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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Uma professora que ainda luta! Sobra esperança? Gaiolas e asas…

Conheci uma professora [1] que via de perto a psicose exacerbada na periferia. Tentava salvar meninos e meninas em sala de aula, nos dias bons e ruins, mas não era raro receber as notícias de que um deles já não estava mais nesse mundo, e sim debaixo da terra. Ao acompanhar parte do cotidiano dela percebi que faz muito tempo que sacou a crueldade do sistema que nos corrói.

Sempre tentando fazer sua parte e, ao certo, errando e acertando. Emoção e exaustão ao máximo. Desespero que se transforma no grito que insiste para que os quase cinquenta alunos em sala de aula desligue o celular alto com as músicas de funk e prestem atenção na aula. Só que o isolamento dela não permite que ela mesma saiba que também deve prestar mais atenção neles para que possa dar continuidade ao que pretende fazer para desconstruir aquilo que sempre percebeu, mas não sabe combater. Se bem que ninguém consegue nada sozinho. Pena que apenas alguns poucos professores e professoras sabem disso.

São muitos os meninos e meninas que passam nessa vida que é real, poucos se dão conta. As informações sensacionalistas que não nos ajuda a aguçar nossa percepção de que parte exatamente nasce o problema – garanto que o resultado final é a pistola na mão, só que antes tem vasto ciclo de violência generalizada, tudo por aqui é mais que estranho.

Um fato marcante foi ter visto um de seus alunos se despedir um dia antes de morrer. Ela não entendeu aquela palavra, ele já sabia que o que tinha feito ao tráfico de drogas não tinha perdão. “Caguetou” um integrante do crime. O curioso é que já fazia um tempo razoável que ele nem pisava na escola. Voltou apenas para falar que sua professora o ensinou muitas coisas, e que só naquele momento havia se dado conta.

No dia seguinte, o mesmo jovem que queria voltar atrás, mais ou menos oito horas da noite, final de 2011, teve um encontro com a morte após receber oito tiros em várias partes do corpo. Nem teve chance de reação. Todos na vila sabiam que aquilo ia acontecer exatamente naquela noite, inclusive sua mãe, mas não tinha nenhum lugar para ir e nem como fugir desse tipo de destino que ainda é determinado por muitas leis periféricas. É, mas não apenas as leis das quebradas, os ricos também têm suas leis contra quem dá com a língua nos dentes ou mesmo detonam quem apenas ameaça ocupar um lugar de destaque nesse sistema que apenas não vê quem não quer ou quem tem medo de encarar essa dolorosa realidade.

Ela não desiste de tentar. Cansada por encarar uma carga horária de trabalho que começa às 07:00 horas da manhã e vai quase até às 23:00 horas, apenas nesse horário consegue sair de uma das escolas que trabalha. Ela sente que precisa fazer tudo que pode, vai à escola aos finais de semana. Troca ideia com todos que chegam perto, mas nem tudo consegue perceber ou fazer.

Sentimento de impotência perante a realidade não falta. O sistema opera de modo que quem está certo acaba terminando como errado. Ela e alguns poucos companheiros de trabalho são classificados como os que querem apenas se aparecer. Como se nenhuma realidade estivesse aí para ser transformada.

Rancor! Tenta se explicar e não consegue obter êxito. Vidas que se vão e ela tem a impressão de que nada consegue fazer. Quantos não são os que voam sozinhos? Parece impossível alçar novos voos em um lugar (escola) que engaiola não apenas alunos, mas também professores.

Quem está engaiolado incomoda em partes. Reclama apenas às vezes… Ruim é essa situação em que os que estão presos nem sabem, em muitos casos, que estão impedidos de qualquer coisa fazer. Como demonstrar? Quais mecanismos usar para quando essa dolorosa realidade chegar à tona a um indivíduo qualquer?

Não é de se admirar ver muitos desacreditados por acreditar que esses problemas realmente não têm solução. Até existe, o que falta é reconhecer que não sabemos por qual questão começar e que para traçar qualquer caminho não depende de um ou outro, mas de todos.



[1] Em agosto de 2011 ouvi algumas histórias de uma professora que faz questão de assumir suas aulas em uma comunidade periférica na Zona Sul de São Paulo. Já encontrou coisas em sua carreira que ninguém gostaria de enfrentar. Em 2009 foi até ameaçada de morte por alguns traficantes, “trabalho desafiador e autêntico, nem todos concordam, ainda mais quando o que você contribui para abrir os olhos da juventude”. Não desiste… “Algo me move a continuar, não sei que fim vai dar, apenas quero deixar uma marca melhor nesse mundo tão sofrido”.

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