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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

O que direi aos meus filhos?

Como direi para meus filhos, que ainda nem nasceram, mas com certeza serão negros, porque sou descendente de africanos, que eles serão discriminados por conta da sua cor de pele e origem étnica, marcada historicamente como inferior e inculta – a história chamada oficial diz suas mentiras, apesar de outras interpretações históricas existirem, mas não são divulgadas por pessoas que teriam formas de fazer isso de um modo que a maioria da população mundial tivesse acesso.

Quais palavras usarei para explicar a existência de tamanha calamidade? Desde já reflito sobre isso e tenho vontade de chorar e gritar.

Em minha modesta avaliação, isso não é sofrer por antecipação, é apenas tratar a realidade como ela deve ser tratada. Pessimismo? Creio que não, porque, por mais que eu queira ver uma realidade de um modo mais justo, e outras muitas pessoas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo também queiram, o racismo ainda vai demorar muito tempo para ser superado, sinto na pele e é bem provável que as futuras gerações também o sintam. A diferença é que terão mais mecanismos para se defenderem deste câncer.

Porém, é triste afirmar, que da mesma forma que terão mais alicerce para tratar com mais astúcia este mal, também terão de enfrentar modos mais sofisticados de discriminação racial. Pois para mim, quanto mais a tecnologia avança, ainda mais cruel se torna a atuação dos racistas. Quando digo isso não quero afirmar que a culpa é do desenvolvimento científico e dos recursos tecnológicos. A questão é quem detém o poder para usar estas ferramentas. Já parou para pensar nisso?

A globalização –fenômeno que tenho olhado com muita cautela- mostra-se como algo que chamo de globocolonização. É apenas um modo mais sutil de proliferar formas de dominação. Creio que ultrapassamos a era capitalista e estamos vivendo algo ainda mais tenebroso, o imperialismo.

Muitos podem pensar que estou desmerecendo as conquistas realizadas até hoje que vai contra este modelo de expansão, que na verdade é dominação disfarçada. Não quero que você, caro leitor, se engane, pois não é isto que quero dizer.

Não dá para negar que muitos foram os avanços. Grande parte da realidade brasileira, com relação à falta de igualdade de oportunidades para brancos e negros, mudou. A insistência em olhar para educação infantil, básica e para o ensino superior, fez com que mais negros, principalmente, vissem com qualidade, a forma como foram e são tratados pela política segregacionista implantada no Brasil de forma velada, mas ao mesmo tempo descarada em seus resultados com relação à desigualdade social, que para mim pode ser caracterizada como desigualdade racial e étnica. Além disso, as futuras gerações vão colher frutos destas realizações.

O mais triste é saber que no Brasil tem muitos homens e mulheres que lutam pela liberdade com a mesma garra, ou até mais apurada, de Nelson Mandela. Mas tem suas ideias e ações descaracterizadas por grupos que não tem nenhum interesse em ver negros libertos do racismo através destas contribuições. Agora, do jeito que as coisas vão indo, sinceramente, não precisa ser um especialista assim para perceber que se não adotarmos políticas eficazes para o combate ao racismo, nós e as futuras gerações continuaremos sofrendo com a falta de liberdade em desfrutar mínimas condições de dignidade humana.

Um Brasil mais justo depende, quase que exclusivamente, dos próximos governos, as pequenas e grandes empresas, os meios de comunicação, a sociedade civil organizada, os movimentos sociais, etc., ouvirem a voz do Movimento Negro, para saber ao menos, claro que na prática e não apenas na teoria, a grande contribuição que o ecoar da voz negra pode dar ao povo brasileiro. Quero salientar, acima de tudo, que esta voz nasceu na África e não na Europa, como estamos acostumados a aceitar sem pensar.

Para saber melhor como direi aos meus filhos o que é racismo, fui ler um livro do cantor e compositor Nei Lopes. O nome da obra de arte é sugestivo, O racismo explicado aos meus filhos. Já teve a oportunidade de ler este que é um dos melhores livros, relacionado à trajetória do povo negro rumo à redenção?

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