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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Baoobaa Tag

Exalando Esperança não é um projeto novo. Jean Mello, autor do livro, pensou nessa ideia em diferentes formas, musical e literária.

Mas, antes do desenvolvimento, como algo óbvio, teve de acontecer o primeiro passo. Qual foi ele? Um texto postado em seu site, em março de 2013. No conteúdo o cronista anunciou – mesmo que os leitores não soubessem – que aquele material se tratava exatamente do início da edição de seu segundo livro.

Jean Mello se define escritor-músico e ressalta que estas duas expressões criativas são indissociáveis em sua vida, embora entenda que ser músico “transcende tudo”. Ele também é educador e esta realidade o transformou em um pensador que encontra combustível na utopia para propor alternativas para repensar a formação dos indivíduos.

Texto meu publicado na revista eletrônica número 14 do site Viva Favela.

Não caçamos os pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilâmine de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.

Nelson Rodrigues

Somos o segundo país do mundo em número de negros, ficando apenas atrás da Nigéria, demonstra o Portal Raízes. Isso não quer dizer que temos políticas eficazes direcionadas para um povo que tão mal tratado foi durante a história e, ao mesmo tempo, tão representativo é em nossa cultura.

Segundo o Portal Brasil, os afrodescendentes constituem 51,1% da população brasileira; em 2009, 6,9% das pessoas informaram ser pretas e 44,2% de autodeclararam pardas, o que representa 51,1% dos brasileiros. Números significativos ao levarmos em conta o fato de que as pessoas estão se declarando negras ou pardas, mesmo com uma imagem tão estereotipada do negro nos livros didáticos, na mídia tradicional ou nas redes sociais. Ou seja, inúmeros são os motivos para as pessoas não desejarem serem vistas como negras, descendentes de africanos.

Um salto para um dos acontecimentos em que o racismo mais se evidenciou na história: os tráficos negreiros.

Corro o risco de ouvir argumentos de que a “escravatura foi uma prática de todas as sociedades humanas num ou outro momento da história”, como nos informa a escritora e historiadora Elikia M´Bokolo, em seu livro África Negra: Histórias e Civilizações. Certamente, sabemos que sim. Mas, ao mesmo tempo, a escritora complementa dizendo que “nenhum continente conheceu, durante um período tão longo (séculos VII – XIX), uma sangria tão contínua e tão sistemática como o continente africano”.

Sempre depois de alguma afirmação que acentua a crueldade a que negros e negras do continente africano foram submetidos, vem a clássica pergunta: os próprios negros entraram em acordo comercial com os europeus, a culpa não é dos próprios africanos? Responda você mesmo… Será que cairemos mais uma vez na armadilha de culpar os oprimidos?

Referências para remontarmos os fatores históricos não falta. Mais interessante é olhar para materiais que façam a relação do passado com o presente que hoje vivemos. Um deles, que não me canso de ver é Quanto Vale ou é por Quilo? Trata-se de uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. Sabemos, vemos e nada falamos.

 

Texto originalmente publicado em minha coluna de crônicas no Baoobaa

Depois de férias não avisadas – pelo menos das crônicas por aqui – volto mais viajante que nunca.

Nesse site me descobri cronista e por aí dizem que o bom filho a casa torna. Pode parecer um pouco de exagero usar uma expressão assim. Com essas poucas palavras no começo desse escrito posso dar a entender que estou evocando aquela famosa parábola do Filho Pródigo, que andou pelos caminhos do mundo e depois, ao voltar tem direito a uma festa e um anel de ouro no dedo.

Não, nada disso! Quem está fazendo festa por conseguir parar e escrever algo que vem do coração, ao site que aceitou publicar textos que para muitos soam até como produções carregadas prolixidade, sou eu mesmo.

Alegria por discorrer sobre discriminação racial na blogosfera e ter a honra de também percorrer rotas rebeldes como quem está à margem dos cânones editoriais vigentes e pautados pela mídia tradicional. As escritoras e escritores da literatura afro-brasileira que leio sempre, até hoje não estão nos holofotes midiáticos. Denunciar o racismo estrutural tem seu preço, quem entra nessa tem de estar disposto a ser colocado no lado B.

Ainda bem, porque em alguns casos, e a história não me deixa mentir, os revolucionários aos poucos são esquecidos pela multidão e lembrado por alguns poucos que dão continuidade às transformações.


Tempestade de ideias sobre o que penso acerca de uma questão tão esquecida e ao mesmo tempo tão lembrada em nossa sociedade – o racismo. Qual é o papel de cada cidadão para combater esse atraso que é prejudicial à todos, não apenas aos negros? 


Um dia terei a oportunidade de ajudar a fazer com que muitos se orgulhem de ter descendentes africanos, talvez as escolas também possam fazer isso – teve que virar lei para que as pessoas, pelo menos grande parte delas dentro das escolas, começassem a se mobilizar. Mesmo assim, de certa forma, vejo que ainda tem muito trabalho a ser feito. Os livros de Maria Aparecida Bento cumprem este papel em minha vida, especialmente Cidadania em Preto e Branco. Todo mundo deveria ler este livro, sinto orgulho de saber de onde vim. 

A resolução adotada pelo Conselho Nacional de Educação em 22 de março de 2004, um ano depois de o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter promulgado a Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino da História da África na Educação Básica, diz: O sucesso das políticas públicas do Estado brasileiro, institucionais e pedagógicas, visando reparações, reconhecimento e valorização da identidade, da cultura e da história dos negros brasileiros, depende necessariamente de condições (…) favoráveis para o ensino e para as aprendizagens; em outras palavras, todos os alunos negros e não negros, bem como os seus professores, precisam sentir-se valorizados e apoiados. Depende também, de maneira decisiva, da reeducação das relações entre negros e brancos, o que aqui estamos designando como relações étnico-raciais. Depende, ainda, de trabalho conjunto, (…) visto que as mudanças éticas, culturais, pedagógicas e políticas nessas relações não se limitam à escolaDiretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.