia alemão , mas falava muito pouco alemão com Leopold. Na infância, era vista como “bilíngue passiva”.

Aos 19 anos visitou a Alemanha e pôde mudar de passiva no alemão para produtora, conseguindo conversar com relativa fluência na língua.

O segundo exemplo de bilinguismo é o sequencial: a criança fala uma língua em casa e aprende outra na escola.

No caso da Puzzle educação infantil bilíngue, a grande maioria das crianças é de família brasileira, portanto fala português em casa e na comunidade onde se insere, e na escola tem um período em inglês e outro em português. Portanto estão inseridos na realidade do bilinguismo sequencial.

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McLaughlin (1984, 1985) coloca uma divisão entre aquisição simultânea e aprendizado sequencial da segunda língua aproximadamente aos 3 anos.

Krashen (1977, 1981, 1982, 1985) distingue o termo adquirir e aprender, vendo o primeiro como uma aprendizagem natural, em contrapartida à maior formalidade da aprendizagem.

Nesta visão, adquire-se a segunda língua até os 3 anos da mesma forma que a primeira, vivenciando-a, enquanto que após os 3 tenha que ocorrer uma maior formalidade na aprendizagem.

Maior formalidade, no entanto, não significa criar situações descontextualizadas de significado, pelo contrário, veremos adiante como é vital que haja significado real nas situações de ensino. Maior formalidade neste caso se refere a situações didáticas planejadas com o objetivo de desenvolver especificamente a oralidade da criança.

Quando a criança adquire a segunda língua até os 3 anos de idade, Swain (1972) denomina esta forma de bilinguismo “bilinguismo  como a primeira língua”, pela natureza totalmente informal deste tipo de aprendizagem, resultando em duas línguas fluentes.

Bibliografia

BAKER, C. Foundations of Bilingual education and bilingualism. Great Britain: Multicultural Matters, 1996.

KRASHEN, S. D. Principles and practice in second language acquisition. Hemel Hempstead: Prentice-Hall International, 1987.

As dez línguas de Portugal

  • É provável que seja uma surpresa para muitos, mas os linguistas não se entendem sobre o que responder à pergunta: «Quantas línguas existem no mundo?»
  • Na cabeça de muitas pessoas, a coisa parece simples: cada país tem uma língua, com uma ou outra excepção que pouco importa, e por isso basta contar os países.
  • A verdade é que as excepções são tantas que o difícil é encontrar um país que siga essa suposta regra.

Por exemplo, na Europa, parece-me que só a Islândia é um país que só fala uma língua, língua essa que é exclusiva desse mesmo país. Tudo o mais são misturas, remendos e falares a cavalgar fronteiras.

Bem: não vamos discutir a questão a fundo, que estamos no fim do ano e há outras coisas em que pensar.

Mas podemos, só para nos despedirmos de 2015 neste blogue, olhar para as línguas de Portugal. É um país que muitos apontam como um exemplo de monolinguismo, em contraste, por exemplo, com Espanha, esse caldo de línguas e nomes de línguas.

A verdade é que, mesmo se usarmos o mais apertado dos critérios para contar línguas, em Portugal temos duas línguas nativas: o português e o mirandês, que é reconhecido oficialmente desde há uns anos.

Ora, mesmo as fronteiras destas duas línguas são difíceis de definir: será que o português e o galego são a mesma língua? Será que o mirandês é apenas uma variedade duma língua maior (o leonês — ou asturiano)?

Perante estas complexidades, podemos optar por ser brutalistas: isso não interessa nada e o que eu digo é que é.

Se formos por aí — como muita gente vai — nem o mirandês interessa. É um dialecto do português, ponto final. Catalão? Manias pós-modernas. Galego? Espanhol um bocado aportuguesado. Basco? Grunhidos que ninguém entende.

  1. Ah, a beleza do mundo visto à bruta…
  2. A quem assim pensa, digo, com um sorriso: «Olhe que não, olhe que não…»
  3. Do lado oposto estão aqueles que encontram línguas debaixo de qualquer pedra.

O Ethnologue, um catálogo de línguas muito interessante, parece estar mais perto destes últimos que do lado dos brutos. E ainda bem — embora às vezes exagerem um pouco.

