Como Ajudar Pessoas Que Se Automutilam?

POR: Laís Semis 25 de Novembro | 2016 Como Ajudar Pessoas Que Se Automutilam? Crédito: Shutterstock

Lâminas de apontador, compassos, estiletes. Esses simples objetos que fazem parte do material escolar têm sido usados por adolescentes para automutilação, também conhecido por cutting. Essa prática foi reconhecida como transtorno mental em 2013 pela Sociedade Americana de Psiquiatria e pode ser definida como uma agressão ao próprio corpo sem intenção consciente de suicídio. Segundo a psicóloga Cláudia Paiva de Magalhães, apesar de não existirem estudos no Brasil, pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que os casos ficaram mais frequentes na última década.Como muitos deles ocorrem no início da adolescência, a escola precisa estar atenta a esses movimentos entre os alunos para tomar as medidas necessárias. Confira abaixo as principais dúvidas sobre o tema e maneiras de lidar com isso.

O que é automutilação?A automutilação é uma prática de agredir o próprio corpo, que pode acontecer de diferentes formas. A mais comum é fazer pequenos cortes na pele, mas a pessoa também pode se bater, se queimar com cigarro, arrancar os cabelos, se furar com agulhas ou praticar qualquer outra autolesão.

“Os ferimentos costumam ser feitos em lugares que podem ser escondidos, como braço, perna e barriga.

Os adolescentes tentam escondê-los com pulseirinhas, deixam de usar shorts e passam a usar mais mangas longas”, explica Jackeline Giusti, psiquiatra assistente do ambulatório de adolescentes com problemas de automutilação, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

O que motiva esse comportamento?Muito diferente do que as pessoas acham, o autor não busca a dor física pelo prazer de senti-la. “Na maioria dos casos, a automutilação é reflexo de uma incapacidade de lidar com seus próprios sentimentos, como angústias, medos, tristeza e conflitos.

Os adolescentes veem nessa prática a saída mais rápida para aliviar esse intenso sofrimento. É uma troca da dor emocional pela dor física”, explica a psicóloga Cláudia. O ato também pode ter relação com se punir por alguma atitude, raiva ou com a autoestima baixa. Em algumas situações, pode estar associado à depressão.

“Não precisa existir um transtorno psiquiátrico, mas, geralmente, há uma tristeza envolvida”, aponta Jackeline, da USP.

Para João Paulo Braga, doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará e autor da tese “Autolesão na Era da Informação: uma abordagem sociológica do cutting entre subculturas urbanas”, apesar dos estudos se concentrarem na área médica, é preciso considerar as razões sociais que levam ao crescimento do fenômeno.

“A base do cutting está no empobrecimento das relações interpessoais das crianças logo no início da adolescência, somado a um grau de exigência muito grande, não só de estudo, mas de beleza física”, diz. Ele afirma que, apesar do aumento dos casos, a automutilação não é um modismo adolescente.

“Quase todos os relatos que obtive durante os cinco anos de pesquisa apontam problemas familiares como abandono de um ou ambos os pais, rejeição e agressão pelo fato de serem homossexuais, abuso sexual, humilhações que o indivíduo sofre por parte de um dos genitores ou mesmo a vivência com pais excessivamente individualistas e ausentes”, indica.

A internet pode influenciar esse comportamento? A internet em si, não, mas o material que o adolescente tem contato nela, sim. Diferente de outras experiências comuns à idade – como o primeiro beijo – não existe uma pressão de grupo para se automutilar.

No entanto, um jovem pode começar a fazer isso ao se identificar com alguém que já passou por uma situação análoga a dele, especialmente artistas que ele admira, ou com uma comunidade que discuta temas vivenciados por ele.

Dentro de algumas subculturas jovens, por exemplo a de bandas de hardcore e punk , os assuntos tratados nas letras, como melancolia, conflito ou raiva, acabam sendo reconhecidos como os que experimenta o indivíduo que se automutila.

“A música de hardcore é uma forma de extravasar e aliviar as aflições e depressões adolescentes”, explica João.

Existe um perfil de pessoas que se automutilam?A prática costuma se iniciar no começo da adolescência, por volta dos 12 anos, e vai perdendo força à medida que o adolescente se aproxima dos 18 ou 19 anos.

Apesar de ser mais frequente entre meninas, Jackeline, do Instituto de Psiquiatria da USP, alerta que a automutilação costuma ser mais agressiva entre os meninos.

“Às vezes, a intenção é fazer cortes superficiais, mas pela impulsividade e força, acabam fazendo lesões mais sérias do que planejadas”, diz.

O que fazer quando um aluno está se automutilando?A instituição precisa estar atenta aos possíveis sinais – como blusas de frio em altas temperaturas, isolamento, sintomas de baixa auto-estima ou depressão, uma vez identificado um caso, chamar aluno e responsáveis para conversar. “Muitas vezes, os familiares acabam não percebendo isso dentro de casa, o que pode acabar agravando o quadro na medida em que o tempo passa. Muitos acham que usar roupas de mangas longas, se isolar, ou ficar deprimido é ‘coisa de adolescente’ ou ‘modinha’, mas não é”, comenta Cláudia.

