Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo?

É quando a cidade começa a adormecer que este centro ganha vida. Por volta das dez horas, o parque de estacionamento, até aí silencioso, acorda com estrondo, com os rugidos dos camiões que são barulho inconfundível numa cidade cheia de ruído.

A partir daí, a espertina, com ou sem café, é fundamental. Por mais obstáculos que pareça haver numa rua, nenhum caixote fica por recolher.

“Pode lá ir meter um dedo”, ri-se José Castiço, motorista de um camião de lixo há 26 anos, garantindo que o seu veículo pode rasar os outros automóveis mas não bate de certeza.

Não se julgue José Castiço por uma só frase, nem sequer pelo típico “são muitos anos disto”, que atira depois, com um risinho pequeno meio encoberto pelo bigode.

Conseguir enfiar o camião em ruas onde parecia impossível e fazer manobras em marcha-atrás como quem conduz um carro telecomandado é o seu dia-a-dia, mas uma ponta de orgulho não consegue evitar. Marília, uma das cantoneiras que hoje o acompanha, corta-lhe as manias.

Diz Castiço: “o camião tem muita manha”. Diz Marília: “Mais manhoso que o camião é ele”. E solta a primeira risada da noite.

Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo? É do Centro de Recolha de Resíduos dos Olivais que saem todos os camiões para a recolha do lixo em Lisboa

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A princípio, Marília é como os colegas: poucas falas, cara desconfiada, concentrada apenas em despejar saco atrás de saco, caixote atrás de caixote. É assim a sua vida há mais de cinco mil noites.

Chegou à recolha de lixo em 1999, ganhou o gosto por trabalhar à noite e nunca mais se foi embora. “Já tive hipótese de mudar e não o fiz. Neste momento, não mudava [de emprego].

Não vejo mais nada que pudesse fazer”, diz, tranquila, a mulher de 49 anos que se despediu de uma firma de limpezas para vir apanhar o lixo dos outros.

Há anos, quando aterrou no posto de limpeza dos Olivais, mulheres eram raras. O balneário feminino tinha sido acabado de construir – uma sorte, porque muitos postos ainda só tinham valência masculina. “No período noturno havia poucas mulheres, no diurno é que havia mais”, relembra. Hoje, à noite, contam-se quatro trabalhadoras entre o grupo de 23 cantoneiros dos Olivais.

Andreia Reisinho Costa

A acompanhar Marília na volta está Paulo, cantoneiro barbudo de gorro que também não parece ter grande disposição para conversas até que o motorista se torna o tema. Depois, também um sorriso se lhe rasga na cara. E há muitos motivos para sorrir nesta profissão? Paulo afiança que sim.

“Tenho um filho com 10 meses e uma enteada com sete anos”, começa a contar. Quando não está a dormir ou a trabalhar, é com eles que gosta de estar. “O meu tempo é passado com a minha família. O tempo que não estou em casa, estou a trabalhar. E a vida não está para grandes voltas.

Tenho um filho com 10 meses, quero acompanhar a sua infância”, diz.

Enquanto rabuscam o bairro da Encarnação, onde a cada dez metros o camião é obrigado a parar para recolher sacos de embalagens de plástico, Paulo e Marília vão passando em revista as dificuldades e desafios impostos pelo trabalho. Para Marília, o pior é a chuva. “No Inverno custa muito, com a chuva custa mesmo.

Nessa altura é que há vontade de ir para casa, mas não pode ser”. A Paulo, o que mais o aflige é o desgaste físico e psicológico. Trabalhar à noite “afeta o raciocínio”, comenta, enquanto se tenta lembrar do seu número de telemóvel. Mas não é só a memória que sofre.

“Todos os meses tenho de tomar uma caixa de vitaminas” para fazer frente à perda de peso e aos germes com que contacta todos os dias.

Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo? Paulo anda a recolher lixo há quase cinco anos

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A época natalícia pode ser significado de embrulhos, de grandes almoços, enfim, de lixo. Mas isso não se reflete necessariamente na recolha.

Os dados da Câmara Municipal de Lisboa revelam que há um aumento no volume de lixo produzido, mas não é significativo, até porque muitas famílias saem da cidade.

E, no caso específico de 2013, o volume de resíduos recolhido foi metade do que é norma, devido à greve que os cantoneiros fizeram em protesto contra a reorganização administrativa promovida pela autarquia e que implicou a passagem de muitos trabalhadores para as juntas de freguesia.

