Como E Que O Lince Iberico E Protegido Em Portugal?

O Programa Lince tem como principal objetivo assegurar a conservação e a gestão a longo prazo de áreas com habitat Mediterrânico adequado ao lince-ibérico (Lynx pardinus) em Portugal.

A Liga para a Protecção da Natureza, em parceria com a organização internacional Fauna & Flora International (FFI), lançou, em 2004, o Programa Lince, que conta com a participação e o apoio técnico e científico de um grupo composto pelos principais especialistas nesta espécie em Portugal.

Como E Que O Lince Iberico E Protegido Em Portugal? Como E Que O Lince Iberico E Protegido Em Portugal?

Lince-ibérico; fotos por Carlos Nunes

“O Lince-Ibérico”

O lince-ibérico é considerado o felino mais ameaçado do mundo e o único considerado Criticamente em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza – UICN. 

Durante o século XX a distribuição desta espécie sofreu um acentuado declínio que teve como consequência a redução e o desaparecimento de algumas das suas populações, ficando estas cada vez mais dispersas e afastadas.

Este declínio deveu-se sobretudo a dois factores: a regressão da sua principal presa, o coelho, como resultado de doenças virais (mixomatose, febre hemorrágica), abandono das práticas agrícolas tradicionais e algumas práticas cinegéticas desadequadas; e a perda e deterioração do seu habitat, os matagais e bosques Mediterrânicos, nomeadamente devido à sua substituição por plantações de espécies florestais exóticas e/ou de crescimento rápido (ex. eucalipto, pinheiro-bravo), à construção de grandes infra-estruturas (ex. barragens, estradas) e aos recorrentes incêndios florestais. Outros factores como a morte não natrural (ex. atropelamentos, furtivismo), doenças (ex. tuberculose bovina) e perturbação nas áreas de reprodução representam sérios desafios à actual sobrevivência da espécie.

Este conjunto de ameaças levou a que, segundo as investigações mais recentes, actualmente a população total de lince-ibérico esteja reduzida a cerca de 200 indivíduos adultos, conhecendo-se actualmente apenas duas populações reprodutoras em Espanha, ambas na Andaluzia, nas regiões da Serra Morena Oriental e de Doñana.

Em Portugal, apesar de actualmente não serem conhecidas populações reprodutoras da espécie, ocorrem registos esporádicos, alguns dos quais de animais provenientes de populações espanholas à procura de novos territórios.

Foi o caso do último registo, obtido em 2010 (passados 9 anos do anterior registo) na região de Moura / Barrancos, uma das áreas de intervenção do Programa Lince. 

O lince-ibérico é uma espécie emblemática, que já foi alvo de campanhas para reconhecimento da situação da espécie em Portugal (ex. Campanha LPN/ICN “Salvemos o Lince e a Serra da Malcata”- primeira campanha de sensibilização sobre o lince-ibérico).

Trata-se do único grande mamífero carnívoro endémico da Península Ibérica e o mais ameaçado da Europa. Só uma intervenção urgente poderá travar o seu processo de extinção e evitar o primeiro desaparecimento de um felino na Europa nos últimos 2000 anos.

A LPN e a Lisboa Editora produziram, em 2010, o vídeo “O Lince-Ibérico”. Este vídeo sobre um dos felinos mais ameaçados do mundo, pretende sensibilizar a população em geral e em particular a escolar para as particularidades do lince-ibérico, os riscos a que está sujeito e as medidas que estão a ser realizadas para a sua recuperação.

Parte I

Parte II

Preservar o lince-ibérico

Único no mundo, o lince-ibérico está classificado como estando em perigo crítico de extinção na Península Ibérica, com apenas, calcula-se, 100 animais em liberdade. É já considerado extinto em Portugal, e aqui na Toprural lançamos o alerta: é preciso parar a destruição do habitat deste animal único.

Como E Que O Lince Iberico E Protegido Em Portugal?Com o nome científico de Lynx pardinus, o lince-ibérico tem uma pelagem castanho-avermelhada, coberta de manchas pretas que podem ser desde pequenos pontos a riscas. Com uma pequena cauda, ‘pincéis’ na ponta das orelhas, tem um peso médio entre os 9 kg (fêmeas) e os 12 kg (machos). A sua alimentação assenta essencialmente em coelhos, mas caça também outros pequenos mamíferos. Habitam em bosques, matagais ou matos densos, sendo bastante furtivos e de difícil detecção.