Na hora de conversa com o estudante que se automutila, é necessário ter uma atitude acolhedora, sem julgamentos, se mostrar disposto a ouvi-lo e tentar entender.

“Às vezes, o sofrimento está associado à uma dificuldade dele na escola, como não conseguir passar de ano, e uma conversa franca pode diminuir a tensão”, sugere Jackeline. A atitude acolhedora também vale para os pais que, geralmente, não sabem como reagir à situação.

A escola também pode sugerir que o jovem seja encaminhado a um especialista – psicólogo ou psiquiatra – para análise do caso e, se necessário, iniciar um tratamento até que o quadro seja estabilizado.

A escola deve trabalhar o tema, mesmo sem identificar um caso de automutilação?Sim. Para Jackeline, a abordagem na escola tem que começar antes do problema. “Muitos dos adolescentes que eu recebo no ambulatório sofreram bullying por muito tempo.

Por isso, é fundamental realizar um trabalho antibullying e atividades que melhorem a autoestima, desenvolvendo habilidades para expor ideias e lidar com as diversidades e adversidades”, explica.

 Essas atividades melhoram a capacidade de expressão e o sentimento de pertencimento dos estudantes durante essa fase da vida.

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A automutilação – Oficina Psicologia

Como Ajudar Pessoas Que Se Automutilam?

A automutilação (AM) é definida como qualquer comportamento, intencional, envolvendo agressão direta ao próprio corpo, sem intenção suicida e por razões não socialmente ou culturalmente compreendidas. Esta definição exclui tatuagens, perfurações e danos não-intencionais ao próprio corpo.

As formas mais frequentes de automutilação são cortar a própria pele, bater em si mesmo arranhar-se ou queimar-se. Essas lesões podem variar de superficial a moderada, mas em geral não há intenção em provocar a própria morte ou lesões graves com esse tipo de ferimento.

A automutilação é, geralmente, uma maneira expressar ou lidar com uma angústia esmagadora ou aliviar uma tensão insuportável; às vezes, pode ser uma mistura de ambos. A auto-agressão também pode ser um grito de socorro.

A AM é mais comum do que pensamos, especialmente porque as pessoas que se machucam costumam esconder seus ferimentos por vergonha ou medo. Embora possa acontecer em qualquer etapa da vida, é mais comum na adolescência. Em torno de 10% dos jovens relatam ter se envolvido em algum comportamento autolesivo pelo menos uma vez em sua vida.

Esse número é, provavelmente, subestimado, já que – como foi dito – a maior parte das pessoas que praticam AM não relata à ninguém. Em pesquisas com amostras na comunidade, a AM ocorre tanto em homens como mulheres; já em amostras clínicas – aquelas colhidas em centros de tratamento médico ou psicológico – a maior parte são mulheres.

Por que as pessoas se machucam?

  • Na maioria dos casos, as pessoas se machucam para ajudá-las a lidar com questões emocionais insuportáveis, que podem ser causadas por:
  • Problemas sociais – tais como ser intimidado, ter dificuldades no trabalho ou na escola, ter relacionamentos difíceis com amigos ou familiares, entrar em acordo com a sua sexualidade (homo ou bissexualidade) ou lidar com expectativas culturais, como um casamento arranjado;
  • Trauma – como abuso físico ou sexual, a morte de um familiar ou amigo próximo, ou ter um aborto;
  • Causas psicológicas – repetidos pensamentos negativos e depreciadores, sentimentos difíceis (por exemplo, angústia, ansiedade, stress, tristeza), episódios de dissociação (perder o contato com quem você é ou seu ambiente).

As pessoas que se automutilam geralmente tem sentimentos intensos de raiva, culpa, desesperança e baixa autoestima. Todos os estudos que examinam as causas para a AM encontraram fortes evidências de que ela é usada para regular emoções aversivas. Ou seja, geralmente a pessoa experimenta uma emoção negativa e se machuca, o que proporciona uma sensação de alívio.

A AM tem sido frequentemente associada ao transtorno de personalidade borderline (TPB). No entanto, um crescente número de pesquisas indica que, embora muitas pessoas que têm um diagnóstico de DBP se autoflagelam, um grande número de indivíduos que praticam AM não tem um diagnóstico de TPB.

A autoagressão pode estar ligada à ansiedade e à depressão. Essas condições de saúde mental podem afetar pessoas de qualquer idade.

O abuso de substâncias também está em uma das causas de AM. Ao usar uma droga a pessoa até pode inibir o contato com a emoções negativas (que diminuiria a necessidade de se flagelar), mas também aumentar sua impulsividade e levar a uma maior probabilidade de se ferir.

Finalmente, os indivíduos com transtorno de estresse pós-traumático (PTSD) podem ser propensos a se envolver em AM como um meio de lidar com o estresse traumático.