Quando, na manhã de Natal e na manhã de Ano Novo, as pessoas saem de casa e encontram os caixotes de lixo (quase) vazios e as ruas varridas, é a estes homens e mulheres que se deve. Fantasmas na vida da cidade, o trabalho dos cantoneiros começa quando a diversão dos outros acaba, quando Lisboa já dorme.

Andreia Reisinho Costa

São fantasmas de carne e osso, sujeitos portanto às vicissitudes da condição humana. E sujeitos igualmente aos maus-tratos daqueles que desvalorizam este trabalho ou que, simplesmente, encontram prazer em não os deixar trabalhar.

“Muitas vezes é complicado, lidamos com pessoas que começam a mandar vir, querem improvisar, temos de saber dar a volta à situação”, afirma Celestino numa rua do bairro da Picheleira, onde já houve problemas com algumas pessoas. Paulo, por exemplo, em cinco anos de serviço tem alguns episódios na memória que preferia não lembrar.

“Vamos aos bairros sociais, atingem-nos com objetos que têm á em casa, ameaçam-nos fisicamente. Vamos aos bairros históricos, [há gente a] chamar nomes, mandar garrafas do que estão a beber…”.

A indisciplina das pessoas resolve-se através de várias estratégias. Não muito longe da zona onde Florêncio e Celestino fazem a ronda, algumas ruas passaram a ser percorridas no período diurno propositadamente, para evitar encontros indesejados. Apanhando os moradores a dormir, é logo às seis da manhã que os cantoneiros se deslocam a algumas áreas.

Andreia Reisinho Costa

Outro problema de indisciplina cidadã parece de resolução mais difícil. Em Lisboa, não são raras as paisagens de contentores completamente rodeados de lixo. Uma situação que a câmara municipal quer tratar com a criação de coimas, a partir de janeiro, que podem ascender aos 727 euros.

Os cartazes de alerta já estão espalhados pelos contentores e ecopontos de toda a cidade, falta haver fiscalização eficaz. Segundo os cantoneiros que o Observador acompanhou, a própria autarquia já fiscaliza as situações de abuso e até apanha “muita gente”.

Às vezes, através da montagem do puzzle de cartas rasgadas onde se lê o nome do prevaricador.

Ex-gari conta as dificuldades e alegrias da profissão, em Porto Velho

Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo?Leonardo é motorista de caminhão de lixo em Porto Velho (Foto: Ivanete Damasceno/G1)

“Não é fácil ser gari. O corpo reclama. O lixo machuca. Muita gente tem preconceito, mas reclama quando o lixo não é recolhido”, garante Leonardo Dias Paiva, de 28 anos, motorista na empresa de coleta de lixo, em Porto Velho onde, em média, são recolhidas 360 toneladas de lixo domiciliar todos os dias. Para ele, recolher lixo traz grandes aprendizados, tem momentos de alegrias e algumas dificuldades. “Lixo tem histórias”, afirma.

Leonardo faz parte da equipe de cerca de 110 garis, que trabalham nos períodos diurno e noturno, nas 38 rotas de coleta de lixo domiciliar na capital de Rondônia. Ele conta que começou na empresa como gari e elevou o cargo há três anos. Como gari, ficou por quatro anos.

“O primeiro mês [como gari] foi muito difícil. Você precisa correr, pegar peso, se segurar no caminhão pra não cair. A adaptação é difícil”, diz Leonardo que lembra já ter se ferido com lixo. “Cortei-me com vidro, furei em agulhas. Já torci o pé ao pular do caminhão e também já caí do caminhão. Mas eu gosto do que faço e me sinto feliz”, diz Leonardo.

Ao assumir a função de motorista, Leonardo também ficou responsável pelos três garis que formam a equipe de coleta de lixo em cada caminhão.

Ele diz que precisa ficar atento para evitar que seus companheiros de trabalho se machuquem. “Começamos a fazer a rota do [bairro] Agenor de Carvalho e em uma das ruas quase todos os garis caíram.

Tinha um buraco enorme assim que entrei na rua e como estava escuro não vi”, conta.

Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo?Garis formam a equipe no caminhão dirigido por Leonardo (Foto: Ivanete Damasceno/G1)

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Dificuldades Durante a noite os garis dizem que há muitas dificuldades para recolher o lixo de Porto Velho. São ruas escuras, que escondem buracos nas vias, cachorros que tentam rasgar os sacos de lixo, lixeiras colocadas em locais inapropriados.

Há cerca de um mês, Leonardo conta que um dos garis foi perseguido por um homem embriagado na rua. “Fui fazer o retorno do caminhão em uma rua muito estreita quando um homem passou de carro dizendo que um bêbado estava correndo atrás do gari, com um pedaço de pau. Tivemos que nos unir pra espantar o cara”, lembra o motorista.

Com todas as dificuldades da profissão, Leonardo diz que se sente feliz onde trabalha. “Não tenho pretensão de procurar outro emprego. Pra mim aqui está bom”, frisa o motorista. Leonardo tem o salário base mensal de R$ 1.225,22, além de adicional de insalubridade e horas extras.

O homem que cresceu no lixo e fez dele seu meio de vida – BBC News Brasil

  • Roberta Soares
  • Do Recife para a BBC Brasil

Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo?

Crédito, Heudes Regis

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O pernambucano Carlos André dos Santos aprendeu a sobreviver do lixo e criou cooperativa que ajuda centenas de pessoas

A história de Carlos André dos Santos se confunde com o lixo. Aquilo que ninguém quer se tornou, ainda na infância, esperança na vida do pernambucano de 38 anos.

Carlos aprendeu a viver – e sobreviver – no antigo lixão da Mirueira, atualmente desativado e por muito tempo um dos maiores e mais violentos da região metropolitana do Recife.

Nesse local, na cidade de Paulista, ele passou de catador de lixo a personagem de uma história de transformações. Hoje, comanda uma cooperativa de catadores e trabalha para que o antigo lixão vire sede da primeira usina de resíduos sólidos do Norte/Nordeste.

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No começo, o depósito de lixo era um meio de fuga dos maus tratos sofridos em casa. Ficava por lá o máximo de tempo possível. Dormia onde e como desse. Misturava-se às famílias que viviam na área, em condições degradantes.

Aos sete anos, a mãe biológica o abandonou. Entregou o garoto a uma vizinha. Como muitos naquela comunidade, Carlos nunca conheceu o pai.

“Minha mãe se apaixonou por um homem que batia em mim e em minha irmã. Foi numa surra violenta, com cipó de goiaba, que minha irmã de cinco anos morreu. Ela tinha problemas no coração e não suportou. Mesmo assim, minha mãe ficou com o padrasto e me deu para a vizinha, indo embora”, conta.

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Cooperativa criada por André hoje emprega 16 famílias e encaminha recicladores para trabalhar em empresa de coleta de lixo

Carlos André relembra que as coisas só pioraram a partir daí. No lugar de afeto, mais humilhação e violência. A “nova mãe” era ainda mais violenta.

“Passei a apanhar mais e mais, por qualquer coisa. Foi quando me enfiei no lixão. Muita gente tirava sustento de lá. Se não fugisse, iria morrer de apanhar, como minha irmã”, afirma.

A violência contra o menino era tanta que os próprios parentes da mulher decidiram tirá-lo dela. Carlos foi “adotado” pelo irmão da vizinha e sua mulher, morta no ano passado e tida como mãe verdadeira por Carlos.

“Eles tinham sete filhos e eram muito pobres, mas me acolheram. Ela foi muito boa para mim. Por isso fui para o lixão. Acordava às 4h e ia catar recicláveis nas montanhas de lixo. Às 11h voltava, tomava banho e ia para a escola. Sabia que só teria futuro assim”, relata.

Na escola, mesmo entre crianças humildes, Carlos André era motivo de chacota. Era o “catador de lixo”. “Além das condições desumanas, todos os dias morria alguém no lixão, por brigas entre pessoas que viviam lá ou desova de corpos. Havia muito tráfico de drogas. Era muito perigoso, mas era o emprego que possuía”, relembra.

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Carlos André foi vítima de violência em casa na infância e era visto como o 'catador de lixo' na escola

O catador evitou as brigas e conseguiu fugir das drogas que circulavam no lixão – cola, maconha e cachaça. Começou a estudar com dez anos e parou aos 14, na 4ª série. O primeiro registro de nascimento só veio aos 16 anos.

