Como É Que Os Surdos Pensam?

As nossas diferenças são a nossa força enquanto espécie e enquanto comunidade mundial.

– Nelson Mandela

Somos todos diferentes e o mundo fica melhor quando as pessoas entendem as outras em suas diferenças, mas isso é difícil.

Aceitar o outro requer conhecimento sobre sua condição e realidade e a gente precisa de empatia pra entender como os outros se sentem.

Com a comunidade surda é igual: quanto mais sabemos sobre nossos amigos surdos, mais fazemos da nossa comunidade mais inclusiva e justa ????

Então, para você já ter um primeiro contato, aí vão 5 fatos sobre a comunidade surda que você deveria saber:

Como É Que Os Surdos Pensam?

A Libras é uma língua reconhecida por lei no Brasil

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é língua reconhecida por lei no Brasil desde 2002. Ela é uma língua completa (e não linguagem), com estrutura gramatical própria.

Na Libras, por exemplo, não existem tempos verbais ou artigos – a organização das informações é totalmente diferente do português. Não só os sinais são importantes, mas também as expressões faciais e corporais.

Dependendo do sinal, ele pode ser igual nas mãos, mas com uma expressão diferente, ele pode mudar todo o sentido de uma frase.

Cerca de 80% dos surdos do mundo são analfabetos nas línguas escritas

De acordo com a WFD (Federação Mundial dos Surdos, na sigla em inglês), 80% dos surdos de todo o mundo têm baixa escolaridade e problemas de alfabetização. E no Brasil a situação não é diferente, já que a grande maioria dos surdos não tem uma boa compreensão do português, ou seja, não entendem ou têm dificuldades para ler e escrever.

Por conta disso isso, eles dependem exclusivamente da língua de sinais para se comunicar e obter informação.

A dificuldade de aprendizado da língua portuguesa escrita pode estar ligada a diversos fatores, como a impossibilidade de aprender através da fonética e som, a aquisição de linguagem tardia, ou mesmo, a diferença da estrutura gramatical da Libras e do português.

A língua de sinais não é universal

Como qualquer outra língua, cada local tem seu desenvolvimento próprio.

Por exemplo, nos Estados Unidos a língua de sinais utilizada é a American Sign Language (ASL) e em Portugal é Língua Gestual Portuguesa (LGP), ambas são diferentes da Libras.

As línguas de sinais têm direito inclusive a regionalismos, assim como temos aipim, macaxeira e mandioca, também há sinais diferentes para a mesma palavra dentro do mesmo país.

Nesse infográfico que a gente fez você encontra mais curiosidades sobre as Línguas de Sinais no mundo!

Surdo-mudo é um termo incorreto

O termo surdo-mudo é incorreto e nunca deve ser usado. A pessoa ser deficiente auditiva não significa que ela seja muda. A mudez é uma outra deficiência e é raro ver as duas acontecendo ao mesmo tempo. A realidade é que muitos surdos, por não ouvirem, acabam não desenvolvendo a fala.

Acessibilidade em Libras é obrigatória

Em janeiro de 2016 entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). A lei promove mudanças significativas em diversas áreas como educação, saúde, mobilidade, trabalho, moradia e cultura.

Uma das conquistas importantes é do acesso a informação, agora que os sites precisam estar acessíveis.

Além disso, também é exigido que os serviços de empresas ou órgãos públicos ofereçam acessibilidade para as pessoas com deficiência.

Como É Que Os Surdos Pensam?

Muito bacana conhecer melhor a comunidade surda, né? Um mundo mais tolerante é feito de pessoas interessadas e empáticas.

Se você se interessou pelo tema, não deixe de baixar o app gratuito da Hand Talk! Bora aprender os primeiros sinais em Libras e fazer com que a Língua chegue a cada vez mais pessoas?! ????

E se quiser, esse texto já ganhou uma sequência: 5 coisas sobre a comunidade surda que você não sabia – Parte II!

Texto escrito por Pedro Branco

Em que idioma pensa quem nasce surdo e mudo?

Como É Que Os Surdos Pensam?

Em que idioma pensa quem nasce surdo e mudo?