A manutenção das condições essenciais para a sua sobrevivência é essencial. A caça excessiva dos coelhos-bravos é um dos principais pontos negativos e que faz com que o animal já não esteja presente em território nacional. Ainda pior do que destruir o habitat é matar mesmo o animal e recentemente foi encontrado mais um animal morto.

Mas tanto Espanha como Portugal estão a desenvolver esforços para a reprodução dos animais em cativeiro, e posterior introdução na natureza.

Em território luso encontra-se o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, na zona de Silves, mas numa localização que se quer desconhecida aos curiosos.

Isto porque os animais precisam de toda a tranquilidade e o mínimo contacto com o ser humano possível, de forma a ser mais fácil a sua introdução no meio selvagem.

A importância da conservação será o tema do 1.º Seminário do Lince-Ibérico em Portugal, a decorrer na Universidade do Algarve, em Faro, dias 28 e 29 de Outubro. É dirigido não só a investigadores, mas a todos os interessados na temática do ambiente.

A caça ilegal, os atropelamentos, a caça intensiva do principal alimento (os coelhos), a destruição do habitat e a utilização de armadilhas são as ‘armas’ que têm dizimado uma população que já não existe em Portugal. Vamos, juntos, mudar mentalidades e, estamos certos, o lince-ibérico será novamente um animal livre e não criado apenas em centro de recuperação.

Proteção do territorio

A proteção do território é uma estratégia usada para a conservação dos valores naturais, paisagísticos e culturais de uma dada zona para além de algumas ferramentas legais de conservação já existentes, complementando e facilitando o seu desenvolvimento. Neste contexto, o significado de proteção é o trabalho em comum entre dois ou mais agentes sociais, com interesse em conservar o património natural e a biodiversidade, acordado de forma voluntária entre as partes.

No caso do lince ibérico, a proteção do território materializa-se com o estabelecimento de uma parceria, ou seja, um Acordo de Colaboração entre as entidades de custódia do território (administrações públicas e algumas entidades sem fins lucrativos do projeto) e os proprietários, gerentes ou associações de caça das áreas no âmbito do projeto Life+IBERLINCE. Este foi o suporte à legislação estatal espanhola na Lei 42/2007, do Património Natural e da Biodiversidade.

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A Consejería do Meio Ambiente e do Ordenamento do Território tem vindo a desenvolver este instrumento jurídico, Acordo de Gestão ou Colaboração (artigo 5 parágrafo 1 e 4 da Lei 8/2003, da Flora e Fauna Silvestre), para a conservação do lince ibérico desde 2002.

Neste projeto, os acordos baseiam-se na implementação de melhorias dos habitats para o coelho e para o lince, em troca de uma gestão sustentável das suas propriedades, respeitando e mantendo, no futuro, determinadas condições de proteção.

Com a proteção do território pretende-se gerar e responsabilizar para que ocorra uma conservação e fazer-se um bom uso dos recursos naturais a longo prazo.Os principais compromissos estabelecidos no âmbito do acordo são:

  1. Proteger o lince e o seu habitat; 

  2. Vigiar os terrenos no sentido destes estarem livres de armadilhas ilegais; 

  3. Incentivar uma melhor vigilância da propriedade; 

  4. Facilitar o trabalho de controlo e monitorização do lince; 

  5. Disponibilizar terrenos para a realização das ações de melhoria e gestão do habitat; 

  6. Compatibilizar os usos dos terrenos com as exigências do lince e criar um ambiente de confiança favorável à espécie; 

  7. Respeitar a longo prazo as ações efetuadas nas propriedades dentro do âmbito dos projetos LIFE Natureza.

Nos acordos inclui-se dados e características da propriedade, no caso de propriedades privadas, e do concessionário da zona de caça no caso de Associações de Caçadores, juntamente com as cláusulas que definem o objetivo do mesmo, as ações e obrigações específicas e gerais do Proprietário/Gerente por uma parte, e do Beneficiário/Sócio por outra. Os acordos são efetuados pelo período de tempo de duração do projeto renovável anualmente até à conclusão do mesmo, sendo pelo proprietário do terreno e pelos representantes legais do Beneficiário/Sócio.