“Minha faculdade foi a vida. Aos 18 anos continuava no lixão, mas aos 25 anos entendi que precisava mudar aquela realidade. Por coincidência, um futuro prefeito de Paulista à época e a mulher dele, deputada estadual, começaram a propor uma mudança no lixão, acabando com aquele lugar e criando uma cooperativa. Foi quando minha luta começou para valer.”

Carlos André diz que ia a pé do lixão até a Assembleia Legislativa de Pernambuco, no centro do Recife – mais de 15 quilômetros, sem dinheiro para uma água. Tinha que acompanhar as discussões para desativar o lixão e garantir a criação da cooperativa. Temia que fechassem o local e colocassem as pessoas para fora, sem nenhuma assistência.

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“Valeu a pena. Em 2006, criamos uma associação de recicladores e, em 2010, ela virou cooperativa. Tínhamos 350 associados e consegui salvar muitos amigos da vida errada”, diz.

O lixão da Mirueira deixou de existir em 2009, e a prefeitura empregou boa parte das famílias na coleta de lixo.

Foi quando a cooperativa começou a ganhar força com o trabalho de coleta para reciclagem de plástico, papel e outros tipos de materiais.

Os trabalhadores da cooperativa agora não lidam mais com o lixo comum. Apenas o reciclável, coletado de diversas empresas privadas da região metropolitana do Recife.

O estigma por lidar com o lixo ainda existe, mas como os trabalhadores da cooperativa só tratam com resíduos sólidos (material reciclável). Eles não têm mais contato com os rejeitos e, por isso, os riscos de contaminação são bem menores.

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Cooperativa criada por catador recolhe uma média de 400 toneladas de material reciclável por mês

A cooperativa cresceu e atualmente recolhe, em média, 400 toneladas de material reciclável por mês. É uma das maiores do Grande Recife.

Carlos acorda todos os dias às 4h e organiza as funções de cada associado. A partir das 7h, todos estão a postos para o trabalho. O presidente da cooperativa define quem irá fazer a coleta, o carregamento e o descarregamento do material recolhido nas empresas parceiras.

A Coorjopa fechou parceria com várias empresas, que fazem coleta seletiva em suas instalações e repassam o material, gratuitamente, à entidade. Os associados tiram um salário mínimo por mês. Em 2015, antes de a crise econômica apertar, o salário chegava a R$ 1.300.

Carlos procurou compensar a falta de estudo formal com cursos técnicos na área de sustentabilidade. Fez quase 30 deles – quem conversa com o presidente da Coorjopa (Cooperativa de Catadores de Material Recicável João Paulino) percebe que domina o assunto.

Hoje, ele vive na cooperativa, no terreno do antigo lixão. Construiu uma casa e, de lá, vigia todo o material recolhido. Tem até um circuito de TV no único quarto do imóvel, para monitorar o material que eles recolhem nas empresas e armazenam na cooperativa.

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Associados de cooperativa conseguem receber um salário mínimo por mês

A simplicidade e a vida modesta continuam. Seu ideal de um dia livre é passar pescando, mas acaba usando as folgas para consertar caminhões da cooperativa – adora mecânica.

Pai de três filhos – Aécio, 11, Herik, 13 e Emmilly, 14, todos matriculados em escolas públicas de Paulista -, Carlos se diz admirador dos empresários Antônio Ermírio de Moraes (1928-2014), fundador do grupo Votorantim, e Abílio Diniz, do grupo Pão de Açúcar. “São grandes empreendedores, que construíram fortunas com o trabalho.”

Ele reconhece a “turbulência econômica grande” no Brasil, mas se diz otimista. “Tenho esperança de que tudo vai melhorar.”

O que alimenta esse sentimento é o futuro que espera o antigo lixão, em fase final de obras para abrigar a primeira usina de resíduos sólidos do Norte e Nordeste – o projeto recebeu R$ 34 milhões de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

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Criador de cooperativa cria os três filhos – Aécio, Herik e Emmily – com recursos oriundos do lixo e da reciclagem

“Com ela, nossa vida irá mudar porque o número de empregos esperado é alto (quase 500 após a conclusão). A cooperativa também deverá ganhar sede administrativa, relocação do galpão de reciclagem e uma balança para pesagem de caminhões. Ou seja, tudo vai ficar melhor”, aposta.

