Como Posso Fazer Teste Dna Para Saber De Que Origem Sou?

A proposta é curiosa. Você coleta uma pequena quantidade de saliva, envia a um laboratório pelo correio e, pouco tempo depois, recebe um mapa detalhado com os países de origem de seus ancestrais. Apelidado de teste de ancestralidade, esse exame virou febre nos Estados Unidos.

Segundo pesquisa publicada na MIT Technology Review, até o início de 2019 pelo menos 26 milhões de pessoas já haviam coletado amostras de saliva para ter um pedacinho do genoma analisado. Agora a mania vem se popularizando no Brasil também. E por uma razão principal: o preço.

Quando surgiram, em meados dos anos 80, as análises de DNA eram caríssimas.

Para fazer o mapeamento genético, o indivíduo tinha de desembolsar cerca de 10 000 dólares (algo em torno de 40 000 reais, na cotação atual).

À época, obter as informações genéticas de alguém era pouco acessível e levava meses. Mas a conclusão do sequenciamento do genoma, em 2003, e o desenvolvimento de novas tecnologias de análise mudaram esse cenário.

É nessa simplificação de processo que a investigação sobre a ancestralidade pega carona. “Hoje, você só precisa pesquisar aproximadamente 700 000 pontos do DNA, o equivalente a 0,01% do código genético da pessoa. Isso reduziu o custo da análise”, afirma Ricardo di Lazzaro Filho, médico e CEO da Genera, uma das empresas que oferecem a novidade no Brasil.

Os kits para descobrir a origem dos ancestrais são vendidos pela internet, em sites como o da Amazon e o do Mercado Livre, e trazem na embalagem as instruções de como proceder.

Ao receber o produto em casa, basta coletar a saliva com um cotonete e enviá-la ao laboratório.

“Com isso, conseguimos analisar até oito gerações, o que corresponde aos tataravós dos bisavós daquela pessoa”, diz Cesário Martins, diretor-geral do meuDNA, marca brasileira do centro de diagnósticos genéticos Mendelics.

De acordo com o executivo, as amostras são analisadas por meio de inteligência artificial e comparadas às de populações que constam nos bancos genéticos da companhia (vale lembrar que o genoma é 99,9% igual em todos os seres humanos). É o cruzamento dessas informações que permite descobrir de que locais partiram nossos familiares.

As aparências enganam

Nesse processo, como na maioria das vezes a principal referência são histórias incompletas sobre a migração de nossos antepassados, surgem surpresas. É comum pessoas que acreditavam ter sangue 100% europeu descobrirem ascendência africana. E vice-versa.

Foi o que aconteceu com Leonardo Oliveira, de 33 anos, analista de­­­ ­su­p­pl­y chain da Bayer, multinacional alemã.

Ele recebeu um convite da empresa, durante uma ação sobre cultura inclusiva, para fazer a análise de sua ancestralidade. E se surpreendeu com o resultado.

Embora tivesse a informação de que havia espanhóis em sua árvore genealógica, tanto do lado paterno quanto do materno, o profissional acreditava que sua origem fosse quase 100% africana.

Como Posso Fazer Teste Dna Para Saber De Que Origem Sou? Leonardo Oliveira, analista de supply chain da Bayer: surpresa ao descobrir a ascendência britânica | Foto: Leandro Fonseca VOCÊ S/A

“Mas o teste indicou que 43% de minha ancestralidade veio da África, 38% da Europa, mais especificamente das Ilhas Britânicas, 10% da região sul-americana e 9% da América Central”, afirma. “Esses dados pegaram a mim e a minha família de surpresa.”

Passado o espanto, Leonardo comenta que a ação da multinacional o levou a refletir sobre o preconceito que a sociedade nutre contra determinados grupos. Para ele, esse comportamento não faz sentido porque, de um jeito ou de outro, estamos todos conectados. “No fim das contas, essa experiência me trouxe o desejo de ser um agente de mudança, de trabalhar em prol da inclusão.”

