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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Artigo

Mais uma bela página na história da periferia paulistana. Sinal que ela continua emanando suas riquezas, belezas e seu lado mais contestador acerca da realidade social que insiste em atravessar gerações em São Paulo e no Brasil

Publicado em Outras Palavras

A primeira vez que me deparei com o documentário Linhas Periféricas, realizado por estudantes da Universidade Metodista, foi no blog de Jéssica Balbino. Em seu breve post ela diz “nada saber sobre o documentário” e esboça emoção ao dizer que viu um de seus livros no fundo da tela, “ao lado de outros volumes da coleção Tramas Urbanas, da editora Aeroplano”, quando Heloísa Buarque de Hollanda, coordenadora da Universidade das Quebradas, aparece dizendo que vasto número de acadêmicos não consideram a literatura da margem como literatura: é classificada por muitos como um fenômeno sociológico que com certeza vai passar. Como se fosse alguém em surto que, ao certo, depois de voltar à realidade, apenas torce para que não tenha afetado nenhum mecanismo do funcionamento cerebral.

A aparente timidez de Jéssica para no registro feito em seu blog — em novo texto no site Rap Nacional, mais informações são disponibilizadas. Aliás, quem sou eu para dizer que uma das escritoras de maior relevância no cenário chamado marginal é tímida em suas palavras? Na verdade, ainda bem que posso me corrigir a tempo, ela em seu primeiro texto quis apenas dar ressonância a voz “dos poetas, ao microfone, declamando sua revolta, indignação, o seu amor, a sua cor e, como não poderia deixar de ser, a sua dor”. Isso tudo abunda no registro de vinte e cinco minutos que percorre três bairros periféricos da cidade de São Paulo.

O vídeo documentário começa com a imagem do metrô que chega quase ao extremo sul da capital, em um dia qualquer com um pouco de sol e, logo após, um menino negro correndo em becos, escadas inacabadas, ruas ainda de terra, com o famoso chinelo de dedo desgastado, um livro de Ferréz nas mãos. A capa é inconfundível: Capão Pecado. 

Numa entrevista em vídeo, antropólogo e professor congolês fala de sua longa atuação no Brasil, e sua caminhada como pesquisador e militante por um país livre do racismo

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Acadêmico, antropólogo, professor titular da Universidade de São Paulo, Kabengele não nega suas origens. Fala do complexo com simplicidade. Raramente o ouvi mencionar os doutores que orientou, os títulos internacionais que abundam em seu currículo ou a importância de sua presença e contribuição ao movimento negro.

Uma das entrevistas mais completas quanto ao pensamento e história de Kabengele Munanga – especialista em Antropologia Africana e primeiro antropólogo a ser formado na Universidade Oficial do Congo –  é a que anuncia que o racismo brasileiro é um crime perfeito. [o texto segue após o vídeo]

Na boca de gente que despreza ou não entende a luta dos movimentos negros no Brasil, racismo virou complexo de inferioridade. Não é raro ouvir acusações dizendo que os negros se colocam sempre em um lugar de inferioridade, ou que quando reivindicam algo cometem o famoso racismo às avessas:

Compreendo amigo que o Brasil é um país racista, mas vocês estão sendo mais racistas ainda quando falam da discriminação. Parem de ser racistas ao contrário, ouvi um dia em uma conversa de dois jovens num ônibus.

Em outro momento, nem faz tanto tempo assim, concentrado em minhas leituras no Centro Cultural São Paulo, ouço o diálogo:

Nossa, você viu aquela menina da nossa sala? Só foi o professor falar de cotas na universidade, mesmo todos se mostrando contra, ela se levantou e falou que era a favor e que essa é uma importante medida não apenas para sanar a dívida que o Brasil tem com os negros, mas, também, para dar condições de igualdade de oportunidades. Como ser igual tratando os outros com diferença? Ai amiga, faz tempo que venho observando ela e tenho nojo desse racismo que está sendo promovido por quem diz participar desse tal Movimento Negro.

– Concordo, acho que ela nem está preparada para entender o que é universidade. Com essa mentalidade nem compreendo como ela chegou até o ensino superior. 

– Cotas né amiga! Ela com certeza tirou a vaga de alguém mais capaz.

 – Verdade, o mais sensato a fazer é ignorar. Quanto mais você fala pior fica, ela tem argumento pra tudo.


Liberdade através da arte ajuda a aumentar o interesse dos educandos pelo ambiente escolar

 

O que envolve a educação em nosso país, em quase todos os contextos, deixa a desejar. O público da educação básica é tratado como se todos estivessem no mesmo pacote. Isso me leva a crer que a educação em grande instância é pensada a nível político e empresarial para que o Brasil esteja dentro dos padrões estabelecidos a nível internacional.

Para buscar respaldo de especialistas, como leitores muito gostam, digo que, na verdade, o que se deve mesmo acontecer é um esforço, quase que coletivo, para conversar olho no olho com educadores e educadoras, militantes dos mais diversos, ativistas e líderes comunitários que pensam e realizam na prática aquilo que conseguem ver na prática enquanto a mais pura realização do viés comunitário de solidarização cultural e educacional que o sistema educacional brasileiro tanto necessita.

O que está no padrão nem sempre pode ser classificado como boas práticas pedagógicas – é um dos cenários que envolvem estudantes, professores e outros entes da comunidade escolar, que muitas vezes não sabem ao certo quais são as decisões de mesas de bancada que influi no cotidiano escolar e da sociedade como um todo. Sentimento esse preservado por diversos especialistas que não ocupam os espaços ditados pela hegemonia que pensa e dita as regras da educação escolar no Brasil.

Cheiro de boa comida que vem da vizinhança, com requinte de amor pela família. Nem sei se quem está cozinhando é homem ou mulher, porque alguns poucos homens estão deixando de ser machistas e não mais pensam que quem tem de alimentá-los ou fazer qualquer outro serviço doméstico é a imagem que implantaram nele de mulher prendada e dedicada ao lar.

Infelizmente nem todos são assim. Gostam de pisar em quem disseram amar, juraram em algum lugar, mesmo que nos atos íntimos e nos recantos dos ouvidos.

Quem isso faz não sabe que comete um dos maiores males, compartilhar qualquer tipo de aspiração com a mulher que encontrou de maneira inusitada e, depois de um tempo do mágico encontro, jogou tudo por algum lugar. Jogou pela janela esperança!

O fundamentalismo cristão classifica como casamento apenas o que é realizado em seus altares. Não é diferente de outras legitimações de união que, na verdade, validam apenas o que está de acordo com suas padronizações. Não anulo a beleza de várias cerimônias religiosas na união de duas pessoas, porém, penso que os desígnios da real aliança ultrapassa um dia em que se foi anunciado ao público presente que duas pessoas vão morar juntas. E qualquer insinuação de que mesmo qualquer cerimônia em distintas religiões tem ligação sistemática – mesmo no ato premeditado da união de uma só carne – não pode soar como radicalismo.