Como Classificar O Narrador Quanto A Presença?

  • Os tipos de narrador são o narrador personagem (em primeira pessoa), que participa da história; o narrador observador (em terceira pessoa), que apenas narra o que vê; e o narrador onisciente (também em terceira pessoa), que tem total conhecimento de personagens e fatos.
  • Cada um desses narradores tem um ponto de vista, isto é, um foco narrativo, uma perspectiva particular da história.
  • Leia também: Epopeia – gênero poético predominantemente narrativo

Foco narrativo

Uma história pode ser narrada de diferentes perspectivas, isto é, de distintos pontos de vista.

O narrador pode fazer parte da trama e, assim, expor sua visão particular dos fatos, mas pode também estar de fora, apenas como um observador dos acontecimentos ou mesmo detentor de um conhecimento prévio acerca do enredo. Essas diferentes maneiras de narrar-se uma história chamamos de foco narrativo.

Desse modo, a escolha do foco narrativo determina os rumos da narrativa. Assim, decidir que tipo de narrador fará o relato dos fatos é uma das primeiras preocupações do criador da obra, ou seja, o autor.

Aliás, é importante ressaltar que autor e narrador são seres distintos. O autor ou autora é um ser real, um indivíduo de carne e osso, que cria, planeja e escreve a história.

o narrador é a voz que narra os acontecimentos, um ser fictício, mesmo que não faça parte, como personagem, da trama.

Para ficar mais claro, imagine um romance policial de Agatha Christie (1890-1976), narrado por um narrador que apenas observa a história. Ocorreu um crime no início da obra. Caberá, portanto, ao detetive Hercule Poirot, e também ao leitor ou leitora, descobrir o culpado.

Se você acha que a voz que narra é da própria Agatha Christie, pode achar, também, que a história de fato aconteceu, e sua conclusão seria coerente, já que uma pessoa real está relatando os fatos, porém a voz que conta a história é tão fictícia quanto a própria história, o que permite à autora total liberdade de criação.

Portanto, o narrador, de acordo com seu foco narrativo, fará o direcionamento da história, pois o ponto de vista determina como o enredo deve ser estruturado.

Assim, o narrador pode ser um participante dos acontecimentos ou apenas um intérprete dos fatos narrados, ser um narrador em primeira ou terceira pessoa, parcial ou imparcial, centrado nos fatos ou nos personagens, focado em seus pensamentos ou em suas ações.

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Tipos de narrador

É um narrador em primeira pessoa, portanto, é um personagem da história. Assim, ele não só relata os fatos, como também participa dos acontecimentos narrados:

“Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante.

Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar.

Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota — tá me entendendo, garotão?”

Trecho do conto Dama da noite, de Caio Fernando Abreu.

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu.

Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus.

Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.”

Trecho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

É um narrador em terceira pessoa e narra apenas o que vê, o que observa, isto é, não participa da história e nem tem conhecimento total dos fatos e personagens:

“O sol estava começando a abaixar e a luz da tarde estava sobre a paisagem quando desceram a colina. Até agora não tinham encontrado vivalma na estrada. […].

Já estavam andando havia uma hora ou mais quando Sam parou por um momento, como se escutasse algo.

Estavam agora em terreno plano, e a estrada, depois de muitas curvas, estendia-se em linha reta através de um capinzal salpicado de árvores altas, […].”

Trecho do romance O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien, tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves.

“Em seguida, os homens caíram na gargalhada ao ver o garoto enfurecido, empunhando uma espada que mais parecia um brinquedo. Um deles segurou Abel pela túnica, de modo a deixá-lo imobilizado. Ainda assim, ele agitava a espada no ar, tentando atingir seu desafeto, o que só fez crescer o riso de todos.”

Trecho do romance A lenda de Abelardo, de Dionisio Jacob.

É um narrador em terceira pessoa e tem total conhecimento dos fatos e dos personagens. Assim, ele conhece o passado, o presente e o futuro dos personagens, bem como seus pensamentos e sentimentos:

“Enfim — e era esse o motivo mais poderoso para que ninguém desejasse ver a pobre Linda —, havia a sua aparência. Gorda, com a mocidade perdida, os dentes cariados, a pele pustulosa e aquele corpo — Ford! Era simplesmente impossível olhá-la sem sentir náuseas; sim, náuseas. Por isso, as pessoas das mais altas camadas estavam firmemente decididas a não ver Linda.

E, quanto a esta, também não tinha desejo algum de vê-las. A volta à civilização era, para ela, a volta ao soma; […]. O soma não trazia nenhuma dessas consequências desagradáveis. Proporcionava um esquecimento perfeito, e se o despertar era desagradável, não o era intrinsecamente, mas apenas em comparação com as alegrias desfrutadas. […] O dr.

Shaw a princípio hesitou, depois consentiu que tomasse quanto quisesse.”

Trecho do romance Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano.

“Clarissa fica ali parada com uma sensação de culpa, com as flores no braço, torcendo para que a estrela apareça de novo, constrangida com seu interesse.