Era essa, aliás, a intenção da Bayer ao aplicar os exames de ancestralidade. Doze empregados — incluindo o CEO, Marc Reichardt — participaram da ação, que integrou a Semana da Diversidade.

Na ocasião, a equipe responsável pelo projeto selecionou empregados de várias etnias e juntou todos numa sala.

“A ideia era que cada um falasse o que sabia a respeito da origem de seus antepassados”, conta Aline Cintra, diretora de gestão de talentos e de inclusão e diversidade da Bayer.

Depois disso, eles foram convidados a fazer o teste patrocinado pela empresa. A saliva foi coletada ali mesmo e, segundo Aline, o grupo ficou empolgado com a proposta. Quando os resultados saíram, os funcionários foram reunidos outra vez e descobriram que sua composição genética era mais diversa do que imaginavam.

Segundo a diretora, isso suscitou muitas reflexões. A principal delas: somos mais do que aparentamos ser. “Queríamos que os funcionários pensassem nos rótulos que põem em si mesmos e nos outros e, a partir daí, quebrassem preconceitos”, diz Aline. Após a experiência, o grupo “examinado” participou de um bate-papo com outros funcionários da Bayer.

Conhece-te a ti mesmo

Desvendar a origem dos familiares ajuda a compreender melhor quem somos e o papel que desempenhamos no mundo. É isso que diz a psico­genealogia.­­ Essa disciplina, que surgiu nos anos 70, estuda como a árvore genealógica afeta e influencia nossas emoções. Exemplo: um indivíduo com compulsão alimentar que, ao investigar o problema, descobre que os ancestrais passaram fome.

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Nesse sentido, o teste de ancestralidade funciona como uma ferramenta capaz de estimular o autoconhecimento. “Quando conhecemos nossa história familiar, percebemos certas circunstâncias e temos a chance de ressignificá-las”, afirma Letícia Baccin, professora na Escola Internacional de Psicogenealogia Evolutiva.

Foi justamente para tentar construir sua árvore genealógica que Alexandre Pimentel, de 34 anos, decidiu investigar a ancestralidade dois anos atrás. Depois de ler uma reportagem sobre o assunto, ele pesquisou laboratórios que ofereciam o serviço e comprou o kit da marca israelense My Heritage.

Antes de fazer o teste, o administrador de empresas acreditava que grande parte de seu DNA fosse de origem indígena e que tivesse um tataravô africano. Segundo ele, o resultado trouxe informações inesperadas. “Só 1,6% de minha ancestralidade veio de povos indígenas da Amazônia. O restante é de origem europeia e, para minha surpresa, um pedacinho do meu DNA é judeu”, conta.

Para ele, essa informação ajuda a explicar o interesse e a admiração que sempre teve pelo judaísmo. Alexandre diz que chegou a procurar parentes no site da My Heritage (alguns laboratórios disponibilizam uma ferramenta de pesquisa de familiares), mas não quis levar a busca adiante.

Importante saber

Apesar de todo o sucesso que vem fazendo no mercado (no fim do ano passado, por exemplo, a marca de roupas Amaro lançou uma coleção chamada DNA, que reuniu peças criadas com base nas informações genéticas coletadas de 19 influenciadoras), o experimento apresenta limitações.

Segundo Tábita Hünemeier, especialista em genética humana e professora na Universidade de São Paulo (USP), a confiabilidade desses testes depende da variedade de dados utilizados pelo laboratório.

“Se o indivíduo for muito miscigenado, é preciso assegurar que no banco de comparação existam amostras de populações que fizeram parte da história dele.

No caso dos brasileiros, temos de considerar portugueses, italianos, indígenas e diversos africanos”, afirma Tábita.

Outro ponto relevante é que esses serviços não separam a origem por linhagem, ou seja, não dá para saber se determinada nacionalidade veio da mãe ou do pai, tampouco revelam a possibilidade de desenvolver doenças, como câncer ou mal de Alzheimer.

