Como Dizer Que O Pai Natal Não Existe?

Acredita-se que, num desenvolvimento humano saudável, a mente está preparada para aceitar todas as verdades, mesmo aquelas que não são consensuais nos diferentes ambientes que fazem parte da vida dos mais novos.

Quero com isto dizer que, enquanto muitas vezes os pais se esforçam por manter incólume o mito associado ao velhinho de barbas brancas e vestes vermelhas, que traz os presentes da Lapónia, a verdade mais crua e dura poderá surgir, quando e de quem menos se espera, da catequista, do professor, do treinador, do irmão ou mesmo de um colega na escola – “O Pai Natal não existe!”

Quando é mais propício contar que o Pai Natal não existe? Quando o segredo é revelado, os pais devem ser facilitadores, isto é, devem contar sempre o necessário, em consonância com o que a criança já sabe.

A família deve auxiliar as crianças enquanto elas esclarecem e elucidam as dúvidas pelos seus próprios meios, orientando-as na descoberta da verdade por elas próprias, devolvendo as perguntas e possibilitando que expressem as suas explicações.

As dúvidas e questões colocadas pela criança acerca da existência do Pai Natal são indicativas de um bom desenvolvimento cognitivo. Manter a mentira pode ser pior, quando as crianças têm já o seu sentido crítico apurado e escutam os outros e desconfiam.

Outras há que alteram a forma como acreditam, mas preferem continuar mais algum tempo agarradas à felicidade e à magia do velhinho simpático e rechonchudo, quanto mais não seja, com receio de não receberem mais presentes.

Geralmente, tudo começa não no Natal do primeiro ano de vida, mas sobretudo no segundo, quando as crianças já dão valor aos presentes, em conformidade com o motivo pelo qual os estão a receber: “É o meu aniversário”; “É o presente da madrinha”; “É Dia da Criança”; “Consegui alcançar uma meta.

” Nessa altura, cabe aos pais explicarem à criança se foi a família que se incumbiu de colocar os presentes na árvore ou na chaminé, se foi o Menino Jesus… ou se foi o Pai Natal! Desde bastante cedo, a criança começa a acreditar em seres irreais, personagens imaginárias, que acredita serem dotados de poderes sobrenaturais.

Fazem parte do seu mundo de fantasia, a partir do qual a criança se vai relacionando com a realidade e se apropria dessa mesma realidade. Assim, a história do Pai Natal evolui conjuntamente com a evolução do seu mundo de fantasia.

A história do Pai Natal foi sendo composta ao longo dos anos, impulsionada pelo cinema, pela literatura, pela televisão e até por marcas como a Coca-Cola. O imaginário infantil foi-se traçando. Hoje em dia, cabe aos pais a nem sempre fácil tarefa de o alimentar e gerir.

A criança vai apreender o assunto através da maneira como a mensagem lhe é transmitida.

A partir desse momento, na mente da criança vai-se formando um conjunto de crenças associado à festividade natalícia e à existência dessa figura simbólica e imaginária.

Tal como existem outras, com as quais, naturalmente, cada um de nós vai crescendo: o monstro do escuro ou o bicho-papão, o amigo imaginário, os dragões, as bruxas, os gnomos ou a fada dos dentes.

Ao longo do desenvolvimento humano, observa-se a ascendência do pensamento racional em detrimento de uma menor predominância do pensamento imaginário. É sadio e benéfico criar e vivenciar sonhos e fantasias, brincadeiras e jogos mentais inventados – são condição de uma infância fecunda.

O prazer e a alegria são fundamentais para um adequado crescimento da afetividade. Assim, acreditar no Pai Natal é inofensivo porque o “faz-de-conta” possibilita o desenvolvimento psíquico, cognitivo e social.

Tais crenças ilusórias associadas ao imaginário infantil estimulam a imaginação e a criatividade, e favorecem a construção de uma estrutura emocional cada vez mais complexa, pela habilidade de realizar inferências, ora concretas ora abstratas, que preparam para novos e seguintes patamares progressivos de compreensão do mundo ao nosso redor.

Permitir que as crianças acreditem que existe um senhor que dá presentes a cruzar os céus de todos os continentes favorece, no futuro, a sua capacidade de criar cenários hipotéticos, que reforçam o raciocínio.

Deixarmo-nos guiar pela lenda do Pai Natal não é genuinamente mentir às crianças, mas subliminarmente erguer valores aliados à idade, à velhice, à sabedoria, ao altruísmo, ao respeito, ao bom comportamento, à família. Algo muito diferente é quando a mentira é usada pelos pais para evitar assumir culpa e responsabilidade.

Da mesma forma, colocar em causa ou deixar de acreditar na existência dessas representações fantasiadas faz também parte de um desenvolvimento ajustado. Nada de mal irá acontecer, quando a criança deixar de acreditar no Pai Natal. Crê-se que o abandono do mito ocorre antes de a criança ingressar no 2º ciclo de estudos, na escola.

Aquando da entrada no 1º ciclo, desponta a racionalidade que permite diferenciar as evidências da fantasia. A determinada altura, as crianças questionam a fabulação do enredo complexo composto por elfos, renas, trenó e entrega noturna de presentes individualizados nos lares dos meninos bem-comportados de todo o planeta.

Há factos que não podem ser verdadeiros, dado determinados elementos da fantasia entrarem em contradição com a realidade. Estreia-se aí essa película de aventuras no desvelar da verdade, trata-se de um processo de amadurecimento.

