Assim Como Viuva Que Rei Nao Tinha?

 

CRÓNICA DE ABRIL
(Segundo Fernão Lopes)

A rosa a espada o Tempo a lua cheiaentre Abril e Abril memória e atoeste oculto invisível coração.E a trote dos cavalos os blindados(quem me acorda no meio do meu sono?)

«Lisboa está tomada». A rosa e a espada.

Subitamente às três da madrugada.Andando o Povo levantado andando

Álvaro Pais de rua em rua: «

Acudamao Mestre cá ele é filho d’El-rei. D.Pedro». Entre Abril e Abril. Memória e ato.Verás florir as armas: lua cheia.Saiu de Santarém o Capitãojá o Mestre matou o Conde Andeiroe Álvaro Pais nas ruas cavalgando:

Matam o Mestre nos Paços da Rainha.

E o microfone às três e tal. E as gentesque isto ouviram saíram pelas ruasa ver que coisa era. E começandoa falar uns com outros começavam

a tomar armas. 

Aqui Posto deComando. E soavam vozes de arruídopela cidade. E assim como viúvaque rei não tinha se moveram todos

com mão armada. E Álvaro Pais gritando:

Acudamos ao Mestre meus amigosAcudamos que o matam porquê.E o rouxinol cantou. Ouvi dizerque na torre soaram badaladas.O doce cheiro a terra. O respirar

da amada. «E sobre cada povo (Nietzche)

está suspensa uma tábua de valores».Verás florir o Tempo. A rosa e a espada.

Nel mezzo del camin di nostra vita.

Subitamente às três da madrugada.E começava a gente de juntar-see tanta que era estranha de se ver.Não cabiam nas ruas principaiscada um desejando ser primeiro

e todos feitos d

’um só coração.Não sei se a História tem um fio senão tem. Mas já de Santarém partiuo Capitão. De negro vem vestidoem cima da Chaimite. Ouves? É o trotedas lagartas. Cavalos e cavalos.O exército da noite e seus blindados.Ó com quanto cuidado e diligênciaescrever verdade sem outra mistura.Andando o Povo levantando andandoum Major aos seus homens perguntando:

Adere ou não adere? É só. Mais nada.

E o segundo-sargento perfilando-se:

Há vinte anos que espero este momento.

Verás florir o Tempo. E as armas de-sabrochadas: às três da madrugada.Soem às vezes altos feitos tercomeço por pessoas cujo azonenhum povo podia imaginar.E pois assim aveio que em Lisboaum cidadão chamado Álvaro Pais:

Onde matam o Mestre? Que é do Mestre?

De cima não faltava quem gritasseque o Mestre estava vivo e o Conde morto.Mas isto já ninguém o queria crer.Continuidade. Descontinuidade.

E o que é rutura? E a História? Um caos de acasos.

Kairos (dizem os gregos). Conjunturasfavoráveis.                     Verás florir as armas.E já o Capitão entra na Praçaandando o Povo levantado andandoapoiando a coluna quando avançapara cercar o Carmo às doze e trinta.Traziam uns carqueja e outros lenhaalguns pediam escadas e bradavamque viesse lume para porem fogoe queimarem o traidor e a aleivosa.E em tudo isto era o tumulto assimtão grande que uns aos outros não se ouviame não determinavam coisa alguma.E o trote dos cavalos os blindados.(Quem te acorda no meio do teu sono?)Verás florir o Tempo: rosa e espada.Subitamente às três da madrugada.De cortinas corridas está o Carmo.Da torre da Chaimite uma rajadasaltam vidros e cal da frontariae o tempo vai correndo sem resposta.

E não parava gente de juntar-se.

Onde matam o Mestre? Que é do Mestre?
De cima não faltava quem gritasseque o Mestre estava vivo e o Conde morto.

Se está vivo mostrai-o e vê-lo-emos.

E a gente não parava de juntar-se.Quem fechou estas portas? perguntavam.E já o blindado toma posição.O Capitão olha o relógio e contae antes que diga três irrompem vivas.Verás florir o Tempo: espada e rosa.Já saiu a cavalo Álvaro Paisjá o Mestre matou o Conde Andeiroestá caído no Paço trespassadoó Lisboa prezada venham vero Capitão em cima do blindadoArraial Arraial. E então o Mestre

assomado à varanda a todos diz:

Amigos sossegai: estou vivo e são.E o rouxinol cantou. Olhai as armasdesabrochadas. Cravo a cravo (ouvidizer). Andando o Povo levantado.E não vereis na crónica senão

(sem falsidade) a certidão da História.

Manuel Alegre, Atlântico, 1981

Não deve haver área da vida portuguesa recente que não se caracterize e defina pela agora já clássica forma de “antes” ou “depois” do 25 de Abril. Reflexões contemporâneas no âmbito da sociologia, história, política, literatura e tantos outros campos de estudo utilizam esta barreira temporal como metodologia inicial de abordagem.

Daí que, como Maria de Lourdes Pintasilgo assinalou na sua “Deambulação pelo Espaço/ Tempo do 25 de Abril,” possamos apontar o 25 de Abril de 1974 como um momento fundador, ou seja, como que um ato inicial de todas as histórias possíveis num sentido individual e coletivo.