Não existe uma resposta simples. Mas algumas coisas sendo estudadas e debatidas na linguística e suas interfaces parecem nos ajudar a refletir sobre possíveis respostas.

Grau de Surdez

Depende do grau de surdez. Quem apresenta algum nível de audição e estabeleceu a língua portuguesa como seu código de comunicação vai pensar em português.

  • Já quem nasceu 100% surdo, mas foi educado com a língua de sinais, irá pensar com os gestos feitos para emitir cada mensagem.
  • “Ao adquirir a língua de sinais, o surdo passa a associar imagens aos sinais, da mesma forma que o ouvinte associa imagens aos sons da fala”, explica Olga Freitas, coordenadora de pós-graduação em Educação Especial da UCB.
  • Quanto aos que nunca foram expostos à língua de sinais, não se sabe exatamente como seu cérebro funciona em termos de linguagem.
  • “Às vezes, o desenvolvimento da linguagem é tão rudimentar que é quase instintivo: fome, sede, vontade de dormir”, diz Osmar Neto, otorrinolaringologista e professor da FCMSCSP.

É preciso deixar bem claro aqui que o deficiente auditivo possui apenas um bloqueio que o impede de escutar. Eles raciocinam normalmente assim como aquelas pessoas sem a deficiência, não possui nenhum retardo mental.

Assim, é obvio que os surdos possuem alguma linguagem de raciocínio, só que, naturalmente, é diferente de quem não tem a deficiência. O pensamento é intimamente ligado à linguagem.

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Fonte:

Super Interessante

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Como É Que Os Surdos Pensam?

Você já se fez essa pergunta? É uma indagação comum e antiga que hoje se encontra por aí circulando em forma de meme.

Pra variar, não existe uma resposta simples. Mas algumas coisas sendo estudadas e debatidas na linguística e suas interfaces parecem nos ajudar a refletir sobre possíveis respostas. Esse post é sobre essas coisas.

Vamos passar pela psicologia especulativa, falar sobre a voz na sua cabeça, esclarecer algumas coisas sobre surdez e línguas que não se baseiam em sons, e esbarrar em estudos que medem a atividade elétrica nos músculos (eletromiografia).

Pra começar, boa parte da incerteza envolvendo a questão vem de um debate que coloca em dúvida inclusive em que língua VOCÊ, ouvinte curioso, pensa. Nosso primeiro tópico é sobre uma contenda mais geral que tenta definir qual é a língua do pensamento – do pensamento de qualquer ser humano, surdo ou não:

1. Mentalês vs. Línguas naturais

Talvez você esteja pensando: “Ué, mas eu sei que eu penso em português (ou em inglês, em espanhol, em japonês ou em seja lá qual for a sua primeira língua)!”.
Nesse caso você está se colocando do lado de quem defende que a língua do pensamento é uma língua natural, como o neerlandês, o coreano, o francês, o apinajé e etc.

O outro lado da discussão defende que a forma do pensamento humano é o mentalês, uma língua inata e não-consciente, isto é, uma língua que não precisamos adquirir através da experiência e da qual não temos acesso pela reflexão consciente (ou introspecção).

Segundo essa proposta, um pensamento sempre teria a forma do mentalês, sendo “traduzido” para uma língua natural quando viesse a consciência (para ser proferido em voz alta ou não).

Assim, ao ler esse texto seu cérebro estaria, sem você saber, traduzindo sentença por sentença do português para o mentalês – a língua “dos bastidores” na qual a sua mente realmente opera.

Pode parecer um pouco absurdo a princípio, mas pensar em um paralelo com computadores ajuda a enxergar a possibilidade do mentalês: assim como um computador, disporíamos de uma língua mais profunda (como as linguagens de programação, interpretáveis pelo sistema) que pudesse gerar frases em uma língua natural – processo semelhante ao que o computador realiza para exibir estas palavras em sua tela. Da mesma forma, um computador recebe inputs externos e os converte a uma representação na sua linguagem interna, assim como faríamos ao receber estímulos em língua natural e traduzi-los para o mentalês, de modo que pudessem ser computados pelo cérebro.
Toda essa translação mentalês-língua natural, língua natural-mentalês parece um pouco trabalhosa, não? Bem, essa é uma das queixas contra a hipótese do mentalês. Por que motivo despenderíamos tanta energia e recursos nessas intermináveis tarefas de tradução ao invés de fazer tudo apenas com as línguas naturais?