Por diversas razões, crianças ou pais podem escolher conservar esta personagem natalícia idealizada, enquanto outros podem, desde cedo, decidir dedicar explicações diretas aos filhos para que eles transitem para uma perceção realista e desconstruam qualquer alegoria que lhes seja sugerida.

Muitos pais ficam hesitantes e inseguros, ou até mesmo receosos, por não saberem qual a melhor estratégia a seguir: continuar a alimentar a fantasia ou contar a verdade? Será que já cresceram o suficiente e está na altura de saberem que o Pai Natal não existe? Os pais têm a legitimidade de optar por qualquer uma das opções, mas sempre aquela que vai favorecer a harmonia familiar e o nível de aceitação da criança, do ponto de vista psicológico. Assim, não está sob o controlo dos pais quando desvendar este evento crucial do crescimento infantil, e essa ocasião será sempre mais tranquila do que aquilo que se anseia. Geralmente, são os adultos que ficam demasiado preocupados com o impacto que a desmitificação da fantasia do Pai Natal pode ter. A infância é essa transição gradual de um estado de fantasia que, de forma progressiva, se vai aproximando da realidade. Descobrir a verdade pode afetar a confiança das crianças nos pais? Condenam-se e atrapalham-se mais os pais pelo embuste conservado ano após ano, do que se ressentem os filhos quando descobrem que foram enganados. A confiança nos adultos não é afetada por esta situação, nem a honestidade dos mesmos, ainda que possam ficar zangados ou desapontados. Qualquer desilusão rapidamente dá lugar à resignação positiva. A criança adota uma consciência social e aceita que não era apenas ela que acreditava, percecionando que há todo um envolvimento num contexto cultural. A imagem fantasiosa do senhor das barbas brancas irá dar lugar ao espírito de Natal e isso, sim, deve permanecer e ser cultivado. Esta época festiva continuará a ser de grande alegria para os mais novos, mesmo que o Pai Natal não apareça à meia-noite do dia 24 de dezembro, ou exista um imaginário coletivo a onde ele chega carregado de prendas. A mentira do Pai Natal é considerada uma “boa mentira”, em prol do bem-estar das crianças, asseverando por isso que não existem distúrbios psicológicos ou traumas irremediáveis de mentiras bem-intencionadas.

Se o seu filho sabe que o Pai Natal não existe mas existem a união familiar e a missão de ajudar os outros, ser solidário e ter compaixão, então pode ter a certeza de que cumpriu bem o seu papel de educador e que valeu a pena revelar o mistério, aos pouquinhos, Natal a Natal.

SOL : Ainda acreditas que o Pai Natal existe?

D epois de passar mais um ano arrumadinho lá para as terras frias do norte, o Pai Natal volta em força, seja em decorações, produtos, vilas natal, publicidade ou filmes.

O Natal está a chegar e em muitas casas não haveria presentes se não fosse esta figura rechonchuda.

Desde sempre – e sobretudo à medida que os filhos vão crescendo –, alguns pais ficam na dúvida se devem ou não participar nesta pequena mentira condenada a acabar um dia.

Numa altura em que as crianças crescem cada vez mais depressa – muitas aprendem música pimba em vez de canções infantis – e a inocência ameaça desaparecer, nada como um Pai Natal para emprestar um pouco de magia à infância.

Imaginar e sonhar é essencial para o desenvolvimento do pensamento e da linguagem e ajuda a criar adultos com pensamento mais livre e original.

Além de que é fantástico! A figura simpática do Pai Natal e toda a magia e expectativa que se cria à sua volta – mais do que o Pai Natal persecutório que está sempre a ver tudo e que é usado como o aliado perfeito para que as crianças se portem bem no último mês do ano – só podem enriquecer estes dias especiais e a imaginação dos mais pequenos. Não devemos pensar que estamos a mentir aos nossos filhos, que será um sarilho um dia termos de reconhecer que andámos a enganá-los. Tal como o Coelhinho da Páscoa ou a Fada dos Dentes, o velhinho das barbas brancas ocupa um lugar especial numa fase única em que a realidade e a imaginação andam a par e passo.

Um dia, quando tiverem mais maturidade, vão saber a verdade, seja porque juntam as peças e se apercebem que não é possível, seja porque alguém lhes diz ou ouvem em algum lado. Geralmente a ideia vai-se dissipando até desaparecer completamente. É a nossa parte mais infantil a tentar que a magia permaneça em nós.

Um bom exemplo disso foi o meu filho mais velho, quando começou a arranjar estratégias para, além das evidências que eram já muitas, não deixar que o Pai Natal desaparecesse completamente: afinal tinha descoberto que eram os pais que compravam os presentes, e o Pai Natal só os entregava.

Até hoje nunca me perguntou diretamente se o Pai Natal existe, acho que quer manter parte desta magia e da nossa cumplicidade e não deixar completamente de acreditar.

Lembro-me de um dia estar a espreitar pela chaminé e a minha irmã me perguntar o que fazia. Depois de lhe dizer que estava a ver se via o Pai Natal – o tempo que eu passava a espreitar para aquele corredor escuro – ela disse sem misericórdia que o Pai Natal não existia.

A partir de uma certa altura já não nos choca aceitar a realidade.

