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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Blog

por Jean Mello, texto escrito para o site Viva Favela

Nas casinhas ainda inacabadas, em intermináveis reformas, tocam os despertadores. Às 4h da manhã, na região periférica de São Paulo, pais e mães de família pulam da cama para garantir o sustento, o pão de cada dia.

galo que canta é a necessidade de sair, sempre correndo, indo contra o tempo, sem parar para ver o sol nascer. O café da manhã difere bastante daquele servido nos hotéis em que os turistas são recebidos em nosso país.

Em muitos pontos de ônibus, barracas montadas vendendo café com leite, coxinhas fresquinhas, salgados de modo geral, chocolate quente, bolo de muitos sabores etc. Este trabalho é resultado do suor de famílias que dão um duro danado para dar “sustento” aos que também cedo madrugam e não têm tempo para alimentar-se direito. Claro, não poderia deixar de lado, de modo algum, sempre esses espaços estão lotados, gente pagando pouco e comendo bem, tudo quentinho, feito com muito cuidado e carinho.

Em muitos lugares não falta o que colocar na mesa, mas, o tempo é inimigo. Não raro é engolir o que é preparado rapidamente – e não mastigar direito – antes de encarar o busão, ou simplesmente o trânsito, escutando um som num confortável carro popular. Já que o crédito para tirar um seminovo, ou um ainda recém-saído da fábrica, está facilitado, dá pra pagar em até cinco anos, com a possibilidade de refinanciar, caso se enforque no caminho.

Pelo ecoar da voz de Zumbi nas quebradas, nas ruas de todo Brasil, nas terras em que comunidades quilombolas inteiras lutam para permanecer ou retomar.

É com esse espírito de luta que compartilho algumas ideias, sabendo que jovens não têm mais medo das ameaças aparelhadas do capitalismo, que nos atrasou durante toda história, conhecida ou abafada pela mídia ilusionista.

Nas redes e mídias sociais, sem a preocupação exacerbada de audiência, compartilhamos com o mundo as injustiças que ocorreram em todo Brasil. Cobrimos em tempo real o modo que moradores de Pinheirinho foram desabitados; mostramos em fotos, vídeos e textos, dos mais diversos, os jagunços encapuzados que até o momento querem apagar a balas a história do Quilombo Rio dos Macacos; pessoas de diversos pontos do planeta ocupando os centros financeiros, acampados, reivindicando uma real democracia, não apenas representativa, mais que a simplesmente participativa, mas a que o poder esteja realmente nas mãos do povo.

Não paramos por aí, os anos estão correndo e os acontecimentos se multiplicando. A mídia tradicional já não tem argumentos para dizer que alienado está o povo. Os retratos em tempo real demonstram que vivo estamos. Não posso colocar no singular, as pessoas estão nas ruas não de brincadeira, com cartazes nas mãos e gritando com toda força o que está entalado na garganta há tempos.

Ouvi, não faz tanto tempo assim, que ter uma visão holística de qualquer fenômeno social é saber que os problemas estão interligados, relacionados, em cadeias. Recordo-me também que a mesma pessoa que isso comigo compartilhou, afirmou que mesmo com as discordâncias do cotidiano, seria inevitável que os movimentos sociais se unissem em alguma causa comum quando percebessem que divisões atrasam os avanços necessários. Sinceramente não sei se de modo permanente, quem sou eu para prever qualquer acontecimento histórico, ainda mais os que nesse momento acontecem, mas nas ruas as pessoas marcham, como queria Paulo Freire, que manifestou em sua última entrevista, em prol de um Brasil melhor, que olhe realmente para o povo.