Quem recebeu ajuda de Carlos reconhece o esforço. “Minha vida mudou graças a ele. Hoje tiro meu sustento do meu trabalho, crio meu filho, estou perto de casa e com perspectiva de melhorar”, diz Leandro João da Silva, de 23 anos, um dos cooperados.

Para a dona de casa Elizabeth Maria da Silva, 61 anos, ex-moradora do lixão, o menino que vivia no lixão “tinha tudo para dar errado”. “Mas conseguiu virar homem e traçar seu rumo. Hoje é um homem bom, que ajudou muita gente. Graças a Deus.”

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Elizabete Maria da Silva chegou a cuidar de Carlos André e hoje comemora a trajetória do garoto que 'tinha tudo para dar errado'

Lixo – História

 Como Se Chama Os Homens Que Recolhem O Lixo?

                        História do Lixo                         Linhas gerais  

No início dos tempos, os primeiros homens eram nômades. Moravam em cavernas, sobreviviam da caça e pesca, vestiam-se de peles e formavam uma população minoritária sobre a terra. Quando a comida começava a ficar escassa, eles se mudavam para outra região e os seus “lixos”, deixados sobre o meio ambiente, eram logo decompostos pela ação do tempo.

À medida em que foi “civilizando-se” o homem passou a produzir peças para promover seu conforto: vasilhames de cerâmica, instrumentos para o plantio, roupas mais apropriadas.

Começou também a desenvolver hábitos como construção de moradias, criação de animais, cultivo de alimentos, além de se fixar  de forma permanente em um local.

A produção de lixo consequentemente foi aumentando, mas ainda não havia se constituído em um problema mundial.

Naturalmente, esse desenvolvimento foi se acentuando com o passar dos anos.

A população humana foi aumentando e, com o advento da revolução industrial – que possibilitou um salto na produção em série de bens de consumo – a problemática da geração e descarte de lixo teve um grande impulso. Porém, esse fato não causou nenhuma preocupação maior: o que estava em alta era o desenvolvimento e não suas conseqüências.

Entretanto, a partir da segunda metade do século XX iniciou-se uma reviravolta. A humanidade passou a preocupar-se com o planeta onde vive.

Mas não foi por acaso: fatos como o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global da Terra despertaram a população mundial sobre o que estava acontecendo com o meio ambiente.

Nesse “despertar”, a questão da geração e destinação final do lixo foi percebida mas, infelizmente, até hoje não vem sendo encarada com a urgência necessária.

“O lado trágico dessa história é que o lixo é um indicador curioso de desenvolvimento de uma nação. Quanto mais pujante for a economia, mais sujeira o país irá produzir. Ë o sinal de que o país está crescendo, de que as pessoas estão consumindo mais.

O problema está ganhando uma dimensão perigosa por causa da mudança no perfil do lixo. Na metade do século, a composição do lixo era predominantemente de matéria orgânica, de restos de comida.

Com o avanço da tecnologia, materiais como plásticos, isopores, pilhas, baterias de celular e lâmpadas são presença cada vez mais constante na coleta. Há cinqüenta anos, os bebes utilizavam fraldas de pano, que não eram jogadas fora. Tomavam sopa feita em casa e bebiam leite mantido em garrafas reutilizáveis.

Hoje, os bebês usam fralda descartáveis, tomam sopa em potinhos que são jogados fora e bebem leite embalado em tetrapak. Ao final de uma semana de vida, o lixo que eles produzem equivale, em volume, a quatro vezes o seu tamanho.

Um dos maiores problemas do lixo é que grande parte das pessoas pensa que basta jogar o lixo na lata e o problema da sujeira vai estar resolvido. Nada disso. O problema só começa aí. “(*)

    (*) Revista Veja, 17 mar 1999

A rotina nocturna dos cantoneiros

CRISTIANO PEREIRA

09 Dezembro 2008 às 00:00

Limpar o lixo dos outros é um trabalho pouco ou nada agradável. Seis noites por semana, os cantoneiros de Lisboa saem à rua para recolher os sacos e os contentores. Trabalham até quase o Sol nascer. E ganham 550 euros.

No Posto de Limpeza de Santa Clara, ali a escassos metros do Panteão Nacional, parece haver rigor: às 23 horas em ponto, duas dezenas de cantoneiros já devidamente fardados respondem à chamada de um dos responsáveis e, sem demoras, distribuem-se pelos camiões que irão percorrer, até altas horas da madrugada, artérias de nove freguesias lisboetas.