Ela não é dada a bajular celebridades, não mais do que a maioria das pessoas, mas não consegue evitar a atração exercida pela aura da fama — mais do que fama, imortalidade mesmo — […]. Clarissa se deixa ficar parada ali, tola como qualquer fã, por mais alguns minutos, na esperança de ver a estrela surgir.

Sim, só mais alguns minutos, antes que a humilhação se torne simplesmente demais. […]. Depois de alguns minutos (quase dez, embora deteste admiti-lo), parte de supetão, indignada, […].”

  1. Trecho do romance As horas, de Michael Cunningham, tradução de Beth Vieira.
  2. Leia mais: Memórias Póstumas de Brás Cubas – obra que apresenta um narrador inusitado

Como Classificar O Narrador Quanto A Presença? Os tipos de narrador podem moldar uma história.

  • Questão 1 – (Enem)
  • Miguilim

“De repente lá vinha um homem a cavalo. Eram dois. Um senhor de fora, o claro de roupa. Miguilim saudou, pedindo a bênção. O homem trouxe o cavalo cá bem junto. Ele era de óculos, corado, alto, com um chapéu diferente, mesmo.

— Deus te abençoe, pequenino. Como é teu nome?

— Miguilim. Eu sou irmão do Dito.

— E o seu irmão Dito é o dono daqui?

— Não, meu senhor. O Ditinho está em glória.

O homem esbarrava o avanço do cavalo, que era zelado, manteúdo, formoso como nenhum outro. Redizia:

— Ah, não sabia, não. Deus o tenha em sua guarda… Mas que é que há, Miguilim?

Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, por isso é que o encarava.

— Por que você aperta os olhos assim? Você não é limpo de vista? Vamos até lá. Quem é que está em tua casa?

— É Mãe, e os meninos…

Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos. O senhor alto e claro se apeou. O outro, que vinha com ele, era um camarada.

O senhor perguntava à Mãe muitas coisas do Miguilim. Depois perguntava a ele mesmo:

— Miguilim, espia daí: quantos dedos da minha mão você está enxergando? E agora?”

ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. 9. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Essa história, com narrador observador em terceira pessoa, apresenta os acontecimentos da perspectiva de Miguilim. O fato de o ponto de vista do narrador ter Miguilim como referência, inclusive espacial, fica explicitado em:

a) “O homem trouxe o cavalo cá bem junto.”

b) “Ele era de óculos, corado, alto […].”

c) “O homem esbarrava o avanço do cavalo, […].”

d) “Miguilim queria ver se o homem estava mesmo sorrindo para ele, […].”

e) “Estava Mãe, estava tio Terez, estavam todos.”

Resolução

Alternativa A. O narrador tem Miguilim como referência. Isso está explicitado, inclusive do ponto de vista espacial, em “O homem trouxe o cavalo cá bem junto”. A presença do advérbio de lugar “cá” indica o ponto de vista do personagem Miguilim.

Questão 2 – (Enem)

“Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três.

Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar mais nem uma hora naquela casa.

Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.

Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras… Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?”

LINS, O. A partida. Melhores contos. Seleção e prefácio de Sandra Nitrini. São Paulo: Global, 2003.

  1. No texto, o personagem narrador, na iminência da partida, descreve a sua hesitação em separar-se da avó. Esse sentimento contraditório fica claramente expresso no trecho:
  2. a) “A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir.”
  3. b) “Restava-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco.”
  4. c) “Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama.”
  5. d) “Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e amor.”

e) “Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras…”

Resolução

Alternativa E. O questionamento do narrador — “Deveria fugir ou falar com ela?” — indica a sua hesitação.

Questão 3 – (Enem)

Texto I

“[…

] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda “ordem”; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes […].”

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NASSAR, R. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Texto II

“Raduan Nassar lançou a novela Um Copo de Cóleraem 1978, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar.”

COMODO, R. Um silêncio inquietante. IstoÉ. Disponível em: http://www.terra.com.br. Acesso em: 15 jul. 2009.

  • Considerando-se os textos apresentados e o contexto político e social no qual foi produzida a obra Um copo de cólera, verifica-se que o narrador, ao dirigir-se à sua parceira, nessa novela, tece um discurso
  • a) conformista, que procura defender as instituições nas quais repousava a autoridade do regime militar no Brasil, a saber: a Igreja, a família e o Estado.
  • b) pacifista, que procura defender os ideais libertários representativos da intelectualidade brasileira opositora à ditadura militar na década de 70 do século passado.
  • c) desmistificador, escrito em um discurso ágil e contundente, que critica os grandes princípios humanitários supostamente defendidos por sua interlocutora.
  • d) politizado, pois apela para o engajamento nas causas sociais e para a defesa dos direitos humanos como uma única forma de salvamento para a humanidade.
  • e) contraditório, ao acusar a sua interlocutora de compactuar com o regime repressor da ditadura militar, por meio da defesa de instituições como a família e a Igreja.
  • Resolução:

Alternativa C. O discurso do narrador é desmistificador, pois não romantiza, mostra as coisas como elas são. Ágil e contundente, critica os grandes princípios humanitários, quando diz: “[…

], e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso!”.