Conseguindo ajuda

Já que a AM pode ter muitas causas, uma avaliação consistente é necessária para garantir que a pessoa que se fere encontre tratamento adequado para seu sofrimento.

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Como a AM é frequentemente usada como um mecanismo para lidar com pensamentos e sentimentos negativos, o tratamento normalmente envolve ter um terapeuta para aprender a nominar e expressar seus pensamentos e sentimentos difíceis e aprender  formas saudáveis e adequadas de lidar com eles, podendo assim melhorar sua autoestima e bem-estar.

As linhas mais comuns para tratamento da AM

Terapia Comportamental Cognitiva (TCC): busca desenvolver no cliente estratégias mais adaptadas para reagir ao estresse mental, assim como modificar estilos de pensamentos negativos que podem perpetuar a AM.

Terapia comportamental dialética (TCD): a TCD é uma forma avançada de CBT. Além de trabalhar com os pensamentos distorcidos, inclui um reforço da regulação emocional e promove estratégias adaptativas de enfrentamento, que incluem:

  1. Mindfulness: Promove a capacidade de permanecer no presente, diminuindo a ruminação e auto-julgamento, promovendo a consciência momento a momento. Isso permite que o cliente deixe de lado sentimentos negativos.
  2. Capacidade de tolerar emoções negativas ou aflições, com foco em habilidades para gerenciar situações estressantes.
  3. Regulação emocional: o foco é nas emoções experimentadas, procurando processar ou modificar as próprias reações emocionais. Além disso, isso pode incluir ensinar aos clientes como lidar com angústia no momento através de técnicas de distração.
  4. Eficácia interpessoal: visa ajudar o cliente a melhorar sua comunicação e interação com os outros, incluindo a comunicação de experiências emocionais.

Farmacêutica Terapêutica:

O tratamento farmacológico não demonstrou eficácia como tratamento isolado para AM. Em geral, a medicação pode ser prescrita para tratar uma doença psiquiátrica associada (por exemplo, depressão maior, ansiedade, etc). Em alguns casos, isso pode resultar em redução dos sintomas de AM e devem sempre ser associadas a um tratamento psicoterápico.

Maus exemplos Celebridades como a atriz Angelina Jolie e a cantora Fiona Apple já declararam que costumavam se cortar na adolescência. Na internet, em chats e grupos de discussão, jovens trocam informações sobre a prática. Muitos filmes recentes abordam o assunto. Tudo isso contribui para que os cortes estejam mais aparentes, dizem os médicos.

“Os adolescentes estão ouvindo falar disso e querem experimentar, assim como gostam de testar outros comportamentos de risco”, afirma a canadense Nancy Heath.

Mas o acesso à informação que o jovem tem hoje pode ser usado para o mal ou para o bem, ressalva a psicanalista Mônica do Amaral, 48, professora de psicologia da educação da USP.

“O cutting pode ser glamourizado, mas é difícil alguém se cortar só para seguir uma moda ou fazer parte da turma”, afirma.

Adolescentes que se automutilam: por quê?

Cerca de um em cada cinco adolescentes relata já ter se ferido para aliviar algum tipo de dor de fundo emocional. O dado vem de uma revisão de 36 estudos realizados em países, como Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia.

O trabalho foi publicado no periódico científico suicide and Life-Threatening Behavior da American Association of Suicidology.

No Brasil, ainda não há estatísticas sobre esse fenômeno, mas os médicos têm notado um crescimento no número de casos.

“Não temos isso documentado em nenhuma pesquisa, mas observamos um aumento da automutilação”, diz a psiquiatra Jackeline Giusti, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

“Atendo bastante adolescentes e minha impressão é que a prevalência aqui seja similar.” Ela dá uma indicação objetiva: o instituto tinha um ambulatório específico para problemas relacionados ao uso de drogas até por volta de 5 anos atrás.

“Daí começamos a receber também casos de automutilação.”

Hoje, de acordo com a especialista, as ocorrências de autolesão não suicida, como o problema é classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais V (DSM-5 na sigla em inglês), têm superado as relacionadas ao uso de substâncias capazes de causar dependência química.

Um panorama mais claro da automutilação no país promete ser obtido por meio da Política Nacional de Prevenção ao Suicídio e à Automutilação. Ela foi sancionada em abril deste ano e, agora, está em fase de regulamentação no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Prevê, entre outras coisas, a notificação compulsória e em caráter sigiloso para os casos de tentativa de suicídio e automutilação por estabelecimentos de saúde, segurança, escolas e conselhos tutelares.

“A ideia é ter um retrato mais fidedigno”, diz Marcelo Couto, que é diretor de Desafios Sociais no Âmbito Familiar da Secretaria Nacional da Família. “Estima-se que 20% dos casos de suicídio, por exemplo, não sejam notificados.”

Por meio da campanha Acolha a vida, o objetivo é sensibilizar a população sobre o tema. “Ainda há muito preconceito”, fala Couto. “A automutilação não é algo para chamar a atenção.” O ministério pretende capacitar, entre outros, educadores, líderes comunitários e religiosos para lidar com a situação.