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1.1 O Mentalês como língua do pensamento

Por outro lado, Steven Pinker, psicólogo e cientista cognitivo defensor da hipótese do mentalês, apresenta alguns argumentos interessantes a favor de uma língua profunda do pensamento.

O mentalês daria conta de explicar os momentos em que temos uma informação “na ponta da língua”, mas não conseguimos dizê-la; os momentos em que não encontramos palavras para falar de algo e temos dificuldade de nos expressar; e as ocasiões em que uma nova palavra surge para dar conta de uma ideia já existente, mas que ainda não tinha nome. Essas seriam situações em que teríamos já formulados pensamentos (em mentalês), mas não suas versões em língua natural. Além disso, o pensamento não ter fundamentalmente forma de língua natural explicaria o fato de seres que não possuem ou ainda não adquiriram linguagem, como crianças e animais, também disporem de pensamento.

Ao que os defensores das línguas naturais como língua do pensamento retrucam: a dificuldade de expressar um pensamento pode não estar na sua “tradução” para uma língua natural, mas sim na própria formação do pensamento.

E não há palavras (novas ou não) que não possam ser expressadas por meio de outras já existentes, de forma que novas palavras não surgem para “dar conta” de um pensamento, mas por motivos externos.

E, apesar de não podermos negar que crianças e animais são capazes de pensamento mesmo sem possuírem uma língua, também não há como negar que há grandes diferenças entre o pensamento e a cognição daqueles que dispõem de língua e daqueles que não dispõem, e talvez o pensamento da forma que nós, seres falantes, conhecemos só seja possível pela linguagem, pois essas duas coisas são largamente coincidentes.

A discussão é longa e provavelmente vai continuar sem resposta definitiva por um tempo. Até que desenvolvamos um meio de acessar a língua do pensamento no cérebro humano, a questão se circunscreverá no campo da psicologia especulativa (como o propositor do mentalês, Jerry Fodor, já afirmou) e tudo que podemos fazer é, bom… especular.

Até agora parece que não falamos de surdos (na verdade falamos sim, mais sobre isso daqui a pouco) e não conseguimos responder nada!

Deixemos a discussão do mentalês um pouco de lado. A pergunta do nosso velociraptor filosófico parece não estar preocupada com o mentalês.

Ela já assume o papel importante das línguas naturais como a forma dos pensamentos (nossos ou alheios) a que temos acesso, assim como as duas hipóteses da contenda que acabamos de discutir.

Isto é, a indagação parece ser mais sobre o que chamamos de “a voz nas nossas cabeças”.

Sabemos por introspecção que língua fala nossa voz interna. Língua essa que coincide com nossa língua dominante. E qual seria a língua da “voz na cabeça” de surdos? Essa pergunta é muito mais fácil de responder: por analogia, provavelmente é a língua dominante do surdo em questão. E essa é a minha deixa para falar sobre línguas de sinais.

2. Línguas de sinais e modalidades de línguas

Vamos começar estabelecendo que línguas de sinais são línguas naturais como o português, o francês, o suaíli ou qualquer outra. Não são gestos, não são mímica, não são códigos.

São sistemas complexos de signos capazes de gerar infinitas sentenças sobre qualquer tipo de referente – abstrato, ficcional, passado, futuro, impossível, etc, como qualquer outra língua natural.

Não se tratam de línguas artificiais, inventadas; são línguas que surgem naturalmente em comunidades de surdos, assim como línguas baseadas em sons surgem e se desenvolvem naturalmente em comunidade de ouvintes.

(Vale mencionar o caso famoso da língua de sinais da Nicarágua, que surgiu recentemente e tem dado a linguistas a oportunidade de estudar o surgimento (natural!) de uma nova língua. Mais sobre isso no vídeo abaixo).