Senão, vejam bem: o site encontra dez (!) línguas em Portugal! (E nem sequer incluíram o inglês algarvio.)

Sem mais delongas, apresento-vos as 10 línguas do nosso país (que muitos ainda acham ser um país de um só idioma):

  1. Português. Ah, a nossa língua, a última flor do Lácio, nas palavras de Olavo Bilac (não, não estou a falar do cantor — e, já agora, essa de ser a última não é bem assim). Já falámos muito da formosa língua portuguesa neste blogue e, por isso, não vale a pena bater agora nesta tecla. Só duas notas: é oficial há muito tempo (embora não há tanto tempo como se pensa) e há quem lhe chame galego — mas essas provocações ficam para outro dia.
  2. Língua Gestual Portuguesa. Não me venham com os argumentos brutalistas de que isto não é uma língua ou, então, que é português, mas em gestos. Não! É uma língua a sério e nem sequer tem muito a ver com o nosso português oral. Por exemplo, enquanto portugueses e brasileiros se entendem em português (tem dias), os surdos brasileiros usam uma língua gestual muito diferente. Da mesma forma, a língua gestual portuguesa pouco tem a ver com a espanhola — se quisermos entender isto doutra maneira, não se pode dizer que seja uma língua latina. As relações entre as línguas gestuais são outras e cada uma tem um vocabulário, uma gramática e ainda regionalismos e ainda dicionários e normas. Pasmem agora: esta língua é referida pelo nome na nossa constituição (algo que nem o mirandês consegue).
  3. Mirandês, essa língua falada por uns quantos milhares de pessoas ali, num canto do país… Sei que há muitos que não percebem para que serve preservar à força um falar antigo e, segundo eles, inútil, mas, já agora, conto-vos uma história: há uns anos, passou pelas minhas mãos um projecto de tradução de inglês para mirandês pedido por um cliente japonês. O mundo é estranho. E sabiam que podemos ler Pessoa em mirandês?
  4. Cabo-verdiano (ou «kabuverdianu»). Um dos filhos do português (e por isso digo que a nossa língua já não pode ser considerada a última flor do Lácio). No dia-a-dia, chamamos-lhe crioulo (que, no fundo, não é o nome da língua, mas antes o tipo de língua). O cabo-verdiano tem regras como qualquer língua, vocabulário próprio e que já começa a ter alguns dicionários e gramáticas — no entanto, ainda não é oficial em Cabo Verde. Em Portugal, é falado por imigrantes e portugueses de origem cabo-verdiana. (Diz o Ethnologue que o número de falantes em Portugal chega a 200 000 pessoas. Não confirmo nem desminto.)
  5. Barranquenho. Este falar alentejano, ali espetado quase no meio da Andaluzia, até já foi estudado por um grande linguista: José Leite de Vasconcelos. Por isso, respeitinho. Enfim, muitos associam a terra a confusões tauromáquicas, mas, como vemos, é também um município com uma língua própria (não se arrepiem de lhe chamar isso mesmo). Confesso que eu, a fazer esta lista, não incluiria o barranquenho, pelo menos assim à primeira vista. Mas quem sou eu?
  6. Minderico. Esta é uma língua curiosa, falada ali no meio da Serra de Aire e Candeeiros. Começou como código secreto para que comerciantes comunicassem sem que ninguém percebesse. Com o andar dos anos, transformou-se num falar usado por muita gente, em todos os contextos sociais, nessas comunidades serranas. Muitos acharão um excesso para lá do razoável incluir este falar numa lista de línguas. Mas noto que está no Ethnologue e que até tem um código ISO próprio.
  7. Caló português. Esta é a língua de muitos ciganos, que terá uma base portuguesa e muito vocabulário proveniente do romani. Segundo o Ethnologue, é falada por umas 5000 pessoas, em Portugal, e está relacionada intimamente com o caló espanhol, o caló brasileiro, o caló catalão, e por aí fora.
  8. Romani. Esta é a língua indo-iraniana de muitos ciganos europeus. Se a maior parte dos ciganos portugueses falarão em caló (quando não estão a falar em português, claro está), diz o Ethnologue que há umas 500 pessoas a falar romani em Portugal. Ou seja: temos portugueses que falam uma língua aparentada com o persa. Curioso, não é?
  9. Galego. Prova de que a divisão entre o galego e o português tem muito que se lhe diga, o Ethnologue acha que há zonas de Portugal, ali encostadas à fronteira, que falam galego. Não sei o que lhes diga, embora compreenda a indecisão: a fronteira linguística entre Portugal e a Galiza é muito porosa. Muito mais do que alguns portugueses imaginam. Olhando para o mapa do site (acima), parece que o português transmontano é considerado galego, sem mais. Não sei se será prudente dizer isto a algum falante do galego transmontano, mas tudo bem.
  10. Asturiano. Da mesma forma, também não sei por que razão o Ethnologue põe o asturiano como língua de Portugal. Afinal, o asturiano tem um nome próprio por estas bandas: é o mirandês e ninguém se chateia com isso. Será que consideram um dos dialectos do mirandês como «mirandês padrão» e outro — talvez o sendinense? — como asturiano? Sim, meus caros: o mirandês tem vários dialectos. E esta, hein?