Esta visão do 25 de Abril como um momento novo e fecundo na sua novidade é aliás corroborada e sintonizada com a nossa história coletiva em textos como Ora Esguardae, de Olga Gonçalves ou no poema de Manuel Alegre “Crónica de Abril”, escrito pela pena de Fernão Lopes, com Álvaro Pais nos Paços da Rainha e Salgueiro Maia no Largo do Carmo lado a lado. Por seu turno em Ora Esguardae, título retirado da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, abre-se “(…) uma dimensão ritual que coloca o tempo-origem visado primordialmente em Ora Esguardae‑ o 25 de Abril de 1974 ‑ no horizonte arquetípico da nova dinastia inaugurada por D. João I, horizonte que, por sua vez, é representificação mítica de uma nova fundação da nacionalidade” (Luís Mourão, Um Romance de Impoder ‑ a paragem da história na ficção portuguesa contemporânea. Braga-Coimbra: Angelus Novus, 1996, p. 100). Entendia-se assim o 25 de Abril como o momento-símbolo de início de um novo tempo na história de Portugal, em que todos os sonhos, frustrações passadas e ansiedades seriam compensados.

 in Portuguese Literary & Cultural Studies 1 ‑ Borders Fall 1998

Assim Como Viuva Que Rei Nao Tinha?Assim Como Viuva Que Rei Nao Tinha?

   

Atlântico, de 1981, é um divisor de águas em sua obra. Se antes, em sua poética, a Memória era possuída pelos fantasmas da Ditadura, a partir daí a História poderá ser reencontrada em sua plenitude e destituída dos referenciais míticos sustentados pelo Estado Novo.

[…]

Em Atlântico a História emerge como reconstrução.

A Memória, perdida, comprometida, durante o século XX, com os aparelhos ideológicos do Estado salazarista e alimentada por uma História que tinha a ruína como fundamento, revertida através da indicação explícita do real que era encoberto pelo mito, passa, agora, a indiciar que a História precisa ser recontada, necessita ter seus mitos redimensionados. No projeto poético de Manuel Alegre, Atlântico dará a definitiva forma que os mitos deveriam tomar nessa nova perspectiva a partir da realidade após a Revolução de 25 de Abril.

É preciso, entretanto, antes de se avançar, reafirmar que o projeto de Manuel Alegre é derivado de uma tensão entre Memória e poesia.

Se for retomado o processo poético desenvolvido até Atlântico, está-se diante de uma busca clara de uma redefinição da função da Memória na sociedade portuguesa que atravessa o momento histórico da guerra na África, o fim do fascismo, a descolonização e a democracia.

A dimensão atlântica pretendida, como era de se esperar, não segue a anterior vocação atlântica da perspectiva salazarista, nem daquela pensada na Comunidade Lusíada por António Spínola (SPÍNOLA, 1974).

Há um deslocamento temático por uma geografia definida pela dispersão da língua portuguesa no mundo – a publicação de Nova do Achamento (1976), remontando ao momento da Descoberta do Brasil, pela releitura da Carta de Pero Vaz de Caminha, é tomada como uma primeira referência de refundição do universo da Língua Portuguesa e da relação que o Portugal democrático deve manter com a terra americana, a África comparece como o lugar da emergência de uma nova História para Portugal. Situar o Oceano Atlântico como o espaço geográfico português por excelência não é mais a retomada das glórias imperiais, mas é, sobretudo, o redimensionamento daquela História que centrava Portugal numa vocação atlântica ufanista de um novo império. Atlântico redimensiona a condição histórica portuguesa, dos atos de bravura às trágicas derrotas. Com isso, percebe-se que um diálogo intertextual claro com as duas obras anteriores da série literária portuguesa que buscaram dar conta da relação direta entre Portugal e o mar: Os Lusíadas e Mensagem.Questionar a ordem poética, ou, melhor, problematizar a herança cultural e literária é a perspectiva de Atlântico.

[…]

A Memória individual faz da História uma outra História em que passam a coexistir discursos além dos convencionados.

A História dos manuais negada em Praça da Canção e em O Canto e as armas é, agora, outra – não basta mais ela negar os mitos, mas afirmá-los a partir do cotidiano individual.

A História, assim, precisa ser tomada em sentido lírico, já que somente pela Memória individual poderia advir a dimensão pretendida na alegoria da reconstrução da Torre do Tombo.

A condição do lírico que estabelece a pluralidade de vozes comparece definitivamente.

Se, na obra anterior a Atlântico, a intertextualidade estava a serviço de uma problematização e redimensionamento do épico, em Atlântico, progressivamente, por efeitos da proposição do poema inicial, “A lição do arquiteto Manuel da Maia”, a condição épica é degradada por efeito do lírico. O poeta estabelece a dialética pretendia por Benjamin entre Memória e História, através da implosão do sujeito épico. Não há mais unidade épica a ser seguida para Portugal.

O lírico pode deslocar-se, assim, da interrogação à História para o redimensionamento da Memória. O sujeito poético pode tomar uma nova Memória diversa daquela fora posta em função do evento de Alcácer-Quibir.

A História que se compreende aqui é uma construção lírica que não está em função mais de um poder único e centralizador.

Há que se perceber que a História se relativiza na distância que se tem dos seus instantes de perigo, como dissera Walter Benjamin, “cada segundo era a porta estreita pela qual poderia entrar o Messias” (1987, p.

232), e o Messias só poderia entrar quando a História tivesse sentido e seu continuum tivesse sido explodido, não se caracterizando mais pelo tempo homogêneo e vazio. Teria sido o 25 de Abril este momento? O poema “Crónica de Abril (segundo Fernão Lopes)” busca responder tal provocação. Aqui, a Revolução de Avis, de 1383, é aproximada a 1974:

A rosa a espada o tempo a lua cheiaentre Abril e Abril memória e actoeste oculto invisível coração.E o trote dos cavalos os blindados(quem me acorda no meio do meu sono?)“Lisboa está tomada”. A rosa e a espada.Subitamente às três da madrugada. (…)Continuidade. Descontinuidade.E o que é ruptura ? E a História? Um caos de acasos.Kairos (dizem os gregos). Conjunturasfavoráveis. (…)E não vereis na crónica senão

(sem falsidade) a certidão da História

É explícita a intertextualidade com Fernão Lopes, já indicada pelo subtítulo do poema – continuidade, descontinuidade, de Abril a Abril, o poeta retoma a movimentação da arraia miúda dos lisboetas. A ação histórica que implode o seu próprio continuum é uma ação que a poesia transforma em coletiva.

