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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

São Paulo Tag

Hoje acordei cedo pra ver, sentir a brisa da manhã e o sol nascer
É época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio
Lembrei de quando era pequeno, eu e os “cara”… faz tempo!
O tempo não para

(Racionais MC’s – Fórmula Mágica da Paz)

Algumas reações nas quebradas. A periferia ainda pulsa, apesar do clamor de Ndee Naldinho que fala da tristeza nos extremos da cidade ainda fazer sentido nos dias atuais. Mesmo assim, continuo acreditando que realmente a bússola aponta para os lugares que antes eram desacreditados e agora os saraus acontecem aos montes 

Voltei, ainda falando a favor da periferia e tentando quebrar alguns paradigmas. Ainda sensível ao ouvir alguns sons da antiga. Consciência HumanaLembranças. Nem dá para dizer que não tem outras músicas, mas paro na de Ndee de Naldinho, Povo da Periferia.

“É tanta gente triste nessa cidade. É tanta desigualdade, desse outro lado da cidade. Mas eu tenho fé, eu tenho fé eu acredito em Deus. Olhai, por esses filhos teus…”. Anunciava o cantor ao buscar da lembrança aquilo que via todos os dias. Emocionado, porém realista. Com um clamor que se traduzirá ao longo do tempo em um despertar periférico, anunciado em 1997 por Mano Brown dizendo que “a profecia se fez como o previsto”. Sim, nos becos, vielas, quebradas em que os meninos na madrugada não dormem, o sol ainda vai brilhar. Sentimento que ainda está no coração de centenas de jovens que realizam mobilizações sociais de deixar muita gente de cabelo em pé. Um exemplo foi um lugar no Jardim Miriam – que ainda não visitei, mas me chegou a notícia – que deixou de ser um posto policial para ser um polo cultural.

Existe os que não estão fazendo muitas coisas na prática. Só que já incomodam por estarem na adolescência entoando o coro de que não existe amor em São Paulo.

Não só os que moram na beira dos córregos, em que as casas ainda são de pau ou de alvenaria. Do outro lado da cidade tem outros que tem boa comida na mesa, acordam pela manhã para ir para as escolas que ensinam a manter o domínio, gastam muita grana em cervejas importadas, acompanhadas de cocaína ou das balinhas do amor. Podem viajar para os cantos dos colonizadores, mas, mesmo assim, ainda se deixam levar pelo encanto das músicas que falam da realidade, quase nada tem de ilusão.

Mesmo com várias discrepâncias, defendo que aconteçam encontros respeitosos entre a periferia e o centro. Um tem a acrescentar ao outro. Desde que os interesses egoístas não sejam maiores que a causa que São Paulo e o Brasil tanto necessitam. Quem pensar um pouco, apenas alguns minutos, verá que é emergente. Cada anúncio de revolução é abafado pelo amplo repertório do sistema que nos detém.

Mais uma bela página na história da periferia paulistana. Sinal que ela continua emanando suas riquezas, belezas e seu lado mais contestador acerca da realidade social que insiste em atravessar gerações em São Paulo e no Brasil

Publicado em Outras Palavras

A primeira vez que me deparei com o documentário Linhas Periféricas, realizado por estudantes da Universidade Metodista, foi no blog de Jéssica Balbino. Em seu breve post ela diz “nada saber sobre o documentário” e esboça emoção ao dizer que viu um de seus livros no fundo da tela, “ao lado de outros volumes da coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano”, quando Heloísa Buarque de Hollanda, coordenadora da Universidade das Quebradas, aparece dizendo que vasto número de acadêmicos não consideram a literatura da margem como literatura: é classificada por muitos como um fenômeno sociológico que com certeza vai passar. Como se fosse alguém em surto que, ao certo, depois de voltar à realidade, apenas torce para que não tenha afetado nenhum mecanismo do funcionamento cerebral.