Começa a fazer mais sentido e até nos tranquiliza saber que são os nossos pais que se dedicam a deixar na chaminé alguns presentes que gostaríamos de ter e não um velhinho desconhecido que nos entra pela casa a meio da noite.

Tenho a certeza que se a experiência do Pai Natal não tivesse sido boa para a maioria das crianças ele já não existiria por esta altura. E se sobreviveu todos estes anos, deixemos que muitas mais gerações possam embarcar nesta magia com a conivência dos adultos a permitirem-se também brincar e sonhar.

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Os pais não devem deixar os miúdos acreditar no Pai Natal?

É possível que não se lembre ao certo da primeira vez que ouviu falar no Pai Natal, mas certamente não esqueceu o momento em que percebeu que era tudo mentira. Praticamente todas as crianças acreditaram um dia no velhinho de barbas, mas quando o mito se desfaz há um vazio que fica. Valerá a pena deixar os miúdos passar por isso?

“Não temos necessariamente de 'fazer' acreditar, mas simplesmente 'deixar' acreditar”, explica à MAGG Sara Ferreira. “O mito do Pai Natal é uma metáfora importante para as crianças, pois está ligada ao mundo imaginário”.

Na verdade, a personagem do Pai Natal inspira-se em São Nicolau, um arcebispo que viveu no século IV e ficou conhecido por ajudar, em anonimato, pessoas em dificuldades financeiras.

Os primeiros contos a apresentar-nos a história do velhinho de barbas inspiram-se nele.

“Uma visita de São Nicolau”, de Clemente Clark Moore, foi publicado em 1822 e falta numa personagem que viajava num trenó puxado a renas e entrava pelas chaminés.

Em 1931, veio então a Coca-Cola que o tornou conhecido em todo o mundo. Numa grande campanha publicitária, a história construíu-se tal como a conhecemos hoje.

E não só. A fantasia, explica a psicóloga e psicoterapeuta, é um aspeto intrínseco e necessário ao desenvolvimento da criança. Além disso, a história do Pai Natal permite-lhes “um estímulo emocional que as remete para valores como a sabedoria, o altruísmo, a bondade, a amizade, o ser-se atencioso, a idade no que isso tem de bom, os afetos”.

Há famílias que preferem focar-se em valores mais religiosos, nomeadamente com a introdução do menino Jesus. “Naturalmente, a decisão de abordar a questão (e de que forma) dependerá dos pais e da forma como desejam que o Natal, em si, seja vivido em casa e na família.” O que interessa é que os valores e mensagem positiva se mantenham.

Mais cedo ou mais tarde, eles vão perceber. E não vai ser tão mau como os pais pensam.”

A psicóloga Sara Ferreira assegura que as pesquisas no campo do desenvolvimento psicológico sugerem que as crenças imaginárias não são nocivas, uma vez que têm um vasto número de resultados positivos no desenvolvimento infantil.

“Se isso não interferir com o contexto cultural de cada família ou com os valores educativos dos pais, não existe nenhum dano associado ao facto de se poder alimentar esta mentira (este faz-de-conta), porque podemos considerá-la bonita… Faz parte da realidade infantil, do mundo das crianças, da mesma forma que os super-heróis ou as princesas.”

Como explicar aos miúdos que o Pai Natal não existe

“Mães e pais, nem tudo depende de vós. Normalmente, as próprias crianças desfazem o mito por si mesmas, seja na escola, seja porque começam a ouvir os outros e a desconfiar, a ter sentido crítico”.

Na opinião de Sara Ferreira, se as crianças começarem a questionar se o Pai Natal existe mesmo, não se deve mentir. De resto, é deixá-las desfrutar da crença na magia. “Os pais, geralmente, é que temem o desfecho do mito”.

Regra geral, os miúdos deixam de acreditar no Pai Natal por volta dos 7 anos, altura em que começam a diferenciar a fantasia da realidade. Se não acontecer com esta idade, porém, os pais também não devem ficar preocupados. “Mais cedo ou mais tarde, eles vão perceber”, explica. “E não vai ser tão mau como os pais pensam.”

Perceber que o Pai Natal não existe é um evento crucial do crescimento de uma criança. Isto porque esta figura mítica apoia o desenvolvimento mental durante a infância e pode contribuir para um processo de amadurecimento.

“Quando os pais percebem que os pequenos suspeitam que o Pai Natal não existe, podem contar-lhes a verdade, a assim estes não vão sentir-se enganados.”

E como é que isto se faz? Como é que se explica aos miúdos que afinal o Pai Natal não existe? “No momento em que a criança descobre que aquele velhinho das barbas brancas não passa de uma fantasia, é a altura indicada para os pais contarem a história do Natal e de como surgiu aquela figura mítica.”

À medida que crescem, os miúdos percebem que a história do Pai Natal envolve tarefas fisicamente impossíveis. Como é que um trenó pode voar? Como é que o velhote consegue distribuir presentes a todas as crianças do mundo? Como é que ele entra em casas que não têm chaminé? Como é que ele sabe quem é que se portou bem ou mal?

“É nesta altura do desenvolvimento que os mais novos começam a inundar os pais com perguntas.

E estas perguntas devem ser vistas como aquilo que na verdade são: o desenvolvimento cognitivo em ação.

Então, os pais que pretendam acabar com esta fantasia podem apresentar provas e explicações diretas aos filhos para que eles passem para a fase de perceção e desconstrução do mito.”