Com a certidão da História, o atestado e o testemunho fazem uma nova Memória ressurgir. O coletivo não provém da retomada do épico, mas de uma recuperação do atestado dado pelo testemunho do guardião da Memória, o poeta.

Daí confluir os tempos para que oMessias penetre, e se dê a reversão do tempo vazio e homogêneo em dinâmica temporal, em História. O lírico é reafirmado, reverenciando-se a Memória, guardiã da experiência, no sentido de Walter Benjamin. O poeta canta a História, em seus múltiplos aspectos, em seus acertos e desacertos, em suas glórias e quedas.

O fluxo do Tempo, como experiência histórica, volta a seguir da Memória para a História, não pelo reverso como operara a Ditadura: “entre Abril e Abril memória e acto/ este oculto invisível coração (…) Um caos de acasos…

”; este fluxo seria capaz de deixar que o tempo passasse como experimentação, como forma de recoletivização da experiência histórica. A História é compartilhada entre tantos, ela não é mais o objeto detido por uma classe, por um ponto de vista, por um sentido de permanência – é, enfim, coletiva.

Será por isso, no poema “Pais em inho”, que o poeta radicalizará a dimensão histórica portuguesa, nas suas contradições.

A exaltação histórica dá lugar à ira, ao reconhecimento do tamanho e das características de um país de contrastes em que otrauma não terá sido superado, como afirmara Eduardo Lourenço: “Chegou a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constânciao país habitável de todos, sem esperar do eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal” (Eduardo Lourenço, O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português. 4.ª ed. Lisboa: Dom Quixote, 1989, p. 47).

  • Mário César Lugarinho, 
  • Uma nau que me carrega: rotas da literariedade em língua portuguesa.
  •  Manaus, AM: UEA Edições, 2012, pp. 79-81, 87-89
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[Post original: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2013/09/18/cronica.de.abril.aspx]  

qual é o recurso expressivo da seguinde frase : e assim como viuva que rei não tinha , e como se

Qual elemento do mundo exterior aparece com destaque na poesia manuel bandeira a poesia a estrela

Mal colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um
barulho infernal.
– Pára com esse barulho, meu filho – f

alou, sem se voltar.
Com três anos, já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava
fazendo barulho, só estava empurrando uma cadeira.
– Pois então pára de empurrar a cadeira.

– Eu vou embora – foi a resposta.

Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas,
enrolando-as num pedaço de pano, era sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um
resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa? a mãe mais tarde irá saber), metade
de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente o pai olhou ao redor e não
viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
– Viu um menino saindo desta casa? – gritou para o operário que descansava diante da obra, do outro
lado da rua, sentado no meio-fio.
– Saiu agora mesmo com uma trouxinha – informou ele.
Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro.
A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço
de biscoito e – saíra de casa prevenido – uma moeda de um cruzeiro. Chamou-o mas ele apertou o passinho e
abriu a correr em direção à avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia à distância.
– Meu filho, cuidado!
O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto.
O menino, assustado arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como um
animalzinho:
– Que susto você me passou, meu filho – e apertava-o contra o peito comovido.
– Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
– Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
– Me larga. Eu quero ir embora.
Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e
retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
– Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
– Fico, mas vou empurrar esta cadeira.
E o barulho recomeçou.
1.Observe o tempo verbal utilizado no texto, pode-se afirmar que o texto tem como narrador:
a) um observador que narra em terceira pessoa.
b) um narrador-personagem.
c) um narrador-onisciente.
d) um observador que narra em primeira pessoa.

etora: Roseane Gonçalves Vice-diretora: Marylucia MarquesPofessor: Evandro Souza Caetanono:a: 7.

/2021Série: 4a EtapaTurma: AI Teste avaliativo de Lín

gua Portuguesa 20211- Classifique as palavras de acordo com o processo de derivação oucomposição.

Diga se é uma derivação prefixal; derivação sufixalderivação parassintética; composição por aglutinação ou compor justaposição (15 pts)a) Passatempo;b) Chuvisco;c) Audiovisual;di Paraquedas:​

produção de texto sobre o Dia do livro​

Preciso de ajuda urgente!!!​

integrar conteúdo resposta anote aqui uma notícia desta semana de acordo com o tema o tema Como diz Adélia Prado para o desejo do meu coração o mar é

uma gota ​

ides tradicionais.”De acordo com a leitura que você fez, dê seu ponto de vista referente ao início davacinação na Bahia sobre a COVID-19.​

3 – Marque a alternativa em que NO há um verbo de ligação:a) As portas estavam abertasb) Todas as luzes do poste continuaram acesas durante o dia.c) O

s alunos eram estudiosos.d) Amelia ficou decepcionada com o resultado da prova.e) O time comemorou a vitória​

Sobre os Níveis de Linguagem!
A classificação apresentada não é suficientemente completa para
que se analise a linguagem em seus diversos usos; podem

aparecer outros níveis (ou variações).