Tipos de narrador: quais são, características

Você conhece os principais tipos de narradores que um texto literário pode ter? E também sabe o que é foco narrativo? O ato de narrar histórias acompanha a trajetória do homem há muito tempo.

Inicialmente se manifestando de forma oral, a narração era conduzida por um contador de histórias, que trazia aos ouvintes lendas, contos, fábulas, seja em 1ª pessoa ou em 3ª pessoa do discurso, ou seja, ele podia se colocar na história contada como um participante das ações, no caso de se narrar em 1ª pessoa, ou como alguém que está de fora dos acontecimento e os transmite a outros.

Com o surgimento da escrita, essas narrativas passaram a ser registradas no papel e, com o passar do tempo, outras histórias foram sendo escritas, o que exigiu de seus escritores criatividade para comporem enredos com personagens, tempo, espaço e narrador atrativos ao público leitor. Assim, esse aperfeiçoamento da narração, ao longo do tempo, possibilitou o desenvolvimento de variados tipos de narrador, os quais não podem, hoje, serem caracterizados unicamente como de 1ª ou de 3ª pessoa.

Leia também: Epopeia – gênero clássico que deu origem às narrativas atuais

Como Classificar O Narrador Quanto A Presença? Conhecer os tipos de narrador existentes facilita a compreensão de textos literários.

Os textos narrativos têm como elementos básicos de sua constituição a presença de personagens, tempo, espaço e narrador, os quais compõem o enredo da história narrada. Em relação ao narrador, os estudos literários tendem a englobá-los dentro da categoria “foco narrativo”.

Esse conceito diz respeito ao enfoque dado pelo autor à voz que narra, ou seja, se a ênfase é dada a uma voz narrativa em 1ª pessoa, diz-se que o foco narrativo é de 1ª pessoa, ao passo que se a ênfase é dada a uma voz narrativa em 3ª pessoa, diz-se que o foco narrativo é de 3ª pessoa. Esses dois focos narrativos principais, porém, podem apresentar vertentes diferentes, o que resulta em tipos de narrador distintos.

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Tipos de narrador

O narrador personagem é aquele centrado no foco narrativo em 1ª pessoa do discurso. Na narrativa, esse tipo de narrador participa das ações que constituem o enredo da história narrada. Observe um trecho do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis:

“Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra de um instante. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. Dei um pulo, e antes que ela raspasse o muro, li estes dous nomes, abertos ao prego, e sim dispostos:

BENTO

CAPITOLINA

Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro… Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado.

Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se.

Não marquei a hora exata daquele gesto.”

Nesse trecho do capítulo XIV, intitulado “A inscrição”, o narrador personagem Bentinho relembra, na fase adulta, o início de sua paixão por sua vizinha de infância Capitu. Como se nota nos verbos e nos pronomes utilizados, a 1ª pessoa discursiva é evidente.

Além dessas marcas linguísticas subjetivas, o leitor tem que ter que mente que o narrador personagem, por participar dos fatos que narra, ao mesmo tempo em que transmite mais veracidade ao que conta, também tende a ser mais parcial, ou seja, ele se torna menos confiável, já que só narra o que vivencia, o que vê, o que sente. Isso faz com que sua visão não alcance o todo, não penetre nas percepções psicológicas de outros personagens. No caso de Dom Casmurro, por exemplo, o leitor é levado a crer que o narrador personagem, o Bentinho, foi traído por Capitu, pois tem-se, nessa narrativa, somente a percepção subjetiva dos fatos a partir da visão enciumada do protagonista.

Veja também: Memórias Póstumas de Brás Cubas – romance machadiano com um narrador inusitado

O narrador observador, assim como o narrador personagem, é centrado no foco narrativo em 1ª pessoa do discurso.

Distingui-se do narrador personagem, pois o narrador observador participa da história não como um personagem protagonista, mas como um coadjuvante que vê o que narra, mas sem ser o centro do enredo.

Observe um trecho do romance O nome da rosa, cujo enredo é ambientado na Idade Média.

“O tempo que estivemos juntos não tivemos oportunidade de levar vida muito regular: mesmo na abadia velamos à noite e caímos cansados de dia, nem participamos regularmente dos ofícios sagrados. Contudo, em viagem, raramente ficava acordado após as completas e tinha hábitos parcos.

Algumas vezes, como aconteceu na abadia, passava o dia inteiro movendo-se no horto, examinando as plantas como se fossem crisóprasos ou esmeraldas, e o vi andando pela cripta do tesouro admirando um escrínio cravejado de esmeraldas e crisóprasos como se fosse uma touceira de estramônio.

Outras vezes permanecia o dia todo na sala grande da biblioteca folheando manuscritos como a procurar neles nada além que o próprio prazer (enquanto ao nosso redor se multiplicavam os cadáveres dos monges horrivelmente assassinados). Um dia encontrei-o passeando no jardim sem objetivo aparente, como se não precisasse prestar contas a Deus de seus atos.

