Como E Quando Surgiu O Escutismo?

Como E Quando Surgiu O Escutismo?

CNE: Corpo Nacional de Escutas

Porquê Escuteiro?

Sinceramente, tudo começou porque a minha mãe queria que eu o experimentasse, pois ela própria tinha sido Guia em pequena; então, com apenas 5 anos, ingressei em algo que mal compreendia e que nem sonhava que iria acabar por se tornar numa das maiores bases para os meus valores como ser humano.

Há algum tempo atrás, escrevi um texto sobre o que para mim é o escutismo e tudo o que sentia sobre o mesmo… acho que responde muito bem à pergunta:

Lembro-me de noites a assar chouriço debaixo de um céu estrelado ou numa igreja assombrada com uma chefe a dizer “despachem isso que já está na hora”, mas que no meio de tantas gargalhadas e sorrisos acaba por também trincar um bocadinho!
Lembro-me de raides ou caminhadas intermináveis nas quais não deixamos ninguém para trás!

Lembro-me de uma grande montanha capaz de tornar o mais v

elho no mais novo, pois nessa subida “somos um”. E então, chegamos ao topo e podemos dizer: “Cheguei ao fim! E foi lindo!”
Lembro-me do cheiro do fumo que fica numa manta depois de um fogo de concelho, do sabor de bifes panados a terra e de arroz cerelac, e que maravilhoso sabor! Porquê?!!!
Mas o melhor… Lembro-me de sorrisos enrugados, de obrigados perdidos e de olhares que só se entendem no momento, tudo por um simples gesto como um “Olá!”

A vida é uma coisa engraçada…

O MEU PERCURSO

Os Lobitos são uma Secção engraçada! Aproveita-se da enorme imaginação das crianças e envolve-se num imaginário baseado no Livro da Selva, através do qual ensina-lhes a base dos valores que mais tarde as acompanharão na sua vida escutista.

Nos Lobitos, a promessa não é bem uma promessa, pois não é feita sobre as bandeiras, isto porque numa idade tão nova esta promessa não teria grande valor, pelo simples facto de não a entenderem bem. Sendo assim, os Lobitos funcionam como uma espécie de “ano 0”.

Entrei nesta secção com 5 anos e já não me lembro bem da minha passagem por esta secção… contudo, o momento mais marcante foi o meu primeiro ACAREG (Acampamento Regional) no meu último ano de lobito.

Exploradores

Esta Secção trabalha com uma idade mais complicada, pois é a idade em que se passa pela puberdade e como tal “as hormonas andam aos saltos”! Mas também é aqui que se faz a primeira Promessa “a sério”; apesar de eu não concordar muito bem com isso, pelo simples motivo de que a maturidade ainda não está lá… são poucos os que realmente entendem o que estão a prometer. Eu não entendi, confesso! Dizia o que tinha decorado, mas nunca tinha pensado muito sobre isso… Para nós, tudo se resumia a um conjunto de palavras que tínhamos de reproduzir, de modo a receber um lenço novo no final!

Como E Quando Surgiu O Escutismo?

Nesta Secção tive algumas atividades que recordo, como um ou outro Dia do Explorador, mas nada significativamente marcante. Foi no final desta etapa que comecei a duvidar ou a questionar mais sobre o que é que me fazia estar ali ainda.

Pioneiros

Para mim, esta é a Secção decisiva! É aqui que só permanece quem realmente quer!

Nos meus primeiros dois anos de Pioneiro afastei-me um bocado, mas nunca saí! Ou seja, ia a algumas reuniões, mas a muito poucas atividades, simplesmente porque sempre que olhava para o meu Agrupamento não via nenhuma razão para lá estar, devido a várias atitudes internas que não compreendia na altura.

No final desses dois anos tinha uma decisão a tomar: Continuo ou saio deste Movimento?

Por um lado, não havia razão alguma que me prendesse ali, antes pelo contrário; haviam razões que me faziam querer afastar… então, porque fiquei? Basicamente, houve um dia que me passou pela cabeça a seguinte mensagem: “Se estás descontente porque é que não tentas fazer alguma coisa para mudar isso?!”

Meti-me numa guerra! No início, do meu 3º ano como Pioneiro, entrei de forma diferente; estava disposto a levar tudo para a frente! Como tal, passei a ser Guia de Equipa e de Comunidade. Esse ano foi um ano cheio de altos e baixos, enquanto nos preparávamos para o meu 2º ACAREG.

Apenas quando este aconteceu é que me apercebi onde estava! Foi nessa atividade, que tinha como tema Madre Teresa de Calcutá, que fui confrontado com realidades muito tristes e foi-me dada a oportunidade de fazer alguma coisa para ajudar! Isso foi o suficiente! Como um simples estalar de dedos, percebi o que é que ainda me prendia ali: “Eu queria ajudar! Eu queria fazer alguma coisa!… Eu quero chegar mais longe!”.

Como E Quando Surgiu O Escutismo?

E então, foi nessa altura, nessa Secção decisiva, que é os Pioneiros… que decidi!

Caminheiros

Esta Secção é a mais diferente de todo o percurso escutista até então. É o culminar de todos os ensinamentos!

Contudo, existe um problema! Esta é a idade em que todos vão para a universidade, uns para mais perto, outros nem tanto e eu vim para Lisboa… Ou seja, resumidamente… estou longe!

Então, no início deste ano, estive novamente na dúvida se deveria sair ou não, interromper o meu percurso ou continuar; mas desta vez, tinha vontade de ficar… O que me fez tomar a decisão final foi, de facto, o meu Padrinho de Praxe.

Ainda não sei bem o que me espera nesta Secção, porque ainda nem a Promessa fiz; no entanto, vou aqui atualizando sempre que acontecer alguma coisa mais relevante.

J F JUNQUEIRA – VILA DO CONDE

Como E Quando Surgiu O Escutismo?

Baden- Powell, o “Pai” do Escutismo e o único chefe mundial do Movimento começou em 1907 a realizar actividades com jovens, divulgando os seus métodos e experiências. Entretanto, com o entusiasmo dos mais jovens, o Escutismo começou a difundir-se pelo mundo, adaptando-se aos diferentes meios e culturas. Actualmente, através de estratégias específicas, o Movimento Escutista desempenha um papel fundamental na construção da paz universal e na educação dos jovens.