Para Jackeline Giusti, a iniciativa é boa. “Começa-se a falar mais sobre o assunto.” Além disso, dissemina-se mais conhecimento e as pessoas acabam procurando ajuda ou tentando entender um pouco mais até para prestar auxílio. “Por outro lado, nosso sistema de saúde continua cheio. E não sei se tem sido feito um treinamento específico para esses casos.”

Problema de jovens

A chamada autolesão não suicida é mais incidente no final da adolescência e começo da vida adulta. Não há uma razão exata que explique por que isso ocorre com mais frequência nesse grupo etário. “A adolescência é uma época de muita novidade, de muita pressão”, explica Jackeline Giusti.

Pressão da turma, para estudar, entrar na faculdade. É momento também de treino intenso de habilidades sociais. Segundo a psiquiatra, o adolescente é mais impulsivo por uma questão de maturidade cerebral. “É uma fase em que ainda não há tanto controle inibitório.” Daí as ações muitas vezes irrefletidas.

Os estudos mais recentes mostram maior prevalência entre as garotas, principalmente as pesquisas que usam os critérios de diagnóstico recentes do DSM-5.

Até 2013, a automutilação era classificada como um sintoma de transtorno borderline de personalidade, que é caracterizado por humor, comportamentos e relacionamentos instáveis. “Com o tempo, temos visto muitos pacientes que se automutilam sem esse tipo de transtorno”, diz Giusti.

Então, no DSM-5, o problema entrou na aba de condições para estudos posteriores, com alguns critérios diagnósticos. Dessa forma, foram iniciados estudos mais específicos sobre o problema, tentando categorizá-lo melhor.

Alguns trabalhos e especialistas defendem que ele já seja visto como um transtorno.

“Os pesquisadores têm testado esses critérios diagnósticos para automutilação e os resultados apontam que ela deveria ser, sim, um transtorno à parte”, explica Jackeline.

“Seria como a ansiedade, que está presente, por exemplo, na depressão. É um sintoma em algum momento, mas existe o transtorno de ansiedade generalizado.” Com a autolesão não suicida, seria algo semelhante.

Celebridades como o ator Johnny Depp e a cantora Demi Lovato já vieram a público contar que se automutilavam quando eram mais jovens. No caso de Depp, o divórcio dos pais foi um dos fatores preponderantes.

Esse tipo de relato pode influenciar os adolescentes, sobretudo se estiverem passando por uma situação angustiante parecida.

“Eles acabam se identificando com o sofrimento do personagem e podem adotar o mesmo comportamento”, diz Jackeline Giusti.

Lady Gaga foi outra figura do universo pop a se abrir a respeito dessa questão. “Ela deixou claro que não é legal, tomou cuidado ao falar sobre o assunto”, comenta a psiquiatra. As redes sociais talvez tenham contribuído para o aumento da incidência de autolesão.

Elas muitas vezes são acessadas naquele momento de tristeza e, em alguns grupos dentro delas, o pessoal que ainda não chegou aos 20 anos encontra ideias para dar um tempo no sofrimento. Mesmo que seja momentâneo. “As redes sociais também funcionam como fornecedoras de modelos”, fala a psiquiatra.

Sem falar no bullying que pode rolar nessas plataformas, um gerador extra de pressão e angústia no paciente. “Daí, ele pode recorrer mais à automutilação”, avisa Giusti.

Para os pais

O risco de automutilação é grande em situações nas quais o adolescente às vezes está deprimido, isolado e sob bullying. Só que não é recomendado perguntar diretamente se o jovem se machuca para diminuir a angústia em momentos assim.

Isso pode fazer com que ele pense nisso como uma probabilidade para se aliviar, algo que talvez não tenha ainda considerado, avisa a psiquiatra.

“Temos de tomar muito cuidado também quando vamos conversar sobre automutilação com um adolescente”, diz a psiquiatra.

Essa cautela é necessária para não o influenciar. Muitas vezes ele encara como uma boa ideia. Quando se descobre que a autolesão é praticada, é importante conversar. “O pior é ignorar”, conta Jackeline Giusti. Tem alguma coisa que que ajuda a minorar aquele sofrimento? Ouvir música, por exemplo? “O mais importante é acolher”, finaliza a psiquiatra.

O tratamento

Inicialmente, os especialistas avaliam se existe algum transtorno psiquiátrico associado à automutilação. Ele deve ser tratado porque pode ser a fonte de angústia e sofrimento. “Não há nenhuma medicação específica.

Existem medicamentos para tratar o mal associado, o que às vezes reduz um pouco a impulsividade”, explica Giusti. “Isso ajuda no trabalho com o adolescente para ele não se machucar mais.” E a psicoterapia é de grande auxílio.

A autolesão também chegou a ser considerada como uma tentativa de suicídio, mas, do ponto de vista do paciente, são coisas diferentes: ele se machuca para aliviar uma dor emocional. “Ainda hoje é possível encontrar um artigo ou outro que vai misturar automutilação com tentativa de suicídio”, diz a psiquiatra.

