Como É Que Os Jovens Vivem E Sentem A Religião?

Os diferentes contextos religiosos

A experiência religiosa dos jovens é fortemente influenciada pelo contexto social e cultural em que vivem. Em alguns países a fé cristã é uma experiência comunitária forte e viva, que os jovens partilham com alegria.

  • Noutras regiões de antiga tradição cristã a maioria da população católica não vive uma pertença real à Igreja; não faltam, todavia, minorias criativas e experiência que revelam um renascimento do interesse religioso, como reação a uma visão reducionista e sufocante.
  • Noutros lugares, ainda, os católicos, juntamente com outras denominações cristãs, são uma minoria, que conhece por vezes discriminações e até perseguições.
  • Há por fim contextos em que há um crescimento das seitas ou de formas de religiosidade alternativa; aqueles que as seguem não raro ficam desiludidos e tornam-se adversos a tudo quanto é religioso.
  • Se em algumas regiões os jovens não têm a possibilidade de exprimir publicamente a sua fé ou não vêem reconhecida a sua liberdade religiosa, noutros sente-se o peso das escolhas do passado – inclusive políticas –, que minaram a credibilidade eclesial.
  • Não é possível falar da religiosidade dos jovens sem ter presente todas estas diferenças.
  • A busca religiosa

Em geral os jovens declaram estar à procura do sentido da vida e demonstram interesse pela espiritualidade. Essa atenção, no entanto, configura-se por vezes como uma busca de bem-estar psicológico mais do que uma abertura ao encontro com o mistério do Deus vivo.

Em particular em algumas culturas, muitos consideram a religião uma questão privada e selecionam das várias tradições espirituais os elementos nos quais encontram as suas convicções. Difunde-se assim um certo sincretismo, que se desenvolve sobre o pressuposto relativista de que todas as religiões são iguais.

  1. A adesão a uma comunidade de fé não é vista por todos como a via de acesso privilegiada ao sentido da vida, e é flanqueada e por vezes substituída por ideologias ou pela procura de sucesso no plano profissional e económico, na lógica de uma auto-realização material.
  2. Ainda assim, permanecem vivas algumas práticas transmitidas pela tradição, como as peregrinações aos santuários, que por vezes envolvem massas de jovens muito numerosas, e expressões da piedade popular, frequentemente ligadas à devoção a Maria e aos santos, que protegem a experiência de fé de um povo.
  3. O encontro com Jesus

A mesma variedade encontra-se na relação dos jovens com a figura de Jesus. Muitos reconhecem-no como Salvador e Filho de Deus e, muitas vezes, sentem-se perto dele através de Maria, sua mãe, e comprometem-se num caminho de fé.

Outros não têm com Ele uma relação pessoal, mas consideram-no como um homem bom e uma referência ética. Outros, ainda, encontram-no através de uma forte experiência do Espírito.

Para outros, Ele é uma figura do passado privada de relevância existencial ou muito distante da experiência humana.

Se para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja emergem como palavras vazias, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando é apresentada de maneira atraente e eficaz.

De muitas maneiras também os jovens de hoje dizem: «Queremos ver Jesus» (João 12, 21), manifestando assim essa saudável inquietação que caracteriza o coração de cada ser humano: «A inquietação da busca espiritual, a inquietação do encontro com Deus, a inquietação do amor» (papa Francisco).

O desejo de uma liturgia viva

Em diversos contextos os jovens católicos pedem propostas de oração e momentos sacramentais capazes de intercetar a sua vida quotidiana, numa liturgia fresca, autêntica e jubilosa.

Em muitas partes do mundo a experiência litúrgica é o recurso principal para a identidade cristã e conhece uma participação ampla e convicta.

Os jovens reconhecem nela um momento privilegiado de experiência de Deus e da comunidade eclesial, e um ponto de partida para a missão.

Noutros lugares, em vez disso, assiste-se a um certo afastamento dos sacramentos e da Eucaristia dominical, percecionada mais como preceito moral do que como feliz encontro com o Senhor ressuscitado e com a comunidade.

