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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Comunicação Comunitária Tag

Em 14 de setembro de 2011, como um dos participantes do ciclo de palestras sobre empregabilidade, contando com profissionais dos mais diversos, falei sobre minha atuação enquanto educador social, blogueiro e escritor para dois grupos de jovens de primeiro ano de ensino médio da Escola Estadual Hadla Feres.

Em Carapicuíba, que hoje em dia tem por volta de 400.000 habitantes, a escola fica a mais ou menos meia hora do centro da cidade em um bairro chamado Vila Dirce. Não dá para repetir o jargão que envolve questões estruturais ou problemas de vulnerabilidade social que atinge também esse bairro e por consequência a escola. Trocar aqui algumas informações tem que me fazer colocar em evidência o que a comunidade escolar feito resolver o que aparece pelo caminho. Pelo menos essa é a visão que tenho e que é respaldada por alguns educadores que admiro.

É bom ressaltar que essa foi uma iniciativa da própria escola e que pode se desdobrar em outras mobilizações. Uma das coisas que me chamou atenção foi o envolvimento de parte do corpo docente, representado pela professora e mediadora de conflitos, Raquel Bertolai e da direção, que promoveu toda articulação através do diretor e também escritor José João de Alencar – Psicanálise e Educação: A escuta e a fala na escola pública e o fortalecimento dos laços sociais, esse é o nome do livro que ele escreveu e que esses dias terminei de ler, recomendo para quem quer fazer algo para que o ambiente escolar seja mais humanizado e humanizante. Será que nas escolas, de um modo geral, as pessoas enxergam o outro como legítimo outro?

Um amigo meu, pessoa que me ajudou a enxergar de forma diferente o conteúdo do livro que estou escrevendo, me disse que minhas crônicas mudam de assunto repentinamente e não aprofundo algumas coisas sérias que abordo. Dentre outras contribuições, das quais, todas elas, sem exceção, apreciei com muito carinho, a que mais chamou atenção foi essa que aponta quanto a forma que levanto os aspectos da sociedade que falo em meus escritos.

De modo algum discordei, mas, pensando durante vários dias e pesquisando outras pessoas que também considero cronistas [quem se entrega a esse “ofício” de descrever a realidade de modo mais livre e às vezes até “descompromissado”, através da escrita ou de outros tipos de arte que envolve uma maneira mais poética de se dizer aquilo que se vê, é cronista, essa é minha forma de ver], pessoas pelas quais aprendi a ter muito respeito, cheguei a conclusão de que muitas manifestações artísticas têm seu tema central e depois disso o discorrer em cima do tema ou de vários temas. Sim, eu sei que na origem etimológica e prática as crônicas tinham outro objetivo e sentido. Usando a definição de Konder, uma das que considero que mais faz sentido, a palavra crônica deriva do Latim chronica, que significava, no início da era cristã, o relato de acontecimentos em ordem cronológica (a narração de histórias segundo a ordem em que se sucedem no tempo). Era, portanto, um breve registro de eventos. Com o passar do tempo isso mudou. Mas, mesmo que não tivesse mudado, sem desvalorizar a origem das coisas, que sentido teria algo que não pudéssemos atribuir outros sentidos?

Um artista que não atribui “seu próprio sentido às coisas” não é artista. Naturalmente pode se entregar e entregar aos outros, a quem lhe acessa ou é acessado por sua arte, essa riqueza originada daquilo que vem de dentro, transformando pensamento e sentimento em livro, quadro ou música. Na música brasileira, por exemplo, temos vários cronistas, gente que fala o que vê sem se preocupar com os ditos métodos. Nem falei logo de cara da literatura, porque está mais que explícito que as crônicas, poesias ou romances, são praticamente a porta de entrada para quem se apaixona pelo ato de ler e depois o de escrever, se expressar pela veia poética.

Muita gente tem falado do trampo do Emicida. Acompanho uma coisa ou outra que vem pipocando por aí. Ele está com certa visibilidade na mídia. Quando falo isso não estou tendo nenhuma conotação irônica. Isso muito me agrada [não apenas pelos posicionamentos de simplicidade que...