Aprofunde os seus
conhecimentos e pesquise sobre os seguintes níveis:
a) linguagem regional (inclusive a paraense).
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d) linguagem erudita.
e) linguagem vulgar.

9) Observe a oração: Perdi o voo. Nela há um Sujeito: *
1 ponto
a) Simples
b) Composto
c) Oculto
d) Inexistente

O Portal da História – Pontos de Vista: O interregno de 1383 a 1385. Crise ou revolução?

Crónica de D. João I, de Fernão Lopes.

Apresenta-se os dois capítulos que descrevem a “Insurreição de Lisboa”, após o assassinato do conde Andeiro por D. João, mestre de Aviz, combinada com Álvaro Pais, antigo Chanceler-mor de D. Pedro I.

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO XI

DO ALVOROÇO QUE HOUVE NA CIDADE CUIDANDO QUE MATAVAM O MESTRE E COMO LÁ FOI ÁLVARO PAIS E MUITAS GENTES COM ELE O pajem do Mestre, que estava à porta, a quando lhe disseram que fosse pela vila, segundo já estava preparado, começou a ir rijamente a galope, em cima do cavalo em que estava, dizendo a altas vozes, bradando pela rua: Matam o Mestre! Matam o Mestre nos paços da rainha! Acudi ao Mestre que o matam! ? E assim chegou a casa de Álvaro Pais, que era dali grande espaço. 

As gentes que isto ouviam saíam à rua a ver que cousa era. E, começando a falar uns com os outros, alvoroçava-se-lhes o coração, e começavam a tomar armas cada um como melhor e mais depressa podia. 

Álvaro Pais, que estava prestes e armado com uma coifa na cabeça, segundo uso daquele tempo, cavalgou logo à pressa em cima de um cavalo, apesar de que anos havia que não cavalgara, e todos os seus aliados com ele, dizendo em brados a quaisquer que achava: ? Acudamos ao Mestre, amigos, acudamos ao Mestre, que é filho de el-rei D. Pedro! ? E assim bradavam ele e o pajem indo pela rua.

Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre.

E assim como viúva que rei não tinha, como se lhe este ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que se fazia isto, para lhe darem a vida e livrá-lo de morte.

Álvaro Pais não parava de ir para lá, bradando a todos: Acudamos ao Mestre, amigos, acudamos ao Mestre, que o matam sem porquê!

A gente começou a juntar-se a ele, e era tanta que era estranha cousa de ver. Não cabiam pelas ruas principais, e atravessavam lugares escusos, desejando cada um ser o primeiro. E, perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não faltava quem respondesse que o matava .o conde João Fernandes, por mandado da rainha.

E por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com vontade de o vingar, quando chegaram às portas do Paço, que tinham sido fechadas antes que chegassem, com medonhas palavras começaram a dizer:

– Onde matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem fechou estas portas?

Ali ouviam-se brados de diversas maneiras. Tais havia que certificavam que o Mestre era morto, pois as portas estavam fechadas, dizendo que as quebrassem para entrar dentro, é veriam que era do Mestre, ou que cousa era aquela.

Alguns bradavam por lenha e que viesse lume para porem fogo aos paços e queimarem o traidor e a aleivosa. Outros teimavam pedindo escadas para subir acima, para verem que era do Mostre.

E em tudo isto era o tumulto tão grande ,que se não entendiam uns com os outros nem determinavam cousa nenhuma. E não somente era isto à porta dos paços, mas ainda em redor deles, por onde quer que coubessem homens e mulheres.

Umas vinham com feixes de lenha,, outras traziam carqueja para acender o fogo, pensando queimar com ela o muro dos paços, dizendo muitos doestos contra a rainha.

  • De cima não faltava quem gritasse que o Mestre estava vivo e o conde João Fernandes morto. Mas isto ninguém o queria crer, dizendo:
  • – Pois se está vivo, mostrai-no-lo e vê-lo-emos.
  • Então os do Mestre, vendo tão grande alvoroço como este e que cada vez se acendia mais, disseram que fosse sua mercê de se mostrar àquelas gentes, de outra maneira poderiam quebrar as portas, ou pôr-lhes fogo, e entrando assim dentro à força não as poderiam depois impedir de fazer o que quisessem.
  • Ali se mostrou o Mestre a uma grande janela que dava sobre a rua, onde estavam Álvaro Pais e a maior força da gente, e disse:
  • -Amigos, sossegai, que eu estou vivo e são, a Deus graças.
  • E tanta era a perturbação deles, e de tal maneira tinham já em crença que o Mestre fora morto, que tais havia que porfiavam que não era aquele.
  • CAPÍTULO XII
  • COMO O BISPO DE LISBOA E OUTROS FORAM MORTOS E LANÇADOS DA TORRE DA SÉ ABAIXO

A cidade estava toda ocupada neste tumulto, e a multidão acompanhava o Mestre que deixava o Paço da Rainha e descia para os Paços do Almirante. Ao passarem pela Sé lembraram-se alguns de que à ida, passando por ali com Álvaro Pais, tinham gritado aos de cima que repicassem os sinos. Mas, repicando em S. Martinho e nas outras igrejas, não quiseram repicar na Sé. E souberam que o bispo estava em cima e que mandara fechar as portas sobre si.

E porque ele era castelhano disseram logo que era do partido da rainha e do conde e que fora sabedor da traição e morte que quiseram dar ao Mestre, e que por isso não repicaram. 

Assacavam-lhe estas e outras muitas suspeitas e não faltava quem as desse como certas. Ficou logo ali grande parte do povo aceso com brava sanha, para entrarem à pressa a Sé, e tomarem logo vingança do bispo.