Na Ordem haviam-me ensinado um modo bem diverso de dividir o meu tempo, e eu lhe disse isso. E ele respondeu que a beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas também pela variedade na unidade.”

No romance O nome da rosa, obra do italiano Umberto Eco lançada em 1980, o personagem secundário, Adso de Melk, narra, na velhice, os fatos protagonizados por seu mestre, o frei Guilherme de Baskerville.

Assim, nessa narrativa, o leitor só tem acesso à narração e à descrição de fatos vistos pelo narrador observador quando este era um jovem aprendiz que participava de forma secundária das ações que constituem o enredo ficcional.

Assim como o narrador personagem, o narrador observador acaba tendo uma visão subjetiva, parcial dos fatos que narra.

O narrador onisciente é aquele cujo foco narrativo é centrado na 3ª pessoa discursiva.

Espécie de “deus” que tudo sabe e tudo vê, esse tipo de narrador sabe o passado, o presente e o futuro de cada personagem na narrativa, bem como seus pensamentos e estados emocionais.

Na literatura brasileira, o romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, figura como um importante exemplo de obra narrativa em que o narrador predominante é o onisciente. Veja um trecho.

“Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinha fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis.

Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido.

Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.[…]

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.”

Nessa passagem do clássico de Graciliano Ramos, a cachorra da família de retirantes nordestinos, chamada Baleia, é subjetivada pelo narrador, que lhe atribui consciência.

Após levar um tiro de seu dono, Fabiano, que decide matá-la por representar uma despesa a mais para uma família já muito empobrecida pela seca, a cadela tem sua consciência desvendada pelo narrador, como no trecho “Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite?”.

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Exercícios resolvidos

Questão 1 – (Universidade da Amazônia – 2008) Leia o trecho a seguir:

[…] “Ia andando. De duas em duas casas, no quarteirão, era este aquele, um, dois, até três, não fazia tanta falta, fazia? E Libânia? Teria feito igual? Não. Nunca. Ou capaz? Com Antônio, este do xarão já nem mais o papel. Ou não? O coração diminuía. Tanto nele confiavam e agora nada mais que um gatuninho de doces. Que contas prestaria? Explicar como? “ […]

(Dalcídio Jurandir, Belém do Grão-Pará, p. 233)

A) Privilegia a construção do mundo interior das personagens. B) Registra eventos pitorescos do cotidiano da cidade por meio dos pensamentos e das atitudes da personagem. C) Usa no texto tipos pitorescos da cultura e da linguagem regional como marca da segunda geração modernista.

  • D) Centra na ação intensa vivida pela personagem o desenrolar do texto.
  • Resolução

Alternativa A. O uso reiterado de interrogações que expressam o pensamento dos personagens, isto é, do discurso indireto livre, revela que o autor de Belém do Grão-Pará privilegia a construção do mundo interior dos personagens na construção narrativa, ao invés de focar na descrição pitoresca do cotidiano da cidade.

Questão 2 – Assinale o que for INCORRETO em relação aos elementos do conto “92”, de Dalton Trevisan, transcrito a seguir.

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92 Tarde de verão, é levado ao jardim na cadeira de braços – sobre a palhinha dura a capa de plástico e, apesar do calor, manta xadrez no joelho. Cabeça caída no peito, um fio de baba no queixo.

Sozinho, regala-se com o trino da corruíra, um cacho dourado de giesta e, ao arrepio da brisa, as folhinhas do chorão faiscando – verde, verde! Primeira vez depois do insulto cerebral aquela ânsia de viver.

De novo um homem, não barata leprosa com caspa na sobrancelha – ea sombra das folhas na cabecinha trêmula adormece. Gritos: Recolha a roupa. Maria, feche a janela. Prendeu o Nero? Rebenta com fúria o temporal. Aos trancos João ergue o rosto, a chuva escorre na boca torta.

Revira em agonia o olho vermelho – é uma coisa, que a família esquece na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas? TREVISAN, Dalton. 92. In: Ah, é? 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1994. p. 67.

A) A voz narrativa é de primeira pessoa. Trata-se de um narrador-protagonista, a personagem João, que relata o momento em que sofre um “insulto cerebral”– acidente vascular cerebral –, acontecimento que o impede de retornar ao interior da casa.

B) As indicações temporais cumprem importantes funções na estrutura narrativa, especialmente a de imprimir verossimilhança e movimento ao relato.

O conto em foco, embora sua natureza seja predominantemente psicológica e os fatos estejam intimamente ligados ao estado de espírito do personagem, apresenta marcas cronológicas da passagem do tempo, como se observa no trecho: “Primeira vez depois do insulto cerebral aquela ânsia de viver”.

C) Embora não existam diálogos na narrativa, o narrador, ao empregar o discurso indireto livre, permite que a voz do personagem aflore no texto.

Espécie mista de discurso – indireto e direto –, o indireto livre concilia de tal forma as falas do narrador e de João que elas se confundem na enunciação, como se observa no excerto: “… é uma coisa, que a família esquece na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas?”.

D) Alguns elementos revelam-se importantes na estrutura narrativa por identificarem-se com o estado emocional do personagem.