Se acharem que ainda não chegou a altura de o fazer, não precisam de mentir. “Pode, por exemplo, redirecionar as perguntas para a criança e permitir que ela própria apresente explicações.”

Perceber que o Pai Natal não existe pode ser uma experiência traumática?

“Tanto não diria. Poderá, sim, existir desilusão. Afinal, uma (des)ilusão é uma ilusão que se (des)fez.”

Mas isso não é o fim do mundo. Bem pelo contrário, é natural e vai ajudar a criança a aprender a lidar com sentimentos de tristeza, frustração e desilusão.

“Os estudos revelam-nos que a 'descoberta da verdade' por parte das crianças de que o Pai Natal não existe não afeta a confiança dos mais pequenos nos seus pais, desde que esta personagem natalícia não lhes seja apresentada como algo 'garantidamente' palpável e material, mas sim como uma 'fantástica metáfora'.”

Mais importante do que o Pai Natal é, é aquilo que ele representa. “Portanto, eu diria que as consequências para as crianças em acreditarem no Pai Natal são predominantemente positivas.”

Em relação aos pais que se martirizam com esta fase de transição, Sara Ferreira deixa uma última mensagem: “Fiquem tranquilos, não há razões para se preocuparem tanto com o impacto desta descoberta.”

Até porque, explica, “se formos comparar com toda a informação confiável que os pais geralmente partilham com os filhos ao longo da vida, é altamente improvável que esta 'mentirinha' (bem intencionada) provoque danos irreparáveis.”

E quando uma criança descobre que o Pai Natal afinal não existe?

A dois dias do Natal, o drama instalou-se em casa de Sara Oliveira. A Maria, em choro, atirou para o ar a frase menos desejada nesta quadra: “O Bernardo disse que o Pai Natal não existe, que somos umas totós por acreditar que ele existe.

” A juntar a toda esta evidência do colega, a carta ao Pai Natal que, este ano, na escola ficou por escrever.

Para não desfazer a ilusão tão junto ao Natal, Sara explicou à filha de oito anos que nem sempre é preciso escrever a carta, porque “o Pai Natal está sempre atento e sabe as prendas que queremos”.

“A fantasia do Natal nunca foi incutida à Maria, ela foi criando por ela própria”, explica Sara, que suspeita que a filha “já desconfiava que o Pai Natal não existe”. Apesar de tudo, a fantasia natalícia foi mantida, “até porque as crianças hoje são bombardeadas com tanta coisa desde pequenas, na televisão, que achamos que era importante manter esta ilusão”, acrescenta Sara Oliveira.

Para o psiquiatra Daniel Sampaio, “tudo o que seja fantasia, espiritualidade – não num sentido religioso do termo -, é muito importante para o crescimento e formação da criança”.

Porém, recorda que a certa altura a criança vai perguntar se é ou não verdade que o Pai Natal existe.

“Quando isso acontecer, deve-se dizer a verdade, explicar que é uma ilusão de Natal, que não existe e que quem dá as prendas são os pais”, sublinha.

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Para a Matilde Marrinhas, de seis anos, não há ilusões: “O Pai Natal é a minha mãe e o meu pai.” Por isso, na altura de escolher as prendas que quer para o Natal, e para dar aos pais, a Matilde faz recortes nas revistas para colar na carta que escreve… aos pais.

Quem assegura que o Pai Natal existe é a Márcia Alexandra, de 7 anos. E afiança que ele já esteve um dia em sua casa. “Acho que entrou pela chaminé, mas trouxe-me muitas prendas”, conta.

Nestes dias, o sonho de muitas crianças é alimentado por centros comerciais, que organizam sessões fotográficas com o Pai Natal. “Às vezes, perguntam se sou mesmo o Pai Natal verdadeiro”, conta Mário Margarido, figurante e há dois anos consecutivos Pai Natal no Dolce Vita Porto.

Para o figurante, de 59 anos, “é reconfortante transmitir estes sonhos às crianças e contribuir para aquele brilho nos olhos”. Mário recorda que na sua infância “a ideia era de que era mais o Menino Jesus que dava as prendas”, embora admita que acreditou no Pai Natal até aos 10 anos.

“Alguém me disse que já não existe”, conta.

Com seis anos, o Guilherme Rocha também acredita na existência do Pai Natal. Por isso, e para tentar assegurar que recebe o skate, o ringue de wrestling ou os bonecos da Playmobil já escreveu a sua carta ao Pai Natal. Enquanto isso, a Bianca Vargas mantém a esperança de conseguir ver o Pai Natal e as renas quando vierem “a voar para entregar as prendas”.

Por norma, adianta Daniel Sampaio, “as crianças descobrem por volta dos cinco, seis anos que o Pai Natal não existe”. Ou seja, quando entram para a escola. “Muitas vezes acabam por descobrir por si, já não é preciso dizer mais nada”, sublinha. Mas, enquanto não descobrem, “não há mal se os pais quiserem manter a fantasia, para dar mais brilho ao Natal”.

Devemos dizer às crianças que o Pai-Natal existe?

É impossível não acreditar no Pai Natal: afinal, desde praticamente o dia 30 de Agosto que o vemos a descer de todas as janelas, pendurado em todas as ruas, a orientar o trenó e mais as renas no átrio de todos os centros comerciais.