Algumas companhias até oferecem informações de saúde, mas, para ter acesso a elas, o cliente paga um valor mais alto — e, se quiser uma avaliação correta, precisa contratar um especialista para traduzir os dados e evitar mal-entendidos. “Dizer que um indivíduo tem grande probabilidade de apresentar uma doença genética ao longo de sua existência pode criar mais ansiedade do que melhorar a vida dele”, alerta Tábita.

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Por outro lado, as versões mais abrangentes mostram informações relevantes, como mutações na enzima CYP1A2, responsável pela metabolização de várias substâncias. Ao saber disso, por exemplo, o médico pode personalizar a dose de um antidepressivo, tornando o remédio mais eficaz para o paciente.

Como Posso Fazer Teste Dna Para Saber De Que Origem Sou?

Outra questão que permeia esses exames é o fornecimento do material genético a um laboratório desconhecido. É fundamental avaliar quais são os termos de uso e a política de privacidade adotados pela companhia que ficará com seu material.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, no 13.709, de agosto de 2018, proíbe o uso de informações genéticas para obtenção de vantagem financeira.

“É preciso saber a condição em que o material está sendo armazenado, como será usado, quem terá acesso a ele, até quando será guardado e se será ou não compartilhado. Essas informações são disponibilizadas pelas empresas na contratação do serviço.

E é possível fazer escolhas em relação à restrição do uso e ao tempo de armazenamento”, diz Tábita, especialista da USP.

Embora as companhias garantam que os dados fornecidos pelos clientes sejam sigilosos, já houve um caso, nos Estados Unidos, em que um assassino foi preso depois de cruzarem o DNA da cena do crime com um banco de dados de uma empresa que realiza análises de ancestralidade. Ou seja, a quebra do sigilo é um risco que deve ser considerado.

Seja como for, uma coisa é certa: não vai faltar assunto no almoço de domingo para quem decidir resgatar as origens de seus ancestrais.

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Como funciona o teste de ancestralidade por DNA?

Como Posso Fazer Teste Dna Para Saber De Que Origem Sou?

Você tem curiosidade em descobrir sobre suas origens e sua ancestralidade? Saber onde viveram seus antepassados e identificar se você tem ascendência de alguma população exótica? Tudo isto é possível, através da realização de um teste de Biologia Molecular conhecido como Teste de Ancestralidade!

Esse teste, baseado em uma simples amostra de DNA, está despertando a curiosidade de bastante gente. Só para se ter uma ideia, em 2018 um kit comercializado por US$ 75 (cerca de R$ 300,00) foi o produto mais vendido na Black Friday da Amazon nos Estados Unidos!

Apesar de alguns cientistas questionarem o resultado deste exame, o teste de ancestralidade pode ser realizado de forma bem simples.

Como sabemos que este é um teste que gera muita dúvida e curiosidade, tentaremos elucidar algumas delas neste post. Por isso, continue a leitura!

Sequenciamento do genoma humano

Antes de falarmos sobre o teste de ancestralidade em si, é preciso explicar sobre o Projeto do Genoma Humano e quais foram suas revelações. 

Iniciado formalmente em 1990, o Projeto Genoma Humano foi planejado para ser completado em 15 anos, porém com a evolução das tecnologias este prazo foi diminuído, e em 2003 o projeto foi concluído. A data coincidiu com o aniversário de 50 anos da publicação da estrutura do DNA por Watson e Crick, que foi um dos grandes passos fundamentais para a biologia molecular.

Com o Projeto do Genoma Humano foram compreendidas e descobertas várias questões, como por exemplo que a similaridade entre diferentes pessoas é de 99,9%! Então com tanta semelhança entre nós como podemos saber sobre a nossa ancestralidade?