O método escutista baseia-se em elementos cujo conteúdo não variou, desde que Baden- Powell os começou a aplicar. O primeiro é o Sistema de Patrulhas.

No interior de pequenas equipas, rapazes e raparigas organizam-se à sua maneira , repartem responsabilidades e tarefas, vivem uma vida de grupo adequada ao seu mundo de símbolos, aventuras e relacionamentos pessoais. O segundo dinamismo é o Progresso Pessoal, profundamente ligado à actividade e ao progresso do grupo.

As etapas do progresso são definidas para as diferentes idades e situações do jovem na vida da unidade. O terceiro ponto importante é a “Lei e Promessa”. Isto significa que no método se prevê um momento na vida de cada membro e de todo o grupo no qual é formalizado o desejo de superar as diversas etapas, trata-se de um compromisso pessoal.

O quarto elemento, de igual modo essencial, consiste em conferir um carácter de Jogo, de aventura, a todas as actividades. Este jogo tem características diferentes para cada idade. Possui um forte conteúdo mítico e imaginário na secção dos Lobitos. Os grandes projectos dos Exploradores possuem sempre um importante cariz de aventura e proeza.

Os empreendimentos dos Pioneiros já se caracterizam por um maior grau de tecnicismo, organização, abertura ao exterior, serviço. Para os Caminheiros, trata-se já de aceitar o desafio mais importante da sua vida: o desafio do mundo dos adultos.

O Escutismo nos seus objectivos visa o desenvolvimento do homem, que implica:

O desenvolvimento do carácter. O jovem traz dentro de si o embrião o seu futuro carácter e compete ao dirigente trazê-lo ao de cima e ajudar cada um a tomar, progressivamente consciência das suas características e responsabilidades como pessoa. Para Baden- Powell as ideias base na formação do carácter são o domínio de si próprio e a boa disposição.

O desenvolvimento da habilidade manual e da criatividade, ou seja, a relação de cada indivíduo com o mundo. Cada jovem através do saber fazer tem a possibilidade de aperfeiçoar e descobrir a importância do meio ambiente.

O desenvolvimento da saúde, ou seja, da relação com o seu próprio corpo. A saúde física é um bem inestimável.

O desenvolvimento do serviço, ou seja, da relação de gratuidade para com as pessoas. A finalidade do Escutismo não é criar o super-herói das histórias aos quadradinhos. Todo o desenvolvimento do jovem é feito em grupo onde o jogo das relações com os outros permite que esse desenvolvimento se faça em relação à comunidade.

O desenvolvimento do sentido de Deus, ou seja, da relação do jovem com o transcendente. Embora nas origens do Escutismo não tenha aparecido ligado a nenhuma religião, o Corpo Nacional de Escutas (CNE), em Portugal, afirma-se estatutariamente como movimento de Igreja Católica.

Assim, o desenvolvimento integral no projecto pedagógico do Escutismo aponta para um homem desenvolvido fisicamente, um homem que acredita nas possibilidades do seu corpo, que se sente bem na sua pele.

Um homem autónomo, isto é, um homem cujo carácter é feito de energia, vontade, vigor e ao mesmo tempo, paz, doçura e respeito pelos outros. Um homem criador e crítico, isto é, que não aceita o “tudo feito” nem o “sempre feito”.

Deve ser capaz de inovar, de criar, de fazer, quer no plano da técnica, da acção e do pensamento. Um homem dotado de espírito crítico.

I Secção – Lobitos

O Lobitismo representa no escutismo a primeira etapa de um escuteiro no Movimento. Os Lobitos são crianças dos 6 aos 10 anos.

A sua vida na Alcateia gira à volta do imaginário da “História da Selva” de Rudyard Kipling, que tem como principal protagonista a figura de Maugli.

As crianças começam por integrarem-se no maravilhoso mundo da selva e aprendem a tirar partido das suas vivências e experiências. Desempenhando tarefas diferentes, começa a nascer dentro dos Lobitos o sentido de responsabilidade e a vivência em grupo.

Os principais objectivos do Lobitismo são: promover a acção criativa de cada criança, despertar nos Lobitos o gosto pela natureza de modo a que sintam a acção de Deus na própria natureza e a preparar física, moral e psiquicamente as crianças, para as fases seguintes das suas vidas.

II Secção – Exploradores

Exploradores são os adolescentes entre 11 e 14 anos. Os Exploradores estão sedentos de Descoberta, desenvolvendo a sua imaginação, através de projectos concebidos em Patrulha. Com o decorrer do tempo vão adquirindo um sentido de responsabilidade, exercendo funções que estão implícitas numa vida própria de Grupo e Patrulha.

Nesta idade, o jogo tem um papel preponderante como estratégia adoptada, pois permite aos exploradores descobrir pouco a pouco a sua personalidade e a sua identidade, fazendo-se experimentar situações diferentes. Incita-os a descobrir as suas potencialidades e os seus gostos, mostrando-lhes que são capazes de construir e de com outros, levar a bom termo uma Aventura.

III Secção – Pioneiros

Os Pioneiros são os adolescentes entre os 14 e os 17 anos. O Pioneiro é, por definição, alguém que aceita a insegurança como condição de vida, o risco como desafio, a busca de novos rumos como pista a percorrer, o desbravar de ignoradas áreas como objecto do seu empenho.

No Escutismo, o Pioneiro, tendo deixado de ser criança, procura ser diferente e novo. Quer um mundo novo, uma sociedade nova. São elementos activos na evolução e transformação da sua própria personalidade.

Arrojados, apaixonados, dedicados e ávidos de perfeição, colaboram com a sua acção para um mundo Novo.

IV Secção – Caminheiros

Os Caminheiros são jovens dos 18 aos 22 anos. O valor principal do Caminheirismo é o Homem Novo e o método a seguir para o atingir é a imagem do apóstolo peregrino, associado aos valores das Bem- Aventuranças, S. Paulo.

