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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Racismo Tag

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

Publicado em Outras Palavras

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

Na boca de gente que despreza ou não entende a luta dos movimentos negros no Brasil, racismo virou complexo de inferioridade. Não é raro ouvir acusações dizendo que os negros se colocam sempre em um lugar de inferioridade, ou que quando reivindicam algo cometem o famoso racismo às avessas:

Compreendo amigo que o Brasil é um país racista, mas vocês estão sendo mais racistas ainda quando falam da discriminação. Parem de ser racistas ao contrário, ouvi um dia em uma conversa de dois jovens num ônibus.

Em outro momento, nem faz tanto tempo assim, concentrado em minhas leituras no Centro Cultural São Paulo, ouço o diálogo:

Nossa, você viu aquela menina da nossa sala? Só foi o professor falar de cotas na universidade, mesmo todos se mostrando contra, ela se levantou e falou que era a favor e que essa é uma importante medida não apenas para sanar a dívida que o Brasil tem com os negros, mas, também, para dar condições de igualdade de oportunidades. Como ser igual tratando os outros com diferença? Ai amiga, faz tempo que venho observando ela e tenho nojo desse racismo que está sendo promovido por quem diz participar desse tal Movimento Negro.

– Concordo, acho que ela nem está preparada para entender o que é universidade. Com essa mentalidade nem compreendo como ela chegou até o ensino superior. 

– Cotas né amiga! Ela com certeza tirou a vaga de alguém mais capaz.

 – Verdade, o mais sensato a fazer é ignorar. Quanto mais você fala pior fica, ela tem argumento pra tudo.

Sustentada pela história que omite e ajuda a perpetuar práticas racistas, como se elas fossem para o bem do Brasil, um dos pedaços do militarismo, a Marinha, pressiona uma comunidade remanescente de quilombo a deixar o local que moram há mais de 200 anos. Enquanto um grito quer alcançar ressonância, outro, com a ligação entre as questões sociais, também quer falar o que acontece na cidade de São Paulo. A emergência do diálogo permanente entre os movimentos que estão reivindicando justiça está posto. Vamos escolher a guerra de egos ou o resgate daquilo que o Brasil mais possui de riqueza? 

O Quilombo Rio dos Macacos, encontra desde a década de setenta extremas dificuldades de sobrevivência por conta da truculência da Marinha na Baía de Aratu. Mas após outubro de 2010, perto da entrada do mês da Consciência Negra, a situação agravou-se.

A 10ª Vara Federal da Bahia determinou, por meio de liminar, a desocupação de 43 imóveis do quilombo. Mais ou menos um ano depois, porém, a área foi oficialmente declarada comunidade quilombola, com publicação no Diário Oficial da União em 4 de outubro, e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), do governo federal, solicitou que a Procuradoria Geral da União (PGU) intervisse no caso. O caso mobilizou mídias alternativas e ativistas sociais de diversos países.

http://youtu.be/_aPYuKiKFMg Efeitos do racismo na infância. É impossível não perceber o quanto isso permeia nossa sociedade. Quem acessa sempre essa página sabe que trato em diversos textos essa questão. Porém, nunca é demais lembrar que, de fato, ainda falta muito para sermos realmente livres do racismo. Separo...

 

Desigualdades sociais recorrentes, enquanto sem esforço nenhum podemos ver na cidade de São Paulo tristes e grandes mansões, cercadas e guardando tesouros que se fossem  distribuídos com justiça anularia parte dessa realidade retratada acima, em muitas zonas periféricas. Quando vamos acordar em ver que em nosso tempo a sociedade grita por socorro? 

Para viver é preciso ter coragem, ainda mais em um sistema como esse que foi instaurado nesse mundo. Quem pode negar isso?

Enquanto busco alguma inspiração para escrever essas breves palavras, alguma coisa com relação às escolas me vem à mente. Não apenas a escola institucional… Outras realidades podem ser levadas em conta.

Ao visitar escolas em alguns lugares da Grande São Paulo, e até mesmo do interior, ouvi coisas assombrosas de professores, diretores e alunos. Será que apenas eles sabem dessa verdade? Às vezes acho que outros sabem e se calam. Qual é a relação que as escolas têm com a comunidade no entorno? Ainda acredito na educação que olha o outro como legítimo outro, se ela for colocada em prática.

Quem não viu nada nesse país chamado Brasil nada pode dizer. São casas de madeira, poucas com sustentações de vigas, enquanto outras custam milhões de dólares.

Um livro que não sai da minha mente é Capão Pecado. Acho que a leitura dele fez com que algumas peças de um quebra-cabeça se juntassem, principalmente quando penso nas diversas favelas que pisei. Os motivos foram diversos… Um deles a educação em sinergia com as articulações sociais. Quem poderia imaginar? Agora, quanto à leitura do livro, recomendo. Além da leitura é importante você ir a algum lugar ver o trabalho de quem faz coisas inimagináveis, pelo sonho de acreditar que a revolução que acontece na periferia influencia não apenas por lá, mas, também, nos grandes centros. Essa revolução cultural, como sempre acontece sem a velha mídia pautar, a não ser quando o assunto decorrente são as tragédias, é inevitável.

Penso nessa questão da própria visibilidade. Em alguns momentos pessoas são visíveis pelos erros que cometem, mas nunca pelos acertos. Isso não dá audiência. Nenhum patrocinador quer dar cobertura ao sucesso de quem nada tem de material. Aí fica por isso mesmo, pessoas pobres ficam mais pobres ainda quando uma mãe  tem que dar um depoimento na televisão dizendo que deu tudo ao seu filho e mesmo assim ele escolheu a vida do crime. Ela deu tudo… Agora, e o governo? E as empresas racistas? Será que os que mais vão para esse caminho encontram escolas dignas em seus bairros? Quero refletir com cuidado, com certa criticidade, sabendo que muitos nem terminam o ensino fundamental e já vão para o mercado de trabalho para garantir o sustento de um lar que muitas vezes os filhos nem sequer conhecem o pai, que abandonou ou foi assassinado em algum lugar. Que tipo de futuro em um país extremamente segregacionista esses meninos e meninas têm? Sim, eles são capazes de conquistar coisas e de ter um futuro brilhante. Agora, quem resiste a todas as barreiras impostas pelo capitalismo? Pare, pense e veja como é viver em um mundo como o nosso…

 

Conheço muitos jovens que gostam de caminhar de noite, encontrar nestas idas e vindas a liberdade. Mas não me contento com isso, pois a realidade não demonstra jovens tão livres assim.

No Grajaú, bairro chamado Cantinho do Céu, participei de um projeto social em que fui educador de alguns jovens, em oficinas de comunicação comunitária.  Essa foi uma iniciativa do Cenpec junto com a Cidade Escola Aprendiz, num programa chamado Jovens Urbanos, em parceria com banco Itaú – o projeto é muito maior, mas essa era a parte de minha responsabilidade.

Era apenas uma experimentação, com encontros pontuais em que tínhamos o objetivo de através da comunicação descobrir e divulgar o que os moradores daquele lugar consideram como cultura e quais eram os lugares, ou mesmo as práticas, quando não aspectos da própria história do bairro, que tinham relação direta com a cultura local. Para falar disso, a fim de que outras pessoas soubessem das coisas que lá fizemos, usamos algumas ferramentas de comunicação. Os depoimentos dos próprios moradores eram o nosso alicerce…