q

Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Blog

Várias facetas do sistema manifestam-se para te manipular. Colocam a culpa em você enquanto os réus verdadeiros estão ilesos. Mesmo assim, divulgo algo que não é culpa apenas de pessoas comuns, algo anterior fala mais alto. Acidentes com extrema gravidade tiram vidas desse mundo. Famílias choram...

Não joga pérolas aos porcos irmão, joga lavagem, eles prefere assim, se tem de usar pioiagem! Cristo que morreu por milhões, mas só andou com apenas doze, e um fraquejou...

Mas qualquer que fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se submergisse na profundeza do mar.
Mateus 18:6

Em 2006, em uma das tardes da semana. Provavelmente quinta ou sexta, minha memória não é tão precisa quanto ao dia, mas o acontecimento está grudado no coração, na alma, em minhas lembranças fidedignas, nunca vai se apagar.

***

Por motivos óbvios crio um pseudônimo de Cauê para o adolescente de apenas 12 anos de idade, mas que tinha aparência física de nove anos de idade. Tudo isso em decorrência dos abandonos, traduzidos com todas as letras em violência exacerbada, que sofreu ao longo de sua prematura vida.

Tempo ainda curto. História densa. Com apenas seis anos de idade experimentou droga química, iniciado pelo próprio pai. Depois disso, o que revela em seus relatos consiste em desespero em fugir de chacinas e a tristeza das noites frias em calçadas sem nenhum cobertor para aliviar o medo.Idas sem volta no saquinho de cola, até a brisa acabar e a realidade voltar a bater na porta. Correria total quando os covardes de farda chegam sem nenhuma explicação, dando tiros em quem não pode se defender. Angústia em saber que a vida nas ruas é anônima, sem voz. Julgamentos aos montes de quem não sabe a completude das histórias. Dor ao extremo ao não saber se terá um amanhã qualquer.

Como educador não me achei merecedor de ouvir histórias escabrosas. Ao meu lado estava uma companheira de trabalho que sofria com os relatos, Ana Lúcia. Não dava para dizer que não. O menino cismou comigo, chorou ao dizer que nas semanas que estava naquele abrigo ainda não tinha entendido por qual motivo não havia ido de encontro ao que o seu corpo mais ansiava, um cachimbo cheio da brisa que dura apenas alguns segundos. Depois disso – apesar de saber que o maior problema não é esse, e que o ciclo não começa em uma tragada apenas – o poço é sem fundo, ainda mais para quem tem apenas essa alternativa.

Não vou embora tio Jean, apenas quando não aguentar mais. Encontrei um lugar em que alguém me cobre antes de dormir. Tem aqui tios e tias (educadores e educadoras), que procuram brinquedos comigo e contam histórias. Quero falar da minha vida pra você. Sempre que falo fico mais leve. (Cauê, 12 anos de idade)

E às vezes tudo transbordava de ódio, e em quem ele resolvesse descontar sua dor acumulada deveria entender que não era nada pessoal. Não raro eram os dias em que nosso amigo chorava com toda força e a abstinência não tinha prazo estabelecido para ir embora. Triste, real, doloroso, parte da realidade de centenas de crianças que dormem ao relento enquanto alguns que exploram a imagem deles, ou os egoístas simplesmente, jogam do lado do sistema que mais mata.

Qual o lugar do escritor? Vemos aqui registros de espaços físicos e psicológicos, que certamente os ultrapassam. Qual é o lugar do escritor? Em todos os lugares. Assim como o lugar da fotografia. Ela está em toda parte, em eterna busca; ela cerca e acompanha o seu objeto de desejo, e de perpetuação.

Apresentação do livro O lugar do escritor

O lugar do escritor se confunde facilmente com o lugar de qualquer outro tipo de artista. A obra é de Eder Chiodetto, que carrega o título de O lugar do escritor, se diversifica. Fotos carregadas de simbolismo, demonstrando os mistérios literários de maneira direta, alternando com textos curtos, jornalísticos. Trazendo apenas o básico, mas não deixa em nada a desejar. Consiste em um material para quem aprecia o novo. Alguns trechos dele em muito se parece com as definições que dei quando escrevi uma crônica para cronistas.

João Ubaldo Ribeiro

 

O material relata parte da vivência de escritores brasileiros que moram por aqui ou em qualquer outra parte do mundo. Demonstra o quanto diferentes linguagens artísticas se cruzam. Às vezes até revezam, como é o exemplo de Ferreira Gullar, que quando não encontra inspiração para grafar as palavras, desenha com desenvoltura, colocando o que está transbordando na alma em alguma tela ou, no caso dos poemas, em papel.

Ao longo de cinco anos, o fotógrafo Eder Chiodetto visitou 36 escritores brasileiros; de Adélia Prado a João Cabral de Melo Neto, de Haroldo de Campos a Lygia Fagundes Telles, de Ariano Suassuna a Paulo Lins. Além de colher seus depoimentos, captou detalhes dos ambientes de trabalho, penetrou no território de suas bibliotecas e compôs um retrato sensível de cada um deles. O lugar do escritor é um painel fascinante que junta imagem e palavra, confissão e memória, diálogo e reportagem. (Editora Cosac Naify)

Grande parte das entrevistas está recheada de incômodos – o boato de que quem escreve gosta apenas de se revelar através das letras, ou de qualquer outra forma de manifestação artística, traduziu-se como verdadeiro, pelo menos no contexto dessa publicação. No entanto, quem entrar em contato com o livro irá se surpreender com grande parte das revelações. Lamento ser esse projeto uma divulgação dos mais conhecidos, consagrados. Como em muitas iniciativas editoriais, o conteúdo mostra-se como um complemento do já conhecido, mas não revelado.

Sensibilidade, jogo sutil de imagens. Nada é dito? Pode parecer estranho, mas ando exercitando escutar o não dito, o não falado, aquilo que não é escrito. Ouça, muitas coisas estão sendo faladas, só que não através das palavras que somos habituados a decifrar. Nesse caminhar...