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A proposta ideal colocado aos Caminheiros é a de se tornarem artesãos de um mundo novo, forjando em si mesmo e nos outros uma nova mentalidade, aderindo a novos valores, para viver o presente, construindo o amanhã.

Esta visão do homem, decorrente da proposta das Bem- Aventuranças, tem para o Escutismo um significado especial: ela retoma e confirma os valores morais e espirituais consubstanciados na Lei e na Promessa e projecta-os no contexto próprio dos jovens do nosso tempo.

Escotismo / Escutismo

Para quem não conhece a AEP e a História do Escotismo em Portugal pode parecer estranho que se utilizem duas grafias para uma palavra, que, além de homófona é homónima. São vulgares as acusações de erro ortográfico a quem utiliza a expressão “escotismo” – assim mesmo, com um “o” – em vez do atualmente mais vulgarizado “escutismo”, com “u”.

Afinal, qual delas está certa? Estão as duas, como adiante veremos, embora talvez mais a primeira.

Em 1913, após experiências feitas por vários Grupos de Escoteiros, foi fundada a primeira associação escotista portuguesa, a AEP – Associação dos Escoteiros de Portugal, segundo os princípios delineados por Lord Baden-Powell, o fundador do movimento escotista.

Porque a adoção do estrangeirismo “boy-scouts” não agradou aos seus mentores, foi adotada uma palavra já existente na língua portuguesa, com uma fonética e um significado muito semelhantes ao scout saxónico: escoteiro, (s.m.) pioneiro; aquele que viaja sem bagagem, gastando por escote; adj.

leve; veloz. (Dicionário Porto Editora)

Em 1923, a Igreja Católica idealizou criar outra associação escotista, mas com caráter confessional, destinada exclusivamente aos jovens que professavam a religião Católica Romana. Assim nasceu o “Corpo de Scouts Católicos Portugueses”, mais tarde “Corpo Nacional de Scouts”.

Por desconhecimento da pronúncia inglesa e inspiração no escotismo católico francês, a expressão “scout” era pronunciada à maneira francesa: “secúte”.

E, embora com outro desfecho, a história repetiu-se – os responsáveis daquele movimento católico tentaram encontrar uma palavra portuguesa que soasse ao ouvido de uma maneira próxima de “secúte” e com um significado ajustável.

Escolheram o “escuta”, justificando que, para além da semelhança fonética, o “scout” era atento e observador e, por isso, se adequava ao significado da palavra. Apesar de ser um conceito muito redutor veio a vingar, dando origem ao “Corpo Nacional de Escutas”.

Durante o regime anterior ao 25 de Abril de 1974, a AEP sobreviveu com grandes dificuldades, sendo considerada indesejável e apenas tolerada. Chegou mesmo a ser publicado um Decreto que extinguia a actividade da AEP nas colónias.

Entretanto, o CNE, sob os auspícios da Igreja, atingiu uma notável expansão e, felizmente, conseguiu manter acesa a chama escotista durante a longa noite da ditadura.

Enquanto o “escotismo” definhava, o “escutismo” foi-se tornando cada vez mais conhecido dos portugueses.

No entanto, até meados do século, é mais frequente encontrar a grafia “escotismo” em livros e jornais portugueses. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa reconhece as duas grafias, tanto mais que no Brasil sempre escreveu “escoteiro”.

Os escoteiros consideram-se irmãos entre si e os valores da fraternidade escotista estão muito acima de meros preciosismos etimológicos. Pelo contrário, os escoteiros até consideram vantajosa a existência das duas grafias, pois assim se torna muito mais fácil identificar a que associação pertence o seguidor dos ideais de Baden-Powell.

Associação de Escuteiros de Angola V1.3

A história do Escutismo em Angola remonta a 1924, ano em que a Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP) instalou o seu primeiro grupo em Angola. Seguiu-se depois em 1932 a criação do primeiro grupo do Corpo Nacional de Escutas, Escuteiros Católicos de Portugal (CNE).

Com o fim da colonização portuguesa, cujo culminar foi a proclamação da independência a 11 de Novembro de 1975, o escutismo parou em Angola.
Como não podia deixar de ser, grande parte dos Escuteiros se entregou aos ideiais da revolução, sobretudo antigos Caminheiros e jovens Dirigentes.

Porém, o ideal da sua promessa, as lembranças dos conselhos e brincadeiras a volta da fogueira continuaram a acompanhar a vida de quase todos eles, e cada vez que se encontravam, falavam do escutismo.
Assim, por iniciativa dos Drs.

Alfredo Júnior e Rui Pinto de Andrade, então Vice-ministro da Juventude e Chefe do Departamento de Recreacção do Ministério da Juventude respectivamente, a 15 de Agosto de 1990, realizou-se um encontro na Direcção Nacional de Cultura Física e Recreação do Ministério da Juventude e Desportos, presidido pelo Sr.

Nelo Victor, então Director Nacional da Juventude, e nele participaram em resposta a uma convocatória pública, os antigos escuteiros seguintes:

  • Rui Luís Falcão Pinto de Andrade
  • Pe. Agostinho
  • Alfredo Romero Fernandes
  • Susana Nicolau Inglês
  • António Francisco Miguel da Fonseca
  • Isidro Alves
  • Manuel Ramos Pedro

José Jacinto e ainda, o Sr. Pedro de Almeida, funcionário daquela Direcção.

A primeira fase do Projecto, teve a aderência de cerca de 35 antigos Escuteiros.
Imediatamente iniciaram os Seminários nas instalações da Paróquia de Fátima, à medida que se consolidava o entrosamento dos participantes, os seus filhos, sobrinhos, irmãos, vizinhos e outros, eram mobilizados para fazerem parte do embrião Escutista da Angola nova.

Os trabalhos de formação dos jovens aspirantes, tiveram o seu inicio entre os meses de Setembro e Outubro de 1990. Por essa altura, estava em fase de acabamento o Projecto de Estatuto, a Comissão Instaladora marca a Assembleia Constituinte para Fevereiro de 1991.