O JN segue o camião mais pequeno de todos, o único que consegue serpentear as ruas estreitas da zona do Castelo de São Jorge e de Alfama. Faz cerca de 48 quilómetros em cada noite. E, mesmo assim, há muitas ruas, travessas e becos sem qualquer tipo de acesso para o veículo.

Como tal, a equipa divide–se em dois e um dos grupos faz aquilo que na gíria dos cantoneiros se chama “a arrastada”: trata-se de percorrer essas ruas a pé e ir recolhendo todos os sacos e contentores (de 140 litros) para os concentrar num ponto onde haja acesso ao camião que segue lá atrás, em passo lento.

“Repare que eles evitam sempre encostar o saco ao corpo”, alerta-nos Alberto Santos, o responsável pela equipa. E porquê? Por causa daquele que é o maior receio de qualquer cantoneiro: ser acidentalmente picado por um seringa usada. “Esse é o meu medo”, confessa-nos José Rocha Silva, 46 anos, 12 neste tipo de labuta.

“Houve uma fase que havia mais”, aponta Alberto Santos, explicando que os vidros partidos que lamentavelmente as pessoas colocam nos sacos do lixo têm sido um problema mais comum e que não raras vezes provocam ferimentos.

Todavia, e desde que foram colocados ecopontos em Alfama, a tendência é para cada vez menos aparecerem vidros escondidos nos sacos negros distribuídos gratuitamente pela Autarquia.

As pessoas parecem colocar nos sacos tudo e mais alguma coisa. Com uma dúzia de anos a recolher lixo, José Rocha Silva já viu um pouco de tudo, mas prefere não especificar.

Encolhe os ombros e simplifica a questão: “É tudo lixo”. Mas recorda-se de uma noite afortunada em que o acaso o levou a encontrar uma nota de 10 euros.

Não foi grande quantia, é certo, mas foi bem-vinda, tendo em conta a remuneração que cada cantoneiro aufere.

Existe o mito de que “os lixeiros fazem um trabalho chato, mas ganham muito bem”. Ora, a julgar pelo que dizem ao JN, não é bem assim: um cantoneiro que trabalhe seis noites por semana, das 23 horas às 6 horas, ganha a módica quantia de… 550 euros. E isto para quem passa as noites a mexer em detritos, sacos cheios sabe-se lá de quê, muitas vezes ao vento, ao frio e à chuva.

Não obstante, uma fonte dos Serviços de Higiene Urbana disse, ao JN, que de cada vez que abrem concurso de vagas para cantoneiros, o número de candidatos é sempre muito maior do que as vagas para preencher.

Não falta também quem pense que os cantoneiros são o segundo emprego de muita gente, uma forma de amealhar um segundo ordenado. Casos desses existem certamente, mas tal não se confirmou nas abordagens que o JN fez.

No entanto, Alberto Santos salvaguarda que “nós não sabemos o que as pessoas fazem durante o dia porque isso é a vida delas”.

O responsável lembra-se, todavia, de casos como o de um cantoneiro que actualmente divide os seus dias entre a recolha de lixo e o curso de contabilidade na Universidade.

O trabalho duro e desvalorizado dos “homens do lixo”

Poucos valorizam um trabalho que, na opinião de quem o desempenha, é “desgastante”, “duro” e “invisível”, mas que “faz falta”, desabafa Sérgio Cabrita

A profissão de cantoneiro de limpeza – ou “lixeiro” – foi sempre uma das mais subvalorizadas pela sociedade. Além de passar despercebida aos olhos da maior parte da população, esta é uma das atividades mais atingidas por acidentes de trabalho na região. Entre os riscos que correm diariamente contam-se lesões, cortes, doenças, infeções e até atropelamentos, sem esquecer que trabalham à noite e ao frio. No Algarve, homens como Sérgio vão pendurados num camião, de porta em porta, de contentor em contentor, para recolher o lixo dos outros. É o preço que alguém tem de pagar para limpar a região e manter a vida a correr…

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O Algarve é hoje um dos destinos turísticos mais procurados por turistas de todo o mundo devido ao seu potencial natural, das praias às serras, passando igualmente pelas aldeias, vilas e cidades. E isso também se deve, em grande parte, ao trabalho “invisível” de quem está a recolher o lixo e a proteger o meio ambiente.

