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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

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Poucas pessoas param para pensar e discursar acerca do impacto que as revoluções tecnológicas causa no cotidiano.

Enquanto fenômeno de caráter social – quando penso no número de informações que as pessoas acessam no cotidiano – os acessos à internet, de qualquer lugar, dinamiza e muito a visão que as pessoas passam a ter da realidade. São versões diversificadas de um mesmo acontecimento. Agora não apenas de algumas mídias oficiais, centradas apenas em compromissos com patrocinadores, chegam as notícias.

Diariamente busco com afinco as palavras mais próximas de resumir sentimentos, acontecimentos, realidades, fantasias, premissas observadas pela sensibilidade afiada que o ato de escrever e de ler o que está em cada esquina de minha existência só faz crescer, multiplicar em meu ser.

Visões sobre artista que canta contra a acomodação e é capaz de participar de programas de grande audiência mantendo-se crítico, contundente e rebelde

Publicado em Outras Palavras

“Combatente não aceita. Comando de canalhas que a nós não respeita.
Excluído, iludido… Quem nasce na favela é visto como bandido! Rouba muito, magnata… Não vai para cadeia e usa terno e gravata. Causa e efeito… Só dever sem direito”. (MV Bill)

Raro nos dias atuais alguém conseguir desmistificar aspectos cruciais da situação que o Brasil vive, principalmente em pouco mais de cinco minutos. Nesse clipe lançado em abril de 2011, MV Bill incorporou questões extremamente relevantes para entendimento daquilo que realmente é o “País Tropical”.

Lógico que nada dá pra ver e dar um completo amém. Tampouco dizer que toda produção do cantor é tão madura quanto essa música.

Controvérsias à parte, conferir detalhes da obra que inspirou esse texto permite compreender melhor como se comporta um sistema cuja lógica inclui conservar as misérias e as desigualdades sociais. Também é um dos pedaços do quebra cabeça para montar o que muita gente espera que aconteça de vez por aqui: negros dizendo aquilo que apenas os negros viveram e ainda vivem.

Como diz o MV Bill, “a superação me emociona, mas a apatia dos irmãos me decepciona”. Para enfrentá-la, o artista volta a romper as fronteiras da pura crítica. Sua arte retoma e reinterpreta. 

Acontecimentos que já afligiram as periferias de todas as metrópoles brasileiras. Desde as investidas da polícia, como braço do poder para disseminar o medo, até a falta de oportunidade aos jovens, sobrando poucas alternativas para levar a vida à frente.

Com imagens que lembram um fanzine ou história em quadrinhos, o som vai ilustrando aquilo que vemos. Ou será que é a imagem que diz exatamente o que ouvimos?

Em alguns momentos, MV Bill foi acusado de sensacionalismo e apologia ao crime. Recentemente, negou as investidas de vários canais de comunicação, segundo os quais teria espancado a irmã pauladas. Disse em nota oficial que sua familiar sofre de problemas psicológicos e que jamais cometeria tal ato.

Bate de frente com o que diz combater. No programa do Faustão, vídeo que está quase batendo na casa de dois milhões de visualizações, canta com fervor as contradições da grande mídia. Em dado momento foi cortado ao vivo, mas já tinha dado vários minutos de recados contundentes.

Alguns se perguntam se um rapper deve aceitar esse tipo de convite. Ele e alguns outros optaram por ir e dizer o que pensam. Os mais tradicionais não querem nem chegar perto. Recentemente, Emicida concedeu uma entrevista ao SBT que teve boa repercussão — só que nem sempre é assim que funciona.

Andando contra o tempo, esperando encontrar o caminho, para entrar em contato com outras pessoas que falam da realidade de um modo diferente daquele que é dito nas grandes corporações e que é reforçado pela mídia tradicional enfiada até o pescoço em compromissos com os donos do dinheiro.

Quero que esteja comigo nessa vivência pautada em experiências sólidas – percebi que diversos amigos não têm coragem de falar o que pensam por não saberem que outras pessoas pensam de modo parecido. Quem é que anda em direção ao nada? Sempre existe um objetivo qualquer para que em algum lugar dos pensamentos implícitos, de um modo real ou irreal, em qualquer sujeito demasiadamente humano, tenha espaço para ações que podem mudar algum pedaço do mundo.

Faz um tempo que não vejo algum articulador social respeitado dar asas às suas utopias. Em um texto que escrevi para o site Baoobaa, em que publico crônicas quinzenais, falei como enxergo a palavra chamada utopia. De qualquer modo, não sou ingênuo para acreditar que essas pessoas que se preocupam realmente com as outras pessoas, que há muito tempo sofrem dentro de um sistema que ofusca qualquer tentativa de revoluções ideológicas e práticas – não precisa se esforçar muito para ver os exemplos – não estão fazendo nada ou não estão sonhando com revoluções que podem acontecer no Brasil e no mundo.