Na situação inicial da narrativa, apesar do desconforto ao ser deixado no jardim (“palhinha dura”, “capa de plástico”, “apesar do calor, manta xadrez sobre os joelhos”), João mostra-se tranquilo e a natureza reflete esse sentimento: “Sozinho, regala-se com o trino da corruíra, um cacho dourado de giesta e, ao arrepio da brisa, as folhinhas do chorão faiscando – verde, verde!”. No final, o espaço, modificado pelo agente transformador da situação de equilíbrio inicial – o temporal –, apresenta íntima conexão com o estado emocional do personagem, que, sentindo-se abandonado, “revira em agonia o olho vermelho…”.

Resolução

Alternativa A. A alternativa incorreta é a A, isso porque a voz narrativa não é de primeira pessoa; trata-se de um narrador observador em 3ª pessoa.

Publicado por: Leandro Guimarães

Categorias da narrativa – Wikipédia, a enciclopédia livre

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Os textos literários narrativos podem encaixar-se em diferentes e diversas categorias, sendo elas:

  • narrador;
  • ação;
  • personagens;
  • tempo;
  • espaço.

Narrador

Presença

  • Autodiegético – quando é personagem principal.
  • Homodiegético – quando é personagem secundária.
  • Heterodiegético – quando é uma personagem exterior à ação.

Ciência

  • Omnisciente – quando sabe os pensamentos das personagens.
  • Não omnisciente – quando desconhece os pensamentos das personagens.

Posição

  • Subjectivo – quando apresenta comentários.
  • Objectivo – quando narra a história sem dar a sua opinião.

Presença na ação

  • Narrador presente ou participante – está presente na ação como personagem; no discurso usa pronomes, determinantes e formas verbais da 1ª pessoa gramatical (eu, nós, meu, nosso, encontrei, fiz).
  • Narrador ausente ou não participante – não desempenha qualquer papel na ação, narrando os acontecimentos sem neles intervir; no discurso usa pronomes, determinantes e formas verbais da 3ª pessoa gramatical (ele, seus, eles, encontrou, fez).

Acção

Relevo:

  • Principal – constituída pelos acontecimentos principais.
  • Secundária – constituída pelos acontecimentos menos relevantes.

Estrutura:

  • Encadeamento – as sequências encontram-se ordenadas cronologicamente.
  • Encaixe – uma sequência é encaixada dentro de outra.
  • Alternância – várias sequências vão sendo narradas alternadamente.

Momentos:

  • Situação inicial – introdução, onde se apresentam as personagens etc.
  • Peripécias ou ponto culminante – desenrolar do enredo, conduzindo ao desenlace.
  • Desenlace – conclusão.

Delimitação:

  • Aberta – Quando não se conhece o desenlace da história
  • Fechada – Quando Se Conhece O Desenlace ; Conhecendo-se o destino de todas as personagens.
  • 1- narração – o narrador
  • 2-discrição – o narrador
  • 3-dialogo – as personagens

Personagens

Relevo:

  • Principal – papel preponderante, no qual é o centro da ação.
  • Secundária – papel de menor relevo, auxiliando a personagem principal.
  • Figurantes – não intervêm diretamente na ação, servem como uma “decoração”.

Composição:

  • Modelada ou redonda – comportamento altera-se ao longo da ação.
  • Plana – mantém sempre o mesmo comportamento.
  • Tipo – representa uma estrutura social ou um grupo.

Processo de caracterização:

  • Direta –
  1. autocaracterização – feita pela própria personagem.
  2. heterocaracterização – feita pelo narrador ou outra personagem.
  • Indireta – deduzida pelo leitor.

Tempo

  • Cronológico – sucessão cronológica dos acontecimentos
  • Histórico – corresponde a época ou ao momento em que decorre a ação.
  • Psicológico – tempo vivido pela personagem, de acordo com o seu estado de espirito.
  • Do discurso – corresponde ao tempo em que a história é escrita.

Espaço

  • Físico – lugar onde se desenrola a ação.
  • Social – meio ambiente onde a ação decorre.
  • Psicológico – refere-se ao interior das personagens.

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O Narrador e a Gramática da Narração – Brasil Escola

O Narrador

O narrador é o dono da voz ou, em outras palavras, a voz que nos conta os fatos e seu desenvolvimento. Dependendo da posição do narrador em relação ao fato narrado, a narrativa pode ser feita em primeira ou em terceira pessoa do singular. Temos assim, o ângulo, o ponto de vista, o foco pelo qual serão narrados os acontecimentos (daí falar-se em foco narrativo).

Na narração em primeira pessoa, o narrador participa dos acontecimentos; é, assim, um personagem com dupla função: o personagem-narrador.

Pode ter uma participação secundária nos acontecimentos, destacando, desse modo, seu papel de narrador, ou ter importância fundamental, sendo mesmo o personagem principal.

Nesse caso, a narração em primeira pessoa permite ao autor penetrar e desvendar com maior riqueza o mundo psicológico do personagem.