Em geral, constata-se que mesmo onde se oferece a catequese sobre os sacramentos, é débil o acompanhamento educativo para viver a celebração em profundidade, para entrar na riqueza do mistério dos seus símbolos e dos seus ritos.

Espiritualidade e Educação: Relação entre processos educacionais e as vivências de práticas religiosas da Juventude – Brasil Escola

1 – Introdução

Toda religião oferece, para os/as fiéis que aderem a ela, uma proposta de sentido de futuro e último: o que comumente se chama Salvação.

Na sociedade contemporânea em que vivemos, não parece mais novidade a quantidade impressionante de religiões que apareceram e continuam a aparecer, cada uma com sua proposta e seu caminho de sentido último para o/a fiel.

Mais ainda, é possível, como alguns críticos gostam de sugerir, comparar esse amontoado de propostas religiosas como um grande Shopping Center, com suas diversificadas e variadas lojas, cada uma oferecendo um produto específico para cada necessidade particular do/da consumidor/a.

Reconhecemos esse aspecto negativo (e por vezes ilusório) desse grande “mercado religioso” (a grande parábola da pós-modernidade). Porém, queremos lançar nossos olhos para além dele. Queremos partir da própria subjetividade da pessoa, do/da jovem ao procurar e se descobrir participante e praticante de uma religião, ou de uma prática religiosa e de fé.

Partiremos do pressuposto (que acreditamos ser verdadeiro) de que cada jovem ao procurar uma religião busca um sentido para a própria vida, busca respostas a questões que o cotidiano parece não oferecer com satisfação e profundidade, busca felicidade.

É um movimento subjetivo humano/juvenil e genuíno, o qual gostaríamos de considerar e afirmar como presente no interior de todo/a jovem ao se aproximar de uma prática de fé.

Nenhum jovem procura uma religião sem nenhum motivo aparente, mas a procura por um impulso subjetivo de desejo de sentido e felicidade.

Lançamos, aqui, nossos olhos para além de instituições religiosas específicas, ou seja, consideraremos essa atitude subjetiva do jovem e da jovem, que busca uma prática de fé como uma atitude universal, presente na subjetividade de cada jovem, independente de especificidades religiosas. Por isso, intitulamos, no presente artigo, o termo Espiritualidade. E é partindo desses pressupostos que o propomos.

Da mesma forma que a busca pela vivência da dimensão de sua Espiritualidade revela uma atitude subjetiva e natural do/da jovem, também os processos educacionais se revelam como uma forma própria do movimento subjetivo deste/a mesmo/a jovem em busca de sentido e felicidade.

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Por isto, neste artigo, queremos nos perguntar em que medida a vivência da dimensão da sua Espiritualidade faz o/a jovem a viver e participar de processos educacionais. É possível, na prática da fé de um/a jovem, seja ela qual for, falar de processos educacionais desta mesma prática?

Diante de um mundo globalizado, onde as propostas de informação parecem oferecer absolutamente tudo para o/a jovem, ao mesmo tempo em que somada a esse universo globalizado as propostas de Espiritualidades desejam oferecer um sentido que parece não encontrado em todo este contexto, parece-nos de fundamental importância considerar a vivência da Espiritualidade na Juventude como proposta de processos educacionais, ou não. É isso que pretendemos refletir neste artigo, que nasceu do processo vivido na disciplina “O educador de Adolescente e Jovem” ministrado pela Professora Carmem Lúcia Teixeira do Curso de Pós-graduação em Juventude e Adolescência no Mundo Contemporâneo.

2 – Processos educacionais: reconhecer o lugar de onde estamos falando.

Educação, Educador, Educando. São conceitos que nos remetem a uma atitude que, ao longo da história, fez e faz parte da vida humana. O ser humano sempre se preocupou em adquirir conhecimento. Mais do que se preocupar, o ser humano sempre mostrou um impulso originário e natural para conhecer, para mudar a partir daquilo que, como processo de aprendizado, passa a conhecer.