O bispo era natural de Samora, e chamava-se D. Martinho. Sendo bispo do Algarve obtivera o bispado de Lisboa por via de Gonçalo Vasques, licenciado em Direito Canónico, que lho ganhou do papa Clemente, para haver o priorado de Guimarães.

Este bispo era grande letrado e bom eclesiástico, e regia muito bem a sua igreja, morando por cima do claustro dela para continuadamente vir às horas e ofícios divinos, e ali tinha a intenção de mandar fazer casas para morarem todos os cónegos, para mais facilmente poderem fazer o seu serviço.

E estando ele naquele dia comendo com o prior de Guimarães -que havia mais de um ano que não via – ouviram grande tumulto no Paço da Rainha, que era ali perto, e carpidos de mulheres, com grandes vozes de gente pelas ruas à volta, bradando todos que matavam o Mestre.

O bispo ouvindo tamanho tumulto, e que cada vez era maior, bem cuidou que não era caso leve.

E para se acautelar contra qualquer eventualidade deixou a mesa a que estava e desceu por uma escada ao claustro, ele e o prior de Guimarães, e um tabelião de Silves que chegara Asse dia pára trabalhar com ele.

Com estes dois convidados e alguns homens seus se foi o bispo à mais alta torre da Sé, onde estão os sinos, mandando primeiro fechar por dentro todas as portas da igreja.

E quando Álvaro Pais por ali passou à ida bradaram 200 aos de cima, como dissemos, que repicassem. 0 homem bom não sabia que tumulto era aquele.

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E, além disso, como dar ao sino em tal igreja daria lugar a grande alvoroço na cidade, teve muita dúvida em o fazer.

Eles, quando viram que não tinham repicado na Sé e que o bispo daquela maneira estava na torre, as portas da igreja fortemente fechadas, e que as não podiam tão depressa quebrar, obtiveram escadas e entraram por uma janela, e muito à pressa foram as portas abertas. Entraram então quantos quiseram, porém muito poucos em comparação com os que estavam de fora. E a comum voz de todos era que fossem acima ver quem estava na torre e porque não repicara como nas outras igrejas, e que se fosse o bispo que o deitassem abaixo.

Silvestre Estevens, homem honrado, procurador da cidade, e o alcaide pequeno dela e outros subiram por uma estreita escada de caracol, pela qual não cabia mais que um atrás de outro nem podia ninguém entrar na torre enquanto de cima a quisessem defender.

O bispo, vendo como era castelhano e de nação contrária a eles, receava muito em tal ajuntamento, o que toda a pessoa sensata deve recear, e não lhes dava lugar a que entrassem.

Porém, vendo-se sem culpa, e além disso pessoa tal e eclesiástica, dando-lhe os outros seguro a ele e aos que com ele estavam, deixou-os entrar.

E, perguntando-lhe porque não mandara dar ao sino, pois aquelas gentes bradavam que repicassem, ele se desculpou por suas mansas e boas razões, de jeito que todos foram satisfeitos.

A cega sanha, que em tais feitos a nenhuma cousa atende, começou a arder tanto nos entendimentos do povo que estava à porta principal da igreja que começaram a bradar altas vozes perguntando aos de cima que estavam fazendo que não deitavam o bispo abaixo.

E diziam: – Guardai-vos, não vamos nós lá. Porque se nós lá vamos todos vós haveis de vir abaixo com ele. Os de cima, que não tinham vontade de lhe fazer mal nem contrariedade, era-lhes muito pesado fazê-lo, à uma por ser bispo, e mais seu prelado, depois pelo seguro que lhe tinham dado.

E não sabiam que fizessem.

A sanha apressava os corações de todos, e com ira grande começaram de bradar, olhando todos para cima e dizendo:

-Que demora é essa que lá fazeis, que não deitais esse traidor abaixo? E como? Já vos tornastes castelhanos como ele? Pagou-vos para não o atirardes e entendestes-vos com ele?

Então começaram todos a jurar que se não atiravam o bispo, iriam lá acima e então viriam todos abaixo.

E, porquanto todo o temor é justo quando um homem está em perigo de morte ou perto disso, tiveram disto os de cima tão grande receio que logo o bispo foi morto com golpes e atirado à pressa abaixo, onde lhe foram dados outros muitos golpes -como se ganhassem perdões -, que sua carne já pouco sentia.

Ali o desnudaram de toda a vestimenta, dando-lhe pedradas com muitos e feios doestos, até que se enfadaram dele os homens e os garotos. E foi roubado de quanto tinha.

Semelhantemente foi atirado abaixo aquele prior de Guimarães, seu convidado, porque um escudeiro que lhe queria mal, subindo acima com os do concelho, viu ocasião azada para o matar, e, buscando-o pela torre, achou-o escondido e matou-o. E, não tendo ninguém sentido da morte dele, porque estava com o bispo, nem havendo quem o levasse dali, deitaram-no da torre abaixo.

O coitado do tabelião, que tinha tão pouca culpa como os outros, começaram a trazê-lo para baixo e a insultá-lo e empuxá-lo, dizendo que ele, que estava com o bispo, bem sabia parte daquela traição. Começaram a dar-lhe punhadas. Depois feriram-no e mataram-no.

E assim morreram todos três e outros fugiram. E jazeram ali aquele dia e a noite o prior e o tabelião. E logo nesse dia algumas pessoas refeces lançaram ao bispo, que jazia nu, um baraço nas pernas, e chamando muitos garotos que o arrastassem ia um rústico adiante bradando:

-Justiça que manda fazer nosso senhor o papa Urbano VI neste traidor cismático castelhano, porque não estava com a Santa Igreja.

