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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

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Empresas continuam com as mesmas práticas segregacionistas, herança do regime escravocrata. O que muitas delas não sabem é que o público mudou, a geração de hoje, ao contrário daquilo que é divulgado, não aceita qualquer coisa como verdade estabelecida. A prova disso é como injustiças estão sendo divulgadas em redes e mídias sociais. Se as empresas não valorizarem e acolherem a diversidade, ficarão para trás nessa lógica de mercado que elas tanto defendem

Questões formais são observadas nas escolas de educação básica e nos templos universitários. Elas têm sua importância e não nego. Digo ainda mais, são primordiais. Mas elas não devem, sobretudo, ultrapassar o bom senso de observar, com muito cuidado, que o ser humano é muito mais que as regras estabelecidas.

Notas de provas não definem quem o aluno é realmente. A não presença em alguns momentos deve-se, logicamente, provocar professores em tentar perceber quais são os motivos da falta de constância nas atividades. Seria apenas a definição simplista que acusa o outro de pura falta de interesse a solução? Ou dá pra ir mais a fundo?

Instituições maduras questionam-se sempre, regras são fundamentais para produção de ordem [1] e sentido das coisas. Só não podem, de modo algum, sobrepor o que pode nos instigar a ver o outro como legitimo outro, sabendo que esse outro pode estar vivendo uma fase única da vida e que essa fase pode ser interrompida, ou mesmo adiada, por uma leitura equivocada de alguém que representa uma espécie de autoridade [2]. Mais que regras, as pessoas precisam saber de princípios. Mais que imposições, na sociedade atual, também chamada de era da informação, é mais que necessário o entendimento de que o mundo está mudando e muito rápido e, com isso, a forma que as pessoas, sobretudo os jovens, decodificam as informações.

Não é raro, por exemplo, instituições, sem duvidar logicamente da seriedade delas, errar em suas metodologias, mesmo que sejam pensadas por profissionais muito competentes.

Algumas reações nas quebradas. A periferia ainda pulsa, apesar do clamor de Ndee Naldinho que fala da tristeza nos extremos da cidade ainda fazer sentido nos dias atuais. Mesmo assim, continuo acreditando que realmente a bússola aponta para os lugares que antes eram desacreditados e agora os saraus acontecem aos montes 

Voltei, ainda falando a favor da periferia e tentando quebrar alguns paradigmas. Ainda sensível ao ouvir alguns sons da antiga. Consciência HumanaLembranças. Nem dá para dizer que não tem outras músicas, mas paro na de Ndee de Naldinho, Povo da Periferia.

“É tanta gente triste nessa cidade. É tanta desigualdade, desse outro lado da cidade. Mas eu tenho fé, eu tenho fé eu acredito em Deus. Olhai, por esses filhos teus…”. Anunciava o cantor ao buscar da lembrança aquilo que via todos os dias. Emocionado, porém realista. Com um clamor que se traduzirá ao longo do tempo em um despertar periférico, anunciado em 1997 por Mano Brown dizendo que “a profecia se fez como o previsto”. Sim, nos becos, vielas, quebradas em que os meninos na madrugada não dormem, o sol ainda vai brilhar. Sentimento que ainda está no coração de centenas de jovens que realizam mobilizações sociais de deixar muita gente de cabelo em pé. Um exemplo foi um lugar no Jardim Miriam – que ainda não visitei, mas me chegou a notícia – que deixou de ser um posto policial para ser um polo cultural.

Existe os que não estão fazendo muitas coisas na prática. Só que já incomodam por estarem na adolescência entoando o coro de que não existe amor em São Paulo.

Não só os que moram na beira dos córregos, em que as casas ainda são de pau ou de alvenaria. Do outro lado da cidade tem outros que tem boa comida na mesa, acordam pela manhã para ir para as escolas que ensinam a manter o domínio, gastam muita grana em cervejas importadas, acompanhadas de cocaína ou das balinhas do amor. Podem viajar para os cantos dos colonizadores, mas, mesmo assim, ainda se deixam levar pelo encanto das músicas que falam da realidade, quase nada tem de ilusão.