Nos dias 20, 21 e 22 de Fevereiro de 1991, realizou-se na Casa do Desportista em Luanda, a Assembleia Constituinte, estando presentes 39 antigos Escuteiros bem como outros 2 novos aspirantes que proclamaram a ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ESCUTEIROS, ANE elegeram o seu executivo (Junta Centra), e o Conselho Fiscal e Jurisdicional.

A Associação proclamada define-se como não-governamental, apartidária e ecuménica, subordinando toda sua acção aos seus Estatuto e Regulamento Geral.
Estiveram presentes no acto de abertura da Assembeia Constituinte S. Excelências Dr.

Marcolino Moco, o Sr. Sardinha de Castro, Ministro e Vice Ministro da Juventude e Desportos, respectivamente, e outros quadros superiores do Ministério como convidados de honra, tendo proferido o discurso de abertura, o Sr. Vice Ministro.

São Membros Fundadores da ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE ESCUTEIROS os Dirigentes seguintes:

A 16 de Junho de 1991, data em que por feliz coincidência se proclama o dia da criança africana, realizaram-se as Promessas dos primeiros Dirigentes e Escuteiros, no quintal do Seminário dos Capuchinhos, Paróquia de Fátima,
Dos três Agrupamentos iniciais, o Movimento rapidamente se estendeu a quase toda a extensão de Luanda.
Estávamos ainda no limiar dos primeiros passos, logo uma crise se instalou na Associação entre os meses de Outubro e Novembro de 1991 e em princípios de 1992, um grupo de Dirigentes abandonou a Associação, levando consigo uma parte de jovens e, criaram a Associação de Escuteiros Católicos de Angola – AECA.

A 5 de Outubro de 1992, no Livro n.º 1 de Registo das Organizações/Associações Juvenis e Estudantis do Ministério da Juventude e Desportos, a folha n.º 15, é registada sob o n.º 15, a Associação Nacional deEscuteiros – ANE.

Em 1993, o Fundo das Nações Unidas para a infância, UNICEF, conhecendo as experiências do Escuteiros no trabalho com crianças e jovens em situação particularmente difíceis, solicitou ao Escritório Regional Africano deEscutismo o seu apoio para um projecto com as crianças de rua em Angola, veio a Angola para contactos com a ANE, o Sr. Abdulaye Sène, Director Regional Adjunto do Bureau Africano. Não obstante, o Chefe Nacional da ANE, anfitrião, colocou também o ilustre visitante em contacto com D. Óscar Braga, para uma troca de impressões sobre o desenvolvimento do Escutismo no País.

Da análise, concluiu-se que era imperioso a existência de uma só organização nacional escutista, imperativo da OMME – Organização Mundial do Movimento Escuta, para o reconhecimento. Foi neste quadro que se começou a desenhar o nascimento da AEA.

Assim as Direcções da ANE e da AECA, multiplicaram esforços neste sentido, que culminou com a realização da Assembleia Constituinte no Seminário Maior de Luanda, sob presidência de D.

Óscar Lino Braga, então Bispo de Benguela e responsável peloEscutismo ao nível da CEAST.

A Assembleia discutiu e aprovou um novo Estatuto, elegeu os corpos sociais e, proclamou a ASSOCIAÇÃO DE ESCUTEIROS DE ANGOLA – AEA, no dia 3 de Dezembro de 1994, mantendo esta, o carácter não-governamental, apartidária e ecuménica, subordinando toda sua acção ao seu Estatuto e Regulamento Geral.

Escutismo Cat�lico Portugu�s quer maior aproxima��o � Pastoral Juvenil

Escutismo Cat�lico Portugu�s quer maior aproxima��o � Pastoral Juvenil

Passados mais de cem anos, o escutismo continua a ser actual e � ainda hoje uma escola de valores. Na semana em que o Escutismo foi premiado pela Gulbenkian, o assistente nacional do CNE, padre Rui Silva, explica como se faz escutismo cat�lico e expressa o desejo de estreitar rela��es com a pastoral juvenil.

Qual a import�ncia do escutismo para a Igreja, enquanto movimento juvenil?

Para falar do escutismo � importante dizer que existe o escutismo cat�lico e o n�o cat�lico. E considerando que existe o cat�lico, este � inteiramente parte da Igreja. � um enorme potencial que a Igreja tem ao seu dispor, ao servi�o da educa��o e da evangeliza��o da juventude. Isto recorrendo ao m�todo escutista.

O que � que distingue o escutismo cat�lico do n�o cat�lico?

O escutismo nasceu de uma forma pluri-confessional, e embora o fundador [Baden Powell] fosse anglicano, logo desde o in�cio surgiram grupos escutistas n�o anglicanos. Mas vai ser atrav�s de algumas pessoas, de modo especial por um padre jesu�ta, o padre Jacques Sevin, que aparece em Fran�a o que hoje chamamos de escutismo cat�lico.

Tamb�m a It�lia teve um papel importante nisso, mas o padre Jacques Sevin ter� sido a figura principal. Assim, o nosso escutismo cat�lico, do Corpo Nacional de Escutas (CNE), nasce desde o princ�pio com essa matriz claramente cat�lica. E isso faz toda a diferen�a, porque o escutismo � uma oportunidade para fazer aquilo que, enquanto crist�os, achamos que � importante.

E � nesse sentido que achamos que o escutismo est� ao servi�o da evangeliza��o.

N�s costumamos dizer que antes de tudo somos um grupo de cat�licos que utiliza o escutismo para a forma��o integral da juventude com base nos valores cat�licos.

Isso nota-se, depois, na maneira como trabalhamos no escutismo, como desenvolvemos a espiritualidade, como trabalhamos as quest�es da m�stica e da simbologia [terminologia pr�pria do escutismo], que s�o, no fundo, as quest�es religiosas que d�o base a todo o sistema de progresso que desenvolvemos.

Isto n�o significa, por�m, que no escutismo cat�lico estejamos sempre a falar de quest�es de f�, mas quer dizer que a f� est� sempre subjacente.

Pode dizer-se que h� uma espiritualidade do escuteiro?

Parece dif�cil dizer que h� uma espiritualidade escutista. Sen�o vejamos alguns exemplos: h� uma quest�o forte que marca o escutismo – a liga��o com a natureza e a dimens�o ecol�gica. Se formos a ver, nisso n�o fomos pioneiros.