E assim o arrastaram pela cidade, com as vergonhosas partes descobertas, e o levaram ao Rossio onde o começaram a comer os cães, que ninguém o ousava enterrar. E, sendo já muito comido, enterraram-no ao outro dia ali no Rossio. E os outros dois foram depois enterrados, para tirarem o fedor diante de suas vistas.

  1. E, posto que a algumas pessoas tais cousas parecessem mal e desonestamente feitas, ninguém se atrevia a dizer o contrário.
  2. Fonte: António José Saraiva (editor)
  3. As Crónicas de Fernão Lopes,

2.ª Ed., Lisboa, Portugália, 1969

páginas 197 a 203

  • Fernão Lopes, Crónica d'el-Rei Dom João I de boa memória e, dos Reis de Portugal, o décimo, 1.ª edição, 1644

Os Grandes Debates da Historiografia O Interregno de 1383-1385

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Bible Gateway passage: 2 Kings 4 – New International Version

4 The wife of a man from the company(A) of the prophets cried out to Elisha, “Your servant my husband is dead, and you know that he revered the Lord. But now his creditor(B) is coming to take my two boys as his slaves.”

2 Elisha replied to her, “How can I help you? Tell me, what do you have in your house?”

“Your servant has nothing there at all,” she said, “except a small jar of olive oil.”(C)

3 Elisha said, “Go around and ask all your neighbors for empty jars. Don’t ask for just a few. 4 Then go inside and shut the door behind you and your sons. Pour oil into all the jars, and as each is filled, put it to one side.”

5 She left him and shut the door behind her and her sons. They brought the jars to her and she kept pouring. 6 When all the jars were full, she said to her son, “Bring me another one.”

But he replied, “There is not a jar left.” Then the oil stopped flowing.

7 She went and told the man of God,(D) and he said, “Go, sell the oil and pay your debts. You and your sons can live on what is left.”

The Shunammite’s Son Restored to Life

8 One day Elisha went to Shunem.(E) And a well-to-do woman was there, who urged him to stay for a meal. So whenever he came by, he stopped there to eat.

9 She said to her husband, “I know that this man who often comes our way is a holy man of God. 10 Let’s make a small room on the roof and put in it a bed and a table, a chair and a lamp for him.

Then he can stay(F) there whenever he comes to us.”

11 One day when Elisha came, he went up to his room and lay down there. 12 He said to his servant Gehazi, “Call the Shunammite.”(G) So he called her, and she stood before him. 13 Elisha said to him, “Tell her, ‘You have gone to all this trouble for us. Now what can be done for you? Can we speak on your behalf to the king or the commander of the army?’”

She replied, “I have a home among my own people.”

14 “What can be done for her?” Elisha asked.

Gehazi said, “She has no son, and her husband is old.”

15 Then Elisha said, “Call her.” So he called her, and she stood in the doorway. 16 “About this time(H) next year,” Elisha said, “you will hold a son in your arms.”

“No, my lord!” she objected. “Please, man of God, don’t mislead your servant!”

17 But the woman became pregnant, and the next year about that same time she gave birth to a son, just as Elisha had told her.

18 The child grew, and one day he went out to his father, who was with the reapers.(I) 19 He said to his father, “My head! My head!”

His father told a servant, “Carry him to his mother.” 20 After the servant had lifted him up and carried him to his mother, the boy sat on her lap until noon, and then he died. 21 She went up and laid him on the bed(J) of the man of God, then shut the door and went out.

22 She called her husband and said, “Please send me one of the servants and a donkey so I can go to the man of God quickly and return.”

23 “Why go to him today?” he asked. “It’s not the New Moon(K) or the Sabbath.”

“That’s all right,” she said.

24 She saddled the donkey and said to her servant, “Lead on; don’t slow down for me unless I tell you.” 25 So she set out and came to the man of God at Mount Carmel.(L)

When he saw her in the distance, the man of God said to his servant Gehazi, “Look! There’s the Shunammite! 26 Run to meet her and ask her, ‘Are you all right? Is your husband all right? Is your child all right?’”

“Everything is all right,” she said.

27 When she reached the man of God at the mountain, she took hold of his feet. Gehazi came over to push her away, but the man of God said, “Leave her alone! She is in bitter distress,(M) but the Lord has hidden it from me and has not told me why.”

28 “Did I ask you for a son, my lord?” she said. “Didn’t I tell you, ‘Don’t raise my hopes’?”

29 Elisha said to Gehazi, “Tuck your cloak into your belt,(N) take my staff(O) in your hand and run. Don’t greet anyone you meet, and if anyone greets you, do not answer. Lay my staff on the boy’s face.”

30 But the child’s mother said, “As surely as the Lord lives and as you live, I will not leave you.” So he got up and followed her.

31 Gehazi went on ahead and laid the staff on the boy’s face, but there was no sound or response. So Gehazi went back to meet Elisha and told him, “The boy has not awakened.”

32 When Elisha reached the house, there was the boy lying dead on his couch.(P) 33 He went in, shut the door on the two of them and prayed(Q) to the Lord.

34 Then he got on the bed and lay on the boy, mouth to mouth, eyes to eyes, hands to hands. As he stretched(R) himself out on him, the boy’s body grew warm.

35 Elisha turned away and walked back and forth in the room and then got on the bed and stretched out on him once more. The boy sneezed seven times(S) and opened his eyes.(T)

36 Elisha summoned Gehazi and said, “Call the Shunammite.” And he did. When she came, he said, “Take your son.”(U) 37 She came in, fell at his feet and bowed to the ground. Then she took her son and went out.