Segundo ela, o DSM ajudou bastante a esclarecer essa confusão, que está na cabeça de muitas pessoas e até de profissionais de saúde. Mas alerta: “Diante de uma automutilação, é importante ficar atento porque esse paciente tem maior risco de tentar suicídio.

” Ele próprio pode dizer que já tentou se matar em outra oportunidade, mas, agora, se cortou porque queria aliviar o sofrimento. Estudos científicos mostram essa maior probabilidade porque são pessoas que têm problemas emocionais intensos.

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Por isso, a necessidade de um cuidado geral.

23 coisas que as pessoas que se automutilam querem que você saiba

“Para mim, era tudo questão de controle. Da minha vida, do meu corpo, das minhas emoções.”

Para ajudar os outros a compreenderem melhor a automutilação, perguntamos a membros da Comunidade BuzzFeed o que eles desejavam dizer às pessoas e quais as concepções erradas eles queriam esclarecer.

Aliás: Só porque a automutilação não é incomum não significa que ela seja um mecanismo de enfrentamento saudável ou que a recuperação não seja possível. Se você estiver lidando com o desejo de se mutilar ou estiver com pensamentos de suicídio, o telefone da US National Suicide Prevention Lifeline é 1-800-273-8255.

Uma lista internacional com telefones de serviços de prevenção ao suicídio pode ser encontrada aqui (incluindo o Brasil). E se você preferir mensagens de texto, pode entrar em contato com a Crisis Text Line enviando mensagens para 741741.

Por fim, aqui está uma lista de coisas que têm ajudado as pessoas na Comunidade BuzzFeed a resistirem ao desejo de se automutilarem.

“Eu queria que as pessoas soubessem que isso não era para chamar a atenção ou para ser provocativo. Comecei a me automutilar quando adolescente como uma forma de me punir. Nunca foi para me exibir ou para que tivessem pena. Era uma coisa particular que eu fazia porque estava sentindo tanta dor emocional que não sabia como expressar isso”.

— Jen, 22

“Foi um grito de ajuda — a única maneira que eu achei que as pessoas realmente me notariam. Muitas pessoas que se cortam esperam que alguém perceba, para que elas então possam realmente obter a ajuda de que precisam”.

— Autumn, 19

“Cortar-se é o tipo mais conhecido de automutilação, mas há muitas maneiras de se machucar. Algumas coisas deixam uma marca e outras não, mas são todas formas legítimas e sérias de se automutilar”.

— Todd, 16

“Sinto que a mídia retrata a automutilação como um sintoma de depressão. Isso é verdade para alguns automutiladores, mas é importante lembrar que as pessoas se automutilam por várias razões diferentes”.

— Kate, 27

“A automutilação é categorizada por psicólogos como autolesão não suicida. Isso significa que automutilação, por definição, não é feita com a morte em mente. Alguém que é suicida pode se automutilar em vez de tentar suicídio, juntamente com uma tentativa de suicídio ou antes de recorrer ao suicídio, mas a automutilação por si só não é uma tentativa de suicídio”.

— Brittany, 19

“Para mim, era tudo questão de controle. Da minha vida, do meu corpo, das minhas emoções”.

— Marigold, 17

“Chega um momento em que tudo pelo que você já passou se acumula até um ponto em que está totalmente anestesiado. Com isso, vem a mentalidade doentia de que a única maneira de sentir qualquer coisa é se machucando”.

— Summer, 17

“Pessoalmente, eu me cortava sempre que estava sentindo DEMAIS qualquer coisa. Seja isso tristeza, frustração, ansiedade ou autoaversão. Era uma maneira de acalmar tudo na minha cabeça e concentrar em uma coisa”.

— Kate, 27

“As pessoas que se automutilam geralmente usam a dor física que acompanha qualquer que seja o ritual que escolheram como uma maneira de VER fisicamente a sua dor. Isso sempre tornou minhas dores emocionais mais suportáveis, porque ver o sangue tornava minha angústia mental tangível”.

— LadyRed, 27

“Isso pode ocorrer com qualquer idade. Geralmente está associada aos anos de adolescência (e a maioria das ajudas e dos conselhos é direcionada para esse grupo), mas comecei a me cortar aos 38 anos. Ainda não falei sobre isso para ninguém, pois é ainda mais difícil admitir isso nessa fase da vida”.

— Alex, 40

“Fui hospitalizada por automutilação e tentativa de suicídio quando tinha apenas 12 anos. Eu era a pessoa mais jovem lá. Até mesmo os outros pacientes, que tinham entre 13 e 17 anos, diziam: 'Você é muito jovem para isso!'.

Não, eu não sou. O desejo de se ferir pode vir a qualquer momento, e eu queria que as pessoas soubessem disso. Depressão e ansiedade podem surgir com qualquer idade.

Ninguém é jovem demais para ter sua vida afetada pelo desejo da automutilação”.