Em S�o Paulo, e depois mais tarde desenvolvido por S�o Tertuliano, fala-se do livro da natureza e do livro da Palavra. J� o Beato Jo�o Paulo II usa isso num texto que escreveu a escuteiros. Por outro lado, os franciscanos desenvolveram muito a dimens�o de contempla��o da cria��o, vendo nela o dedo de Deus.

Portanto, a nossa marca a� n�o � exclusiva, assim como tamb�m n�o se confunde com outro tipo de movimentos ecol�gicos.

Vejamos a dimens�o mariana: o escuta � filho de Nossa Senhora, a quem chamamos ‘M�e dos escutas’. Tamb�m, como � evidente, isso n�o � exclusivo dos escuteiros cat�licos porque existe um pouco por toda a Igreja. E ent�o em Portugal, um pa�s com uma matriz mariana t�o forte, encontramos isso em muitas associa��es e grupos religiosos.

Sobre a quest�o da pr�tica, do aprender fazendo que marca muito o escutismo, n�s dizemos isso, mas ao mesmo tempo promovemos momentos de ora��o, intimidade e reflex�o. E o que � isso, sen�o uma aplica��o do 'ora et labora' beneditino! Como vemos, vem exactamente na mesma linha. E muitos outros….

A pedagogia de pequenos grupos – que � do mais essencial que h� no escutismo – e o nosso sistema de patrulhas temos de reconhecer que tamb�m nisso o escutismo n�o � pioneiro. Pode ser um pouco for�ado, mas mesmo na din�mica de Cristo com os Ap�stolos vemos j� o pequeno grupo a nascer.

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Enviados dois a dois, chamados, constitu�dos enquanto grupo dos doze…. e muito mais tarde, em S�o Jo�o Bosco, vai ser usada a din�mica de pequenos grupos nos jogos. Portanto, vemos que todos os elementos que definem o que � o escutismo n�o s�o inovadores.

Por isso, aquilo que � uma espiritualidade escutista tem um pouco de cada coisa, mas �, no fundo, a espiritualidade que cada escuteiro tiver. E a�, n�o h� uma s�.

Na exorta��o pastoral da Confer�ncia Episcopal Portuguesa sobre ‘O Escutismo Cat�lico, Escola de Educa��o’ (29 de Dezembro de 1995), o CNE � apontado como “Caminho para a Nova Evangeliza��o”. Como � que o escutismo pode ser este meio de nova evangeliza��o?

Essa � uma quest�o pertinente e a resposta n�o � f�cil. Certamente que convida a uma reflex�o interna por parte de todos os escuteiros, e em especial dos dirigentes. Eu penso que uma das virtudes que o movimento escutista tem � o de ser um movimento de fronteira.

Est� dentro da Igreja mas ao mesmo tempo consegue atrair jovens que n�o est�o. Porque � interessante e din�mico, porque chama para actividades que as pessoas gostam de fazer na natureza, no jogo, e at� as t�o faladas actividades radicais, que tamb�m h� e t�m sempre uma t�nica pedag�gica.

Por isso, pelo facto de sermos um movimento de fronteira, permite que sejamos uma esp�cie de vanguarda. Faz com que possamos levar a Palavra da Igreja, que � a Palavra do Evangelho, a pessoas que n�o t�m pr�tica crist� e que n�o est�o familiarizadas com uma comunidade.

O nosso objectivo �, atrav�s do nosso exemplo, cativar outros para que v�o descobrindo este tesouro que n�s j� conhecemos. E nesse sentido, podemos dar um grande contributo para a Nova Evangeliza��o.

O CNE est� a implementar um novo programa educativo, designado por ‘Renova��o da Ac��o Pedag�gica’ (RAP). O que traz de novo na linha da anima��o da f�?

Eu diria que um dos aspectos que mais foi trabalhado foi precisamente essa quest�o da dimens�o espiritual. O novo programa educativo foi constru�do a partir de uma nova vis�o da espiritualidade. Com v�rias etapas, de acordo com as idades e caracter�sticas pr�prias de cada sec��o escutista.

Estabelecemos, ent�o, objectivos finais: assim, quando a crian�a ou jovem chega a determinada fase, pretendemos que a n�vel espiritual tenha descoberto, por exemplo, no caso dos mais pequeninos, o que � o louvor a Deus que criou tudo quanto existe.

Depois, avan�amos um pouco mais e falamos do compromisso que Deus estabelece com a humanidade, a sua Alian�a, e nos faz p�r a caminho daquilo que Ele nos oferece. A� temos os objectivos da Segunda Sec��o. Depois, j� num certo grau de maturidade crescente, procuramos que os Pioneiros e Marinheiros descubram que eles pr�prios s�o pedras vivas do templo.

E por isso s�o chamados a construir Igreja. Tudo isto para que, no final, eles vivam crist�mente dentro daquilo que eles s�o e fazem nas dimens�es de trabalho, de namoro, de cultura, pol�tica, escola… que sejam crist�os a s�rio!

Este � o nosso objectivo e vai ser a partir daqui que vamos fazer jogos, actividades, acampamentos, raids…. Depois temos, ainda, alguns s�mbolos que nos ajudam a perceber esta realidade, tal como escolhemos os diferentes patronos, enquanto �cones do caminho que queremos percorrer. S�o est�mulos para que os jovens queiram crescer como outros j� cresceram.

Que desafios o escutismo cat�lico enfrenta actualmente em Portugal?

Actualmente, � desafio permanecer aberto �quele que pensa de maneira diferente mas, ao mesmo tempo, convicto da proposta que tem a fazer. � assim que n�s devemos situar-nos no di�logo, inclusive com escuteiros n�o cat�licos.

E tamb�m no di�logo com outras inst�ncias religiosas, nomeadamente com a Pastoral Juvenil. Tem havido um esfor�o nosso, nos �ltimos anos, de aproximar o escutismo � Pastoral Juvenil. Sobretudo o escutismo na faixa et�ria correspondente � pastoral juvenil.