Além disso, as convenções são uma forma ativa de participação na conservação do lince ibérico levando proprietários e gestores envolvidos na conceção das atividades a receberem informação direta sobre a situação da espécie.

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Arquivo da etiqueta | lince-ibérico

Por Carnivora a 9 Fevereiro, 2021 em Notícias

Os animais “nasceram em 2020, em três dos quatro centros de reprodução em cativeiro existentes na Península Ibérica”.

O ano de 2020 foi “particularmente favorável ao lince em Portugal.

Sete exemplares de lince-ibérico, espécie considerada como “Criticamente em Perigo” em Portugal, vão ser libertados este mês no país, o total do ano, anunciou esta terça-feira […]

Por Carnivora a 11 Abril, 2020 em Notícias

As duas primeiras crias de lince-ibérico de 2020 nasceram na segunda-feira, no Centro Nacional de Reprodução de Lince-Ibérico (CNRLI), em Silves. Segundo uma nota do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a lince fêmea Jabaluna teve três crias, duas delas “aparentemente saudáveis” e uma terceira que “acabaria por não vingar após o parto”. […]

Por Carnivora a 5 Outubro, 2019 em Notícias

Desde o início do ano já morreram pelo menos quatro linces-ibéricos “às mãos de caçadores” nos Montes de Toledo, na comunidade autónoma de Castilla-La Mancha, no Centro de Espanha, denunciou a organização espanhola Ecologistas em Acção (Ecologistas en Acción). Os animais faziam parte do programa de reintrodução da espécie LIFE+Iberlince em Portugal e Espanha. As autoridades de Castilla-La […]

Por Carnivora a 10 Junho, 2019 em Notícias

A população de lince-ibérico no vale do Guadiana tem mais dez crias confirmadas, informou esta terça-feira o Ministério do Ambiente em comunicado, no qual se estima que 12 fêmeas possam ter-se reproduzido este ano. A confirmação das dez novas crias foi feita por técnicos do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que se concentram […]

Por Carnivora a 20 Fevereiro, 2019 em Notícias

Mais dois linces-ibéricos foram libertados no Alentejo para reforçar a população selvagem da espécie a viver no Parque Natural do Vale do Guadiana (PNVG).Trata-se de uma fêmea, Paprika, nascida no Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico, em Silves, e de um macho do Centro La Granilla, em Espanha.  Já este ano tinham sido soltos na natureza […]

Por Carnivora a 6 Janeiro, 2019 em Notícias

É o segundo lince a morrer atropelado no mesmo local, na estrada nacional 122, num período de meses. ICNF admite que aquele é “um ponto negro” de atropelamentos para a espécie. Mistral, um macho de lince-ibérico, foi encontrado morto, nesta quarta-feira, na estrada nacional 122, a cerca de dez quilómetros de Mértola, distrito de Beja. […]

Por Carnivora a 6 Julho, 2018 em Notícias

Lítio, um lince-ibérico macho, foi solto pela terceira vez na zona do Vale do Guadiana pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). O felino tinha sido capturado em 6 de junho em Barcelona depois da coleira de geolocalização ter deixado de emitir sinal. Desde segunda-feira que está novamente na natureza, cumprindo o […]

Por Carnivora a 7 Junho, 2018 em Notícias

Lítio não era visto em Portugal desde 2016. Atravessou o país vizinho até chegar à Catalunha. (mais…)

Por Carnivora a 6 Junho, 2018 em Notícias

Lítio estava desaparecido de Portugal desde 2016 até ser avistado nos últimos dias na Catalunha. (mais…)

Por Carnivora a 5 Junho, 2018 em Notícias

Técnicos veterinários da Catalunha estão a tentar capturar o lince-ibérico “fugido” do Alentejo para tentarem repô-lo no seu habitat natural. O lince-ibérico é uma espécie protegida por estar em vias de extinção. (mais…)

Lince-Ibérico Reproduz-se em Centros de Portugal e Espanha | National Geographic

No início do século XIX, a espécie do lince-ibérico, denominado Lynx pardinus, estava estimada em cerca de 100.000 animais, distribuídos por Portugal e Espanha. No início do século XXI, já só restavam menos de 100.