É importante observar que, nas narrações em primeira pessoa, nem tudo o que é afirmado pelo narrador corresponde à “verdade”, pois, como ele participa dos acontecimentos, tem deles uma visão própria, individual e, portanto, parcial. A principal característica desse foco é, então, a visão subjetiva que o narrador tem dos fatos: ele narra apenas o que vê, observa e sente, ou seja, os fatos passam pelo filtro de sua emoção e percepção.

Já nas narrações em terceira pessoa, o narrador está fora dos acontecimentos; podemos dizer que ele paira acima de tudo e de todos.

Essa situação lhe permite saber de tudo, do passado e do futuro, das emoções e dos pensamentos dos personagens – daí ser chamado de onisciente (oni + sciente, ou seja, “o que tem ciência de tudo”, “o que sabe de tudo”).

Repare que o narrador onisciente “lê” os sentimentos, os desejos mais íntimos da personagem (aliás, o narrador vê o que ninguém tem condições de ver: o mundo interior do personagem), e sabe qual será a repercussão desse ato no futuro.

O Enredo

O enredo (ou trama, ou intriga) é, podemos dizer, o esqueleto da narrativa, aquilo que dá sustentação à história, o que a estrutura, ou seja, é o desenrolar dos acontecimentos (é a linha se entrelaçando, formando a malha, a trama, a rede, o tecido, o texto). Geralmente, o enredo está centrado num conflito, responsável pelo nível de tensão da narrativa.

Os Personagens

Os seres que participam do desenrolar dos acontecimentos, isto é, aqueles que vivem o enredo, são os personagens (em português, a palavra personagem tanto pode ser masculina como feminina).

Em geral, o personagem bem construído representa uma individualidade, apresentando traços psicológicos próprios.

Há também personagens que representam tipos humanos, identificados pela profissão, pelo comportamento, pela classe social, enfim, por algum traço distintivo comum a todos os indivíduos dessa categoria.

Há ainda personagens cujos traços de personalidade ou padrões de comportamento são extremamente acentuados (às vezes beirando o ridículo); nesses casos (muito comuns, por exemplo, em novelas de televisão), temos personagens caricaturais.

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Personagem e Enredo

Veja como se dá a relação personagem/enredo, segundo o crítico Antonio Candido:

Geralmente, da leitura de um romance fica a impressão duma série de fatos, organizados em enredo, e de personagens que vivem esses fatos.

É uma impressão praticamente indissolúvel: quando pensamos no enredo, pensamos simultaneamente nas personagens; quando pensamos nestas, pensamos simultaneamente na vida em que se enredam, na linha do seu destino – traçada conforme uma certa duração temporal, referida a determinadas condições de ambiente.

O enredo existe através dos personagens; as personagens vivem do enredo. Enredo e personagem exprimem, ligados, os intuitos do romance, a visão da vida que decorre dele, os significados e valores que o animam. [CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1987. p. 534).

O Ambiente

Ambiente é o cenário por onde circulam personagens e onde se desenrola o enredo. Em alguns casos, a importância do ambiente é tão fundamental que ele se transforma em personagem.

Por exemplo: o Nordeste, em grande parte do romance modernista brasileiro; o colégio interno, em O Ateneu, de Raul Pompéia; o caso mais nítido está em O cortiço, de Aluísio Azevedo.

Observe como sempre há relação estreita entre o personagem, seu comportamento e o ambiente que o cerca; repare como, muitas vezes, por meio dos objetos possuídos podemos fazer um retrato perfeito do possuidor.

O Tempo

O narrador pode se posicionar de diferentes maneiras em relação ao tempo dos acontecimentos – pode narrar os fatos no tempo em que eles estão acontecendo; pode narrar um fato perfeitamente concluído; pode entremear presente e passado, utilizando a técnica de flashback.

Há também o tempo psicológico, que reflete angústias e ansiedades de personagens e que não mantém nenhuma relação com o tempo propriamente dito, cuja passagem é alheia à nossa vontade. Falas como “Ah, o tempo não passa…

” ou “Esse minuto não acaba!” refletem o tempo psicológico.

A Gramática na Narração

Num texto narrativo predominam os verbos de ação: há, em geral, um trabalho com os tempos verbais. Afinal, a narração, ou seja, o desenrolar de um fato, de um acontecimento, pressupõe mudanças; isso significa que se estabelecem relações anteriores, concomitantes e posteriores.

Ao optar por um dos tipos de discursos, organizamos o texto de forma diferente. Os verbos de elocução, os conectivos, a pontuação, a coordenação ou a subordinação passam a ter papel relevante na montagem do texto.

Ao transformar o discurso direto em indireto (ou vice-versa), realizamos uma grande mexida na arquitetura do texto.