O caminho tem de ser por a�, de comunh�o que busca a unidade na diversidade de que j� falava o Conc�lio.

E se n�s mantivermos a nossa matriz forte, ligados �s comunidades de base e procurando sempre evangelizar no respeito pela diferen�a dos outros e de outras culturas, creio que estaremos a seguir no caminho certo.

Pode dizer-se que a pedagogia deixada por Baden Powell ainda � actual?

Sim, claro que �, e tem provas dadas.

Por vezes, o pormenor do que ele disse tem de ser adaptado, porque � evidente que numa altura em que n�o havia internet, Baden Powell n�o podia sugerir que os escuteiros se ligassem uns aos outros atrav�s dessa rede.

E quando surgiu o ‘Jamboree no Ar’, faziam-no atrav�s de outros meios, nomeadamente pelo R�dio-Amador. � necess�ria uma adapta��o da forma, mas o conte�do, na sua ess�ncia, � v�lido e com frutos dados e muitos ainda por dar.

Perfil

Ordenado a 23 de Setembro de 2001, o padre Rui Silva � sacerdote do Patriarcado de Lisboa, que est� nomeado pela Confer�ncia Episcopal Portuguesa como assistente nacional do CNE.

Antes dos escuteiros, foi vig�rio paroquial, durante tr�s anos, de sete par�quias: Arruda dos Vinhos, Sobral de Monte Agra�o, Santana da Carnota, Sapataria, S�o Quintino, Cardosas e Arranh�. Depois, foi nomeado p�roco de S�o Bartolomeu dos Galegos, Moledo e Reguengo Grande, no concelho da Lourinh�, onde esteve mais tr�s anos.

Em 2007, � nomeado assistente nacional do Corpo Nacional de Escutas, cargo que desempenha h� dois mandatos, e mais tarde assume fun��es como assistente espiritual da Regi�o Europa-Mediterr�neo da Confer�ncia Internacional Cat�lica do Escutismo (CICE), um organismo internacional que procura dar o apoio de que as associa��es locais necessitam, e ao mesmo tempo organiza actividades pontuais de forma��o, de encontro e de reflex�o.

A miss�o do Assistente Nacional

Cabe ao assistente nacional do CNE velar para que a dimens�o de catolicidade e de espiritualidade esteja sempre presente no escutismo que � desenvolvido.

Ao mesmo tempo, o assistente nacional � o elemento de liga��o entre a Confer�ncia Episcopal Portuguesa e o Movimento do CNE, e vice-versa.

� um trabalho feito por uma equipa nacional de assist�ncia, sendo que h� ainda os assistentes nos diferentes n�veis do CNE.

Apelo a maior comunh�o

Padre Rui Silva: “� importante ver o escutismo cat�lico como algo de �til e interessante para a Igreja.

Quem, por ventura, alimenta algum tipo de desconfian�a ou de mal-estar com o movimento, deve libertar-se de preconceitos e abrir-se � diversidade e � especificidade escutista. � importante ver o escutismo como um potencial.

Localmente, os escuteiros t�m de ser ajudados a fazer pontes de liga��o ao n�vel paroquial. Fa�o este apelo de busca de comunh�o e de aproveitamento de um potencial enorme que tem o escutismo”.

  • Organiza��o internacional escutista recebe Pr�mio GulbenkianA Organiza��o Mundial do Movimento Escutista (OMME), da qual faz parte o CNE, recebeu na passada quarta-feira o 'Pr�mio Internacional' atribu�do pela Funda��o Calouste Gulbenkian, pelo contributo para o di�logo e a aproxima��o entre as diferentes culturas e religi�es.
  • O secret�rio-geral da OMME, Luc Panissoud, manifestava em comunicado enviado � imprensa a sua satisfa��o com a atribui��o deste pr�mio, referindo o orgulho “pelos mais de 100 anos de actividades de educa��o n�o-formal, a educar pessoas jovens a serem cidad�os aut�nomos e respons�veis nas suas comunidades”.

O Escutismo visto pelo seu dirigente mundial

Entrevista a João Armando Gonçalves No contexto da sua visita à Madeira, João Armando Gonçalves — Presidente do Comité Mundial do Escutismo — concedeu uma entrevista exclusiva ao Educatio Madeira.

Dirige o órgão executivo da Organização Mundial do Movimento Escutista (OMME), entidade que congrega cerca de 40 milhões de membros de mais de 220 países e territórios. Foi orador convidado no Seminário ‘CNE Madeira: que futuro?’, organizado pela Junta Regional da Madeira do Corpo Nacional de Escutas, em novembro de 2016.

Nascido em Leiria e residente na Figueira da Foz, é Professor-Adjunto no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC), na área do Ambiente Urbano, e investigador no Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

A relação entre o Escutismo — o maior movimento mundial de juventude — e a Educação revela-se central nesta entrevista. Educatio (ED)— No Escutismo, o desenvolvimento de valores para a vida, de competências e de capacidades está associado a um código ético de comportamento.

Estas são palavras vãs ou têm aplicação real? João Armando Gonçalves (JAG)— O Escutismo tem subjacente — e faz parte da sua matriz inicial, do seu método — o código ético comportamental.

Os elementos que nós consideramos do método [escutista] decorrem da adesão livre ao compromisso com a Lei do Escuteiro.

Os jovens são chamados a compreenderem-na e a comprometerem-se perante ela. Na Lei do Escuteiro — que tem dez artigos — falamos da honra, da confiança, da lealdade, da amizade para com os outros, da pureza dos pensamentos. As várias propostas que são feitas constituem, de facto, a matriz ética daqueles que aderem ao movimento.

Para nós, nesse compromisso formal — que cada um dos jovens faz quando entra para o Escutismo — está a proposta [ética] que lhe é feita.

Tentamos, de modo adequado a cada uma das idades, que os jovens possam entender o tipo de compromisso que estão a fazer e que possam, depois, aderir a esse compromisso na perspetiva de que prometem fazer o seu melhor para, a cada dia, terem esses valores presentes na sua vida.

Para nós, é muito claro que essa vivência se faz no quotidiano, quer nas atividades escutistas quer na vida pessoal.