Reconheceremos aqui, falando de processos educacionais para/de jovens, os conceitos de Educação e Educar como experiências de acompanhamento de processos da própria vida do/da jovem, como partilhar conhecimentos, como aprender. Isso partindo do pressuposto de que direcionamos nossa atenção a um sujeito muito específico: o Jovem, a Jovem.

Este/a, situado/a em uma faixa etária caracterizada por transformações, por mudanças, por questionamentos e, sobretudo, por buscas. E mais ainda, um sujeito que, exatamente por viver em uma etapa de buscas, é um sujeito de Direitos.

Consideramos, primeiramente, ser muito importante ter presente essas idéias que nos movem ao escrever esse artigo, ou seja, situarmos no chão que pisamos para falar de processos educacionais para Jovens.

Geralmente escutamos, primeiramente, a palavra Educação no ambiente da escola. E ela está sempre associada e vinculada, de alguma forma, a modos. E por isso, se transporta para o ambiente familiar.

Dentre os autores que dedicaram uma vida a falar de Educação, destacamos Paulo Freire. Este, entre outras coisas, fala da educação popular crítica. Segundo ele, a educação tem um fim último, e esse fim é crítico no sentido de construir alguma coisa. O papel do educador, segundo ele, é problematizar, ou seja, o fato dado precisa ser questionado, problematizado.

E isso acontece em um processo dialógico que não separa o conteúdo da forma, ou seja, apresenta-se aspectos diferentes da situação trabalhada. Seu pensamento está permeado por uma dimensão ética do saber que, sobretudo, considera e respeita os chamados saberes populares. Poderíamos supor, quando falamos em processos educacionais em Paulo Freire, a imagem do caminho.

Por isso, pode-se afirmar que “o caminho se faz caminhando”, ou seja, na experiência e atitude do conhecimento, supõe-se uma postura, um posicionamento frente ao mundo, uma atitude que permite uma constante e contínua transformação deste mesmo mundo.

A neutralidade frente ao mundo, nesse sentido, é um ato de imoralidade, de entorpecimento da condição juvenil como condição de possibilidade para o conhecimento.

Por isso, a educação, segundo supõe Madalena Freire (seguindo os passos de seu pai) é um movimento como processo da própria vida. E nesse sentido, o/a educador/a é aquele/a que vê o movimento da vida a partir do outro e da outra situado e situada em um lugar concreto.

O movimento do VER, da ESCUTA e da FALA que, segundo ela, deve provocar o desejo do outro e da outra. O medo, segundo ela, paralisa o processo de educação. O sistema social e cultural em que vivemos parece querer ampliar o medo: basta vermos as cercas elétricas.

Sem falar da sociedade e a cultura da competição em que vivemos: é só olhamos para a maioria das experiências das propostas avaliativas de nossas instituições educacionais, quando se avalia o estudante exclusivamente por notas. O/a melhor é quem tira a maior nota.

O padrão de educação, o grau de inteligência é dado por uma nota, e essa nota qualifica a vida do/a jovem estudante.

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  • Tentando nos desvencilhar dos pré-conceitos e posturas superficiais a cerca dos processos educacionais de/para jovens, pensamos ser importante re-afirmar Educação, como um processo de formação da competência humana, social e política que encontra no conhecimento inovador a alavanca principal da intervenção ética e moral da realidade onde vive.
  • 3 – Espiritualidade: reconhecer o que nos move.
  • Da mesma forma que há uma diversidade muito grande de opções religiosas e suas formas de conceber o mundo, as pessoas, a ética e a moral, há também uma diversidade muito grande de Juventudes, com muitas formas de se posicionar no mundo onde vivem.