Se pensarmos bem, o Pai Natal tem uma missão sociológica: ritualmente, quem dá recebe algo em troca. É uma prova de igualdade. Dar sem receber é uma prova de amor (pensamos nós) mas é também uma prova da dependência do outro: e o Pai Natal vem precisamente suavizar essa violência simbólica.

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O problema é quando se acredita a sério para lá da idade em que a fantasia e a realidade se confundem. Há idades em que se ‘engole’ o homem das barbas a descer pela chaminé com a naturalidade com que se engolem sapatos de cristal e fantasmas debaixo da cama.

Mas com o tempo, manter a lenda vai ficando cada vez mais difícil: e mais inútil. À medida que a criança cresce e o seu cérebro se desenvolve, as fronteiras entre fantasia e realidade vão ficando mais nítidas. É aí que começam as dúvidas.

E é aí que, tão naturalmente como entrou a fantasia, deve entrar a verdade.

O problema são as resistências paternas.

A maioria dos pais gagueja e resiste e fabrica ‘provas’ e esperneia e faz tudo para provar que o Pai Natal existe, como se temesse que a criança não os respeitasse quando descobrisse que, raios!, o traste do barbudo afinal é um embuste! Há quem, em desespero, mantenha a ‘fé’.

São as mais variadas versões de: ‘Meu filho, todos os 30 ateus da tua turma estão errados, diz-te a tua mãezinha que o Pai Natal existe sim, só que este ano o trenó tem um pequeno problema na fuselagem e não vai poder trazer-te a consola’.

Mas o desengano é fatal. Ou é um irmão mais velho numa cena de despeito. Ou é um colega que se ri na cara do inocente. Ou é uma voz debaixo das barbas brancas que se revela de súbito demasiado familiar…

E depois, quem traz os presentes?

O problema é que, quando temos cinco anos, acreditar ou não acreditar em sapatos de cristal e fantasmas não traz qualquer consequência prática, mas deixar de acreditar no Pai Natal… enfim… sabe Deus o que pode acontecer.

Nem é bom pensar nisso. Na cabeça deles, a escolha é simples: ou se acredita nele, ou arriscamo-nos a passar a vida numa sombria sucessão de Natais sem presentes.

Hoje vai o Pai Natal, amanhã se calhar vai a Fada dos Dentes…Lagarto lagarto lagarto.

Além disso, a criança pode sentir-se culpada por não acreditar. Como se, não acreditando, ela matasse o Pai Natal. Lembram-se do Peter Pan? “Por cada pessoa que não acredita em fadas, morre uma fada. Se acreditas em fadas, bate as palmas!” Elas lá vão batendo, obedientemente, ano após anos, até que a dúvida surge…

Pode ser duro cair do pedestal. Há quem escreva sentidas cartas ao Pai Natal (que dão imenso jeito aos pais), a dizer: “Crido painatal, eu cria alguns berincedos e senão timprotases tambai un peloche, techau.” Há famílias que fazem grandes encenações, com o tio João a sair da sala à socapa antes de aparecer a ajeitar a barba de algodão e o carapuço vermelho.

Há as crianças que aceitam a história – e depois o desengano – de maneira mais ou menos pacata, mas há outras que esperneiam.

Exigem ‘provas’, pedem polaróides como prova de que o barbudo lá esteve, têm longas conversas agnósticas sobre temas como “Se ele desce pelas chaminés e já nenhuma casa tem chaminé, por onde é que ele entra?”, “Se ele traz presentes para todos os meninos do mundo mas só para os que acreditam nele, os meninos chineses e árabes ficam sem presentes?”, “Se ele só tem uma noite para levar presentes a todas as casas, como é que pode ter tempo para a) Levar tantos presentes, b) Ir a todas as casas, e c) Usar só um trenó?”

Uma boa resposta é devolver a bola: “O que é que tu achas?” Se ele disser: “Eu acho que ele não existe”, é porque ele já está preparado para isso.

Há pais que obedientemente dão umas dentadas na bolacha e largam pegadas de cinza no chão e deixam bilhetes assinados: “Pai Natal, ho ho ho.” E há filhos que se vão deixando convencer. Mas também há os que ressentem o ‘embuste’.

Então foram enganadas todos estes anos? Geralmente, os ressentimentos surgem em crianças mais velhas, que não foram autorizadas a fazer o corte entre realidade e fantasia na altura certa, e que prolongaram a ‘crença’ para lá do tempo natural.

Conclusão: conte a história, mas nunca engane. Há uma grande diferença entre fantasia e embuste.

Da fantasia à realidade

Os pais têm 4 preocupações principais em relação ao Pai Natal: que as crianças se fixem tanto no barbudo que esqueçam o verdadeiro herói da fita, o Menino Jesus; que fiquem demasiado materialistas; que achem hipócrita o facto de os pais divulgarem qualquer coisa em que não acreditam, e, finalmente, que as crianças percam o sentimento de gratidão por quem lhes deu os presentes, que tanto custaram a ganhar.

Se pensarmos bem, nada disto é assim tão grave: saber a história no Menino Jesus não implica banir o Pai Natal, e se limitar a lista de presentes pedidos na carta e a enxurrada ‘trazida’ pelo Pai Natal, não se arrisca a ter um materialista desenfreado à solta. Pode ainda pedir-lhe que agradeça ao Pai Natal: o que importa é que ele desenvolva o sentimento de gratidão.