Mesmo com várias discrepâncias, defendo que aconteçam encontros respeitosos entre a periferia e o centro. Um tem a acrescentar ao outro. Desde que os interesses egoístas não sejam maiores que a causa que São Paulo e o Brasil tanto necessitam. Quem pensar um pouco, apenas alguns minutos, verá que é emergente. Cada anúncio de revolução é abafado pelo amplo repertório do sistema que nos detém.

  Em um escrito qualquer de Rubem Alves, dentro do livro que carrega o título de Transparências da Eternidade, aparece a afirmação do quanto nas instituições religiosas - tanto evangélicas quanto católicas - os artistas deveriam ter mais voz. Voz essa que não se assemelha com os exageros do...

Mais uma bela página na história da periferia paulistana. Sinal que ela continua emanando suas riquezas, belezas e seu lado mais contestador acerca da realidade social que insiste em atravessar gerações em São Paulo e no Brasil

Publicado em Outras Palavras

A primeira vez que me deparei com o documentário Linhas Periféricas, realizado por estudantes da Universidade Metodista, foi no blog de Jéssica Balbino. Em seu breve post ela diz “nada saber sobre o documentário” e esboça emoção ao dizer que viu um de seus livros no fundo da tela, “ao lado de outros volumes da coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano”, quando Heloísa Buarque de Hollanda, coordenadora da Universidade das Quebradas, aparece dizendo que vasto número de acadêmicos não consideram a literatura da margem como literatura: é classificada por muitos como um fenômeno sociológico que com certeza vai passar. Como se fosse alguém em surto que, ao certo, depois de voltar à realidade, apenas torce para que não tenha afetado nenhum mecanismo do funcionamento cerebral.

A aparente timidez de Jéssica para no registro feito em seu blog — em novo texto no site Rap Nacional, mais informações são disponibilizadas. Aliás, quem sou eu para dizer que uma das escritoras de maior relevância no cenário chamado marginal é tímida em suas palavras? Na verdade, ainda bem que posso me corrigir a tempo, ela em seu primeiro texto quis apenas dar ressonância a voz “dos poetas, ao microfone, declamando sua revolta, indignação, o seu amor, a sua cor e, como não poderia deixar de ser, a sua dor”. Isso tudo abunda no registro de vinte e cinco minutos que percorre três bairros periféricos da cidade de São Paulo.

O vídeo documentário começa com a imagem do metrô que chega quase ao extremo sul da capital, em um dia qualquer com um pouco de sol e, logo após, um menino negro correndo em becos, escadas inacabadas, ruas ainda de terra, com o famoso chinelo de dedo desgastado, um livro de Ferréz nas mãos. A capa é inconfundível: Capão Pecado. 

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

Publicado em Outras Palavras

Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

Na boca de gente que despreza ou não entende a luta dos movimentos negros no Brasil, racismo virou complexo de inferioridade. Não é raro ouvir acusações dizendo que os negros se colocam sempre em um lugar de inferioridade, ou que quando reivindicam algo cometem o famoso racismo às avessas:

Compreendo amigo que o Brasil é um país racista, mas vocês estão sendo mais racistas ainda quando falam da discriminação. Parem de ser racistas ao contrário, ouvi um dia em uma conversa de dois jovens num ônibus.

Em outro momento, nem faz tanto tempo assim, concentrado em minhas leituras no Centro Cultural São Paulo, ouço o diálogo:

Nossa, você viu aquela menina da nossa sala? Só foi o professor falar de cotas na universidade, mesmo todos se mostrando contra, ela se levantou e falou que era a favor e que essa é uma importante medida não apenas para sanar a dívida que o Brasil tem com os negros, mas, também, para dar condições de igualdade de oportunidades. Como ser igual tratando os outros com diferença? Ai amiga, faz tempo que venho observando ela e tenho nojo desse racismo que está sendo promovido por quem diz participar desse tal Movimento Negro.

– Concordo, acho que ela nem está preparada para entender o que é universidade. Com essa mentalidade nem compreendo como ela chegou até o ensino superior. 

– Cotas né amiga! Ela com certeza tirou a vaga de alguém mais capaz.

 – Verdade, o mais sensato a fazer é ignorar. Quanto mais você fala pior fica, ela tem argumento pra tudo.