Num trabalho em conjunto, Portugal e Espanha criaram o Programa Ex-Situ de reprodução em cativeiro, cujo objetivo consiste em recuperar habitats e reproduzir animais.

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Depois de vários anos categorizados como espécie criticamente em perigo, pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a espécie do lince-ibérico desce, desde 2015, para a categoria em perigo de extinção. Chegou a ser considerada a espécie de felino mais ameaçada do mundo.

  • O que coloca o lince-ibério sob ameaça – Destruição de habitat por incêndios florestais; – Escassez de alimento por surtos de doenças nas espécies presas; – Combinação dos dois anteriores, por efeito da desertificação;
  • – Efeitos exacerbados pelas alterações climáticas.

No ano de 2019 nasceram, ao todo, 50 crias de lince-ibérico e apenas 35 sobreviveram. Destas, 30 estão a ser libertadas na natureza, desde o início de 2020, quer em Portugal quer em Espanha.

  1. À semelhança dos anos anteriores, cerca de 90% das crias que nasçam no ano de 2020 serão preparadas para a sua libertação na natureza, mais concretamente, no Vale do Guadiana, Andaluzia, Castela-La Mancha e Extremadura espanhola.
  2. As crias que permanecem em cativeiro, passam a integrar o grupo reprodutor do Programa de Conservação Ex-situ, com o objetivo de manter uma adequada diversidade genética e equilíbrio demográfico.
  3. É com base nos parâmetros reprodutivos registados entre 2005 e 2019, nesse mesmo programa, que se estima que para 2020 nasçam até 45 crias.

As novas crias de lince-ibérico O primeiro nascimento do ano ocorreu a 21 de março, resultante do emparelhamento de Coscoja com o macho Plumón. O segundo parto ocorreu logo no dia seguinte, desta vez longe do raio de alcance das câmaras de vigilância o que, até ao momento, ainda não permitiu verificar quantas crias nasceram.

Estes primeiros nascimentos de lince-ibérico, das fêmeas Coscoja e Cynara, ocorreram no Centro de La Olivilla, em Andaluzia, Espanha.

O centro iniciou-se a 18 de janeiro de 2007, com os seus primeiros exemplares de lince-ibérico, Camarina e Cuco. Em março de 2009, presenciou-se ao nascimento da primeira ninhada. Desta, de nome Dama, nasceram mais duas crias.

São cinco os centros de reprodução de lince-ibérico em Portugal e Espanha: La Olivilla – Andaluzia, Espanha. Aberto desde 2007, tem oito casais reprodutores; Centro Nacional de Reprodução de Lince-ibérico – Silves, Portugal.

Aberto desde 2009, tem seis casais reprodutores; El Acebuche – Parque Nacional de Doñana, Espanha. Aberto desde 1992, tem seis casais reprodutores; Zarza de Granadilla – Cáceres, Espanha. Tem cinco casais reprodutores; Zoobotanico de Jerez – Cádiz, Espanha.

Aberto desde 2005, tem um casal reprodutor.

Existem, de momento, 26 casais reprodutores, nos cinco centros de reprodução em cativeiro. O número de casais por cada centro, foi definido tendo em conta as instalações que cada um oferece e as necessidades dos animais, para serem libertados nas várias áreas de reintrodução.

lince-iberico | PAeM

RESUMO

Protagonista de uma das maiores campanhas de defesa ambiental em Portugal, em 1979, o lince-ibérico venceu a indústria da celulose na Serra da Malcata. Apesar de protegido por uma reserva natural, fatores externos quase levaram à sua extinção nas duas décadas seguintes.

No entanto, os projetos de conservação que unem hoje Portugal e Espanha, através dos centros de reprodução em cativeiro, conseguiram devolver o lince-ibérico à floresta.

Apesar do sucesso desta iniciativa, o governo autorizou em fevereiro de 2016 a caça na Serra da Malcata, o que tem vindo a ser fortemente contestado por várias organizações e por partidos políticos como o Bloco de Esquerda-BE e o Partido Pessoas-Animais-Natureza-PAN, que fizeram aprovar em abril na AR duas propostas de defesa da proibição da caça.