  • Portanto, para organizarmos um bom texto narrativo, temos de trabalhar o arcabouço gramatical que o sustenta (isso sem contarmos que, em geral, deparamo-nos com passagens descritivas no miolo de um texto narrativo, o que exige uma organização diferenciada).
  • Por Marina Cabral
  • Especialista em Língua Portuguesa e Literatura

Classificação do Narrador em Memorial do Convento – ppt carregar

1 Classificação do Narrador em Memorial do Convento402308_Escola Secundária de Moura Ano Letivo 2012/2013 Disciplina de Português – 12.º Ano, Turma B Classificação do Narrador em Memorial do Convento Trabalho realizado por: Luís Nepomuceno – N.º 15 A Docente da Disciplina Cristina Frutuoso 22 de maio de 2013

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2 NARRADOR Ser virtual criado pelo autor a quem cabe a tarefa de enunciar o discurso narrativo, organizar o modo de narrar e decidir o ponto de vista a adotar. É ao narrador que cabe a configuração do universo diegético. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

3 CLASSIFICAÇÃO DO NARRADORQUANTO À PRESENÇA… NÃO PARTICIPANTE HETERODIEGÉTICO O narrador não participa na ação. PARTICIPANTE AUTODIEGÉTICO O narrador é personagem principal (protagonista). HOMODIEGÉTICO O narrador é personagem secundária. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

4 CLASSIFICAÇÃO DO NARRADORQUANTO À CIÊNCIA/FOCALIZAÇÃO… OMNISCIENTE O narrador conhece toda a história, manipula o tempo e conhece o interior das personagens.

INTERNA/INTRADIEGÉTICA O narrador conhece toda a história, mas adota o ponto de vista de uma ou mais personagens, resultando numa diminuição de conhecimento. EXTERNA/EXTRADIEGÉTICA O narrador conhece apenas o que é observável.

Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

5 CLASSIFICAÇÃO DO NARRADOR QUANTO AO PONTO DE VISTA…OBJETIVO O narrador relata a história com objetividade e imparcialidade. SUBJETIVO O narrador relata a história com subjetividade (juízos de valor, considerações pessoais…). É parcial naquilo que diz. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

6 NARRATÁRIO Pode identificar-se com o leitor virtual (todo o leitor que venha a ler a obra). É a ele que se dirige o narrador. Pode também ter o estatuto de uma personagem e intervir na ação. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

7 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HETERODIEGÉTICOO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HETERODIEGÉTICO Trata-se de uma entidade exterior à história que assume a função de relatar os acontecimentos.

Surge normalmente na terceira pessoa (essa presença é transmitida pelos pronomes e verbos). Por vezes, a voz do narrador heterodiegético confunde-se com o pensamento de outra personagem. EXEMPLO 1 “Veio andando devagar.

Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo.

” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) EXEMPLO 1 Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

8 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICOO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICO Ocorre na primeira pessoa do singular ou plural.

O narrador é uma personagem da história, que revela as suas próprias vivências – não se trata do protagonista, mas de uma personagem que se insere na diegese e que, em determinada situação, reivindica o relato dos acontecimentos que viveu.

Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

9 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICOO NARRADOR NA OBRA EXEMPLO 2 “(…) na grande entrada de onze mil homens que fizemos em outubro do ano passado e que se terminou com perda de duzentos nossos (…) A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em Barcarrota e pouco gosto para gozar dele (…)” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICO O narrador pode tratar-se/ser: Um eu nacional e coletivo, associado aqui à ideia de Pátria. O narrador identifica-se com as outras personagens; O “eu” narrador pode ser descrito como o “eu” autor textualmente implícito; O narrador homodiegético pode aparecer misturado com a própria multidão; União entre a voz do narrador e a de outras personagens, em substituição do discurso direto. EXEMPLO 3 EXEMPLO 2 “Num canto da abegoaria desenrolaram a enxerga e a esteira, aos pés delas encostaram o escano, fronteira a arca, como os limites de um novo território, raia traçada no chão e em panos levantada, suspensos estes de um arame, para que isto seja de facto uma casa e nela possamos encontrar-nos sós quando estivermos sozinhos.” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) EXEMPLO 3 Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

10 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICOO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À PRESENÇA NARRADOR HOMODIEGÉTICO Existem outros narradores secundários homodiegéticos/vozes narrativas, como por exemplo: Manuel Milho:  Durante a ida a Pêro Pinheiro, noite após noite, vai contando parte de uma história aos companheiros. João Elvas:  Para entreter a noite enquanto estão abrigados no telheiro, conta a Baltasar numa série de crimes horrendos. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

11 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO OMNISCIENTEO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO OMNISCIENTE Trata-se de um saber que implica não só a transcendência em relação a todas as personagens como uma perspetiva tridimensional do tempo – o presente, o passado e o futuro – a que está subjacente uma visão integrada dos acontecimentos e a inscrição dos fenómenos narrados numa determinada cultura, transversal a um conhecimento global da História. É este conhecimento que permite ao narrador seguir eventos ocorridos em tempos distintos. Assim, o narrador está presente ao nível do tempo da história e, simultaneamente, surge num outro tempo, posterior, o do discurso, o tempo da enunciação. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

12 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERNA/INTRADIEGÉTICAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERNA/INTRADIEGÉTICA Instaura-se o ponto de vista de uma das personagens que vive a história.