Porque no nosso DNA há polimorfismos, onde o mais comum deles são os Polimorfismo de Nucleotídeos Únicos (chamados de SNP), que diferem entre pessoas. Através deste conhecimento em 2005 um conjunto de pesquisadores de 6 países realizaram um mapeamento dos padrões de SNPs encontrados na população da África, Ásia e Estados Unidos.

Outro ganho com o desenvolvimento de novas tecnologias para o sequenciamento é que esta metodologia se tornou mais acessível.

Para se ter uma ideia, há dez anos era necessário um investimento de US$ 30 bilhões (R$ 106 bilhões) para se mapear um genoma; atualmente esse custo baixou para US$ 500 (cerca de R$ 1.773).

Seu custo decrescente permitiu que os testes de ancestralidade tivessem uma diminuição significativa no seu preço, aumentando a sua acessibilidade para a população.

Ancestrais ao redor do mundo

No DNA encontram-se armazenadas as informações transmitidas de geração em geração desde os nossos antepassados mais distantes e que herdamos diretamente dos nossos pais.

Mutações no DNA ocorrem ao longo dos anos e pode diferir de acordo com os continentes onde os indivíduos vivem, estas alterações são herdadas ao longo das gerações e possibilitam não só conhecer as relações familiares de um indivíduo, como também rastrear a sua ancestralidade em termos genéticos e geográficos.

Este exame se tornou popular porque as pessoas têm curiosidade em saber a origem da sua linhagem familiar. Por mais que se tenha uma noção de onde nossos avós vieram, algumas informações podem ser perdidas ao longo das gerações influenciando no verdadeiro conhecimento da nossa árvore genealógica.

À medida que as populações se expandiram para diversas regiões ao redor do mundo, ocorreu a miscigenação das diferentes etnias, permitindo a combinação de diferentes polimorfismos, o que permitiu a criação de padrões de características genéticas que servem de base para se traçar a origem de um indivíduo.

O resultado dessas variações genéticas formam a base das análises de ancestralidade. Alguns padrões genéticos são compartilhados entre pessoas de origens diferentes, porém outros padrões são específicos de cada população. Portanto quanto mais diversificada a origem de um indivíduo maior a quantidade de padrões genéticos compartilhados.

Realizando o teste

Hoje é possível realizar um teste de ancestralidade facilmente, onde diversos laboratórios já oferecem este exame a seus clientes. A coleta do material a ser analisado é bem simples, basta um pequeno furo no dedo ou a coleta utilizando um swab na parte interna da bochecha.

As células obtidas nesta coleta terão seu DNA extraído, sequenciado e analisado.

O estudo de ancestralidade se dá em um primeiro momento pelo conhecimento dos polimorfismos no DNA do indivíduo, que são então comparados com os polimorfismos encontrados em bancos de dados representativos de populações de distintas regiões do Planeta, sendo possível rastrear a ancestralidade geográfica individual, uma viagem ao passado guiada pelo DNA!

O resultado é apresentado em forma de porcentagem de representação de cada etnia no seu DNA, como por exemplo: 75% do Norte da Europa, 17% da África e por aí segue.

Tipos de Testes de Ancestralidade

Alguns testes de ancestralidade realizados em laboratórios especializados costumam levar em conta mais dois exames para definir a ancestralidade: o teste do DNA mitocondrial e o teste do cromossomo Y. Com isso, a genealogia se torna mais completa e precisa.

Confira abaixo como estes dois exames são realizados:

Teste do DNA mitocondrial

Esse teste pode ser realizado em ambos os sexos, pois é levado em consideração as mitocôndrias (estruturas celulares produtoras de energia), as quais são herdadas exclusivamente das mães. Neste caso são fornecidas informações genéticas herdadas de nossa progenitora, definindo a linha direta das mulheres das famílias.

Teste do cromossomo Y

A pesquisa no cromossomo Y pode fornecer informações herdadas na linhagem masculina direta. Como o cromossomo Y, que é passado de pai para filho, (mulheres não possuem o cromossomo Y), sua análise pode trazer informações genéticas muito importantes sobre antepassados do sexo masculino.