Angélica Rente e André Luiz dos Santos são meus amigos de faculdade, de quando estudava na Universidade São Marcos. É até irônico chamar um professor de amigo, o tradicionalismo acadêmico não permite tamanha “heresia”. Só não deixo passar que estou falando de alguém com uma bagagem técnica, prática e teórica, que inspirou e inspira muita gente na universidade e fora dela. Essas são palavras minhas e não dele. André Luiz dos Santos

Ao mesmo tempo, nem sei o que perguntar, para uma das pessoas que me deu um empurrão, mesmo sem perceber, para que meus olhos se abrissem para a sinergia entre a arte e a educação, por exemplo. Sim, nem sei se ela sabe, mas, Angélica Rente contribuiu para isso…

Nessa oportunidade entrevisto Jéssica Gonçalves, estudante de Comunicação e Multimeios na PUC de São Paulo, editora e uma das idealizadoras do Baoobaa, site que tem contribuído pra que muitas pessoas ampliem o olhar acerca da cultura afro-brasileira, que mesmo com todos os avanços, inclusive na própria legislação, ainda não é lembrada e valorizada no Brasil. Sim, deixo um pouco de lado a imparcialidade e coloco um pouco do meu olhar sobre a questão. Até porque faço parte desse projeto – como cronista do site – que e a Jéssica tem tocado, junto com Rodrigo Kenan. Mas, minha opinião toma apenas essa pequena parte do documento. Esse espaço, como àqueles que acompanham minhas postagens sabem, não é meu, mas do entrevistado. Nesse caso, trazendo a tona a valorização da questão de gênero, que em sua história cruza com as questões étnicas, digo que está aberto esse canal de comunicação para a minha entrevistada.

Jean Mello – Fale um pouco de sua trajetória pessoal… Incluindo sua própria caminhada, como é que nasce o Baoobaa? Ou seja, além de um acontecimento pontual, que possa ter desencadeado o nascimento do projeto, algo que realmente quero que você aborde aqui, têm outras questões que você também leva em conta?

Jéssica Gonçalves – A minha trajetória começou quando nasci, numa família negra de classe média da cidade de São Paulo. Porém, como tudo se transforma e ganha novos contornos, a minha família também se modificou. Nossa condição social decaiu e cresci, com uma ótima educação, mas me deparando com algumas dificuldades para alcançar o que eu almejava.

Mas como uma boa brasileira, aprendi a não desistir nunca dos meus objetivos. Foi assim que entrei, em 2010, na Universidade. A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – uma das melhores universidades privadas do estado. Tenho orgulho de dizer isso e acentuar que eu venci uma etapa, mesmo sabendo das dificuldades que eu iria encontrar pela frente, como a alta mensalidade, por exemplo.

Dentro da sala de aula, um choque: eu sou a única negra da minha turma! Foi aí que comecei a pensar no negro dentro das universidades. Comecei a me questionar, de fato, sobre inclusão/exclusão, preconceitos, racismos… E a ideia surgiu: o Baoobaa.

O documentário Frutos do Brasil possui aproximadamente 54 minutos de duração e retrata 8 histórias de grupos de jovens de diferentes regiões do país. São práticas democráticas protagonizadas por aqueles que cansaram de esperar e resolveram atuar, participar. As imagens colocam cor e relevo na...

Com tantos acontecimentos ao longo de nossa história, quero olhar para a atualidade e compartilhar algumas questões que me preocupam – esse espaço não é suficiente para falar de todas as coisas que desejo. Aos poucos vou dizendo. Meu compartilhar será a cada crônica, os temas não se esgotam. Ao contrário…  A cada dia nasce um novo olhar acerca das antigas questões, que infelizmente são mais atuais que nunca.

Um educador, ao tentar descontar seu pagamento em uma agência bancária, foi barrado pelo fato de ser negro – não dá para banalizar esse tipo de acontecimento e transformá-lo em algo comum. Ainda existe algo no imaginário das grandes instituições brasileiras, que automaticamente chega até a população, de que existe o perfil do suspeito. Dá para acreditar em algo assim?

Muitos ficam apenas sensibilizados, mas ouvi uma frase de Telma Vinha que diz que a ética não está apenas nos sentimentos, mas nos atos. Ser apenas sensível com a causa contribui em partes, porque apenas a sensibilidade não alcança a ética. É necessário ter atitudes.