Por vezes, é a perspetiva de determinada personagem que nos é apresentada, acontecendo ser esta que apresenta os seus pensamentos e relata os acontecimentos: EXEMPLO 4 Relato de Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda, sobre a sua situação no auto de fé EXEMPLO 5 Descrição de Mafra através do olhar de Baltasar Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

13 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERNA/INTRADIEGÉTICAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERNA/INTRADIEGÉTICA EXEMPLO 4 EXEMPLO 5 “(…) e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era feito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou eu blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola (…)” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) “Está um pouco azamboado Sete-Sóis, que nova Mafra é esta, cinquenta moradas lá em baixo, quinhentas cá em cima, sem falar noutras diferenças, como esta fiada de casas de pasto, barracões quase tão grandes como os dormitórios, com mesas e bancos corridos, fixados no chão (…)” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

14 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO EXTERNA/EXTRADIEGÉTICAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO EXTERNA/EXTRADIEGÉTICA Estamos perante um narrador observador, que descreve objetivamente o ambiente que o cerca: EXEMPLO 6 “Ficará neste alto a que chamam da Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas…” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

15 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVA Surge com a função de comentário, aliada à adesão ou rejeição de comportamentos ou formas de estar das personagens, e apresenta, geralmente, uma função ideológica. Encontramos uma focalização interventiva nos seguintes momentos: O narrador tece comentários, por vezes com caráter valorativo, a propósito dos eventos narrados; Os comentários do narrador traduzem a voz do povo; O narrador recorre a aforismos. EXEMPLO 7 EXEMPLO 8 Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

16 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVA EXEMPLO 7 EXEMPLO 8 “(…) Um dia terão lástima de nós as gentes do futuro por sabermos tão pouco e tão mal, padre Francisco Gonçalves, isto dissera o padre Bartolomeu Lourenço antes de recolher ao seu quarto, e o padre Francisco Gonçalves, como lhe competia, respondeu, Todo o saber está em Deus, Assim é, respondeu o Voador, mas o saber de Deus é como um rio de água que vai correndo para o mar, é Deus a fonte, os homens o oceano, não valia a pena ter criado tanto universo se não fosse para ser assim, e a nós parece-nos impossível poder alguém dormir depois de ter dito ou ouvido dizer coisas destas.” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) “(…) já se ouviu bater a porta, soaram os passos na escada, vêm falando familiarmente a ama e a criada, pudera não (…)” Saramago, José (2012). Memorial do Convento. Editorial Caminho (51.ª edição) Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

17 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVAO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA FOCALIZAÇÃO INTERVENTIVA/JUDICATIVA As intervenções do narrador surgem como prolepses.

A antecipação de alguns acontecimentos serve os seguintes objetivos: A crítica social: Mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D.

Pedro, de modo a estabelecer o contraste entre os dois funerais; Morte de Álvaro Diogo, que viria a cair de uma parede, durante a construção do convento; Bastardos que o rei iria gerar, filhos das freiras que seduzia.

A visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador: Referências aos cravos (símbolos da revolução do 25 de abril); Associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens terem ido à Lua; Alusão ao tipo de diversões que se vivia no século XVIII e ao cinema. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

18 CLASSIFICAÇÃO QUANTO AO PONTO DE VISTA NARRADOR OBJETIVO/SUBJETIVOO NARRADOR NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO AO PONTO DE VISTA NARRADOR OBJETIVO/SUBJETIVO O narrador pode ser considerado tanto objetivo como subjetivo, já que são várias as situações em que se expressam juízos de valor e opiniões sobre determinados assuntos. Por vezes, utiliza-se a ironia por diversas vezes para expressar aquilo que pensa. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

19 CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA EXEMPLOS DE NARRATÁRIOSO NARRATÁRIO NA OBRA CLASSIFICAÇÃO QUANTO À CIÊNCIA EXEMPLOS DE NARRATÁRIOS Leitores; Baltasar e os companheiros de trabalho:  Manuel Milho, na ida a Pêro Pinheiro, noite após noite, vai contando parte de uma história aos companheiros; Baltasar:  João Elvas, para entreter a noite enquanto estão abrigados no telheiro, conta uma série de crimes horrendos; João Elvas:  Durante o diálogo que se estabelece entre este e Baltasar. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

20 OMNISCIÊNCIA DO NARRADORCONCLUSÃO OMNISCIÊNCIA DO NARRADOR A intertextualidade com outras obras e outros autores, ultrapassando as barreiras do tempo; A mudança de focalização do narrador para a de uma personagem; A mudança repentina do convencional discurso de terceira pessoa para o de primeira pessoa; A permanente ansiedade do narrador pela contemporaneidade que conduz à constante reflexão sobre a vida humana; O conhecimento de histórias da tradição e do imaginário popular; Os juízos pessoais, amargamente irónicos, mas também simpáticos; Apartes que revelam cumplicidade com leitor; A partilha de referentes comuns ao narrador e ao leitor do século XX, profundamente irónica; A atualização de conceitos, uma vez que o narrador tem consciência que o leitor não domina o universo do século XVIII. Memorial do Convento, José Saramago – O Narrador: Classificação

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