Utilização do teste em casos de fertilizações in vitro

Muitas vezes um casal tem dificuldade para a geração de um feto por problemas diversos e precisam de doadores de gametas, mas mesmo assim desejam que seus filhos tenham características físicas semelhantes as suas.

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Nestes casos pode-se ser realizando o teste de ancestralidade no doador, ou quando possível, selecionado aquele com as características desejadas como: cor da pele, dos olhos, dos cabelos, altura, peso, entre outras.

Lembrando que a escolha de embriões com características genéticas específicas é uma prática muito controversa e ainda proibida no Brasil, apesar de ser amplamente utilizada em alguns países.

Como por exemplo nos Estados Unidos são fornecidas informações dos doadores como características físicas, histórico de saúde, hobbies e em alguns casos inclusive a foto do doador na infância, tudo isto para permitir a escolha do doador com as características desejadas, como feito pela influenciadora Karina Bacchi. 

Você gostou do conteúdo e quer descobrir de onde vieram seus antepassados? Deixe sua opinião nos comentários! Aproveite a visita e baixe o nosso e-book sobre teste de DNA.

Quer saber a origem de sua família? Testes genéticos mais acessíveis e baratos podem ajudar

Como Posso Fazer Teste Dna Para Saber De Que Origem Sou?| Foto: Bigstock

Quando o roteirista Jacob Galon, de 33 anos, decidiu realizar um teste de DNA para fins de ancestralidade, não poderia imaginar o quanto descobriria a respeito das próprias origens. Do lado paterno, chegou aos suevos, um dos povos bárbaros que invadiram o Império Romano no século V e se deslocaram para a Península Ibérica. Da linhagem paterna da mãe dele, soube que tem origens nos celta-alpinos, mais especificamente dos celtas gauleses que habitaram a região do Norte da Itália na antiguidade. “O curioso é que sempre gostei de música ou coisas de temática celta”, brinca.

Ele começou a fazer esses testes há quatro anos e não parou mais. Sempre que possível, realiza outro que seja ainda mais específico e que possa fornecer novas informações sobre a origem da família. Virou um entusiasta do que se chama genealogia genética, uma especialização que usa testes de DNA para determinar relações entre pessoas e encontrar parentes em comum a elas.

“Decidi fazer por pura curiosidade, de saber minha origem. Nunca tive a oportunidade de ir a fundo na busca documental.

Mas o pouco que sabia da minha família, acabou se confirmando pelos testes”, conta Jacob, que se juntou às mais de 26 milhões de pessoas que haviam testado o próprio DNA nas quatro maiores empresas do ramo dos Estados Unidos até o fim de 2018 – o levantamento é do MIT Technology Review.

Se o ritmo de crescimento dos últimos cinco anos se mantiver, serão mais de 100 milhões de testes realizados até o fim de 2020.“Eu acho que é inerente à natureza humana querer saber de onde viemos.

Quanto mais nós, como famílias, vivemos separados um do outro, mais desejamos ter conexão um com o outro”, diz a microbiologista e especialista em genealogia genética, Diahan Southard. Ela explica que a maioria busca descobrir as etnias que compõem o DNA e os mapas que entregam estimativas de porcentagens de cada uma delas.

Por outro lado, há pessoas que usam os resultados do teste para complementar as pesquisas documentais, ou seja, a genealogia como se conhecia até então.Seja qual for o objetivo ou nível de aprofundamento, o acesso a esses testes é cada vez mais fácil e barato.

Por US$ 79 (aproximadamente R$330) é possível receber um kit em casa, coletar o próprio DNA de dentro das bochechas com uma espécie de cotonete, embalar, enviar ao laboratório e aguardar os resultados pela internet. O tipo mais simples é chamado de autossômico e consegue mapear quatro a seis gerações, dos lados paterno e materno.