As diferenças entre uma língua como o português e uma língua como a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) que nos fazem pensar (erroneamente) que elas se tratam de sistemas fundamentalmente diferentes estão todas ligadas ao fato de a primeira ser da modalidade oral-auditiva e a segunda da modalidade visual-motora. Mas ambas são abarcadas pelo conceito de língua por compartilharem das propriedades fundamentais e capacidades desse objeto (espetacular, diga-se de passagem).

Por isso, diferente do que você pode ter pensado enquanto lia a primeira parte deste texto, a discussão sobre mentalês vs. línguas naturais também diz respeito a surdos (sinalizantes), pois línguas de sinais também são línguas naturais.

Um surdo não pode adquirir plenamente uma língua oral-auditiva, pois a “matéria-prima” de uma língua desse tipo, o som, não tem realidade psicológica para alguém que não pode ouvir. (Aliás, apesar de não perceberem sons, surdos podem oralizar assim como ouvintes! Por isso não se deve usar o velho termo “surdo-mudo”).

Mas nada impede que surdos adquiram línguas visual-motoras. E é exatamente isso que acontece quando eles são expostos a esse tipo de língua. O ser humano é faminto por uma primeira língua, a língua materna. Ele é muito apto a adquirí-la. Vide o fato de essa aquisição acontecer naturalmente, bastando que o indivíduo seja exposto a uma língua em uma modalidade que ele possa perceber.

2.1 O caso Helen Keller

Para ilustrar essas afirmações, vale mencionar o caso de Helen Keller. Helen viveu entre 1880 e 1968.

Ela perdeu a audição e a visão quando tinha menos de 2 anos e, por isso, não recebeu inputs linguísticos até os 7 anos, quando começou, por intermédio de uma professora, a ser exposta a uma língua de modalidade tátil.

Essa língua envolvia que alguém soletrasse palavras sinalizando as letras na mão de Helen. Assim, ela pode adquirir uma língua, o que permitiu que se desenvolvesse normalmente, se tornasse escritora e obtivesse título de bacharel.

Em um de seus livros, Helen relata que pode comparar as lembranças da sua experiência pré-linguística com a sua vida interna após ter adquirido uma língua e que as diferenças na maneira de se relacionar com si mesma e o mundo eram drásticas.

Além disso, ela relata que, após adquirir uma língua, ela adquiriu também uma “voz interior”, sentindo frases serem soletradas em sua mão quando pensava.

Por esse relato, podemos imaginar que se a pergunta do velociraptor tivesse sido direcionada a Helen, ela responderia que pensa na língua que também é sua “língua externa”, na mesma modalidade em que a experiencia. Da mesma forma, um surdo deve pensar na língua de sinais que usa diariamente e é sua língua dominante.

3. Subvocalização em surdos

Se você ainda não está convencido de que a “voz na cabeça” de surdos possa falar em alguma língua de sinais (LIBRAS, ASL, língua de sinais da Nicarágua, etc), existem alguns resultados de estudos sobre a subvocalização (o uso da voz interna) em surdos que podem te persuadir.

No livro “Psychology of Reading”, Keith Rayner e colegas falam um pouco de estudos que monitoraram, durante uma tarefa de leitura silenciosa, a atividade elétrica dos músculos do trato vocal e dos antebraços de surdos e ouvintes.

Nesses estudos, se notou que durante a leitura silenciosa surdos apresentam alta atividade elétrica nos antebraços, enquanto ouvintes apresentam o mesmo na região do trato vocal. E essa atividade elétrica diferenciada não ocorria quando os sujeitos não estavam realizando a tarefa de leitura.

Segundo os autores, a literatura científica mostra também que a atividade no trato vocal de ouvintes se apresenta em qualquer tarefa de linguagem, seja ela ler, ouvir alguém falando ou pensar.

Faz sentido imaginar que essa atividade elétrica seja resultado da subvocalização, da “voz interna”, das pessoas enquanto leem, ouvem e pensam, não? E se em ouvintes a voz interna é como a voz externa a ponto de a área do corpo que a produz externamente ser ativada também na sua instância não exteriorizada, é de se esperar que esse também seja o caso com surdos.