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Death in the Pot

38 Elisha returned to Gilgal(V) and there was a famine(W) in that region. While the company of the prophets was meeting with him, he said to his servant, “Put on the large pot and cook some stew for these prophets.”

39 One of them went out into the fields to gather herbs and found a wild vine and picked as many of its gourds as his garment could hold. When he returned, he cut them up into the pot of stew, though no one knew what they were. 40 The stew was poured out for the men, but as they began to eat it, they cried out, “Man of God, there is death in the pot!” And they could not eat it.

41 Elisha said, “Get some flour.” He put it into the pot and said, “Serve it to the people to eat.” And there was nothing harmful in the pot.(X)

Feeding of a Hundred

42 A man came from Baal Shalishah,(Y) bringing the man of God twenty loaves(Z) of barley bread(AA) baked from the first ripe grain, along with some heads of new grain. “Give it to the people to eat,” Elisha said.

43 “How can I set this before a hundred men?” his servant asked.

But Elisha answered, “Give it to the people to eat.(AB) For this is what the Lord says: ‘They will eat and have some left over.(AC)’” 44 Then he set it before them, and they ate and had some left over, according to the word of the Lord.

Marquês de Pombal

Sebastião José de Carvalho e Melo, também conhecido como Marquês de Pombal, foi uma das principais personalidades da história de Portugal.

Ocupou a função de secretário de Estado desse império entre 1750 e 1777 e realizou inúmeras reformas que ficaram conhecidas como Reformas Pombalinas.

Essas tinham como objetivo realizar a modernização de Portugal e tiveram grande impacto no Brasil.

Conquistou o título nobiliárquico de marquês somente em 1769 e, então, tornou-se Marquês de Pombal. Sendo assim, neste texto, usaremos “Carvalho e Melo” para referirmo-nos a Pombal durante os acontecimentos de sua vida que se passaram antes de ele adquirir o título de marquês.

Pombal ficou marcado na história como um dos grandes nomes do Reformismo Ilustrado, conhecido também como Despotismo Esclarecido.

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Nascimento e casamentos

Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em Lisboa, no dia 13 de março de 1699.

Seu pai chamava-se Manuel de Carvalho e Ataíde, e sua mãe, Teresa Luísa de Mendonça.

A família de Carvalho e Melo era parte da baixa nobreza de Portugal, devido a seu pai ter sido capitão da cavalaria desse reino e fidalgo.

Durante a sua juventude, ingressou na Universidade de Coimbra estudando Direito, mas certo tempo depois abandonou os estudos e ingressou na carreira militar. Chegou a tornar-se cabo, mas, assim como fez com a universidade, abandonou esse modo de vida.

Ainda na sua juventude, casou-se quando tinha 23 anos com uma viúva, sem filhos, de 34 anos de idade e que pertencia à alta nobreza de Portugal. A primeira esposa de Carvalho e Melo chamava-se d. Teresa de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, e sua família não concordava com o casamento dela com um desconhecido da baixa nobreza.

Esse casamento foi conturbado, e Carvalho e Melo teve inúmeros problemas com a família de sua esposa, pelo motivo citado. De toda forma, o matrimônio com d.

Teresa estendeu-se até 1739, quando ela, adoentada, faleceu. Tempos depois, casou-se com a condessa austríaca d.

Maria Leonor Ernestina de Daun, tendo a conhecido no tempo que residiu em Viena. Com essa última, teve cinco filhos.

Carreira pública

Carvalho e Melo demorou para conquistar posições de prestígio na sua carreira, e essas se deveram muito ao seu primeiro casamento. Uma conquista importante para a carreira de Carvalho e Melo foi o ingresso na Academia Real de História. Lá, ele redigiu textos sobre os reis de Portugal, e essa posição rendia-lhe prestígio social.

O primeiro cargo público de Carvalho e Melo foi o de embaixador português em Londres, na Inglaterra. Foi nomeado para essa função em 1739, e nesse país dedicou-se a defender os interesses de Portugal e analisar a extrema dependência de seu país em relação aos ingleses. Enquanto ocupava esse posto, sua primeira esposa faleceu.

No final de 1743, retornou à Portugal e, pouco tempo depois, em 1745, foi enviado para Viena, capital do Sacro Império Romano-Germânico, também como embaixador.

Lá atuou como mediador de um conflito diplomático entre o Sacro Império e a Santa Sé (Igreja Católica). Na Áustria conheceu sua segunda esposa, membra da alta nobreza.

Depois de resolvida a questão entre Roma e Viena, Carvalho e Melo retornou à Lisboa.

Reformismo Ilustrado

Em 1750, o rei de Portugal, chamado d. João V, faleceu e o trono foi transmitido para d. José I. O império de d. José I ficou marcado por ter sido o período do Reformismo Ilustrado, sobretudo pela atuação de Carvalho e Melo na função de secretário de Estado entre 1750 e 1777.

O Reformismo Ilustrado, também conhecido como Despotismo Esclarecido, foi posto em prática nas duas nações ibéricas (Portugal e Espanha) e tinha como objetivo promover o fortalecimento de ambos reinos. A ideia por trás do Reformismo Ilustrado era fazer com que Portugal tivesse a mesma prosperidade e prestígio dos séculos XV e XVI.

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Assim, as reformas realizadas durante o período do Reformismo Ilustrado buscavam neutralizar as fraquezas de Portugal e tinham inspiração direta nos ideais do Iluminismo, que foram adaptados para serem aplicados à administração do reino. As reformas desse período realizaram mudanças pontuais em áreas como economia, política e gestão dos territórios ultramarinos.

