Como Esquecer Alguém Que Se Ama Miguel Esteves Cardoso?

Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver?

Quando alguém se vai embora de repente como é que faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? (excerto do texto «Como se esquece alguém que se ama?, de Miguel Esteves Cardoso).

O processo de luto acontece aquando uma perda significativa na vida de uma pessoa, uma perda que pode ser vivida em diferentes situações e que não se prende, somente, com a vivência da morte de uma pessoa importante.

O luto pode ocorrer quando se perde o emprego, quando existe uma separação, quando acontecem alterações corporais drásticas ou repentinas, quando se alteram as condições de vida, quando se muda de residência e até no percurso do processo natural de crescimento psico-emocional.

A dor de perder alguém ou algo é tão poderosa que cada um recorre a diversas formas de se defender perante o sofrimento. Segundo o psicanalista Bowlby, quanto maior a vinculação (ou seja, o apego, a ligação) ao objecto perdido (alguém ou algo), maior será o sofrimento e a dor do luto.

Costuma-se dizer, na gíria, que o tempo cura tudo e, de facto, o factor tempo é um importante aliado na questão do luto.

Mas esperar que o tempo passe não basta; é necessário realizar-se uma série de tarefas que permitam ultrapassar esta dor, preparando o espaço deixado vazio para, mais tarde, ser novamente preenchido.

Apesar de ser um processo que varia consoante a pessoa e a idade, são comuns os sentimentos de tristeza, de raiva e de culpa, a ansiedade e o sentimento de solidão, a apatia e o desinteresse, o estado de choque e a sensação de desamparo.

Também se podem desenvolver sintomas físicos como vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, extrema sensibilidade ao barulho, sensação de falta de ar, fraqueza muscular, falta de energia e sensação de boca seca.

Em conjunto com estes vários sentimentos e emoções, é natural que se desenvolvam perturbações de sono (principalmente insónias), perturbações de apetite (mais comum a diminuição, mas também pode ocorrer o aumento de apetite), perturbações na atenção e concentração e isolamento social.

Estas emoções e comportamentos vão surgindo ao longo das tarefas do processo de luto que, segundo Bowlby, organizam-se da seguinte forma:

  • Fase de choque e negação, na qual a pessoa pode sentir-se como desligada da realidade, meio atordoada e desamparada, imobilizada e perdida. A negação surge como defesa contra a dor da aceitação da perda;
  • Fase do protesto, que se caracteriza pelas emoções fortes, pelo sofrimento psicológico e pelo aumento da agitação física. Nesta altura, podem manifestar-se sentimentos de raiva contra si próprio (por não ter conseguido fazer mais nada) ou contra outros significativos;
  • Fase do desespero, que se associa a momentos de apatia e depressão e que pode conduzir a um isolamento social e a um desinvestimento nas actividades diárias, aumentando o desinteresse, as dificuldades de concentração e os sintomas físicos (como insónias, perda de peso e de apetite, entre outras);
  • Fase da desorganização e reorganização que permite que a pessoa aceite a perda, integrando a a importância do objecto perdido e do seu significado no dia-a-dia.

E o que acontece quando não se consegue realizar estas tarefas? Poderá desenvolver-se uma situação de luto patológico, na qual se assiste a uma fixação numa das fases. No luto patológico, a pessoa vive com maior intensidade os sintomas acima descritos, prolongando-os no tempo e conduzindo a complicações efectivas na vida quotidiana.

Nestes casos, deve-se recorrer a ajuda especializada. A psicoterapia poderá ser encarada como uma mais-valia, pois constitui-se como o espaço no qual a pessoa pode livremente expressar as suas emoções e verbalizar os seus pensamentos, trabalhando estratégias e mecanismos internos que permitam evoluir no processo do luto.

Como Esquecer Alguém Que Se Ama Miguel Esteves Cardoso?

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta

ver perfil

“Mas esperar que o tempo passe não basta; é necessário realizar-se uma série de tarefas que permitam ultrapassar esta dor, preparando o espaço deixado vazio para, mais tarde, ser novamente preenchido.”