— Lili, 14

“Eu acho que existe esse pensamento equivocado de que as pessoas que se automutilam são muito góticas e fazem compras na Hot Topic [loja dos EUA especializada em roupa e música alternativa], e que são fascinadas por sangue ou sanguinolência.

Mas tendemos a nos parecer muito normais, com empregos normais e todos os tipos de gostos, opiniões e sentimentos. Nós provavelmente nos pareceremos com seu vizinho, seu colega de trabalho no escritório, sua babá, seu chefe.

A automutilação não discrimina”.

— LB, 29

“A automutilação é um vício, como fumar. Não é fácil sair. Isso requer muito esforço, um bom sistema de suporte e uma saída positiva para os sentimentos. De certa forma, pode ser mais difícil superar isso do que outros vícios, pois a automutilação geralmente é muito mais particular, e muitas pessoas não sabem que você está lutando com isso”.

— Sara, 18

“Eu posso passar meses sem o desejo de me automutilar, e depois tenho um momento de recaída. O importante a se lembrar nessas horas é que esse momento não anula os momentos de recuperação que você teve antes disso”.

— Franchesca, 21

“Às vezes, você sente o desejo após o menor sentimento negativo. Basta uma coisa dar errado, como você deixar cair um livro ou perder o ônibus, e você imediatamente se sente tão incapaz que deseja se machucar”.

— Ash

“Eu sei que você quer apenas me ajudar, mas isso somente chama a atenção para as marcas, quando tudo o que eu quero é esquecer que eu as tenho. Resista ao desejo de fazer qualquer tipo de menção às minhas cicatrizes, porque levaram meses para eu ganhar a autoconfiança para usar mangas curtas, e a última coisa que quero é que as pessoas chamem a atenção para as minhas cicatrizes”.

— Sonya, 16

“Para mim, a automutilação tratava-se de tentar receber ajuda, então eu queria que as pessoas percebessem. Está tudo bem perguntar e conferir, desde que você não trate isso de forma casual ou na frente de outras pessoas”.

— Ryan, 24

“Não faça piadas sobre se cortar porque você não sabe se alguém fez isso, e essa pessoa poderia levá-lo a sério. Eu não gosto quando as pessoas fazem piadas sobre isso. Não é engraçado”.

— Sarah

“A automutilação não deve ser romantizada. Não é bonito chorar na banheira com sangue escorrendo pelo ralo. Não é lindamente trágico usar a borda afiada do suporte de fita adesiva para se cortar. Não é 'legal' ter membros da sua família encontrando lâminas de barbear escondidas por todo o seu quarto”.

— Annie, 22

“Se você descobrir alguém que tem se automutilado, não fique bravo com ele! Isso não ajuda em nada. Sim, vê-lo fazer isso pode ferir você como um amigo ou membro da família, mas imagine com o que ele tem que lidar para recorrer a isso.

Não pergunte a ele: 'Como você pôde fazer isso com a gente? Pensei que você nos amava. Se você nos amasse, não faria isso consigo mesmo'. Porque, adivinhe? Isso provavelmente passa pela nossa cabeça, e não precisamos disso”.

— Izzy

“Muitas vezes, não há uma razão tangível para que as pessoas se automutilem. A automutilação não é assim tão clara. E se você conhece alguém que faz isso e confia em você, apenas saiba que essa pessoa somente quer ser ouvida e compreendida. A melhor coisa que você pode fazer para ajudar é estar lá para ela”.

— Isabella, 22

“Eu tenho um terapeuta, tomo medicação e tenho dias melhores. Mas do nada tenho dias de merda”.

— Ging, 27

“Eu gostaria que as pessoas deixassem de pensar que a automutilação é um sinal de fraqueza. As pessoas que se automutilam não são fracas. Elas simplesmente têm sido fortes por muito tempo”.

— Jenny, 23

E, novamente, se você precisa conversar com alguém imediatamente, pode encontrar recursos no começo deste post.

Este post foi traduzido do inglês.

Automutilação infantil e na adolescência: saiba como ajudar

Mudanças de comportamento em crianças e adolescentes são normais. Por isso, nem sempre devem ser motivo de preocupação. No entanto, os pais precisam ficar atentos quando essas mudanças envolvem atitudes negativas desses jovens em relação a si mesmos.

A automutilação infantil e na adolescência é uma questão ainda pouco discutida e difícil de diagnosticar. Devido a isso, é importante que os pais leiam sobre o assunto e sejam capazes de perceber os sinais de alerta. Com este artigo, você vai entender melhor do que se trata a automutilação e saber o que fazer para proteger a criança ou adolescente. Confira abaixo!

O que é automutilação?

A automutilação é o ato de provocar dor em si mesmo, de maneira intencional, por meio de ferimentos físicos.

Geralmente, a pessoa que se automutila não está tentando cometer suicídio — o que não torna a prática menos preocupante.

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As formas mais comuns de automutilação incluem cortes na pele, queimaduras, arranhões e espancar a si mesmo. Contudo, isso varia em cada pessoa.

Quais são suas principais causas?