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No período em que Carvalho e Melo atuou como secretário de Estado em Portugal, foram realizadas tentativas de ampliar a concentração de poder nas mãos do rei e do administrador do Estado, que, no caso, era o próprio Carvalho e Melo. A seguir destacamos três objetivos da administração pombalina:

  • Reduzir a dependência da economia portuguesa em relação à inglesa;
  • Aumentar a arrecadação da colônia e o controle sobre esta;
  • Melhorar a administração colonial.

Secretário de Estado

Carvalho e Melo foi nomeado para a função de secretário do Estado em 1750, quando o rei d. José I assumiu o trono.

Entre 1750 e 1777, ocupou dois secretariados diferentes: o de Negócios Estrangeiros e da Guerra (1750-1755) e o dos Negócios Interiores do Reino (1755-1777).

A ascensão de Carvalho e Melo para o secretariado de Estado está relacionada com os bons contatos que ele possuía.

Nesse sentido, a colocação de Carvalho e Melo no posto de secretário de Estado deu-se pela proximidade de sua esposa com esposa do rei falecido (d. João V). Outros apoios importantes que contribuíram para a nomeação de Carvalho e Melo foram o de d. Luís Cunha, um diplomata português, e os de inúmeros membros da Companhia de Jesus.

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A ação de Carvalho e Melo priorizou a reorganização da economia portuguesa, e uma de suas primeiras ações foi conter a influência da Inglaterra no transporte de mercadorias portuguesas.

Dessa forma, o comércio colonial português foi nacionalizado.

Outras ações de destaque na economia foram a tentativa de promover a industrialização do país e a ampliação da produção de vinhos em Portugal.

Um acontecimento marcante na vida de Carvalho e Melo e na história de Portugal foi o terremoto que atingiu Lisboa em 1755.

Nesse acontecimento, um forte tremor atingiu a capital portuguesa, que ainda sofreu com um tsunami que invadiu parte da cidade.

A cidade sofreu grande destruição, e a ação de Carvalho e Melo em resgatar seus sobreviventes e reconstruí-la rendeu-lhe fama e prestígio. Por volta de 12 mil pessoas morreram nesse acontecimento.

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Para reconstruir Lisboa, Carvalho e Melo optou por aumentar os impostos sobre a região de mineração de Minas Gerais. Além disso, um novo projeto arquitetônico foi desenvolvido para a capital de Portugal.

Outro acontecimento marcante de sua gestão foi a tentativa de regicídio de d. José I.

Carvalho e Melo liderou as investigações que levaram à responsabilização do marquês e da marquesa de Távora e do duque de Aveiro. A ação de Carvalho e Melo foi enérgica, e os envolvidos com o crime foram executados em um ritual público.

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Marquês de Pombal e o Brasil

Sebastião de José Carvalho e Melo não chegou a vir ao Brasil, mas realizou ações que tiveram impacto direto no país. Dentre as medidas de destaque tomadas por ele, destacam-se:

  • Aumento dos impostos na zona de mineração por meio do estabelecimento de uma cota anual de 100 arrobas, em 1755.
  • Transferência da capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763.
  • Abolição da escravização de indígenas, em 1757.
  • Criação de duas companhias de comércio: Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão e Companhia Geral de Comércio de Pernambuco e Paraíba.

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Marquês de Pombal e os jesuítas

Apesar de sua ascensão à secretaria de Estado ter acontecido também por suas boas relações com Jesuítas, Carvalho e Melo acumulou polêmicas com a Companhia de Jesus ao longo dos 27 anos em que esteve à frente da administração portuguesa. O embate de Carvalho e Melo com os jesuítas levou à expulsão da ordem de Portugal e suas colônias, em 1759.

Isso aconteceu porque a Companhia era uma instituição poderosa, rica, influente e autônoma e possuía interesses distintos aos de Portugal. Entendida como uma ameaça ao projeto de centralização de poder, a ordem começou a ser atacada pelo governo português.

Isso levou à expulsão dos jesuítas na data citada — algo que também aconteceu na Espanha, mas em 1767. Tempos depois, a Companhia de Jesus foi expulsa da Igreja Católica por ordem do papa Clemente XIV, em 1773.

Marquês de Pombal e a educação

A educação também passou por profundas reformas na administração de Carvalho e Melo. Em Portugal, a Universidade de Coimbra foi incentivada a priorizar o ensino das Ciências Naturais, em detrimento de áreas como a Filosofia. Além disso, criou a aula de comércio, com o objetivo de ensinar novas práticas comerciais.

Promoveu a criação do colégio dos nobres, com o intuito de fornecer instrução para os filhos dos nobres; criou incentivos para a abertura de escolas; e criou um imposto chamado subsídio literário, com o intuito de financiar o desenvolvimento educacional. No Brasil, as ações de Pombal prejudicaram o ensino, uma vez que esse era dominado pelos Jesuítas, expulsos em 1759.

Final de vida

Durante os 27 anos em que esteve na administração portuguesa, o Marquês de Pombal adquiriu inimigos, principalmente na nobreza. Isso ficava bastante claro, uma vez que a própria filha do rei, d. Maria, não nutria simpatia por Pombal. Depois que d. José I morreu, os inimigos do secretário juntaram-se para derrubá-lo.

Quando d. Maria I tornou-se rainha de Portugal, ela, rapidamente, demitiu Pombal do secretariado de Estado. Depois esse foi processado por corrupção, mas perdoado por aquela. Foi obrigado a abandonar Lisboa e passou os últimos anos de vida isolado em sua residência, em Pombal. Morreu com 82 anos de idade, em 1782.

*Créditos da imagem: Commons

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