Há línguas piores do que outras?

Olhando para a lista acima, que diferença entre as primeiras e as últimas, não é?

O português é uma língua internacional, oficial em vários países e plasmada em séculos de literatura e de codificação em gramáticas e dicionários. Já o português gestual é uma língua reconhecida pela constituição.

Descemos a lista e temos o romani, uma língua falada por poucas centenas de nómadas, e o sendinense, um dialecto de uma língua que muitos acham ser ela própria um dialecto.

Mas, ao contrário do que pensam algumas pessoas, tanto as primeiras como as últimas podem ser considerados línguas completas e podem expressar todas as experiências do ser humano.

A diferença de valor entre todas estas línguas não está na qualidade intrínseca do próprio idioma, mas no prestígio, no reconhecimento oficial e no seu uso. Claro que a falta do uso leva a um vocabulário mais pobre, mas isso resolve-se rapidamente.

A estrutura da língua em si, essa, não limita ninguém e pode ser tão complexa e rica no português como no romani — ou no sendinense.

Da mesma forma, podemos falar de forma atrapalhada, obscura e cheia de hesitações em português ou em minderico — e podemos ser claros e directos em qualquer uma destas línguas.

Não quer isto dizer que seja igual aprender sendinense ou aprender português: se eu dissesse tal coisa, seria bom que me dessem uma martelada na cabeça (com um martelo do S. João, para não aleijar).

O que digo é só isto: o valor de cada língua vem do uso social dessa língua, do número de falantes com quem podemos conversar, dos livros que podemos ler, da relação emocional que estabelecemos com essa língua (já vimos por este blogue que a língua também é forma de marcar a identidade) — e por aí fora. O valor da língua não está nas características dessa língua.

Digo isto porque há quem julgue haver línguas mais limitadas, diria mesmo defeituosas, que não permitem expressar tudo o que uma pessoa pode querer expressar. Ora, isso é um mito: os limites de quem fala e escreve estão na experiência, no talento e na memória de cada pessoa e não na língua que fala.

Tudo para vos dizer que todas estas línguas podiam, quisesse o acaso e a história do mundo, transformar-se em grandes línguas internacionais e de cultura. Não é impossível que o minderico venha a ser a grande língua de comunicação do mundo inteiro daqui a uns 300 anos. É mais improvável do que eu ganhar o Euromilhões cem vezes seguidas, mas não é impossível.

Reparem: o inglês, a língua de maior prestígio a nível mundial, passou por séculos em que era desprezado por qualquer pessoa que quisesse ser alguém na vida — os nobres falam francês normando e essa era a língua de valor.

Também o português, como temos visto, já foi um falar rústico duma região remota.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

Não basta olhar para uma língua para saber o que o futuro lhe reserva. Não há línguas melhores ou piores: há, sim, línguas com mais ou menos sorte — ou com falantes mais ou menos teimosos.

Uma versão revista deste artigo foi publicada no livro Doze Segredos da Língua Portuguesa.

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