Artigos Relacionados

  • Desde sempre que a religião nos fala da importância do perdão como um dos caminhos incontornáveis para a obtenção da benção divina, para o aceder de uma plenitude enquanto indivíduo em comunhão com Deus. ler artigo
  • O contrato terapêutico corresponde ao acordo inicial realizado entre terapeuta e paciente, aquando da realização de uma psicoterapia. ler artigo

Um dia depois do outro

Quarta-feira, 18 de Março de 2020

E não é que já passou tanto tempo desde a última vez que aqui vim..

Uma vida inteira…

Esta manhã enquanto conduzia em direcção ao trabalho dei comigo a pensar, em como o título deste “cantinho” que outrora tinha assim sido nomeado por outras motivos se encaixava perfeitamente nestes dias estranhos que todos estamos a viver neste momento.

Sinto-me como se estivesse a viver numa realidade paralela, ou num sonho mau do qual a qualquer momento vou acordar, só que quando acordo de manhã, a realidade é mais dura que o sonho.

Só me resta viver um dia depois do outro, com coragem, positividade e ânimo…

Como diria uma colega minha “juntos somos mais fortes!”

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015

Este texto do Miguel Esteves Cardoso assenta-me que nem uma luva. Vai ter de ser devagar…

“Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar.

As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo.

Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio.

Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. O esquecimento não tem arte.

Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.”

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

http://www.citador.pt/textos/como-e-que-se-esquece-alguem-que-se-ama-miguel-esteves-cardoso

Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015

Parece que o destino não quer que eu deixe de aqui voltar… Não consigo acreditar que tudo acabou mais uma vez! Cair, levantar, lá vou eu de novo… Porque e que o amor e tão frágil? Porque? Porque?

Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

  • Nem sei quanto tempo depois dou por mim de volta.
  • Acho que porque estou a precisar da terapia que para mim é escrever.
  • Não tenho nenhum assunto em particular, apenas ando à procura de mim e talvez me encontre por aqui.

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

  1. Olá a todos!
  2. Breve aparição apenas para desejar a todos os que andam pela blogosfera um Feliz e Santo Natal.
  3. Por muito que muitos possam ser ou não Cristãos, e que por muito que pensem que o Natal é apenas um aproveitamento para o consumismo, e por muito que a crise se tenha instalado e que existam muitas dificuldades de toda a natureza, e talvez mesmo por tudo isto, não posso deixar de pensar sobre a essência do Natal.
  4. Celebramos o Natal porque nasceu um menino, que veio ao Mundo em extrema pobreza e que a única verdadeira mensagem que quiz transmitir foi a de Amor, Comunhão.
  5. Talvez esta altura de crise seja uma boa oportunidade para reflectirmos sobre o que é para nós verdadeiramente o Natal.
  6. Natal é Amor, e o Amor esse não se compra portanto é de graça, com a vantagem que quanto mais se dá mais se recebe.
Leia também:  Como Saber O Tarifario Que Tenho Meo?

Natal é partilha, comunhão. E tanto podemos partilhar o muito que temos, como um sorriso, um abraço, uma palavra de apoio. A partilha e a comunhão também não estão à venda nas lojas.

Natal são os Presentes?! Também, mas se calhar a nossa noção de “presente” é que está distorcida, se calhar “presente” não quer dizer mais que a nossa presença junto daqueles que amamos. Darmo-nos aos outros e não darmos prendas caras aos outros. Que melhor oferta poderemos fazer que dar de nós, dar-mos o nosso tempo, o nosso carinho, atenção e Amor?!

Assim de repente parece-me que aquilo que precisamos para ter um Natal Feliz (partindo do princípio que as necessidades básicas de alimento e ter um local para viver estão asseguradas), não encontramos nas lojas, não se compra, e melhor ainda, não está nos outros – está dentro de nós!

Portanto, por muito que todos gostemos de oferecer e receber presentes (materiais), de ter mais isto ou aquilo e de podermos ficar tristes porque este Natal não vamos poder comprar ou dar, ou…talvez devamos respirar fundo, olhar para o nosso lado e verdadeiramente ver aqueles que nos rodeiam. Dar graças pelos tesouros que temos na nossa vida e dar o nosso Amor.

Muito Amor para todos neste Natal e sempre.

Como Esquecer Alguém Que Se Ama Miguel Esteves Cardoso?

Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011

Depois de muito yer ouvido falar do livro “Alice no país das Maravilhas”, e de me sentir “envergonhada” por nunca o ter lido…lá resolvi agarrar o toiro pelos cornos (leia-se agarrar o livro pela capa e contra-capa).

  • Certo que já tinha visto (algures durante a minha infância) o filme,e tinha algumas lembranças de como na altura a história me parecera um pouco estranha, mas confesso que ter-te consecutivamente a dar exemplos do livro me despertou o interesse.
  • Pronto, comecei hoje.
  • Depois volto aqui para dizer de minha justiça.

Quinta-feira, 4 de Agosto de 2011

“Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui? – Isso depende muito de para onde queres ir – respondeu o gato. – Preocupa-me pouco aonde ir – disse Alice. – Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas – replicou o gato.” (Lewis Carroll -Alice no País das Maravilhas)

Engrançado como as coisas me acontecem…Tantas conversa à volta deste livro e hoje por mero acaso acabei por “tropeçar” nesta citação.

Acabei por andar com ela às voltas na minha cabeça a tentar perceber o que me estava a querer dizer, até chegar aqui:

Eu sei o que quero, sei para onde quero ír, no entanto não consigo encontrar o caminho certo para lá chegar. Sinto-me perdida sem saber que caminho seguir, apesar de saber para onde quero ír.

Talvez porque o caminho a seguir não seja meu; talvez eu esteja apenas num ponto do caminho à espera que tu chegues até mim, para então depois podermos seguir em frente os dois.

Já diz a sabedoria popular que “quem espera desespera” e eu muitas vezes fico e sinto-me desesperada…mas também diz que “quem espera sempre alcança”, e é neste ditado que eu “aposto todas as minhas fichas”.

  1. Ou melhor, aposto em nós.
  2. “Eu vou guardar cada lugar teuancorado em cada lugar meue hoje apenas isso me faz acreditarque eu vou chegar contigo
  3. onde só chega quem não tem medo de naufragar”
  4. Mafalda Veiga

Sexta-feira, 22 de Julho de 2011

  • Largar mais (Mafalda Veiga)
  • Meu amor há tempoSe tu quiseresSem assombres, sem medoSe te atreveres a serCompletamente tuVenha o que vierAgarra bem o mundoAcredita o tempo é sempre agoraNão há mais rodeios, desenganos ou demorasVê o teu sentido és tuCom tudo o que trouxeresEm ti, aindaEu sei que às vezes muito perto desfocaE querer o mundo inteiro no peito, sufocaMas eu quero-te aquiEu quero-te em mimMeu amor há tempoSe tu quiseresSem assombres, sem medoSe te atreveres a serCompletamente tuVenha o que vierAgarra bem o mundoAcredita o tempo, é sempre agoraNão há mais rodeios, desenganos ou demorasVê o teu sentido és tuCom tudo o que trouxeresEm ti, aindaEu sei que às vezes muito perto desfocaE querer o mundo inteiro no peito sufocaMas eu quero-te aquiEu quero-te em mimEu sei que ao longe há sombras ausentesMas eu vejo-te em zoom e o meu plano é diferenteEu sinto a tua faltaNão te quero largar maisNão te quero largar mais
  • (14X)

Já soubemos o que é viver um sem o outro…já sentimos na pele a dor da separação, a dormência de uma parte de nós que nos falta e que nos leva a viver os dias sem cor e sem sentido.

Por isso agora “não te vou largar mais”…

Nunca mais!

sinto-me:

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011

Será que sou só eu que sinto que a semana pré-férias é a mais longa do ano?!

Especialmente o dia pré-férias?

Arrasta-se e arrasta-se…o tempo parece que não passa, e em oposição a nossa energia parece esgotar-se a um ritmo alucinante. A minha energia está a esvair-se a uma velocidade inversamente proporcional à velocidade da passagem dos minutos (juro que por esta altura parecem ter muito mais que 60 segundos).

É como se o meu corpo estivesse a entrar em shut down…célula após célula…(neste momento sinto que o shut down esta a atingir as minhas pálpebras que teimam e fechar, e ainda falta o dia de amanhã).