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E é exatamente isso que os resultados desses estudos indicam: os antebraços de surdos sinalizantes, parte do corpo responsável por grande parte da sinalização, exibem alta atividade elétrica durante a leitura, mesmo quando ela é silenciosa, o que deve ser atribuído à subvocalização, que, por sua vez, está ligada aos antebraços e deve se dar na forma de alguma língua sinalizada.

10 coisas erradas que você pensa sobre os surdos

São muitos os equívocos no que diz respeito à surdez e aos surdos. Muitos! Poderia escrever uma lista com uns cem, mas achei mais prático me concentrar nos dez equívocos mais comuns sobre a surdez.

TODO SURDO USA LIBRAS

De todos os equívocos sobre a surdez, esse é o mais básico de todos. Na verdade, é um equívoco universal, pois no mundo inteiro as pessoas que não têm contato com alguém que não ouve pensam isso.

Existem diferentes graus e tipos de surdez, e 99% dos usuários de Libras (a Língua Brasileira de Sinais) são pessoas que já nasceram com surdez profunda e não fizeram uso da tecnologia para voltar a ouvir e não foram oralizadas.

Estes são os que chamamos de surdos sinalizados.

Os outros, que chamamos que surdos oralizados, são pessoas que mesmo com surdez ainda ouvem (por meio da tecnologia ou de seu resíduo auditivo) ou que não ouvem mas falam como uma pessoa que ouve e não têm necessidade nenhuma de língua de sinais – mas há os oralizados que por desejo pessoal querem aprendê-la, esses, chamamos de surdos bilíngues. Mais fácil desenhar? Rsrsrs!

Quando você ficar confuso, pense sempre em tecnologia: hoje em dia, tudo o que ainda não é curável já é pelo menos contornável, como a surdez. Por isso é impossível existir uma padronização.

É SÓ BERRAR PARA CONVERSAR COM UM SURDO

É muito comum que um ouvinte, ao ser avisado de que certa pessoa é surda, comece a se comunicar com ela aos berros, como se berrar fosse resolver a comunicação. Não resolve.

O melhor jeito de nos ajudar a lhe entender é articulando bem os lábios e não falando igual a locutor de rádio. Quando você quer chamar a atenção de alguém que não ouve ou ouve mal, apareça no campo de visão da pessoa ou então cutuque-a.

Mas não berre, por favor. Além de ser horrível e inútil, para nós, é humilhante. Detestamos!

SE USA APARELHO AUDITIVO OU IMPLANTE COCLEAR ESTÁ “CURADO”

A surdez não é curável ainda. Mas os ouvintes costumam relacionar aparelhos auditivos e implantes cocleares à óculos e essa infelizmente é uma comparação ruim.

Ao colocar óculos a pessoa resolve de modo automático seu problema de visão.

Ao colocar um AASI ou IC, é necessário um processo longo de adaptação – e eles não restauram a nossa audição de modo perfeito e nem nos fazem ouvir e entender tudo.

A tecnologia nos ajuda, mas não cura e nem resolve 100% o nosso problema. Ah, saiba que não há nada mais detestável do que dizer a um surdo quando ele não ouve/entende algo: “Ué, mas você não está de aparelho?” Fica a dica!

SURDEZ É COISA DE VELHO

Outro dos equívocos sobre a surdez que são muito comuns. A surdez era coisa de velho, não é mais.

O mundo mudou, e com o advento dos smartphones e MP3, as pessoas de todas as faixas etárias ficaram viciadas em fones de ouvido.

Some-se a isso a poluição sonora das cidades e todos os ruídos aos quais somos submetidos o dia inteiro. A audição é muito sensível, e as células ciliadas não são capazes de se regenerar.

Por isso, a surdez está se tornando algo tão comum e frequente quanto os problemas de visão. As pessoas estão perdendo audição muito mais jovens! E nossos amados velhinhos hoje têm a oportunidade de ser ulta-tecnológicos com aparelhos auditivos super modernos e com conexão sem fio. Números: dos 36 mihões de americanos com algum grau de surdez, apenas 30% possui mais de 65 anos.

TODO SURDO FAZ PARTE DA ‘CULTURA SURDA’

Bobagem das grandes. Há surdos que se definem através da surdez, sim. Mas a grande maioria dos surdos no mundo inteiro usa a tecnologia para voltar a ouvir da maneira que for possível, e em função disso não se vêem com barreiras difíceis de comunicação. Portanto, seus amigos e parceiros serão quem eles bem entenderem.