São vários os motivos que levam uma criança ou adolescente a se automutilar. Pode ser uma forma de se sentir no controle de suas emoções, de brincar com comportamentos de risco ou de proporcionar alívio para um sofrimento mental. Em alguns casos, esse ato ainda está relacionado a distúrbios neurológicos ou metabólicos, como síndrome de Tourette e autismo.

Quando falamos de automutilação na adolescência, temos que levar em conta ainda os fatores típicos da idade, os quais tornam esse grupo mais vulnerável a instabilidades emocionais. Nesse sentido, podemos citar as mudanças hormonais e no corpo, conflitos familiares, dificuldades na escola e até mesmo bullying.

Quais os principais sintomas?

O principal sintoma da automutilação são as marcas físicas deixadas por ela. Porém, as pessoas que a praticam fazem de tudo para esconder os ferimentos, o que torna difícil para os pais perceberem o problema.

Algumas coisas que podem ser observadas são as roupas das crianças e adolescentes e os objetos em seus quartos.

Mesmo em dias quentes, pessoas que se automutilam frequentemente usam blusas de mangas longas e calças compridas para esconderem as marcas e guardam pedaços de vidro, lâminas e afins em algum esconderijo.

 Também é comum que elas frequentem sites na internet que fazem apologia à prática, sendo importante também verificar suas atividades on-line.

Como a automutilação pode estar relacionada a algum outro transtorno psiquiátrico, como depressão, transtorno de personalidade borderline e distúrbios alimentares, é importante também observar comportamentos típicos desses transtornos.

Qual a importância de estar atento a isso?

Quanto mais cedo a automutilação for descoberta, maiores serão as chances de os tratamentos terem resultados satisfatórios, permitindo que a criança ou o adolescente levem uma vida saudável. Caso não seja devidamente tratada, a automutilação pode se arrastar até a vida adulta, quando a intervenção já será mais complicada.

Vigiar as atitudes do seu filho também é uma forma de mostrar seu afeto por ele. Crianças e adolescentes que crescem com o apoio dos pais têm menos chances de desenvolver comportamentos autodestrutivos.

Ao descobrir que seu filho está se agredindo, é essencial procurar ajuda de um profissional especializado.

Existem vários recursos que podem ser usados no tratamento da automutilação, como terapias comportamentais, terapias em grupo e até o auxílio de medicamentos, caso necessário.

A ajuda também precisa vir de casa: os pais devem fazer com que a criança e o adolescente construam uma imagem positiva de si mesmos, trabalhando para fortalecer sua autoestima e autoconfiança.

As informações passadas aqui foram úteis para você? Compartilhe este artigo em suas redes sociais e ajude outros pais de crianças e adolescentes a se informar sobre o assunto!

O que é a Automutilação?

O QUE É A AUTOMUTILAÇÃO? COMO POSSO PROCURAR AJUDA?

  • O que é a Automutilação?
  • A automutilação é o ato de deliberadamente se magoar a si próprio.
  • As pessoas podem fazê-lo de diferentes formas, como seja:
  • Cortando-se
  • Com overdose de medicamentos
  • Batendo nelas próprias
  • Puxando os cabelos ou pestanas
  • Arranhando a pele causando feridas e cicatrizes
  • Expondo-se a riscos excessivos

Porque é que as pessoas se automutilam?

Fazem-no por diferentes motivos, como por exemplo:

  • Para lidar com experiências ou sentimentos difíceis
  • Para libertar uma dor intensa
  • Para ter controlo sobre o seu próprio corpo
  • Para se castigarem
  • Para se sentirem dormentes

As pessoas que se automutilam não são egoístas nem manipulativas, não procuram chamar a atenção nem são malucas. São pessoas que estão em sofrimento.

A automutilação pode ser uma actividade muito privada e pode ser a única forma de um jovem expressar as suas difíceis e intensas emoções. Pode também ser uma maneira de comunicar o seu estado a outras pessoas.

O que pode levar uma pessoa a se automutilar?

São vários os motivos que podem despoletar em alguém o ato de se automutilar, tais como:

  • Sentir-se desesperado, confuso ou zangado
  • Ser vítima de bullying
  • Stress dos exames
  • Problemas com amigos
  • Discussões dentro da família
  • Luto pela perda de alguém
  • Más recordações de coisas que aconteceram no passado

Porque pedir ajuda pode ser difícil?

Há várias razões de acordo com as quais os jovens acham difícil pedir ajuda, como por exemplo:

  • Não sabem a quem perguntar ou em quem confiar; não sabem que a ajuda confidencial/privada está disponível
  • Sentem-se demasiado mal/envergonhados ou pensam que não merecem ajuda
  • Ficam preocupados com o facto de contarem a terceiros e estes ficarem chocados, zangados ou tristes
  • Sentem que podem lidar melhor com isso sozinhos
  • Sentem-se preocupados com poderem ser obrigados a cumprir tratamentos que não querem

Que tipo de ajuda está disponível?

