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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Artigo

Nunca entendi os olhares acusatórios quando falo que sou adepto do bom rock. Palavras ainda mais duras me são ditas quando mostro que sou vocalista e compositor desse estilo musical.

Acredito que a maioria das pessoas não sabem que o rock é negro. Sim, com raiz de negritude, suas origens consistem no blues, talvez até remonte outras épocas, distintas formas, sem as distorções conhecidas, os longos e lisos cabelos de quem promove o som hoje em dia e, lógico, bem longe desse rótulo de rebeldia exacerbada que os artistas contemporâneos e os mais antigos se submeteram. O bom rock não é nada disso.

Pode ser que ele tenha alguma ligação com as brisas que estimulam a criatividade. Mas isso não dá o direito de dizer que ele está em sinergia completa com o uso de substância ilícitas ou lícitas. É, sobretudo, a derivação da dor de indivíduos que viam a realidade de forma diferente, ou sofriam preconceitos, discriminações ou investidas de racistas, que expressavam seus sentimentos através da arte. Escravizados que estavam a todo tempo mostrando que aquilo era uma condição imposta, e não a realidade que mereciam viver ou gostariam de estar.

Seres humanos como qualquer pessoa. Não eram santos, gostavam de algo qualquer que surgiu em uma plantação de algum país e sofreu as alterações humanas para, através da venda proibida, transformarem em alucinógenos. Sem contar a ‘cagibrina’, uma bebida ou outra, para combater o frio e a dor de perpetuar as mensagens pelas ruas. Pelo asfalto bem depois de “livrarem-se” da escravidão norte-americana. Artifícios para anestesiar a dor.

Meu universo quase particular… Um som difícil de explicar… Um vocalista jovem que se esforça pra alcançar o tom necessário em algum refrão que exige um pouco mais de fôlego.

Mesmo assim vejo beleza… Confesso que chorei, senti o Cristo que busco. Aquele que não  julga segundo os preceitos de intolerância de alguns templos evangélicos. Mesmo em meio aos erros mais graves. Ele nos olha, demonstrando um amor impossível de expressar.

Sentimento, não emoção. Aquilo que sinto na derme da pele, que me acompanha todos os dias. Nesses momentos tenho a certeza de que nem tudo está perdido.

Choro que é de alguma esperança que surge de mãos dadas com a liberdade.

Liberdade genuína que não está descrita em nenhum dicionário. É estranho defender a existência de alguma conceituação que não esteja enclausurada em alguma gaiola acadêmica, em um slide qualquer.

Chegou a hora… Algo que ninguém contava, ver algum som classificado como gospel dizer algo que transcende as barreiras de uma instituição qualquer. Quanto ao Fruto Sagrado, não é a primeira vez que diz.

Desde 2006 ouço essa banda. Já devo ter citado eles por aí, em alguma conversa informal, talvez em alguma frase ou vídeo divulgado em uma das redes que participo. Bem provável que em um dos meus artigos nesse site. Não quero que exija tanto assim dessa memória jovem. Tenho compartilhado tantas coisas pela blogosfera, a ponto de receber mensagens de críticas, sugestões ou qualquer outra coisa, de pessoas até de outros países, que hoje em dia, tem de ter algum esforço pra sistematizar o que está disponível nesse endereço.

http://vimeo.com/9313278 Pouco mais de quinze minutos de vídeo resgatando o que as quebradas de São Paulo falam há muito tempo, mesmo com inúmeras coisas tentando abafar seu lado mais contestador. Lógico que pode soar como um grito apaixonado: a favela pulsa! Dá a impressão de que...

Visões sobre artista que canta contra a acomodação e é capaz de participar de programas de grande audiência mantendo-se crítico, contundente e rebelde

Publicado em Outras Palavras

“Combatente não aceita. Comando de canalhas que a nós não respeita.
Excluído, iludido… Quem nasce na favela é visto como bandido! Rouba muito, magnata… Não vai para cadeia e usa terno e gravata. Causa e efeito… Só dever sem direito”. (MV Bill)

Raro nos dias atuais alguém conseguir desmistificar aspectos cruciais da situação que o Brasil vive, principalmente em pouco mais de cinco minutos. Nesse clipe lançado em abril de 2011, MV Bill incorporou questões extremamente relevantes para entendimento daquilo que realmente é o “País Tropical”.

Lógico que nada dá pra ver e dar um completo amém. Tampouco dizer que toda produção do cantor é tão madura quanto essa música.

Controvérsias à parte, conferir detalhes da obra que inspirou esse texto permite compreender melhor como se comporta um sistema cuja lógica inclui conservar as misérias e as desigualdades sociais. Também é um dos pedaços do quebra cabeça para montar o que muita gente espera que aconteça de vez por aqui: negros dizendo aquilo que apenas os negros viveram e ainda vivem.

Como diz o MV Bill, “a superação me emociona, mas a apatia dos irmãos me decepciona”. Para enfrentá-la, o artista volta a romper as fronteiras da pura crítica. Sua arte retoma e reinterpreta. 

Acontecimentos que já afligiram as periferias de todas as metrópoles brasileiras. Desde as investidas da polícia, como braço do poder para disseminar o medo, até a falta de oportunidade aos jovens, sobrando poucas alternativas para levar a vida à frente.

Com imagens que lembram um fanzine ou história em quadrinhos, o som vai ilustrando aquilo que vemos. Ou será que é a imagem que diz exatamente o que ouvimos?

Em alguns momentos, MV Bill foi acusado de sensacionalismo e apologia ao crime. Recentemente, negou as investidas de vários canais de comunicação, segundo os quais teria espancado a irmã pauladas. Disse em nota oficial que sua familiar sofre de problemas psicológicos e que jamais cometeria tal ato.

Bate de frente com o que diz combater. No programa do Faustão, vídeo que está quase batendo na casa de dois milhões de visualizações, canta com fervor as contradições da grande mídia. Em dado momento foi cortado ao vivo, mas já tinha dado vários minutos de recados contundentes.

Alguns se perguntam se um rapper deve aceitar esse tipo de convite. Ele e alguns outros optaram por ir e dizer o que pensam. Os mais tradicionais não querem nem chegar perto. Recentemente, Emicida concedeu uma entrevista ao SBT que teve boa repercussão — só que nem sempre é assim que funciona.