No fim, fornece um mapa com estimativas de etnias. Por exemplo, alguém pode ter 33% de origem na Península Ibérica, 19% nas Ilhas Britânicas, 13% na África Ocidental, e assim por diante.Apesar de curioso e esclarecedor, esses números podem passar longe da realidade, com variações significativas entre laboratórios. “Quando você procura informações sobre etnia, geralmente vê lugares que não reconhece e sente que estão faltando. Há uma variedade de fatores que influenciam esses resultados. O importante é lembrar que essas são apenas estimativas e dependem muito das populações de referência, que são as pessoas com as quais a empresa está comparando você”, esclarece Diahan.

Há testes mais aprofundados que analisam uma parte específica do DNA e traça linhagens paternas (Y-DNA) e maternas (mtDNA), e vão mais longe no tempo e com mais precisão. Jacob, por exemplo, só chegou a seus ancestrais suevos e celtas graças ao Y-DNA. Esses testes se apoiam em partes do material genético que são passados de geração a geração sem qualquer modificação.

Matches

Mais que um mapa com estimativas ou linhagens específicas, os testes de DNA entregam ao usuário uma infinidade de parentes.

Quando o laboratório finaliza a análise do material genético, ele é compartilhado na base de dados da empresa e comparado com o de outras pessoas que também fizeram o teste.

E se elas compartilham um segmento idêntico de DNA, são considerados correspondências, no jargão, matches. Ou seja, são parentes de alguma forma. Quanto mais material em comum, mais próximos são.

Isso abre um novo mundo em relação à história da própria família. Um match pode ser simplesmente um primo de quinto ou sexto grau, mas também pode ser um primo que não se tinha conhecimento.

Ou até mesmo um irmão ou tio desconhecidos, quem sabe. Não por acaso os laboratórios alertam de antemão que ao realizar o teste de DNA, algumas surpresas podem surgir.

Em outros casos, há quem use esse artifício para tentar encontrar os pais biológicos.

Ao entrarem na base de dados, as pessoas podem se comunicar com as outras para tentar encontrar o elo comum. Em geral chega a esse ponto quem já estuda a genealogia da família e quer desatar algum nó ou avançar em algum ramo que ficou parado. “As correspondências de DNA podem fornecer pistas para ajudá-lo a decidir qual caminho genealógico você precisa seguir para encontrar seu ancestral”, esclarece Diahan.

Mas entrar em contato com pessoas desconhecidas pode ser um tanto quanto constrangedor, especialmente quando se trata de um match mais próximo.

“Eu digo às pessoas para tratar esse primeiro contato como um primeiro encontro. Todo o objetivo desse primeiro encontro é obter um segundo encontro. O mesmo acontece com a nossa correspondência.

O objetivo é levá-los a escrever de volta”, sugere a especialista.

Privacidade

Ao mesmo tempo em que os testes de ancestralidade ampliam o horizonte sobre a origem das pessoas, eles também trazem à superfície questões éticas e de privacidade. Ao compartilhar o material genético com uma empresa, perde-se o controle sobre eles, mesmo que os termos de privacidade prevejam que as informações não serão passadas para outras pessoas ou companhias.

A questão é que tais dados já são compartilhados. As forças policiais dos Estados Unidos, por exemplo, passaram a ter acesso ao material das empresas sediadas no país obedecendo a decisões da Justiça. Em alguns casos, assassinatos foram solucionados após os investigadores percorrerem as informações genéticas das pessoas que testaram o próprio DNA.

Mas no momento em que isso veio à tona, os usuários foram pegos de surpresa. Rapidamente as empresas correram para atualizar suas políticas de privacidade, deixando claro que o material genético pode ser repassado às forças policiais. Por enquanto, essa é a única situação em que o compartilhamento é previsto.