ED — O Escutismo está, historicamente, associado a atividades ao ar livre. Este é um ponto fulcral, um pormenor limitativo ou apenas uma parte da história deste movimento? JAG — O ar livre é uma parte integrante, também, do nosso método de educar. E não apenas porque faz parte da tradição.

Sempre entendemos o ar livre como um ambiente educativo.

O ar livre não é uma obrigatoriedade, uma limitação, mas um mundo de oportunidades que podemos explorar e onde os jovens são confrontados com um conjunto de desafios.

Quando os jovens vão acampar e lhes é dito que «nos próximos sete dias, este é o vosso ambiente, não há comida feita, não há conforto» e são eles próprios que vão construir as suas mesas, montar as suas tendas, enfim, organizar o campo onde vão viver durante aqueles dias, tudo isso constitui um desafio que apela à criatividade, às vezes, até ao desenrasque. É uma enorme oportunidade para que os jovens possam ser estimulados no seu desenvolvimento pessoal. Hoje em dia, obviamente, a natureza representa um bem para muitas pessoas e para muitos movimentos educativos.

Para nós, há mais de 100 anos que a natureza representa um bem, precisamente por ser um local que, do ponto de vista da educação não formal, tem uma riqueza enorme.

ED —  “Be prepared!” é o lema original. O Escutismo, enquanto educação não-formal, prepara um jovem para ser um elemento preparado e ativo na sociedade, nomeadamente a nível social e político? JAG — Sim, estamos convencidos de que o Escutismo prepara os jovens para serem cidadãos ativos.

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É isso que está escrito na nossa Declaração de Missão e a cidadania para nós tem as duas dimensões, social e política. Política, não no sentido de partidária, mas no sentido da intervenção.

Essa transformação pode ser feita de várias maneiras, desde a escola, desde o trabalho, desde a sua rua; essa capacidade transformativa existe.

Depois, obviamente, [pode ser feita] ao nível do que são as instituições, do que são as estruturas que estão instituídas.

Por exemplo, na escola pode ser pela associação de estudantes, na freguesia pode ser pela junta de freguesia, pode ser pelo grupo desportivo, a ideia é que, de alguma maneira, os jovens possam participar dessa ‘Pólis’, como diríamos num sentido mais geral.

Do ponto de vista político, isso é claro nesta aceção mais genérica; do ponto de vista social, parece que também é evidente, relacionado com o que já afirmei anteriormente.

Há um conjunto de competências sociais que se vão desenvolvendo pelo contacto e pelo conhecimento de outras pessoas, até do ponto de vista mais global, porque o Escutismo tem uma dimensão global muito forte.

Portanto, há um conjunto de competências de socialização que se vai desenvolvendo, desde o grupo mais pequeno, até a esta casa comum a que chamamos mundo.

ED —  Qual é o fator diferenciador do movimento escutista em relação a outros movimentos educativos? JAG —  Mais diferenciador é o facto de ser uma educação ativa, ou seja, uma educação que se socorre de métodos ativos. […]

Digo muitas vezes que o nosso método de educar é um método muito particular, é diferente dos outros.

Na relação que se estabelece entre cada um dos jovens e o educador, há uma relação individual que, para nós, é muito importante, porque cada jovem é diferente do outro.

A natureza é outra das componentes do método. Temos também a lei e a promessa, com o tal código de conduta.

Temos ainda um certo sentido de simbologia, um conjunto de rituais e tradições que fazem parte deste método.

Há um outro elemento muito importante que é a dimensão internacional, a dimensão global, e o facto de os jovens escutistas pertencerem a uma família muito grande, de cerca de 40 milhões.

Esta dimensão global do Escutismo é-lhes dada de forma muito próxima e muito facilmente.

É mais uma das dimensões que o Escutismo tem, do ponto de vista educativo, e das mais-valias que, provavelmente, o diferencia de outras escolas de educação. ED — Robert Baden-Powell fundou o Escutismo num período histórico em que o desenvolvimento industrial se impunha, paulatinamente, nas sociedades ocidentais.

Na atualidade, o mundo vive desenvolvimentos assimétricos, em sociedades com características pré-industriais, industriais e pós-industriais.

O método escutista permite dar resposta às necessidades diferenciadas dos jovens em cada sociedade? JAG —  Esta capacidade adaptativa do movimento escutista, ao longo do tempo e no mundo inteiro, é uma das marcas mais importantes enquanto organização e explica o seu sucesso.

Não haverá muitos movimentos que tenham resistido durante tanto tempo — estamos a falar de quase 110 anos — e que tenham uma expressão tão global. Nós somos 40 milhões espalhados por mais de 200 países e territórios.

É precisamente essa capacidade de poder responder às necessidades dos diferentes ambientes sociais, económicos, etc. que me parece fascinante e que explica esse sucesso. Como digo muitas vezes, fazer Escutismo no Benim, por exemplo, não é o mesmo que o fazer nos Estados Unidos. As necessidades são diferentes, as características sociais são diferentes e as respostas do Escutismo são adaptadas a isso. Possivelmente, os jovens do Benim serão equipados com competências muito próprias, que poderão vir a ser úteis enquanto cidadãos daquele país, com necessidades muito específicas. Quando o Escutismo proporciona competências do tipo vocacional e fornece atividades relacionadas com aprender a cultivar uma pequena horta, quando proporciona competências relacionadas com o comércio de produtos para que os jovens possam apoiar a economia familiar, estas são coisas muito diretas.

Um dos objetivos do Escutismo é o de apoiar as pessoas nas suas necessidades.

Na Europa, poderá ser a educação para os valores ou o respeito pela diversidade, pois há outro tipo de características que serão mais importantes. Ora, o Escutismo tem precisamente esta latitude e consegue responder — respeitando o método de que vos falava antes e com o tipo de atividades que faz — a essas diferentes necessidades.

Não tenho dúvidas de que essa é uma das características mais importantes do movimento e da organização que lhe dá suporte: o conseguir adaptar-se aos vários ambientes.