Penso que tal acontece porque acabamos por orientar os nossos dias/semanas/meses por objectivos/etapas, do género…só mais um esforço até ao dia x e depois posso fazer y. Como a cenoura na ponta da cana…

Depois, de um modo irónicamente sádico, o período de férias deve ter os minutos mais curtos de toda a história de todos os minutos. É que quase nem os vemos de tão rápido que passam.

Sinto-me cansada, esgotada a precisar de dormir e relaxar…

Mas quem é que me vendeu a “patranha” que as férias são feitas para descansar?! Decerto algum operador turístico…

Como é que é possível descansar quando andamos dum lado pro outro a visitar sítios, e etc e etc?

E que me dizem de umas férias do género, acordar, fazer pequenos-almoços, ír para a praia. Vir da praia, fazer almoço, almoçar, arrumar a cozinha, fazer o lanche, ír para a praia. Lanchar na praia, vir da praia, duches, fazer jantar, jantar, ír dar uma volta, voltar para casa, dormir. Relaxante??

Miguel Esteves Cardoso

Miguel Vicente Esteves Cardoso (Lisboa, 25 de Julho de 1955) é um crítico, escritor e jornalista português.

Miguel Esteves Cardoso cresceu no seio de uma família da classe média-alta lisboeta. O pai, Joaquim Carlos Esteves Cardoso, oficial da Marinha, e a mãe, Hazel Diana Smith, nascida em Inglaterra, deram-lhe uma educação privilegiada. O facto de ser bilingue deu-lhe uma espécie de visão distanciada de Portugal e dos portugueses

Aluno brilhante, fez estudos superiores no Reino Unido.

Em 1979, na Universidade de Manchester, licenciou-se em Estudos Políticos, prosseguindo o doutoramento em Filosofia Política, obtido em 1983, com uma tese que relacionava a Saudade e o Sebastianismo no Integralismo Lusitano.

Em 1982, no regresso a Portugal, entra para o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, como investigador auxiliar.

Foi ainda professor auxiliar de Sociologia Política no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, co-fundador do Gabinete de Filosofia do Conhecimento, visiting fellow do St. Antony's College, em Oxford, e fez um pós-doutoramento em Filosofia Política, sob orientação de Derek Parfit e de Joseph Raz. Em 1988 abandonou a carreira académica, para fundar o jornal O Independente.

A partir do contacto estreito com as bandas pós- punk e new wave da editora Factory, tais como Joy Division, New Order, Durutti Column ou The Fall, aquando da sua estada no Reino Unido, «MEC» (como era conhecido pelos fãs), deu-se a conhecer como autor de crónicas sobre música pop, publicadas nos jornais Se7e, O Jornal (actual Visão) ou Música & Som, avidamente lidas pelos jovens portugueses, em complemento à transmissão dessa música em programas como Rock em Stock, de Luís Filipe Barros, ou Rotação, Rolls Rock e Som da Frente, de António Sérgio, na Rádio Renascença e na Rádio Comercial. Na década de 1980 funda, com Pedro Ayres Magalhães, Ricardo Camacho e Francisco Sande e Castro, a Fundação Atlântica, a primeira editora portuguesa independente, produzindo discos de nomes como Sétima Legião, Xutos e Pontapés, Delfins, Paulo Pedro Gonçalves, Anamar e o supra-citado Amigos em Portugal dos Durutti Column. Daria também contributo directo à música pop portuguesa como letrista, com Alhur, de Né Ladeiras, e Foram Cardos Foram Prosas (com música de Ricardo Camacho, interpretada por Manuela Moura Guedes). Foi ainda autor e co-autor de diversos programas de rádio como Trópico de Dança, Aqui Rádio Silêncio, W, Dançatlântico e A Escola do Paraíso, todos na Rádio Comercial.

Leia também:  Como Saber Quem Guardou Sua Foto No Instagram?

Nessa época, dedicou-se também à crítica literária e cinematográfica, no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Começou igualmente a ser presença assídua na rádio e na televisão, em parte devido à sua aparência invulgar e desajeitada de jovem intelectual ingénuo e perverso, e às suas intervenções imprevisíveis e desconcertantes, irónicas e irreverentes.

Estabeleceu polémicas com alguns intelectuais e escritores como Fernando Namora ou Eduardo Prado Coelho. A convite de Vicente Jorge Silva, tornou-se colaborador do Expresso, onde as suas crónicas satíricas A Causa das Coisas e Os Meus Problemas, conheceram o acompanhamento regular de muitos leitores e o sucesso junto da juventude de classe média.