Considerado por uma década e meia – de 1992 a 2015 – como uma espécie em alto risco de extinção, o lince-ibérico tem visto a sua população aumentar graças aos esforços conservacionistas que unem Portugal e Espanha.

Se até ao século XIX, o lince se encontrava distribuído por quase toda a península ibérica, já em 1950 a sua distribuição reduziu e dividiu–se em duas populações – uma nortenha, abrangendo partes da Galiza e do norte de Portugal, e outra no sul, em várias regiões de Espanha – e, entre 1960 e 1990, a presença do lince sofreu uma regressão de cerca de 80%, tendência que se manteve até à atualidade (CLAVERO; DELIBES, 2013).

A principal causa da diminuição do lince-ibérico ao longo do séc. XX foi o desaparecimento, por doença, da sua principal fonte de alimento: o coelho-bravo. Enquanto um lince-ibérico macho necessita de um coelho por dia, uma fêmea grávida come três coelhos por dia.

Com fraca capacidade de se adaptar a outro tipo de alimentação, quando o vírus altamente contagioso conhecido por mixomatose, se espalhou na península ibérica em 1952, matando os coelhos, o lince quase desapareceu.

Afetado pelas repercussões do desenvolvimento humano, ele também teve e tem de lidar com a perda do seu habitat principal, o matagal, como consequência da construção de barragens e estradas, e das mudanças no uso do solo (como o monocultivo de árvores) (FERRERAS et al., 2010).

Foi no final da década de 70 do século XX que o lince-ibérico se tornou então protagonista da maior campanha pela defesa de uma espécie animal em Portugal, quando se viu ameaçado por uma árvore, o pinheiro de Oregon (pseudotsuga), que iria ser plantado em massa na Serra da Malcata, com vista à produção de celulose.

Alarmado com a potencial destruição do habitat do lince-ibérico – que ainda vivia na região – o biólogo Luís Palma criou então, junto com a Liga para a Proteção da Natureza-LPN, a campanha Salvemos o Lince e a Serra da Malcata!, que marcou o ano de 1979.

A associação tinha poucos recursos, mas conseguiu mobilizar a própria máquina da administração central, que se juntou à luta. O Serviço Nacional de Parques, Reservas e Património Paisagístico pagou a elaboração e impressão de um cartaz icónico, com a face de um lince-ibérico e os dizeres da campanha.

Os cartazes foram impressos e distribuídos pelas escolas, e mais de 60 mil assinaturas foram recolhidas, num abaixo-assinado que acabou por travar o projeto de florestação.

O estado acabou por a estabelecer um acordo para compensar os promotores com terrenos perto de Sines, e a Portucel viu-se obrigada a investir em outras zonas do país. Em 1981, a serra da Malcata foi  classificada como Reserva Natural (GARCIA, 2012).

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A campanha pelo lince da serra da Malcata figura como um marco político assinalável  na história da política ambiental em Portugal (SCHMIDT, 2008). No entanto, a campanha, apesar de bem sucedida, não garantiu ao felino uma vida futura rica em saúde e liberdade.

Além da mixomatose, uma nova doença, a hemorrágica viral, viria a arrasar em vagas sucessivas as populações de coelhos bravos, provocando o desaparecimento do lince-ibérico não só da Serra da Malcata, como de todo o país.

Durante cerca de vinte anos não houve políticas eficazes para trazer o lince-ibérico de volta.

Até que eclodiu uma nova polémica ambiental na década de 2000, provocada pela construção de uma barragem em Odelouca, na serra algarvia, outra zona de habitat do lince-ibérico, que alertou a sociedade para a necessidade da sua protecção (GARCIA, 2012).

O confronto entre ambientalistas, o governo que era o dono da obra, e a Comissão Europeia-CE que a financiava, levou a um acordo que viabilizou a barragem, mediante a condição de se proceder à construção de um centro de reprodução do lince-ibérico.

Assim, surgiu, em maio de 2009, o primeiro Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro para o Lince-Ibérico, na herdade das Santinhas, em Silves, resultado de um esforço concertado e bem sucedido entre Portugal e a Espanha.