A aparente timidez de Jéssica para no registro feito em seu blog — em novo texto no site Rap Nacional, mais informações são disponibilizadas. Aliás, quem sou eu para dizer que uma das escritoras de maior relevância no cenário chamado marginal é tímida em suas palavras? Na verdade, ainda bem que posso me corrigir a tempo, ela em seu primeiro texto quis apenas dar ressonância a voz “dos poetas, ao microfone, declamando sua revolta, indignação, o seu amor, a sua cor e, como não poderia deixar de ser, a sua dor”. Isso tudo abunda no registro de vinte e cinco minutos que percorre três bairros periféricos da cidade de São Paulo.

O vídeo documentário começa com a imagem do metrô que chega quase ao extremo sul da capital, em um dia qualquer com um pouco de sol e, logo após, um menino negro correndo em becos, escadas inacabadas, ruas ainda de terra, com o famoso chinelo de dedo desgastado, um livro de Ferréz nas mãos. A capa é inconfundível: Capão Pecado. 

Sustentada pela história que omite e ajuda a perpetuar práticas racistas, como se elas fossem para o bem do Brasil, um dos pedaços do militarismo, a Marinha, pressiona uma comunidade remanescente de quilombo a deixar o local que moram há mais de 200 anos. Enquanto um grito quer alcançar ressonância, outro, com a ligação entre as questões sociais, também quer falar o que acontece na cidade de São Paulo. A emergência do diálogo permanente entre os movimentos que estão reivindicando justiça está posto. Vamos escolher a guerra de egos ou o resgate daquilo que o Brasil mais possui de riqueza? 

O Quilombo Rio dos Macacos, encontra desde a década de setenta extremas dificuldades de sobrevivência por conta da truculência da Marinha na Baía de Aratu. Mas após outubro de 2010, perto da entrada do mês da Consciência Negra, a situação agravou-se.

A 10ª Vara Federal da Bahia determinou, por meio de liminar, a desocupação de 43 imóveis do quilombo. Mais ou menos um ano depois, porém, a área foi oficialmente declarada comunidade quilombola, com publicação no Diário Oficial da União em 4 de outubro, e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), do governo federal, solicitou que a Procuradoria Geral da União (PGU) intervisse no caso. O caso mobilizou mídias alternativas e ativistas sociais de diversos países.

Nova história começa para não ter nenhuma chance de esquecer que o ruim é não ter nada pra contar.  Sobra-me a eterna busca para encontrar as palavras certas para descrever os sentimentos que passam por mim. Acho que não os percebo por completo. Talvez seja impossível descrevê-los com exatidão. São incompreensíveis, e ao mesmo tempo o que dá pra compreender não pode ser compartilhado com qualquer pessoa. São únicos para ficarem guardados como raridades. Aparecem e somem como as lágrimas que despontam em meus olhos nos dias de aflição. Baseia-se em verdades que criei com base em minhas transposições pautadas na desordem.

O pior foi que não fiquei longe de mim mesmo para não saber resumir o que se passa em minha incompletude. Nem pude guardar o tempo que queria ficar parado para dar margem para minhas ilusões que se tornariam realidade se eu fosse mais corajoso em tentar ganhar o mundo de um jeito só meu. Olha que as lágrimas nem se foram para ao menos ter um tempo para respirar e pensar no futuro que me espera. Fica na garganta a vontade de gritar uma palavra só até o fim dos meus dias. Falta ousadia para colocar em prática as coisas que já são parte de meu corpo, alma e espírito. Quem sabe poderia ter a chance de te olhar com ternura e te dar um beijo, com sinceridade e com um pedido de perdão. Meus olhos não ficariam mais molhados de dor. Minhas pernas caminhariam em direção a um caminho que apenas eu conheço. Minha vida passaria a existir um pouco além de meus sonhos. Abraçaria a pessoa que mais amo e falaria para ela, em palavras resumidas, o valor de sua existência. Seria mais simples se Deus me desse outra chance de mostrar que agora posso fazer tudo diferente. Poderia até olhar para o céu com os braços abertos e enxergar o que nunca pude ver. Acho que isso fica apenas comigo e com mais ninguém. Parece-me que sonho com coisas impossíveis de se viver num mundo como esse. Será mesmo que dá tempo de restaurar o que foi perdido?