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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Ebenezer Cultura Tag

Uma noite espetacular, diferente de outra qualquer, única, fazendo parte de uma história sem precedentes. Homens e mulheres caminhando pelo luar na cidade grande e em um mundo completamente hostil e cruel.

Havia todos os tipos de pensamentos e atitudes no coração de cada pessoa que caminhava pela Avenida Paulista. Uns queriam ir ao cinema ver filmes alternativos, outros apenas tomar um café. A grande maioria das pessoas apenas caminhava e contemplava  a beleza daquela noite tão importante.

O maravilhoso era ver os artistas compartilhando suas obras ao ar livre. Os olhos mais atentos queriam ver a beleza de tudo que estava disponível naquele lugar. Riqueza entregue gratuitamente, ou melhor, pelo preço que todos podiam ou queriam pagar. Cada um produz seu próprio preço para visualizar coisas que é fruto de muito esforço. Quem foi que disse que arte é sinônimo de relaxo? Ao contrário, o artista muito busca para encontrar sentido em sua própria arte, muitas pessoas é que não dão valor.

O documentário Frutos do Brasil possui aproximadamente 54 minutos de duração e retrata 8 histórias de grupos de jovens de diferentes regiões do país. São práticas democráticas protagonizadas por aqueles que cansaram de esperar e resolveram atuar, participar. As imagens colocam cor e relevo na...

Com tantos acontecimentos ao longo de nossa história, quero olhar para a atualidade e compartilhar algumas questões que me preocupam – esse espaço não é suficiente para falar de todas as coisas que desejo. Aos poucos vou dizendo. Meu compartilhar será a cada crônica, os temas não se esgotam. Ao contrário…  A cada dia nasce um novo olhar acerca das antigas questões, que infelizmente são mais atuais que nunca.

Um educador, ao tentar descontar seu pagamento em uma agência bancária, foi barrado pelo fato de ser negro – não dá para banalizar esse tipo de acontecimento e transformá-lo em algo comum. Ainda existe algo no imaginário das grandes instituições brasileiras, que automaticamente chega até a população, de que existe o perfil do suspeito. Dá para acreditar em algo assim?

Muitos ficam apenas sensibilizados, mas ouvi uma frase de Telma Vinha que diz que a ética não está apenas nos sentimentos, mas nos atos. Ser apenas sensível com a causa contribui em partes, porque apenas a sensibilidade não alcança a ética. É necessário ter atitudes.

Educação não está restrita à escola. As pessoas se educam em comunhão, reconhecendo que um pode olhar ao outro e acrescentar algum conhecimento que possa servir ao outro, tanto como exemplo ou como algo a não ser seguido.

Quando aprendo a olhar para o outro como legitimo outro, tenho mais chances de ser reconhecido realmente como ser humano, como alguém que tem algo a dizer ou fazer…

Encontrando a plenitude posso olhar para meu próximo como meu educador ou educando… Às vezes a pessoa que está ao meu lado pode contribuir para minha formação tanto quanto o professor contribui. Quem é que detém as técnicas? Elas estão restritas apenas às universidades? Considero a importância dos conhecimentos que são adquiridos ao longo de uma formação acadêmica, que jamais acaba. Uma trajetória de ganhos imensuráveis. Mas não podemos de forma alguma achar que esse conhecimento é são suficiente.

Quem pode perceber o quanto é importante figura dos educadores e psicólogos, em alguns casos até mesmo da assistente social no ambiente escolar? Estou restringindo a esses profissionais, porém as possibilidades são imensuráveis. Por exemplo, pude ver uma experiência bem sucedida de um administrador que foi chamado pelos professores para trabalhar com alguns jovens que tinham o desejo de aprender mais a respeito disso. Foi tão bem sucedido que se estendeu até mesmo para outras salas, professores e funcionários. Quem poderia prever? Mas o que quero abordar, de modo introdutório, para dar um gostinho, é a importância de ações que são feitas em comunidade, fora do ambiente escolar. Usarei algumas perguntas…

Como direi para meus filhos, que ainda nem nasceram, mas com certeza serão negros, porque sou descendente de africanos, que eles serão discriminados por conta da sua cor de pele e origem étnica, marcada historicamente como inferior e inculta – a história chamada oficial diz suas mentiras, apesar de outras interpretações históricas existirem, mas não são divulgadas por pessoas que teriam formas de fazer isso de um modo que a maioria da população mundial tivesse acesso.

Quais palavras usarei para explicar a existência de tamanha calamidade? Desde já reflito sobre isso e tenho vontade de chorar e gritar.

Em minha modesta avaliação, isso não é sofrer por antecipação, é apenas tratar a realidade como ela deve ser tratada. Pessimismo? Creio que não, porque, por mais que eu queira ver uma realidade de um modo mais justo, e outras muitas pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo também queiram, o racismo ainda vai demorar muito tempo para ser superado, sinto na pele e é bem provável que as futuras gerações também o sintam. A diferença é que terão mais mecanismos para se defenderem deste câncer.

Estarei de cabelos grisalhos, num dia distante, e não vou parar de discursar a favor da liberdade. Ainda que muitos achem que falo apenas tendo como base o radicalismo, não penso em mudar minhas práticas, apenas no que diz respeito ao amadurecimento que o tempo vai trazer. Como negar o que vejo de modo tão evidente?

O essencial é sempre estar com a consciência tranquila e saber que trabalhar para o fim da discriminação racial é atuar em prol de um país que não sufoque a riqueza da diversidade.

Utopia? Prefiro acreditar em uma das afirmações do escritor José Saramago: utopia é apenas o amanhã. Para ele esta palavra não sinaliza algo que nunca vai existir. Ela é apenas o discurso do não existente hoje. Ao passar dos dias algo de agradável pode acontecer. Isso tudo pude ver no Fórum Social Mundial de 2005, em Porto alegre.

Racismo ao contrário? Acordei pensando nessa expressão tão falada em muitos lugares que circulo. Será que procede tão acusação?

Às vezes desconfio que muitas pessoas que usam esta frase não sabem a diferença entre racismo, discriminação e preconceito. Tratam tudo como se fosse uma coisa só. Existe grande diferença entre todos esses conceitos, vamos ver?

Preconceito: ideia que se forma pela falta de conhecimento. São conceitos formados no individual e não no coletivo. Não é a ação. Neste momento é algo que se constitui apenas no campo das ideias. Uma boa dose de educação de qualidade, investimento intelectual, poderia evitar muitos desses perigosos conceitos ainda não tão bem formados. Não consigo ficar tranquilo ao saber que muitas pessoas são tratadas de maneira diferente, apenas por existir outras que respondem perguntas extremamente complexas sem o mínimo conhecimento. Ou melhor, um saber pautado nas concepções do senso comum.