  • Alguém para ouvir e ajudar a perceber as razões da automutilação sem julgar.
  • Apoio para mudar as coisas que possam estar a causar a automutilação ou para encontrar uma forma diferente de lidar com as experiências e sentimentos difíceis.
  • Trabalhar com o jovem e com a sua família para explorar as relações difíceis.
  • Suporte para reduzir o mal causado pela automutilação repetida.

Onde podemos encontrar ajuda?

  • O jovem pode procurar o Serviço de Psicologia da sua escola ou a ajuda de um professor. Eles podem sugerir um recurso de saúde local público como Médico de Família, Psicólogo ou Serviço de Enfermagem no Centro de Saúde. Os Hospitais também podem ajudar em caso de sofrimento agudo.
  • Psicólogos e Pediatras da rede privada também podem ajudar o jovem e a sua família a recuperar o bem-estar num contexto de sigilo.
  • Serviços telefónicos de ajuda e apoio ao suicídio em Portugal
  • SOS – Serviço Nacional de Socorro112
  • SOS Voz Amiga(16 as 24h00) 21 354 45 45 / 91 280 26 69 / 96 352 46 60
  • Centro Internet Segura800 21 90 90  Linha Internet Segura
  • SOS Estudante(20h00 à 1h00) 808 200 204

Na própria carne: por que as meninas estão se cortando tanto? | Manual de Sobrevivência no século XXI

Em qualquer grupo de jovens, em quase todas as escolas do Rio, há meninas que se automutilam.

Tem sido cada vez mais comum receber em consultório casos de garotas que se cortam, numa proporção de três meninas para um garoto.

Em 2019, o Senado sancionou uma lei que obriga escolas e hospitais a notificarem casos de automutilação. Ainda não existem estatísticas oficiais, mas é um comportamento que, como se diz nos dias de hoje, parece ter viralizado.

O número de casos aumentou ou o preconceito diminuiu, deixando o assunto mais exposto? Uma menina que se automutila pode acabar influenciando as amigas e criando um efeito cascata? Seria esta uma forma de morrer um pouco a cada dia? Uma espécie de prazer? De satisfação imediata? Ou de metabolização da raiva? São muitas as dúvidas que cercam o motivo exato do aumento de relatos de automutilação. Aos olhos de um leigo, é estranho imaginar que alguém possa ter a intenção de fazer algo que cause dor a si mesmo. Mas é certo que não há a intenção clara e objetiva de morrer: quem machuca o próprio corpo busca, na verdade, alívio para a dor da alma.

Parece um grande paradoxo, mas a explicação mais frequente é que quando se tira o foco da dor emocional e se concentra na dor física, há um grande alívio – ou até prazer – por se livrar, mesmo que por instantes, do sofrimento.

Mas o que faz os jovens sofrerem? Guardar raivas, mágoas ou segredos graves; sofrimentos frutos de relações abusivas, físicas ou emocionais; ou mesmo episódios de bullying na escola. O desconforto psíquico é tão insuportável com tais vivências que fazer doer na carne, literalmente, tira o foco dos pensamentos – e sentimentos – que passam pela mente e pelo coração e aliviam a dor.

Outra possível razão que elas alegam para a automutilação é o sentimento de culpa por ter o que julgam como “pensamentos condenáveis” em uma sociedade judaico-cristã que rotula como pecado o que é apenas humano, como fantasias, julgamentos, inveja e raiva. Os jovens ficam perdidos com seu caldeirão de emoções conflitantes – nem sempre positivas. Como consequência, vem a sensação de serem “más pessoas”. Nestes casos, se machucar é uma forma de auto penitência ou flagelo.

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Segundo a pesquisadora americana Marsha Linehan, 70% das pessoas que se automutilam tem transtorno borderline, uma patologia mental grave caracterizada por um padrão de instabilidade contínua do humor, um vazio crônico, relacionamentos caóticos, impulsividade, alta sensibilidade emocional, como se estivessem em carne viva, e auto estima baixa. Outro dado: cerca de 45% de quem se auto mutila tem depressão e ansiedade prévias às ocorrências de automutilação.

É como se existisse um “campo minado” interno que faz com que as jovens busquem soluções drásticas. Ao invés de canalizarem para o mundo externo, geralmente objeto original de seu sofrimento, dirigem essa expressão de dor para o próprio corpo.

Aos adultos, cabe ficarem atento aos sinais. Repare se sua filha, ou mesmo uma amiga dela, anda sempre com roupas compridas, com intenção recorrente de esconder o corpo, ou se dão desculpas frequentes para cortes e queimaduras. Faça com que essa jovem se sinta confortável o suficiente para se abrir e buscar ajuda. Qualquer pessoa pode fazer a diferença na história de alguém em sofrimento.

Elizabeth Carneiro é psicóloga supervisora do Setor de Dependência Química e Outros Transtornos do Impulso da Santa Casa do Rio, especialista em Psicoterapia Breve e Terapia Familiar Sistêmica, diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química e treinadora oficial pela Universidade do Novo México em Entrevista Motivacional.

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