Olha que se não te portas bem, o Pai Natal…

Ele é o Pai Natal, ele é aquele senhor que colocamos em frases como “não mexas que vem aí o senhor e o senhor ralha.” Já para não dizer da polícia que, tal como o Pai Natal, não está cá para nos proteger, mas antes para nos levar para a prisão sem qualquer remorso ou tolerância para nos escutar ou dar-nos a hipótese de redenção.

Este trio — o Pai Natal, o tal senhor e o polícia — cumpre os requisitos. Mete medo, ameaça e a criança, enquanto é inocente, vai acatando alguns dos pedidos dados por pais que também eles ouviram aquilo em crianças.

O pior vem depois quando descobre que o Pai Natal não existe, que o senhor despega do turno às 18:00, e quer tudo menos levar crianças endiabradas para casa, e que a verdadeira função do senhor de azul é proteger-nos.

Então que venha a ameaça e o castigo agora impostos pelos pais… só que o castigo é a melhor forma de desresponsabilizar uma criança. E porquê? Porque ela não é envolvida na situação, não aprende com ela nem lhe é dada a possibilidade de reparar o que fez.

Então, a questão é: como é que a criança aprende? A criança aprende quando é acompanhada. E sim, isso não garante que ela tenha comportamentos adequados o tempo todo, mas é justamente nesses momentos que temos a melhor oportunidade para ensinar a fazer melhor na próxima vez.

É com a escolha dos comportamentos e tendo a noção do impacto dos mesmos que ela poderá começar a trabalhar uma competência fundamental na idade adulta e que tem o nome de autorregulação. A autorregulação é a capacidade que temos em gerir as nossas emoções e a capacidade de optar por aquilo que nos vai trazer mais vantagens.

Ora, hoje sabemos que este aspeto se treina e a criança necessita de um adulto com paciência, que consiga também gerir as suas mesmas emoções (e frustrações) e que lhe mostre como são os comportamentos mais adequados. E tu vais querer ter esse papel — afinal de contas é para isso que existes, para educares os teus filhos, e educar é corrigir comportamentos.

Não vais querer que ele não faça asneiras porque tem medo do trio de cima ou porque não quer ficar de castigo. Vais querer que ele faça o que faz porque percebeu do interesse de ser assim. E sim, dá trabalho, mas sabes o que ganhas? Ganhas uma relação sem teres de recorrer a ameaças ou a subornos.

Vês, nem o Pai Natal, nem o senhor, e muito menos o polícia, são para cá chamados. Feliz Natal!

Ah! E o Pai Natal existe — e é um querido para as crianças!

Como contar às crianças que o Pai Natal não existe, sem lhes destroçar o coração

Apenas um Grinch tem prazer em desfazer a magia de Natal no que toca ao imaginário infantil, e à crença de uma criança no Pai Natal.

Esta é daquelas conversas que pai nenhum quer ter. Mas com uma reviravolta de sabedoria a conversa pode, não só ficar mais fácil, como lembrar os teus filhos também da verdadeira essência desta quadra… O segredo?

Dizer-lhes que eles já são crescidos o suficientes para, em vez de receberem presentes do Pai Natal, tornarem-se, eles próprios, no Pai Natal.

Em declarações ao site GoodHouseKeeping, o pai explica:

“Na nossa família temos a tradição de explicar aos miúdos que eles já estão crescidos para receberem presentes do Pai Natal, transformando-se em alguém que passa de os receber para alguém que os dá.

Desta forma, a imagem do Pai Natal é não só uma mentira que é descoberta, como algo que dá origem a uma série de boas ações… Afinal é esse o espírito de Natal! Quando eles têm 6 ou 7 anos e se começam a aperceber que o Pai Natal pode não ser mesmo uma pessoa, aí significa que estão preparados.”

Apesar de no Jardim de Infância ser uma altura demasiado cedo para se fazer o que este pai aconselha, o que ele defende é que, em qualquer altura que se seguir, depende da escolha dos pais e daquilo que os pais acharem melhor para os seus filhos. E, quando acharem que a altura é a adequada, o pai aconselha a que saiam com os seus filhos para um ‘café’ e que lhe digam algo como:

“Tens crescido bastante nos últimos meses, não apenas em tamanho, mas em maturidade.” E, depois de apontados estes exemplos de crescimento, a verdade é revelada: “O teu coração cresceu tanto que eu acho que estás preparado para seres o Pai Natal.

Com certeza, já reparaste que a maior parte dos Pais Natais que vês são pessoas mascaradas de Pai Natal. Alguns dos teus amigos podem, até, ter-te dito que o Pai Natal não existe. Muitas crianças pensam assim porque não estão preparadas para serem o Pai Natal, mas tu estás.”

O pai depois explica que a ideia é perguntar à criança se ela sabe o que o Pai Natal recebe, para além das tradicionais bolachas, levando a criança a concluir que o Pai Natal não recebe nada, fá-lo apenas porque tem bom coração e que o Natal se trata disso mesmo, de fazermos algo pelos outros, em troco de nada.

Este pai realça, ainda, a importância dos pais manterem a postura de que os seus filhos são agora mais velhos e, portanto, estarão capazes de cumprir esta tarefa. Depois, é altura dos pais revelarem os deveres do novo Pai Natal:

“É importante que a criança escolha alguém que conheça, como um vizinho, por exemplo. O dever da criança será o de descobrir algo que essa pessoa precise, que o compre, que o embrulhe e que o entregue.