Cada empresa tem um procedimento distinto, mas em geral permitem que o usuário apague todos os dados que estão com a companhia. Em alguns casos é possível pedir até mesmo a destruição do material genético que foi coletado.“As pessoas têm que prestar atenção no que elas estão assinando e concordando, entender a política da empresa em relação à sigilosidade dos dados.

Dependendo da situação, pode até buscar aconselhamento jurídico para entender no que aquilo implica”, alerta a advogada especialista em Bioética e presidente da Comissão de Bioética e Biodireito da OAB-DF, Thaís Maia.No Brasil, o assunto ainda está longe de ter uma previsão na legislação.

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A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), aprovada ainda em 2018 durante o governo de Michel Temer e que vai entrar em vigor em agosto de 2020, não vai a fundo nas informações pessoais de saúde das pessoas. Isso gera uma incerteza em relação à atuação das empresas que realizam testes de DNA, tanto estrangeiras com filiais no Brasil como as sediadas em território nacional.

“A LGPD trata dos dados de modo geral, e como ela é tão genérica, não trata especificamente dados de saúde, apenas existe a menção. Por não ser especializada em dados de saúde, não temos uma delimitação do tipo de empresa que vai precisar se submeter à lei”, explica a advogada.

O certo é que as empresas terão os dados e a dificuldade será garantir que as informações não sejam compartilhadas, inclusive com a polícia, visto que não há previsão legal para tal.

Por ser genérica, a LGPD também não especifica qual será o órgão responsável por fiscalizar a atuação das companhias. De qualquer maneira, a especialista aponta para a Constituição brasileira para tranquilizar os usuários.

“Ainda que não tenhamos uma norma específica para isso, há questões mais abertas envolvidas, como direito à privacidade, que é uma garantia constitucional”, finaliza Thaís.

Qual fazer?

Existem três tipos de testes de DNA. Veja as características e as vantagens e limitações de cada um deles.

  • DNA autossômico
  • mtDNA
  • Y-DNA

É a porta de entrada dos testes de ancestralidade, por isso é mais simples e mais barato. Ele analisa dados dos dois lados da família, do pai e da mãe, e avança entre quatro e seis gerações. No fim, fornece porcentagens étnicas e lista de possíveis parentes genéticos que tenham feito o mesmo teste e na mesma empresa. O exame autossômico pode ser feito por homens e mulheres.O teste analisa um segmento de DNA dentro das mitocôndrias das células. Tanto homens como mulheres podem fazer o exame, mas o DNA mitocondrial é passado somente pelas mães. O resultado traça a linha materna e vai mais a fundo, ajudando a identificar de onde os ancestrais vieram e as rotas migratórias que realizaram ao longo do tempo. Por ser mais aprofundado e com correspondências mais precisas, é mais caro que o teste autossômico.

Este teste analisa o cromossomo Y, que só os homens carregam. Dessa forma, somente homens podem fazê-lo.

A grosso modo, um homem hoje tem o mesmo, ou quase o mesmo, Y-DNA que o pai, avô, bisavô e assim por diante.

Por isso, o resultado traça a linha paterna do indivíduo, podendo recuar até 10 mil anos, e fornece informações migratórias, assim como o teste de DNA mitocondrial. É também o mais caro.

Onde fazer?

Os principais laboratórios, com as maiores bases de dados, estão fora do Brasil. Mas por aqui já há empresas que realizam o teste para fins de ancestralidade. No caso de encomendar kits de companhias estrangeiras, é preciso se informar sobre custos de frete e impostos de importação.