Depois de  triplicar o número de linces-ibéricos na Andaluzia entre 2002 e 2012, deu-se uma intensificação da reintrodução de linces, com cinco centros de reprodução em cativeiro na península ibérica – quatro em Espanha e um em Portugal, através do programa LIFE+Iberlince (GARCIA, 2015).

Com a libertação de Mesquita, Malva e Mel, em fevereiro de 2016, subiu para 17 o número de linces-ibéricos a viverem livres na natureza no concelho de Mértola desde dezembro de 2014, quando começou a libertação de linces em território português e foi colocado nas estradas o novo sinal de trânsito: Atenção, linces.

Entretanto, em maio e junho deste ano já nasceram duas ninhadas no Parque Natural do Vale do Guadiana, o que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas-ICNF considera ser um marco na conservação do lince-ibérico, uma vez que, desde há décadas, não se registava reprodução em ambiente natural com êxito comprovado em território nacional (TSF, 2016).

O trabalho desenvolvido no âmbito dos projetos LIFE/Lince permitiu que a espécie deixasse de ser considerada pré-extinta: em 2015 abandonou a categoria de alto risco para voltar a estar classificada como espécie em risco na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza-UICN. Ainda assim, o lince-ibérico continua sendo a espécie de felino mais ameaçada no mundo, e o carnívoro que mais corre perigo na Europa (GARCIA, 2015).

Apesar do sucesso dos programas de conservação, a decisão do governo português, a 8 de fevereiro de 2016,  de voltar a permitir a caça na Serra da Malcata, parece vir contrariá-lo, uma vez que, para a Associação Nacional de Defesa da Natureza-QUERCUS, além de não ter qualquer fundamentação científica, esta permissão pode colocar em causa a recuperação de várias espécies na região, como o corço, o veado ou o coelho-bravo, e ainda de espécies em perigo como o lince-ibérico, o lobo-ibérico ou o abutre-preto. Acusando o governo de ceder às pressões do lobby da caça, a QUERCUS adverte que está prevista a libertação de linces-ibéricos nesta área protegida, salientando que a reserva natural  já enfrenta graves problemas de caça furtiva, pelo que a opção de permitir a caça nesta área protegida só vai agravar os problemas de fiscalização, e lembra que o abate a tiro é uma das principais causas de morte não natural do lince-ibérico e do lobo-ibérico (TVI 24H, 2016).

Assim, com a discussão e a aprovação em abril de 2016 na AR dos projetos do Bloco de Esquerda-BE e do Partido Pessoas-Animais-Natureza-PAN que defendem a proibição da caça na Serra da Malcata, aumenta a pressão sobre o governo (ESQUERDA.NET, 2016).

A soma dos 17 linces ibéricos libertados e vivos e das cinco crias nascidas no Parque Natural do Vale do Guadiana perfaz um total de 22 linces ibéricos que hoje vivem livres na natureza em Portugal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CLAVERO, Miguel; DELIBES, Miguel. Using historical accounts to set conservation baselines: the case of Lynx species in Spain. Biodiversity Conservation. 2013.

ESQUERDA.Net. Parlamento quer proibição da caça na Serra da Malcata. Esquerda.net. 29 abr. 2016.

FERRERAS, P.; RODRIGUES, A.; PALOMARES, F.; DELIBES, M. Iberian lynx: the uncertain future of a critically endangered cat. In: Macdonald, D.W. & Loveridge, A. Biology and Conservation of Wild Felids Oxford, Reino Unido: Oxford University Press, p. 507–520. 2010.

GARCIA, Ricardo. Uma barragem no Algarve salvou a campanha da Malcata. O Público, 16 dez. 2012.

GARCIA, Ricardo. Lince ibérico deixa de ser uma espécie “criticamente em perigo”. O Público, 23 jun. 2015.

SCHMIDT, Luísa. Ambiente e políticas ambientais: escalas e desajustes – marcos da política ambiental em Portugal (1967-2005), Itinerários : a investigação nos 25 anos do ICS/ org: Manuel Villaverde Cabral. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2008.

TSF. Nasceu a primeira cria de lince-ibérico em ambiente natural, TSF Radio Notícias, 5 mai. 2016.

TVI24h. Governo volta a permitir caça na Reserva Natural da Serra da Malcata. 12 fev. 2016.

30 de junho de 2016

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