“Os cantoneiros trabalham todos os dias faça frio, chuva, vento ou calor. Andamos sempre em contrarrelógio para cumprir o serviço, em ritmo acelerado de trabalho, em turnos noturnos e prolongados. E os perigos são muitos”, desabafa Sérgio Cabrita ao JORNAL DO ALGARVE.

Todas as noites, o ritual deste cantoneiro de 45 anos e mais 60 colegas cantoneiros de Silves é o mesmo.

Chegam às instalações do parque de viaturas municipais um pouco antes das 4h00, marcam o ponto, vestem as fardas e saem no rasto do camião do lixo para fazerem a ronda.

São seis horas pendurado em cima de um “pernil” do camião do lixo, a esvaziar e carregar contentores pesados, de um lado para o outro. “No verão, chegamos a trabalhar assim sem folgas.” E o salário base que levam para casa é 580 euros.

A profissão mais perigosa

Como se não bastasse, para além da dureza e do desgaste, a profissão de cantoneiro de limpeza também é uma das mais perigosas.

À primeira vista, a maioria das pessoas diria que a atividade dos polícias e dos bombeiros é mais arriscada, porque colocam a vida em perigo, precisam de uma boa preparação física e coragem para enfrentar os desafios impostos pela sua profissão.

No entanto, apesar de passar despercebida à maioria da população, a região também não conseguia (sobre)viver sem os cantoneiros.

  • “Nós corremos diariamente vários riscos, desde lesões e cortes, à exposição a materiais e substâncias contaminadas, doenças e infeções, passando pelo stress, ruído, calor, frio e humidade, não esquecendo o risco de atropelamento e esmagamento, além de outros ferimentos”, refere Sérgio Cabrita. E no Algarve já aconteceu tudo isto…
  • (REPORTAGEM COMPLETA NA ÚLTIMA EDIÇÃO DO JORNAL DO ALGARVE – NAS BANCAS A PARTIR DE 15 DE FEVEREIRO)
  • Nuno Couto|Jornal do Algarve

Os caminhos do lixo

O lixo faz parte do nosso dia-a-dia. É uma realidade de proporção mundial. Contudo, apesar de a mídia conferir bastante destaque ao tema, quase não se comenta sobre a destinação dada a ele. Por isso, resolvi abordar esse assunto de forma didática, ainda que resumidamente.

Desde a pré-história, quando os homens viviam em cavernas, pequenos acampamentos ou aldeias, o lixo já era um problema. Atualmente, ele não é mais formado apenas por restos de alimentos e outras matérias naturais. Muito do que se joga fora é feito de material poluente ou que não se decompõe facilmente. Em cada caso, é preciso muita tecnologia para tratar o lixo de forma correta.

Diariamente, uma grande quantidade de lixo decorrente das atividades domésticas, comerciais, industriais e dos serviços de saúde é produzida nos centros urbanos.

Às sobras e aos restos de materiais que constituem esse lixo, soma-se aquele proveniente da varrição pública.

Portanto, dar tratamento e destinação adequada às milhares de toneladas coletadas é uma tarefa árdua que requer planejamento, aplicação de tecnologias avançadas, controle e fiscalização constantes.

A exemplo de nossas residências, as cidades precisam estar limpas todos os dias. Esse serviço é chamado de limpeza urbana e, com a ajuda de um verdadeiro exército, o trabalho inicia-se pela coleta, passando pelo tratamento e terminando no lugar apropriado onde o lixo deve ser depositado.

O lixo é dividido em tipos e cada um deles precisa de tratamento especial

Chamamos de lixo tudo aquilo que não aproveitamos, seja em casa, no comércio, nas indústrias ou nos hospitais. E, ainda, aquilo que vem da natureza, como folhas, areia, terra e galhos.

De acordo com a sua origem e com os riscos que pode causar à saúde e ao meio ambiente, o lixo é dividido em resíduos urbanos e resíduos especiais. Os primeiros vêm das nossas casas, da varrição das ruas e do comércio, recebendo também o nome de lixo doméstico. É formado por restos de alimentos, papéis, vidros, folhas, trapos, madeiras, latas e tudo o que jogamos fora.