23andMe

www.23andme.comAutossômico: US$ 99

Ancestry

www.ancestry.comAutossômico: US$ 99

FamilyTreeDNA

www.familytreedna.comAutossômico: US$ 79mtDNA: US$ 199Y-DNA: US$ 169 a US$ 649, dependendo do tipo

Genera

www.genera.com.brAutossômico: R$ 199Autossômico + mtDNA + Y-DNA: R$ 1.897

meuDNA

www.meudna.comAutossômico: R$ 339

MyHeritage

www.myheritage.com Autossômico: R$ 340

Fiz dois testes genéticos de ancestralidade e os resultados me surpreenderam

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A repórter Marília Marasciulo (Foto: Acervo Pessoal)

Confesso que fiquei preocupada quando recebi a proposta de fazer testes genéticos de DNA de ancestralidade para a reportagem de capa da GALILEU de abril de 2019. Não porque achasse que descobriria algo esquisito. Pelo contrário. Meu medo era que meus resultados não mostrassem nada de interessante. Afinal, cresci sabendo que sou uma mistura de italiana, espanhola e portuguesa.

A única coisa que me atraía, de fato, era a perspectiva de saber se eu tinha ou não variantes BRCA, que podem causar câncer de mama — quer dizer, me atraía e me assustava, visto que várias mulheres na família (inclusive minha mãe) tiveram a doença, o que faz de mim uma forte candidata.

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Qual foi minha surpresa ao receber o primeiro resultado, do Ancestry: 28% espanhola, 22% inglesa, 19% francesa e 12% portuguesa.

Imediatamente enviei mensagem a todos meus parentes próximos que poderiam ter alguma explicação: a parte francesa fazia sentido, minha bisavó descendia de francesa.

Mas e os ingleses? Cheguei a mandar mensagem para vários “primos” ingleses que apareceram no app. Eu estava inconformada. Não que não quisesse ser inglesa; eu simplesmente queria saber de onde vinha essa ancestralidade.

Nunca me interessei muito por isso. Quando Juliana Sakae, uma das fontes da reportagem, me fez uma pergunta sobre sobrenomes (“Se você tivesse que colocar todos os sobrenomes de seus antepassados no seu nome, quais seriam?”) travei no da minha bisavó paterna. Eu não sei o sobrenome dela. Talvez viesse dela a explicação?

Existe, inclusive, uma área da psicologia que estuda a ancestralidade para melhor compreender a relação de cada pessoa com a família.

É dos anos 1970 a “psicogenealogia”, um método de psicanálise que enfatiza a relação da origem dos problemas da pessoa com situações não resolvidas pelos seus antepassados. Parece, inclusive, que cada família tem uma pessoa que vai se “encarregar” de traçar a genealogia.

A minha de fato teve algumas dessas pessoas — e não fui eu. Mas, diante da revelação da ancestralidade inglesa, estava pronta para investigar o assunto.

A agonia durou pouco. Dois dias depois, chegou o resultado do outro exame, o 23andMe: 36% espanhola e portuguesa, 13% italiana, 9% francesa e alemã, 3% sarda e 3% inglesa.

A parte inglesa continua sendo estranha, visto que não consegui traçar nenhuma linhagem direta, mas o resto fez sentido. O que fazer com essa informação? Não sei. Não sei se devo criticar a outra empresa pela imprecisão.

Não sei se devo me sentir intrigada com o fato de que a linhagem inglesa apareceu no mapa.

O teste definitivamente abriu uma portinha para um passado que eu desconhecia e nunca tinha feito muita questão de conhecer. Pedi para uma prima para ver minha árvore genealógica materna, um trabalho de história incrível feito por ela e ao qual eu nunca tinha dado o devido valor.

E teve toda a parte de informações sobre saúde, muitas das quais eu já desconfiava, mas foi legal ter uma espécie de validação genética para elas.

Por exemplo, agora sei que sou com certeza sou uma pessoa noturna, e meu horário ideal para acordar é 8:51.

Também obtive a explicação genética para não precisar de tanta cafeína quanto o restante das pessoas, gostar de coentro, não me mexer muito quando durmo e ter medo de altura. E, claro, o mais importante, descobri não ter nenhuma variante BRCA.

Para saber mais sobre testes de DNA que revelam ancestralidade, leia a reportagem de capa da GALILEU de abril de 2019, já nas bancas e nas edições digitais. 

Revista Galileu de abril de 2019 (Foto: Dulla)

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