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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Transparências da Eternidade

 

Em um escrito qualquer de Rubem Alves, dentro do livro que carrega o título de Transparências da Eternidade, aparece a afirmação do quanto nas instituições religiosas – tanto evangélicas quanto católicas – os artistas deveriam ter mais voz.

Voz essa que não se assemelha com os exageros do mundo gospel.

Voz essa que não é afinada pelos truques de computador dos inúmeros estúdios de música.

Voz essa que não serve para lotar um prédio em que é dito ser a morada de Deus e nem para defender qualquer ideologia.

Essas vozes já estão muito em voga em nossos dias e não necessitamos da proliferação de mais outras, amplificadas nas dezenas de canais de televisão e estações de rádio nas mãos dos evangélicos e católicos.

Ir além é fundamental e necessário. A arte dentro das igrejas está servindo para reforçar a situação nojenta em que muitos representantes de denominações estão metidos.

Brigas e mais brigas, em rede nacional, reforçando o pensamento presente no imaginário de que religião é sinônimo de guerras, intrigas, disputa por territórios, busca constante de se reforçar como representante de Deus na terra – exemplos que podem ser visto nos discursos mais inflamados nos grandes eventos religiosos e nos templos suntuosos de qualquer capital brasileira. Aliás, disputando a tapas o centro de São Paulo, cada pedaço dele, as denominações montam lugares de destaque para mostrar uma para a outra quem está no comando – São Paulo é apenas exemplo, você pode ver o proselitismo em outros lugares, grandes metrópoles ou cidades escondidas.

Não dá para pegar um fato isolado para construção desse texto. São tantos acontecimentos que o máximo que faço é lembrar dos principais para discorrer nessas ideias. Artistas precisam se valer da arte – assim como aconteceu em uma época em que o Brasil vivia sob rígido regime ditatorial – para provocar os sistemas que mais estão engolindo a riqueza e diversidade cultural que nos pertence, e que a todo tempo é sucateada e demonizada.

Cinemas tradicionais transformando-se em templos da intolerância.

Coletivos de teatro buscando recursos e sobrevivendo apenas pela garra e talento de quem compõe o grupo.

Danças sendo tratadas como adoração ao demônio, enquanto grupos evangélicos são vistos – dentro dos templos da intolerância – como angelicais.

Grupos musicais de conteúdo válido para abrir os olhos de muita gente estão sendo jogados para escanteio em troca das vazias e desafinadas músicas do meio gospel.

Escritores que de alguma forma falam contra sistemas montados com teores fundamentais de crueldade, são tratados como profetas do mal. Quem pensa, sabendo que pensar não é pecado, em templos do medo, da culpa e das negações humanas, é visto como ameaça. Quem dirá então, quem, na verdade, cria coisas que fomenta a beleza do pensar?

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