Existem “SURDOS” e “surdos”

É o mesmo que dizer que existem “Gordos” e “gordos”, “Negros” e “negros”, “Cegos” e “cegos” e por aí vai.

Uma letra maiúscula não quer dizer nada, trata-se apenas de uma tentativa de fazer com que os ouvintes acreditem naquele papo antigo e desatualizado que prega que a surdez é uma bênção e todo surdo que se preze deve honrá-la e seguir a cartilha pré-estabelecida da surdez.

Na minha opinião, isso tem uma pegada evangelizadora horrorosa. Ao aprender mais sobre surdez, os ouvintes descobrem que essas besteiras só ocorrem nesta deficiência – você jamais verá um paraplégico furioso com outro paraplégico só porque ele usa cadeira de rodas, e jamais veria alguém defendendo que um bebezinho cego continue cego em prol do braile. Já na surdez…

TODO SURDO ESTUDA EM ESCOLA ESPECIAL

Os que precisam, sentem necessidade e preferem estudar em escola especial, assim o farão. Os que não sentem vontade e não têm necessidade estudam em escola regular. As tecnologias de acessibilidade para surdos usuários de aparelhos auditivos e implantes hoje em sala de aula são sensacionais.

ACESSIBILIDADE PARA SURDOS = LIBRAS

Se eu ganhasse um real cada vez que escuto isso estaria escrevendo posts em Paris. A língua de sinais só ajuda aquelas pessoas que se comunicam através dela e a conhecem.

E o resto dos surdos? Legendas são a nossa salvação. De resto, tudo é contornável com a tecnologia. Não fala no telefone? Então é só mandar um SMS ou WhatsApp.

Não pode ligar para o 0800? Então entra no chat da marca/loja/serviço.

SE É SURDO, SABE LER LÁBIOS

Infelizmente não é assim, já que muitas pessoas perdem audição depois de adultas – e como nunca precisaram aprender a ler lábios, não sabem fazê-lo. E não pensem que é a coisa mais fácil do mundo, pois não é. Aliás, você já parou pra pensar em como é olhar para as bocas das pessoas e sem som conseguir ‘ouvir’ o que elas estão dizendo? Comparo a leitura labial sempre a um super poder!!

“ESQUECE, NÃO É NADA”, disse o ouvinte quando o surdo não entendeu…

Um dos piores equívocos sobre a surdez. Uma verdadeira gafe. Não faça isso nunca. Uma pessoa surda sempre precisará fazer um esforço vinte vezes maior do que uma pessoa ouvinte para acompanhar e compreender uma conversa, um grupo de pessoas falando ou qualquer fala humana.

Portanto, quando não entendemos algo que foi dito nossa vontade é apenas uma: que o interlocutor repita para que a conversa faça sentido para nós. Receber um “esquece, não é nada” é uma frustração enorme: parece que não somos dignos de saber o que o outro disse ou que ele não dá a mínima para o fato de não termos entendido.

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Trajetória das pessoas surdas: pessoas que ajudaram a escrever essa história

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O Fique por Dentro desta semana mostra algumas personalidades surdas e ouvintes que fizeram história e conta um pouco a história dos surdos.

Trajetória das pessoas surdas: pessoas que ajudaram a escrever essa história

A história dos surdos é fascinante.

 Entre exclusão, conquistas, retrocessos e reconquistas, se entrelaça à abordagem acerca das línguas de sinais e é escrita por muitas pessoas que contribuíram para a educação e formação das pessoas surdas.

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  Alguns pensam que só ouvintes agiram nesse processo e os surdos apenas reagiram a iniciativas. Engano! Os próprios surdos têm mostrado seu protagonismo, revelado suas habilidades e escrito sua história ao longo dos anos.

O Fique por Dentro desta semana mostra algumas personalidades surdas e ouvintes que fizeram história e conta um pouco a história dos surdos.