Monárquico e antieuropeísta convicto, apresentou-se como candidato a deputado ao Parlamento Europeu, em 1987, como independente nas listas do Partido Popular Monárquico, não conseguindo a eleição.

Simultaneamente, é incentivado pela actriz Graça Lobo a integrar-se na Companhia de Teatro de Lisboa, o que o leva à dramaturgia. Publicou então Carne Cor-de-Rosa Encarnada (encenada por Carlos Quevedo), Os Homens (encenado por Graça Lobo) e traduziu várias peças de Samuel Beckett.

Depois, na televisão, colaborou com Herman José, como guionista do programa Humor de Perdição.

Em 1988, juntamente com Paulo Portas, fundou o semanário O Independente, que pretendia revolucionar o jornalismo português. Foi um contraponto conservador e elitista, mas simultaneamente libertário e culto, à imprensa esquerdista que prevalecia na época.

Teve como colaboradores nomes como Vasco Pulido Valente, António Barreto, João Bénard da Costa, Maria Filomena Mónica, Agustina Bessa Luís, João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, M. S. Lourenço, Maria Afonso Sancho, Leonardo Ferraz de Carvalho, Pedro Ayres Magalhães, Rui Vieira Nery ou Edgar Pêra.

Atribuiu uma enorme importância à fotografia, contando com o trabalho de fotógrafos importantes como Inês Gonçalves, Daniel Blaufuks e Augusto Alves da Silva.

Enquanto Portas e Helena Sanches Osório faziam estremecer os alicerces do governo de Aníbal Cavaco Silva, com a denúncia semanal e impiedosa de escândalos políticos, «MEC» ocupava-se da parte cultural, no destacável Vida. Fazendo dupla com Paulo Portas entrevistou algumas das figuras mais marcantes da política e cultura portuguesa.

Em 1991, conforme combinado antes da fundação do jornal, deixa a direcção d' O Independente a Paulo Portas, para criar a revista mensal K, financiada pela Valentim de Carvalho, pela SOCI (a empresa de Luís Nobre Guedes proprietária d' O Independente) e, mais tarde, por Carlos Barbosa.

Apesar da qualidade gráfica e colaborativa, o projecto não durou mais que dois anos, vítima da pouca orientação comercial. No entanto, a dedicação à literatura vai-se intensificando, até que acaba por afastá-lo do jornalismo activo.

O seu primeiro romance, O amor é fodido em 1994, foi um best-seller, em boa parte devido ao título.

Em 1995, com o final do Cavaquismo e a saída de Paulo Portas (que trocou a direcção do jornal, pela política activa no Centro Democrático Social), O Independente iniciou o seu lento declínio, não obstante o regresso de Cardoso à direcção (em 2000), de onde saírá no ano seguinte, quando o semanário é comprado e dirigido por Inês Serra Lopes, até ao seu fecho (em 2006).

Ao longo dos anos 90, «MEC» colaborou em vários talk-shows, entre os quais o popular A Noite da Má-Lingua (SIC) onde, semanalmente, sob a moderação de Júlia Pinheiro e na companhia de Manuel Serrão, Rui Zink, Rita Blanco, Alberto Pimenta, Luís Coimbra, Constança Cunha e Sá e Graça Lobo, eram satirizadas figuras e situações da vida pública portuguesa e internacional.

No final dos anos 90, misteriosamente e por motivos que nunca revelou, abandonou os ecrãs televisivos, tornando-se mediaticamente invisível.

Publicou mais dois romances, A Vida Inteira e O Cemitério de Raparigas e continuou a escrever crónicas em jornais, primeiro n' O Independente, mais tarde no Diário de Notícias. Em 1999, criou também um blogue, chamado Pastilhas, que abandonou em 2002.

Assumiu, entretanto, problemas com alcoól e uso de cocaína. A partir de Janeiro de 2006 retomou a sua colaboração no Expresso. Lançou o livro Em Portugal não se come mal, em 2009.

(in Wikipedia)

Livros escritos por Miguel Esteves Cardoso

Diversos

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar.

As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre.

Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.

O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo.

Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo.

É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção.

Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Fonte: Último Volume

Bertrand Livreiros

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! ______________ Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Disponível aqui: bit.ly/2w8Bk1J

Conçeiçâo de Figueiredo

Esqueçer muito difficile

Страницы, которые нравятся этой Странице

Нравится: 2,4 тыс.

A livraria mais antiga do mundo em funcionamento. A ler com os portugueses desde 1732.

The oldest…

Нравится: 1,4 тыс.

Palavras Vizinhas é um projeto de combate à solidão e desenvolvimento do sentido de comunidade,…

Нравится: 2,4 тыс.

Se tens menos de 13 anos, junta-te a nós e descobre como é divertido ler. Temos surpresas e muitos…

Недавняя публикация Страницы

Gosta de ler? Tem um site, blogue ou presença nas redes sociais? Junte-se ao Programa de Afiliados da Bertrand. Informação adicional e adesão: bit.ly/afiliados-bertrand

Nem Todas as Baleias Voam, de Afonso Cruz Disponível aqui, com 20% desconto: bit.ly/baleias-voam

Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano.

A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro.

Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria.

  • Hoje assinala-se o Dia da Terra. Sugestão de leitura: Uma Vida no Nosso Planeta – O meu testemunho e a minha visão para o futuro, de David Attenborough
  • Disponível aqui: bit.ly/vida-Planeta
Leia também:  Como Ver Qual A Minha Placa Grafica Windows 10?

Нравится: 44 тыс.

A livraria online das editoras do Grupo Leya em Portugal: livros, ebooks, manuais escolares e…

Нравится: 51 тыс.

A Esfera dos Livros é um projecto editorial que pretende ir ao encontro dos gostos e das…

Нравится: 101 тыс.

Página Oficial do Canal TVI Reality.

Подробнее

Нравится: 17 тыс.

Página dedicada à divulgação da obra literária de Frederico Lourenço, representado pela Booktailors.…

Нравится: 674

Livros usados, ideias novas.

Нравится: 345

Página para apresentação do Livro “Manuscritos de um Yogui” e partilhas acerca do conteúdo

Нравится: 185

Plataforma de Divulgação de Ensaios Académicos

Нравится: 436

O que fazes quando não te sentes bem no lugar onde estás? Uma história de coragem, na qual a amizade…

Нравится: 7 тыс.

Chancela de ficção literária de autores estrangeiros que traz algumas das melhores páginas da…

Нравится: 18 тыс.

Acima de tudo Música eclética e mais dez formas de Arte. NÃO PROCURAMOS PESSOAS IGUAIS, PROCURAMOS…

Нравится: 3,5 тыс.

Opiniões e partilha de livros e leitura

Нравится: 19 тыс.

Loja online destinada a vestuário para criança. Enviamos para todos os pontos do país.

Нравится: 14 тыс.

QUETZAL ave trepadora da América Central, morre quando privada de liberdade; raiz e origem de…

Нравится: 221 тыс.

Às sextas-feiras com o jornal Público. Se não aconteceu… podia ter acontecido! O suplemento mais…

Como esquecer..

“Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa, como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já não estar lá?

As pessoas têm de morrer, os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?

Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas!

É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou coração. Ninguém aguenta estar triste, ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos.

Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que se pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso primeiro aceitar.

Dizem-nos depois para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se tudo na alma, fica tudo desarrumado.

E o esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

Porque é que sempre nos momentos em que estamos mais cansados ou mais felizes que sentimos mais a falta das pessoas de quem amamos? O cansaço faz-nos precisar delas.

Quando estamos assim, mais ninguém consegue tomar conta de nós. O cansaço é uma coisa que só o amor compreende. E a felicidade faz-nos sentir pena e culpa de não a podermos partilhar.

É por estarmos de uma forma ou de outra sozinhos que a saudade é maior.

Mas o mais difícil de aceitar é que há lembranças e amores que necessitam do afastamento para poderem continuar. Às vezes a presença do objecto amado provoca a interrupção do amor. E a complicação, o curto-circuito, o entaralamento, a contradição que está ali presente, ali, na cara do coração, impedindo-o de continuar.

As pessoas nunca deveriam morrer, nem deixarem de se amar, nem separar-se, nem esquecer-se, mas morrem e deixam e separam-se e esquecem-se.