Por sua vez, os resíduos especiais são aqueles gerados nas indústrias, hospitais, clínicas e nos demais serviços de saúde.

Como esse tipo de lixo coloca em risco a saúde das pessoas e o meio ambiente, precisa de cuidados especiais ao ser recolhido, transportado, incinerado e depositado, já em cinzas, nos aterros sanitários.

Esses resíduos são formados por materiais radioativos, alimentos e medicamentos com data vencida, sobras de matadouros, produtos químicos corrosivos, reativos, tóxicos e inflamáveis, além de restos de embalagens de inseticidas e outros venenos.

Como funciona a limpeza urbana?

O serviço de limpeza urbana começa quando os caminhões recolhem o lixo nas portas das nossas residências, ao mesmo tempo em que os varredores estão executando sua tarefa nas ruas e praças das cidades.

Após recolhido, o lixo percorre um longo caminho. O doméstico é levado para lugares chamados estações de transbordo. Lá, os caminhões despejam o material em grandes carretas. Das estações de transbordo, uma pequena parte do lixo é enviada para as usinas de compostagem. A maior parte vai para os aterros sanitários.

Usinas de compostagem

Uma usina de compostagem é uma espécie de fábrica que usa o lixo como matéria-prima. Nessas usinas, os resíduos são separados em três tipos:

• Materiais orgânicos: são os restos de alimentos, folhas de árvores etc. Esse material é triturado, misturado e peneirado, e vai para um local dentro da usina onde ocorre a compostagem. A compostagem (ou transformação em adubo) acontece quando algumas bactérias que vivem no lixo entram em ação, criando um tipo de adubo natural que é usado nas plantações;

• Materiais recicláveis: são as partes do lixo que podem ser reaproveitadas. Vidro, papel, plástico, latas e outros metais são separados e utilizados pelas indústrias que reciclam esses materiais, ou seja, transformam-nos em produtos novos;

• Rejeito: é a parte que não pode ser aproveitada, como pedras, areia, pedaços de couro, borracha e plástico sujo. Esses rejeitos são enviados para os aterros sanitários específicos, chamados aterros de inertes.

Aterros sanitários

O aterro sanitário é uma forma de disposição final de resíduos sólidos urbanos no solo que utiliza técnicas de engenharia civil e sanitária para espalhar, compactar e cobrir com terra, diariamente, esses resíduos, com o objetivo de proporcionar seu confinamento seguro, evitando riscos e danos à saúde pública e minimizando os impactos no ambiente.

Sua construção deve impermeabilizar o solo para que o chorume (líquido escuro e com alta carga poluidora, resultado da fermentação e decomposição biológica da parte orgânica do lixo e outros resíduos) não atinja os lençóis freáticos. É necessário também drenar o chorume retirado do aterro, bem como os gases, principalmente o carbônico, o metano e o sulfídrico.

Os aterros sanitários são cuidados e controlados durante cerca de vinte anos após deixarem de funcionar. Além disso, depois de ser um aterro, o local pode se transformar em bosque, parque ou área de lazer.

Resíduos especiais e lixo industrial / comercial

A coleta dos resíduos especiais é feita por meio de caminhões que levam o lixo para os incineradores, lugares próprios para queimá-lo. Esses fornos conseguem queimar centenas de toneladas de lixo por dia e sua temperatura pode chegar perto dos 1.000oC. As cinzas também são transportadas para os aterros sanitários.

Coleta seletiva

Todo o lixo doméstico que não é separado vai para a coleta comum, podendo ser separado, depois, nas usinas de compostagem. Muitas vezes, como estão muito sujos, os materiais vão para os aterros sanitários. Se apenas o necessário for parar nos aterros, eles podem funcionar por muito mais tempo.

Embora não seja mote deste artigo, convém lembrar que, quando o papel é reciclado, evitamos cortar árvores. Quando o vidro é reciclado, deixamos de extrair areia. Quando o plástico é reciclado, poupamos petróleo, e assim por diante.

A coleta e o tratamento do lixo custam dinheiro, e todos nós pagamos por esse serviço. Quando o lixo reciclável é vendido às indústrias, o valor arrecadado pode ser usado para diminuir os custos do próprio lixo. E toda a população ganha com isso. Por isso, separar o lixo reciclável é, antes de tudo, um ato de cidadania e uma prova de respeito à natureza e ao próximo.

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