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E o mais importante de tudo: que nunca revele de nde veio o presente! Porque, afinal de contas, ser-se Pai Natal não é querer-se ficar com os louros, é querer-se apenas fazer o bem pelos outros… É querer o bem, desprovido de egoísmo.

A história continua e o pai explica como se lembra de um filho que ofereceu um par de chinelos a uma vizinha carrancuda, depois de a ter visto apanhar o jornal a porta de casa descalça.

Quando dizer aos miúdos que o Pai Natal não existe? (Ups, eles já saberão ler isto?)

[Este texto foi publicado em dezembro de 2014. Mas pode voltar a dar uma grande ajuda a alguns pais]

Até quando deve uma criança acreditar no Pai Natal? E quando descobrem a verdade, quais as reações que os pais podem esperar? Com a época festiva a bater à porta, há perguntas que precisam de respostas. O imaginário infantil é uma ferramenta poderosa que potencia a curiosidade e a criatividade dos mais pequenos, mas é preciso saber lidar com ele.

Por esse motivo, o Observador falou com a psicóloga Inês Afonso Marques, coordenadora da Mindkiddo (equipa infanto-juvenil) na Oficina de Psicologia, e com o pediatra Eduardo Sá para ajudar a dissipar algumas dúvidas sobre como pais e filhos devem lidar com a ideia do Pai Natal. O resultado é um pequeno guia para que tenha um Natal (mais) feliz.

As crianças são mais felizes por acreditarem no Pai Natal?
“Não creio que seja condição fundamental para a criança ser mais feliz”, avança Inês Afonso Marques. A psicóloga clínica abre o leque de opções e explica que há famílias em que o Pai Natal não entra.

Em vez dele, há pais que preferem focar-se em valores mais abstratos, como partilha e solidariedade, ou até fomentar a imagem do menino Jesus.

Mas uma coisa é certa: falar em Pai Natal pode ser uma forma de a criança viver a época natalícia com mais magia, sendo que a criatividade, o faz de conta e a imaginação são úteis para despertar nas crianças a curiosidade e a resiliência.

Eduardo Sá prefere responder um “mais ou menos” e garante que as crianças fingem acreditar que o Pai natal é uma verdade irrefutável.

E porquê? “Porque, muitas vezes, o Natal é o único momento num ano em que os pais se deixam de histórias enfadonhas, ganham brilho nos olhos e entram na história”.

Mas faz uma ressalva: é preciso que os pais não falem da personagem natalícia enquanto algo palpável e material, mas sim como uma “fantástica metáfora”. No fundo, o que o Pai Natal representa pode tornar as crianças mais felizes.

A partir de que idade é aconselhável começar a falar do Pai Natal?
Inês Afonso Marques afirma que, para tal, é preciso ter em conta o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, pelo que antes dos “dois, dois anos e meio” a criança não tem capacidade de acompanhar e integrar a vivência da história em questão. E relembra: o Pai Natal deve estar associado à bondade, porque dá presentes sem receber nada em troca, e constitui a oportunidade de a criança se desenvolver emocionalmente.

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E até quando deve a criança acreditar?
Até “querer acreditar”, diz Inês Marques. Os mais novos são capazes de dar sinais de que estão preparados para viver o Natal sem a personagem em questão, embora tal dependa da idade e da própria criança.

“Importa estar atento ao nível de desenvolvimento e à sua capacidade para compreender e diferenciar a realidade da fantasia”, isto é, perceber se é suficientemente madura para tal.

Generalizando, por volta do início da idade escolar, entre os seis e os sete anos, muitas crianças vão deixar de acreditar no Pai natal.

Dizer que o Pai Natal existe é mentir?
Se o mito do Pai Natal fosse encarado, mais tarde, como uma mentira, a figura não perduraria no tempo, passando de geração em geração e de pais para filhos, clarifica Inês Afonso Marques.

“Crianças pequenas, sem grande interferência dos adultos, acreditam que os seus super-heróis são reais: o Ruca, a Princesa Sofia, as Tartarugas Ninja. Os pais que alimentam e ‘personalizam’ estes personagens estão a mentir?”. A pergunta é retórica.

“O Pai Natal não existe!”. Como podem as crianças reagir quando descobrem a verdade?
Há crianças que se sentem profundamente tristes, explica a profissional da Oficina de Psicologia. Magoadas e traídas, inclusive.

“Há aquelas que verbalizam mesmo, no momento, ‘mentiste-me. Nunca mais confio em ti’. Outras assumem a verdade com grande naturalidade, surpreendendo os pais”. Regra geral, os mais novos reagem com “surpresa, alegria e bom-humor”.

E, embora alguns se sintam momentaneamente zangados, isso não significa que fiquem traumatizados.

Inês Marques vai mais longe e explica ainda que alimentar o imaginário em questão é como alimentar o da Fada dos Dentes ou o do Coelhinho da Páscoa, no sentido em que os adultos criam personagens que povoam o imaginário infantil, o qual permite às crianças desenvolver competências como a empatia, resolução de problemas, criatividade e linguagem.

E se uma criança acreditar no Pai Natal mais tempo do que deve? Quais as implicações?
Nenhumas, assegura Eduardo Sá. E acrescenta: “Preocupa-me que, ao dizermos que o Pai Natal não existe, estejamos a confundir uma parábola com um exercício de desinfestação de fantasia”.