Custa aceitar que os mais velhos, que nos deram vida, tenham de dar a vida para poderem continuar vivos dentro de nós. Mas é preciso aceitar. É preciso aceitar. É preciso sofrer, dar urros, dar murros na mesa, não perceber. E aceitar.

Se as pessoas amadas fossem imortais perderíamos o coração. Perderíamos a religiosidade, a paciência, a humanidade até.

Há uma presença interior, uma continuação em nós do que desapareceu, que se ressente do confronto com a presença exterior. É por isso que nunca se deve voltar a um sítio onde se tenha sido muito feliz. Todas as cidades se tornam realmente feias, fisicamente piores, à medida que se enraízam e alindam na memória que guardamos delas no coração. Regressar é fazer mal ao que se guardou.

Uma saudade cuida-se. Nos casos mais tristes separa-se da pessoa que a causou. Continuar com ela, ou apenas vê-la pode desfazer e destruir a beleza do sentimento, as pessoas que se amam mas não se dão bem só conseguem amar-se bem quando não se dão. Mas como esquecer? Como deixar acabar aquela dor? É preciso paciência. É preciso sofrer, é preciso aguentar.

Há grandeza no sofrimento. Sofrer é respeitar o tamanho que teve um amor. No meio do remoinho dos erros que nos revolver as entranhas de raiva, do ressentimento, do rancor – temos de encontrar a raíz daquela paixão, a razão original daquele amor.

As pessoas morrem, magoam-se, separam-se, fazem os maiores disparates com a maior das facilidades. Para esquecê-las é preciso chorá-las primeiro. Esta é uma verdade tão antiga que espanta reparar em como ainda temos esperanças de contorná-la.

Nos uivos das mulheres nas praias da Nazaré não há “histeria” nem “ignorância” nem “fingimento”.

Há a verdade que nós, os modernos, os tranquilizados, os cools, os cobardes, os armados em livres e independentes, os tanto-me-fazes, os anestesiados, temos mesmo de enfrentar.

Para esquecer uma pessoa não há vias rápidas, não há suplentes, não há calmantes, ilhas das Caraíbas, livros de poesia – só há lembrança, dor e lentidão, com uns breves intervalos pelo meio para retomar fôlego.

Esta dor tem de ser aguentada e bem sofrida com paciência e fortaleza. Ir a correr para debaixo das saias de quem for é uma reacção natural, mas não serve de nada e faz pouco de nós próprios. A mágoa é um estado natural. Tem o seu tempo e o seu estilo.

Tem até uma estranha beleza. Nós somos feitos para aguentar com ela.

Podemos arranjar as maneiras que quisermos de odiar quem amamos, de nos vingarmos delas, de nos pormos a milhas, de lhe pormos os cornos, de lhe compormos redondilhas, mas tudo isso não tem mal. Nem faz bem nenhum. Tudo isso conta como lembrança, tudo isso conta como uma saudade contrariada, enraivecida, embaraçada por ter sido apanhada na via pública, como um bicho preto e feio, um parasita de coração, uma peste inexterminável, barata esperneante: uma saudade de pernas para o ar.

O que é preciso é igualar a intensidade do amor a quem se ama e a quem se perdeu. Para esquecer é preciso dar algo em troca. Os grandes esquecimentos saem sempre caros. É preciso dar tempo, dar dor, dar com a cabeça na parede, dar sangue, dar um pedacinho de carne.

E mesmo assim, mesmo magoado, mesmo sofrendo, mesmo conseguindo guardar na alma o que os braços já não conseguem agarrar, mesmo esperando, mesmo aguentando como um homem, mesmo passando os dias vestida de preto, aos soluços, dobrada sobre a areia de Nazaré, mesmo com muita paciência e muita má-vontade, mesmo assim é possível que não se consiga esquecer nem um bocadinho.

E quando alguém está sempre presente? Quando é tarde. Quando já não se aguenta mais. Quando já é tarde para voltar atrás, percebe-se que há esquecimentos tão caros que nunca se podem pagar.”

Até podia dissertar sobre o que está aqui escrito, mas qualquer palavra que dissesse podia estragar a mensagem…

Deixo aqui o desafio de, cada um por si, pensar sobre isto…

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*