A diversidade no ambiente religioso das práticas de fé tem mostrado, ou seja, as diversidades de religiões tem revelado, neste últimos tempos, um desafio muito grande. Basta olharmos para as intolerâncias e fundamentalismos. Basta olharmos para a dificuldade da vivência de um Ecumenismo ou Diálogo Inter-religioso genuíno e sincero.

De alguma forma, a diversidade das religiões também nos mostra uma visão diversificada do/a jovem. Algumas, por certo, aparentemente equivocadas e pré-conceituosas.

A essas imagens, queremos desvelar o que está por trás delas, sugerindo o conceito de “paradigma”, isto é, há muitos paradigmas, muitas vozes ocultas e históricas presente nas religiões que consideram, caracterizam, taxam o/a jovem de uma forma.

O Primeiro paradigma diz respeito à “Juventude como período preparatório”. Por ser uma etapa da vida que prepara o/a jovem para alguma coisa, para um emprego, para um futuro, este paradigma, em muitas religiões, considera a Juventude a partir de uma concepção marcada exclusivamente pelo viés biológico.

Muitas das experiências próprias da etapa juvenil, principalmente no que diz respeito à dimensão da sexualidade do/da jovem, são vistas dentro do aparato moral e ético de determinada religião como uma experiência negativa que, ao ser vivida, precisa ser purificada, precisa ser redimida da experiência sexual vivida, como algo vivido que “vai passar”. Por estar em um período da vida sempre de preparação, esse paradigma revela uma postura das religiões que consideram o Jovem sempre aprendiz, sempre passivo e, por isso, deve ser “educado”. A referência religiosa do líder, conselheiro, pastor, padre, etc. acaba, dentro da religião, se tornando no educador que inicia o/a jovem no aparto simbólico, ético e moral da religião.

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O segundo paradigma diz respeito à “juventude como etapa problemática”. É, talvez, o paradigma que mais se enraíza nas práticas religiosas em relação ao jovem. Na verdade, são vozes ocultas que, ao longo da história, vem se repetindo.

Vozes que afirmam o/a jovem como aquele/a que é inútil, que não tem nada para oferecer à religião e, por isso mesmo, está ali para apenas se “salvar”, para se redimir dos muitos pecados e muitos males que cometeu na sua vida devassa de jovem.

Por considerar ser uma etapa de vida marcada pelo pecado, a postura institucional religiosa chama e se aproxima do/da jovem com métodos que partem do princípio de que a juventude é um poço vazio de sentido e, por isso mesmo, também, precisa se redimir.

É o paradigma que revela os conflitos geracionais introjetados na vida do jovem dentro, muitas vezes, de sua própria família, mas também em relação à própria instituição religiosa, na figura de seus líderes: geralmente adultos, legalistas e fechados.

O terceiro paradigma, que ao longo da experiência das aulas foi se revelando e se sugerindo como o ideal, é o que diz respeito à “Juventude como ator estratégico do desenvolvimento”.

O/a jovem aqui é visto como aquele/a que tem potencial, que é sujeito de direitos que, ao longo da história e da sua vida, parece ter sido negado como direito natural e divino.

Esse paradigma, de alguma forma, toca no próprio sentido da religião enquanto instituição que oferece sentido e verdade para o/a fiel, ou não. Afirmamos isso por reconhecer que a religião, enquanto instituição social, e historicamente situada, não pode e deve estar alheia ao que existe ao ser redor.

Muitas delas, se prendem à discursos espiritualizantes alienados do chão onde pisam. A experiência religiosa movida por esse paradigma tende a considerar o/a jovem como sujeito de Direitos, como aquele/a que é protagonista do seu próprio futuro, de sua busca por sentido e felicidade.

O jovem aqui, mais do que uma agente passivo da instituição religiosa, é considerado como aquele/a que, exatamente pelo que vive e sente, é chamado e interpelado, pela fé, a participar ativamente da religião e, sobretudo, a renová-la e transformá-la.

É dessa forma que, reconhecer a dimensão da espiritualidade juvenil como processo de formação humana, parece-nos sugerir o próprio sentido da religião enquanto instituição que promove, ou não, aprendizado em seu conteúdo e proposta de vivência para o/a jovem.