Já a psicóloga assegura que cada criança vive a fantasia de forma diferente, pelo que não existe um momento a partir do qual deixa de ser aceitável acreditar na personagem festiva. “Algumas crianças assumem a fantasia de modo literal, havendo uma fronteira difusa entre imaginação e realidade. Esta fronteira torna-se mais clara à medida que a criança cresce.

Assim, diria que não há implicações porque não existe um tempo normal até ao qual se pode acreditar no Pai Natal”.

Como escrever uma carta ao Pai Natal?
O ato é tido como um momento de partilha e reflexão entre pais e filhos, sendo que deve ser a criança a escrevê-la caso já seja capaz.

A carta tem o poder de reforçar a fantasia e o imaginário dos mais novos, além de ser uma oportunidade para fomentar um conjunto de valores e ideias, diz a psicóloga infantil — desde partilha, necessidade de tomar decisões, saber lidar com a frustração e a importância de fazer escolhas.

“É, muitas vezes, um bom momento para ajudar a criança a refletir sobre si, sobre aquilo que é bom, sobre o seu comportamento e sobre os seus desejos, partindo da noção de que o Pai Natal presenteia os meninos que se portaram bem ao longo do ano”.

O Pai Natal não existe. Mas devia!

A existência do Pai Natal não é consensual entre adultos.

Não que haja quem acredite que um senhor barbudo ande a viajar pelo mundo de 24 para 25 de Dezembro — ainda que resistam os crescidos que gostavam de acreditar: “Há uns anos, já adulta, mas ainda sem filhos, acordei com as galinhas na manhã de Natal em casa da minha mãe e fui dar com as luzes da árvore ligadas e um monte de presentes a rodeá-la”, recorda Ana Botelho Ribeiro, de 38 anos, admitindo, divertida: “Mais depressa ponderei o Pai Natal do que haver alguém lá em casa que efectivamente tivesse comprado mais prendas.” Afinal, tinha sido o irmão mais novo que, no fim do seu primeiro ano de trabalho, tinha decidido pregar uma partida à família.

Mas, por mais que a ideia seja atraente, a crença no Pai Natal é um exclusivo infantil, mais ou menos empolgada pelos adultos que habitam o mundo da criança: há quem insista em criar fantasias mirabolantes para que a figura das barbas seja inquestionável, mas também há quem recuse passar a ideia de que quem compra os presentes seja, no fundo, um estranho. É o caso de quem prefere ver o lado “bonito” de “eles saberem que as pessoas gostam deles, e escolhem um presente com esforço e carinho”. Depois, há lares onde, mesmo já sendo claro tratar-se de uma fantasia, continua tudo no mesmo registo. “O mais novo tem 11 e finge que não sabe que não existe. E eu finjo que não sei que ele sabe”, explica Vítor Mendes, de 43 anos. Assim, tanto a filha mais velha, de 14 anos, como o mais novo “escrevem a carta e metem na árvore”. “Eu roubo e substituo por um montinho com os presentes do Pai Natal”, revela.

Fazer acreditar ou não no Pai Natal permanece assunto controverso, inclusive entre especialistas, e há muitos livros sobre o assunto em que se defende que a lenda do Pai Natal é má para as crianças. O argumento principal é, claro, que tudo não passa de uma mentira quando um dos ensinamentos é precisamente o de não mentir.

Mas “a mentira é uma coisa com um conceito moral que não envolve o Pai Natal”, resume José Morgado, doutorado em Estudos da Criança e professor no Departamento de Psicologia da Educação do ISPA, em Lisboa. Pelo contrário, defende, “o pensamento mágico é fundamental”.

“A fantasia é crítica para o [bom] desenvolvimento dos miúdos e até do bem-estar dos adultos.”

Se acreditar no Pai Natal é positivo ou negativo, “depende da idade da criança e da forma como se faz”, começa por considerar Bárbara Figueiredo, coordenadora da Unidade da Primeira Infância da Universidade do Minho, avaliando que “não há respostas fechadas”, ainda que defenda que alinhar na ideia do Pai Natal, para uma criança entre os quatro e os seis anos, altura em que a própria cria uma realidade imaginária, é uma “maneira de entrar no mundo” dela.

“A fantasia”, esclarece a especialista, é essencial para o crescimento cognitivo e “o reforço da fantasia positiva”, como a criação da ideia do Pai Natal, “estimula o desenvolvimento”, sobretudo porque se trata de algo bom, “que gera bem-estar”.

Além disso, há teses que defendem que a descoberta da verdade pode ser um evento traumático. “Ainda hoje [a mais velha, de 15 anos]”, que “chorou as pedras da calçada quando descobriu, me culpa”, conta Marta Boleto. No entanto, apesar de tudo, faz questão de manter a magia para as irmãs mais novas. E a a mais pequena, de oito anos, ainda acredita piamente.

Para José Morgado, quando a dúvida se instala, “é preciso desmontar o discurso sem retirar o tapete de repente”. “A partir de uma certa idade, sabem que não existe, mas querem continuar a falar sobre isso”, constata Bárbara Figueiredo.

Já sobre o trauma, a psicóloga defende que o mesmo dependerá da forma como a verdade é exposta. Mas não acha estranho que o choro faça parte do processo. Afinal, “é uma perda”.

Ainda assim, o professor do ISPA não tem dúvidas: “Deixem os miúdos acreditar no Pai Natal em paz!”

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