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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Periferia Tag

Hoje acordei cedo pra ver, sentir a brisa da manhã e o sol nascer
É época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio
Lembrei de quando era pequeno, eu e os “cara”… faz tempo!
O tempo não para

(Racionais MC’s – Fórmula Mágica da Paz)

http://vimeo.com/9313278 Pouco mais de quinze minutos de vídeo resgatando o que as quebradas de São Paulo falam há muito tempo, mesmo com inúmeras coisas tentando abafar seu lado mais contestador. Lógico que pode soar como um grito apaixonado: a favela pulsa! Dá a impressão de que...

Por Germano Gonçalves

É chegada a hora, a tarde vai-se embora.
E o anoitecer vem chegando às periferias.
A noite vem se apresentando e, com ela, os transeuntes.

Passando de um lado para o outro, uns vêm das fábricas.
Outros vão para as igrejas e muitos já estão ingerindo geladas.
Jovens para a escola, noites de sono na sala, matar aula.

Homens e mulheres em caminhos incertos, e bem ali perto
Andam pelas ruas, luzes nas avenidas insinuando aventuras.
No bar à procura do par para relaxar, músicas e músicos
Misturam-se entre os botecos, fazendo refrão para
Amenizar a solidão.
A mulher bate a porta toda torta
Cansada de o marido esperar, vai se deitar.

A noite é algo mágico, traz consigo vaidades e luxúrias.
Mendigos que pedem comida e moedas.
Meninos sem teto ficam nas calçadas, ao meio-fio
À espera do veículo a estacionar e uns trocados ganhar.


 

 

 

 

 

 

A Aurora chega à periferia de braço dado com o poeta, vibra, Lira Periférica.

Amanhece o dia.
O dia amanhece na periferia.
Abrem-se as janelas, das casas e barracões,
de tábuas e alvenarias,
E começa um novo dia.

O bar e mercearia do Seu Joaquim!
Já de portas abertas, pra vender pãozinho francês.
Dona de casa sai pra comprar o pão.
O ocioso, já com copo de álcool no balcão.
Homens e mulheres se enfrentando
nos pontos, à espera de lotação.
Uns já atrasados, outros já cansados.
Todos assalariados.

Algumas reações nas quebradas. A periferia ainda pulsa, apesar do clamor de Ndee Naldinho que fala da tristeza nos extremos da cidade ainda fazer sentido nos dias atuais. Mesmo assim, continuo acreditando que realmente a bússola aponta para os lugares que antes eram desacreditados e agora os saraus acontecem aos montes 

Voltei, ainda falando a favor da periferia e tentando quebrar alguns paradigmas. Ainda sensível ao ouvir alguns sons da antiga. Consciência HumanaLembranças. Nem dá para dizer que não tem outras músicas, mas paro na de Ndee de Naldinho, Povo da Periferia.

“É tanta gente triste nessa cidade. É tanta desigualdade, desse outro lado da cidade. Mas eu tenho fé, eu tenho fé eu acredito em Deus. Olhai, por esses filhos teus…”. Anunciava o cantor ao buscar da lembrança aquilo que via todos os dias. Emocionado, porém realista. Com um clamor que se traduzirá ao longo do tempo em um despertar periférico, anunciado em 1997 por Mano Brown dizendo que “a profecia se fez como o previsto”. Sim, nos becos, vielas, quebradas em que os meninos na madrugada não dormem, o sol ainda vai brilhar. Sentimento que ainda está no coração de centenas de jovens que realizam mobilizações sociais de deixar muita gente de cabelo em pé. Um exemplo foi um lugar no Jardim Miriam – que ainda não visitei, mas me chegou a notícia – que deixou de ser um posto policial para ser um polo cultural.

Existe os que não estão fazendo muitas coisas na prática. Só que já incomodam por estarem na adolescência entoando o coro de que não existe amor em São Paulo.

Não só os que moram na beira dos córregos, em que as casas ainda são de pau ou de alvenaria. Do outro lado da cidade tem outros que tem boa comida na mesa, acordam pela manhã para ir para as escolas que ensinam a manter o domínio, gastam muita grana em cervejas importadas, acompanhadas de cocaína ou das balinhas do amor. Podem viajar para os cantos dos colonizadores, mas, mesmo assim, ainda se deixam levar pelo encanto das músicas que falam da realidade, quase nada tem de ilusão.

Mesmo com várias discrepâncias, defendo que aconteçam encontros respeitosos entre a periferia e o centro. Um tem a acrescentar ao outro. Desde que os interesses egoístas não sejam maiores que a causa que São Paulo e o Brasil tanto necessitam. Quem pensar um pouco, apenas alguns minutos, verá que é emergente. Cada anúncio de revolução é abafado pelo amplo repertório do sistema que nos detém.

Mais uma bela página na história da periferia paulistana. Sinal que ela continua emanando suas riquezas, belezas e seu lado mais contestador acerca da realidade social que insiste em atravessar gerações em São Paulo e no Brasil

Publicado em Outras Palavras

A primeira vez que me deparei com o documentário Linhas Periféricas, realizado por estudantes da Universidade Metodista, foi no blog de Jéssica Balbino. Em seu breve post ela diz “nada saber sobre o documentário” e esboça emoção ao dizer que viu um de seus livros no fundo da tela, “ao lado de outros volumes da coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano”, quando Heloísa Buarque de Hollanda, coordenadora da Universidade das Quebradas, aparece dizendo que vasto número de acadêmicos não consideram a literatura da margem como literatura: é classificada por muitos como um fenômeno sociológico que com certeza vai passar. Como se fosse alguém em surto que, ao certo, depois de voltar à realidade, apenas torce para que não tenha afetado nenhum mecanismo do funcionamento cerebral.

A aparente timidez de Jéssica para no registro feito em seu blog — em novo texto no site Rap Nacional, mais informações são disponibilizadas. Aliás, quem sou eu para dizer que uma das escritoras de maior relevância no cenário chamado marginal é tímida em suas palavras? Na verdade, ainda bem que posso me corrigir a tempo, ela em seu primeiro texto quis apenas dar ressonância a voz “dos poetas, ao microfone, declamando sua revolta, indignação, o seu amor, a sua cor e, como não poderia deixar de ser, a sua dor”. Isso tudo abunda no registro de vinte e cinco minutos que percorre três bairros periféricos da cidade de São Paulo.

O vídeo documentário começa com a imagem do metrô que chega quase ao extremo sul da capital, em um dia qualquer com um pouco de sol e, logo após, um menino negro correndo em becos, escadas inacabadas, ruas ainda de terra, com o famoso chinelo de dedo desgastado, um livro de Ferréz nas mãos. A capa é inconfundível: Capão Pecado.