Por isso, para elas mesmas, é uma reflexão de interpelação para superar posturas de dominação, autoritarismo e manipulação.

Por isso, seu sentido parte de uma interpelação que está além de si, porque está num chão concreto onde o/a jovem vive, sente, olha, ouve e, sobretudo, faz.

Publicado por: José Wilson Correa Garcia

O texto publicado foi encaminhado por um usuário do site por meio do canal colaborativo Meu Artigo. O Brasil Escola não se responsabiliza pelo conteúdo do artigo publicado, que é de total responsabilidade do autor. Para acessar os textos produzidos pelo site, acesse: http://www.brasilescola.com.

Como a religião ajuda os jovens a se manterem longe de tendências suicidas

Em tempos de Baleia Azul e do seriado da Netflix 13 Reasons Why, não é incomum se deparar com discussões sobre o suicídio de adolescentes em que a religião acaba entrando no assunto.

Muitos a veem como um fator de prevenção, ao passo que é preciso também ter cuidado para não subestimar um problema psicológico sério, achando que a prática religiosa bastaria para solucioná-lo.

Mas a vivência de uma religião pode, de fato, afastar um jovem de tendências suicidas?

“Sim e não”, responde ao Sempre Família o teólogo Alex Villas Boas, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Ele recorre ao psicólogo austríaco Viktor Frankl, que criou a logoterapia a partir de sua experiência como prisioneiro em cinco campos de concentração durante a II Guerra Mundial. “No campo de concentração pessoas de todas as classes sociais, de diversos credos e com diferentes níveis de cultura chegavam ao suicídio.

Contudo, Frankl via que alguns grupos tinham mais condições de resiliência: os artistas, poetas, intelectuais e pessoas que tinham alguma fé”, conta Villas Boas.

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“Isso se dava não por serem mais letrados ou religiosos, mas porque a sua cultura e a sua religião eram utilizadas para refletir sobre questões profundamente existenciais, como o sofrimento, a dor, a frustração, a injustiça, a esperança e o sentido da vida, e assim conseguir crescer interiormente com aquela situação”, explica o teólogo.

Existem, porém, formas de abordar a religião que não contribuem para alcançar uma compreensão mais profunda do sentido da própria existência.

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“Uma experiência equivocada de religião, que sirva de anestésico da consciência, atribuindo tudo o que acontece na vida a Deus, não permite, ou ao menos dificulta muito, compreender de modo responsável as causas complexas que promovem o sofrimento”, afirma Villas Boas.

Adolescência e busca de identidade

É justamente na adolescência que se intensifica a procura por algo que confira um sentido à própria existência.

“Nesse período, o jovem inicia um processo de diferenciação em relação aos pais, elegendo de modo mais autônomo valores e objetivos que irão nortear sua própria vida”, explica o psicólogo Luís Henrique Michel.

“Nessa transição, às vezes se experimenta um ‘esvaziamento de sentido’: aquilo que anteriormente tinha valor deixa de ter, antes mesmo que se possam encontrar novos sentidos ou eleger novos caminhos para trilhar”, diz ele.

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É aí que uma confissão religiosa pode oferecer elementos que ajudem a encontrar um norte. “A religião pode ocupar esse espaço na existência de alguns, fortalecendo o vínculo com a vida, auxiliando-os na tarefa – às vezes muito difícil – de atribuir novos sentidos ao mundo que é vivido por eles”, esclarece Michel.

O psicólogo também alerta para certas formas de religião – independentemente da confissão religiosa – que podem agir no sentido contrário.

“O apego intenso a determinada doutrina moral, por exemplo, pode dar a impressão de que existe uma espécie de manual no qual é possível se apoiar para responder qualquer pergunta.

Isso passa a ser preocupante na medida em que esse manual não contemple a possibilidade de acolher determinadas características dessa pessoa, enrijecendo seu modo de ser, pensar e agir”, explica.