Até do ponto de vista da expressão, muitas pessoas veem o uniforme como uma coisa dos escuteiros e, em muitos sítios, é. Mas, há alguns locais do mundo em que comprar o uniforme não é possível ou é muito difícil e não é por isso que as pessoas deixam de ser escuteiras. Esta capacidade adaptativa é uma mais-valia do movimento.

ED —  O Escutismo integra e interliga jovens de todo o mundo.

Como consegue fazer esta conjugação e respeitar as características da cultura de cada um? JAG — […] Tenho dito, algumas vezes, que há este sentido de fraternidade e que, às vezes, nós encontramos outra pessoa que nunca vimos na vida, mas, que só pelo facto de ter um lenço ao pescoço é como se fizesse parte da família.

Há um enorme respeito pelas convicções e pelas diferenças culturais do outro. Mais do que respeito, o Escutismo aproveita isso como instrumento de educação.

O movimento escutista reúne-se a cada 4 anos. Organiza um Jamboree, um grande encontro que atrai escuteiros de todo o mundo. O último foi realizado no Japão, no ano passado, e reuniu quase 40 mil escuteiros.

É verdadeiramente uma enorme festa de descoberta do que é o ‘outro’, do que é hoje ser cidadão do mundo e do que é ter, no mesmo local, uma ‘cidade’ de 40 mil pessoas com várias culturas e religiões. Trazer essas pessoas todas ao mesmo local, durante 12 dias, é proporcionar aos jovens uma experiência absolutamente inesquecível, porque, pela primeira vez, estão em contacto com realidades totalmente diferentes e podem explorar, podem descobrir aquilo que é ser um jovem da sua idade noutro canto do mundo, completamente diferente, e essa convivência faz-se de forma muito normal e muito saudável.

Neste último encontro no Japão, uma das áreas foi a das ‘Fés e Convicções’, onde grande parte das religiões estava representada com ‘stands’ e atividades.

Os jovens podem ter acesso e compreender o que significam [as religiões]. Posso-vos dizer que foi uma das áreas de atividade mais populares durante o Jamboree, das mais bem cotadas pelos jovens. Foi um daqueles dias em que as pessoas que organizavam as atividades estiveram em grande cooperação, a ajudarem-se uns aos outros, a montar os stands em grande convívio.

É uma coisa especial, talvez difícil de compreender para quem não é escuteiro, mas temos esse respeito e utilizamos as diferenças como riqueza e como factor de descoberta, não como fator de divisão.

ED —  Como está o Escutismo em Portugal? No caso específico da Madeira, o que nos reserva o futuro? JAG — O Escutismo em Portugal está de saúde. Existem duas associações [– a Associação de Escoteiros de Portugal (AEP) e o Corpo Nacional de Escutas (CNE)]. Pelo cargo que desempenho, não acompanho com grande proximidade o que vai acontecendo.

Nos últimos anos, tem-se verificado um crescimento, ainda que pequeno, do efetivo em Portugal.

Convém não esquecer que estamos num cenário demográfico em que temos cada vez menos jovens e poderá vir a acontecer que isso também se reflita no movimento, tal como acontece nas escolas.

Ambas as organizações são estáveis e sólidas, participando ativamente no movimento ao nível europeu e mundial.

São organizações que têm uma grande solidez do ponto de vista doutrinal. Se pensarmos nos princípios e no Escutismo desde a sua origem, estas conservam grande parte desses princípios originais. Viver o Escutismo de forma tão intensa é, de facto, uma das marcas que têm. Portanto, do ponto de vista geral, as coisas funcionam bem.

Ao nível da Madeira, não acompanho bem, mas, segundo o que me foi dado a conhecer pelos contactos que tenho ultimamente, parece registar-se estabilidade.

Um dos problemas que me foi comunicado foi o facto de ser difícil mobilizar adultos para desempenhar funções como educadores e dirigentes dos escuteiros. Este é um problema que existe não só ao nível da Madeira, mas até a nível europeu e mundial.

Apesar de sermos um movimento que acredita que o ato educativo se centra no jovem e que o jovem é o protagonista do seu próprio desenvolvimento, acreditamos também que isto não se faz sem uma presença do adulto.

Não é uma presença de imposição, mas é uma presença de acompanhamento e de apoio.

Parece-nos que isso é essencial, pelo que esta dificuldade de mobilizar adultos é uma preocupação existente a vários níveis e, pelos vistos, também na Madeira. Desejo que isso possa vir a ser ultrapassado a breve trecho.

ED —  Para finalizar, como prospetiva o desenvolvimento do Escutismo mundial? JAG —  A nível mundial, as prospetivas que existem são positivas e de grande esperança.

O movimento, há pouco tempo, decidiu uma nova visão, uma nova estratégia.

A estratégia vai no sentido do crescimento, de conseguirmos atingir mais pessoas, de conseguirmos tocar a vida de mais jovens e de podermos, dentro de uma dezena de anos, ser 100 milhões em vez de 40 milhões.

Esta questão do crescimento não é apenas porque queremos ter mais números, mas precisamente porque acreditamos nesta missão. Acreditamos que o movimento escutista contribui efetivamente para os tais cidadãos ativos de que o mundo precisa e para a felicidade individual de cada um deles.

É nessa perspetiva que temos acordado esta visão, nesse posicionamento do Escutismo como o maior movimento de educação não formal do mundo. Hoje em dia já o seremos, mas gostaríamos de reforçar esta ideia. Está em mais territórios. Haverá alguns, poucos, aos quais o Escutismo ainda não chegou.

Mas, mais do que isso, nos territórios onde já existe, [é essencial] poder reforçar a sua posição, expandir o seu efetivo.

Queremos, por um lado, tocar a vida das pessoas, tornando-as melhores e mais felizes e, por outro lado, ter uma intervenção positiva, através dessas pessoas, naquilo que é o desenvolvimento do mundo.

É assim que nos vemos, nesta dupla abordagem: individual, por um lado, numa perspetiva de desenvolvimento pessoal, mas também, coletiva.

Acreditamos que as pessoas que passam pelos escuteiros e por esta experiência em conjunto podem, realmente, ter um impacto positivo nas comunidades e no mundo.

Credit: Educatio, the Regional Secretariat of Education of Madeira, Portugal

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