Pessoas surdas que fizeram história

Por muitos séculos, os surdos foram privados de educação e de vários outros direitos, mas no século XVIII aconteceram transformações profundas a partir do uso das línguas de sinais como línguas de instrução para os surdos, trazendo grandes saltos qualitativos para a sua educação e qualidade de vida.

De pessoas às quais a sociedade antes considerara desprovidas da faculdade da razão, os surdos passaram a aprender com eficiência e a exercer papéis antes não imaginados para eles. Surgiram obras escritas por surdos, como as Observations de Pierre Desloges, publicada em 1779.

Formaram-se engenheiros surdos, professores surdos, filósofos surdos, intelectuais surdos, líderes e militantes das comunidades surdos. Nessa época, muitas das escolas para surdos que iam sendo criadas tinham professores surdos e eram dirigidas por surdos.

Os surdos também fundavam outras escolas em vários lugares do mundo.

Dentre as personalidades surdas desse período, destacam-se:

  • Laurente Clerc: professor surdo do Instituto Nacional de Jovens Surdos-mudos* de  Paris, fundado por Michael Charles de L’Epée, ensinou língua de sinais a Thomas Gallaudet. Ambos fundaram a primeira escola para surdos nos Estados Unidos.
  • Ernest Huet: professor em Paris, veio ao Brasil em 1855, visando fundar aqui uma escola para surdos. Com o apoio de D. Pedro II, fundou e dirigiu por cinco anos o Imperial Instituto de Surdos-Mudos, atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O Instituto foi fundado no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1857.
  • Ferdinand Berthier: Escreveu vários livros e artigos, sendo sua obra de mais notoriedade a biografia “Um surdo antes e depois do Abade L’Epée”. Foi defensor do povo surdo**, da cultura surda, da língua de sinais. Estudou no Instituto de Jovens Surdos-Mudos de Paris, onde foi professor. A base de sua prática de ensino era a identidade surda e a língua de sinais. Junto a outros companheiros surdos, criou um comitê de surdos e a primeira associação para surdos, semente para o surgimento das outras associações.
  • Pierre Pelissier: professor, poeta, membro ativo da Sociedade Central de Educação de Assistência aos Surdos Mudos. Elaborou a Iconografia de Sinais (um manual de sinais), posteriormente reproduzido pelo surdo brasileiro Flausino de Gama.

Infelizmente, os relatos da comunidade surda não parecem ter sido registrados em tão grande volume como aconteceu com as personalidades ouvintes, mas encorajamos o leitor a pesquisar em outras fontes, como na produção da professora e pesquisadora surda Karin Strobel. Um dos materiais da professora Karin é referência para esta postagem.

Voltando um pouco: a história anterior do povo surdo

Nem sempre os surdos foram tratados de forma humana. Strobel mostra que na Idade Antiga os surdos eram adorados no Egito e na Pérsia, pois se acreditava que eles se comunicavam com os deuses, mas na Grécia e em Roma, eles eram assassinados e os que escapavam eram escravizados.

Na Idade Média, eram tidos como objeto de curiosidade, como seres estranhos. Não podiam participar dos sacramentos religiosos, não tinham direito de casar, de receber herança, etc. Alguns eram assassinados pelas próprias famílias. Isso começa a mudar na Idade Moderna.

O médico e filósofo Girolomo Cardamo concluiu que os surdos tinham habilidade para a razão e podiam aprender. Ele se comunicava com os surdos por meio de sinais e da escrita. Nesse período, famílias nobres começaram a prover as condições para a educação dos filhos surdos, preocupadas com o que aconteceria com suas heranças.

Assim, esses filhos eram ensinados a falar e a ler para que pudessem receber os títulos e a herança. A partir daí, surgiram diversos educadores de surdos.