“Certamente, nesses casos, a prática religiosa será vivida com um sofrimento psíquico significativo – o que em última instância pode motivar um suicídio, ainda que não seja adequado falar em uma relação de ‘causa e efeito’”, afirma o psicólogo.

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Para a psicóloga Judith Coelho Dipp, a espiritualidade é uma dimensão estruturante da vida humana que precisa ser trabalhada desde a infância.

“A criança que cresce em sua dimensão espiritual, através de uma religião, de uma crença ou da fé em algo que a transcende, certamente terá uma vida mais repleta de sentido e mais consistente, o que pode lhe dar subsídios para enfrentar as crises de identidade e os vazios existenciais peculiares da adolescência”, diz ela.

“Adolescentes são essencialmente carentes de informação, de formação e de elementos que os ajudem a compreender quem são e qual a razão e o sentido de sua existência.

Bombardeados de informações por todos os lados, acabam sendo presas fáceis para todo tipo de sedução filosófica, psicológica e mesmo religiosa.

Por isso precisam ser muito bem orientados e amparados, sobretudo dentro de casa”, alerta a psicóloga.

Cristianismo e esperança

O padre Waldir Zanon Jr.

, assessor do Setor Juventude da Arquidiocese de Curitiba, conta que já lidou com casos de jovens que conseguiram superar tendências suicidas a partir da fé: “Já atendi jovens que pensaram no suicídio, que narram isso até mesmo em confissões. Com a experiência da fé, eles conseguiram realcançar o sentido da sua vida a partir da esperança de superar o problema pelo qual estão passando”, conta ele.

“No cristianismo, a experiência de fé vem junto com a esperança. Um Deus que é amor e que morre por nós nos leva a ter esperança neste mesmo Deus”, explica o padre. “A entrega de Cristo por nós nos faz ver que a vida é um dom precioso, a ponto de Deus mandar o seu Filho ao mundo como vítima pascal a fim de nos salvar”, diz.

É também a opinião de Matheus Machiaveli, responsável pelo trabalho com adolescentes na Igreja Batista do Bacacheri, em Curitiba. “Cristo nos mostra que somos amados e que, mesmo que no momento não estejamos aparentemente completos e inseridos em um meio cercado de bondade, podemos ter uma vida que reflita a vida, e não a morte”, diz ele.

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“Eu mesmo tive a oportunidade de acompanhar um rapaz de 22 anos, estudante, com amigos e uma vida social ativa. Seu problema estava em lidar com a separação dos pais e a falta de cuidado por parte da mãe, com quem morava.

Isso gerava em sua vida uma sensação de total abandono e desprezo, o que, cumulado com a falta de emprego e desilusões amorosas, fazia dele um potencial suicida”, conta Machiaveli, que interveio no momento em que o rapaz tentava cortar os próprios pulsos.

“Após diversas conversas e através de um relacionamento intencional com o Criador, seu comportamento começou a se transformar, sua raiva e ira foram substituídas por amor e cuidado, sua impaciência e autodestruição por amor próprio e domínio próprio”, relata Machiaveli.

Psicologia ou religião?

É claro que a religião não deve ser vista como uma substituta do acompanhamento psicológico, o que pode acarretar consequências graves quando se trata de um sofrimento psíquico sério.

Isso não significa que psicologia e religião não se relacionem.

Para Michel, “ambas podem se complementar na busca de uma pessoa por autoconhecimento, por mudanças em seu modo de ser ou no enfrentamento de um momento de dificuldade”.

É também o que pensa Villas Boas. “Uma experiência autêntica da religião, enquanto experiência humanizadora, pode ter um efeito terapêutico positivo. Do mesmo modo, uma autêntica experiência de terapia pode ter um efeito religioso positivo, enquanto ajuda a ter uma visão mais equilibrada da condição humana, sem transferir responsabilidades para Deus”, diz o teólogo.

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