Alguns educadores de surdos que ganharam notoriedade

Como mostra Strobel, Berthier argumentava que houve várias iniciativas de educação de surdos, mais ou menos eficazes, que não tiveram notoriedade. Alguns dos educadores mais citados na história dos surdos são:

  • Pedro Ponce de León (1510-1584): o monge beneditino Ponce de León ensinava a escrita, a datilologia e a oralização. Fundou a primeira escola para surdos em um monastério de Valladolid.
  • Juan Pablo Bonet (1579-1623): o padre espanhol Bonet trabalhava com treinamento da fala, datilologia e sinais e lançou o primeiro livro sobre a educação de surdos em 1620. Strobel mostra que Berthier contesta frontalmente a ideia de que Bonet teria descoberto como ensinar o surdo a falar e que esse feito poderia bem ser creditado a Ramires de Carrion, rival de Bonet e surdo congênito, que teria tido sucesso em um experimento e lançado também um livro a respeito em 1629.
  • Charles Michael de L’Epée (1712-1789): um dos nomes mais destacados nas fontes consultadas, o Abade de L’Epée conheceu duas irmãs gêmeas surdas cuja comunicação ocorria por meio de gestos. Trabalhou com os surdos pobres andarilhos das ruas de Paris, observou, aprendeu e valorizou a comunicação sinalizada utilizada por eles. L’Epée percebeu que os sinais permitiam a comunicação com os surdos e favorecia à sua aprendizagem. Criou o alfabeto manual francês e o uniu aos sinais usados pelos surdos, de maneira que liam e escreviam em francês através da ajuda de um intérprete. Na sua casa, com recursos próprios, criou a primeira escola de surdos, que em 1791 se tornou o Institute of DeafMutes, Instituto Nacional de Surdos-mudos, a primeira escola pública para surdos. O método de L’Epée, que utilizava a língua de sinais como língua de instrução, mostrou-se muito eficaz e se espalhou pelo mundo, pois a escola recebia pessoas do mundo inteiro e os discípulos de de L’Epée, inclusive professores surdos, multiplicavam o método e implantavam escolas em vários lugares. À época da morte de de L’Epée, em 1789, já havia cerca de 21 escolas para surdos na França e na Europa.
  • Thomas Opkins Gallaudet (1787-1851): com o desejo de fundar uma escola para surdos nos Estados Unidos, o reverendo americano Gallaudet foi à Europa em 1816 para buscar informações e na França conheceu Laurent Clerc. Ambos foram juntos aos Estados Unidos. Clerc ensinou a língua de sinais a Gallaudet e este lhe ensinou o inglês. Em 1817, os dois fundaram a primeira escola para surdos nos Estados Unidos, cuja língua de instrução era a língua de sinais. A partir de então, as escolas para surdos que adotavam a língua de sinais se expandiram nos EUA e a maioria dos professores de surdos eram usuários de língua de sinais, sendo muitos deles também surdos. Em 1864, Edward Gallaudet, filho de Thomas, fundou a primeira Universidade Nacional para Surdos, em Washington, a Universidade Gallaudet, referência mundial no ensino de surdos em nível superior e a primeira que tinha como língua de instrução a língua de sinais.

A continuidade no protagonismo das pessoas surdas

Os surdos seguem exercendo seu protagonismo e usando seus talentos. Continuam surgindo artistas, professores, intelectuais, escritores surdos. Alguns exemplos no século XX são:

  • Antônio Pitanga: escultor pernambucano surdo, formado pela Escola de Belas Artes, ganhou os prêmios Medalha de Prata, com a escultura “Menino Sorrindo”, Medalha de Ouro, com a escultura “Ícaro”, e viagem à Europa, com a escultura “Paraguaçu”, em 1932.
  • Jorge Sérgio Guimarães: publicou, em 1951, no Rio de Janeiro, o livro de crônicas “Até Onde vai o Surdo”, em que narra suas experiências como surdo.
  • Marlee Matlin: primeira atriz surda a conquistar o Oscar de melhor atriz, pela atuação no filme Filhos do Silêncio, de 1986.

Hoje, há muitos surdos produzindo e pesquisando sobre o povo surdo e a cultura surda. Dentre estes mencionamos as professoras e pesquisadoras Gladis Perlin (UFSC) e a própria Karin Strobel (UFSC). Vá adiante, conheça as pessoas surdas e conheça mais sobre elas!

*A expressão “surdo-mudo” era usada na época, mas já caiu em desuso. Veja o texto sobre nomenclaturas.

**Para compreender melhor o conceito de povo surdo, leia os textos de Strobel e Peixoto. Links abaixo.

Saiba mais:

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