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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Racismo e Sexismo na Mídia: uma questão ainda em pauta

É necessário tratar a discriminação perpetuada pela velha mídia. Muitas pessoas já estão questionando há algum tempo esse modelo de comunicação hegemônico

Entre os dias 29 de novembro e 1º de dezembro, foi realizada a oitava edição do seminário A Mulher e Mídia — Racismo e Sexismo na Mídia: uma questão ainda em pauta. Sua programação contou diversas discussões que ainda deixam as pessoas, de um modo geral, sem tantas possibilidades de intervenção, apesar de ser, sempre, com relação ao direito à comunicação e o racismo e sexismo, assuntos polêmicos.

Antes de falar de coisas mais formais, quais foram as instituições organizadoras, por exemplo, digo que apesar de trabalharem com algo diretamente ligado à comunicação, o seminário não contou com formas de divulgação em tempo real, como conexão à internet para os participantes, algo que seria fundamental para disseminar para mais pessoas o que estava sendo tratado. Se assim fosse, os conteúdos poderiam ser postados nas redes sociais com o link da transmissão ao vivo que estava sendo feita.

Realizado pelo Instituto Patrícia Galvão, Secretaria de Políticas para as Mulheres, Secretaria de Promoção de Políticas da Igualdade Racial, Fundação Ford e ONU Mulheres, com apoio do BNDS. Como um todo o processo contou com mais ou menos cento e quarenta participantes selecionadas (os) de 25 estados.

O evento aconteceu no auditório do BNDS, centro da cidade maravilhosa, abordando diversos temas que contribuíram para desmistificação das diversas formas de discriminação disseminadas pelos canais de televisão.

Coordenada pela jornalista Valdice Gomes (coordenadora geral da Conajira/Fenaj), a mesa intitulada como Há uma cultura de negação do racismo e do sexismo na imprensa?, contou, também, com a presença de Iriny Lopes (ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres), Luiza Bairros (ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e Dennis de Oliveira (jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo). O debate, pelo menos para iniciar uma série de perguntas dos participantes e para sintetizar as questões mais importantes em cada fala, ficou por conta de Liv Sovik (professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Síntese de um importante debate

Subjugadas e marginalizadas… Para a ministra Luiza Barros é esse o lugar que as mulheres negras ocupam no universo midiático e em outros espaços sociais. “As mulheres negras além de serem as que mais sofrem na luta por direitos, são as que vivem perdendo seus filhos exterminados pela violência”. Não é novidade pra ninguém que na escala social hierarquizada do poderio econômico, as mulheres negras são as que menos encontram um “lugar ao sol”.

Sua fala vem, também, acompanhada de outras produções dela mesma enquanto pessoa pública e intelectual respeitada. No dia da Consciência Negra, 20 de novembro, seu discurso em rede nacional permeou o que no Brasil há muito tempo se sabe, que 71% das pessoas que vivem em condições de pobreza são negras. Infelizmente por aqui a pobreza tem cor.

Num contraponto, mesmo assim, é nesse tempo que começa aparecer alguns avanços significativos que envolve a população negra. No centro de seu pronunciamento, colocou que o reconhecimento do governo brasileiro, representado, nessa ocasião, pela presidenta Dilma Roussef,  de que o dia da Consciência Negra é agora uma data oficial no calendário nacional, se dá como algo importante para fortalecimento e legitimação das ações engendradas pelos movimentos negros no Brasil ao longo da história.

Ressaltando a invisibilidade da população negra na mídia, o professor Dennis de Oliveira inicia sua exposição. Defende que esse um é dos mecanismos do racismo estrutural que legitima, o tempo todo, as desigualdades em relação aos negros brasileiros. Afirma veementemente que “os componentes socioeconômicos e ideológicos trilham um círculo vicioso construído historicamente, e que precisamos romper com estes entraves para avançar democraticamente”.

De maneira ainda mais abrangente a ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, salientou os exageros da negativação da imagem feminina retratada pela mídia e defendeu a criação de alguns marcos que possam regular os abusos em novelas, programas de calouros, espaços que apenas exploram o corpo da mulher e dão ao público uma imagem pejorativa da mulher brasileira. Não se trata de ter uma visão moralista das coisas. Apenas tenta ser um divisor de águas na tentativa de barrar na fonte de qualquer tipo de exploração midiática. “Nós não estamos falando de censura, nem de controle, nós estamos falando de responsabilidades”, é o que coloca a ministra.

Aprofundar discussões como essas é mais que importante. Não anulo a alternativa de questionar a grande mídia e tentar mudar alguns padrões discriminatórios presentes em seus programas. Mas, para cada vez mais conseguir pautar para as pessoas uma diversidade crítica de assuntos, destaco o caminho da promoção de uma comunicação que seja comunitária. Constituir o direito à comunicação como prática politizada, em que qualquer um possa através da internet, rádios comunitárias, jornais que não são os que todos estamos acostumados a ler, torna-se uma das opções para exercer uma democracia comunicativa em que todos possam dizer o que pensam, produzindo não apenas críticas, mas novos conteúdos, invocações que demonstrem que outras possibilidades e visões de mundo também são acompanhadas pelas pessoas.

Além disso, é preciso que, em todo tempo, quando cada pessoa for falar de racismo, não caia no constante erro de colocar no mesmo patamar da universalidade das desigualdades sociais, as quais devem ser, sem nem pestanejar em abordar, seu devido destaque. Mas, tratar como um assunto qualquer é igual a esquecer que no Brasil as diferenças étnicas são muitas vezes predominantes, determinantes, para dizer quem é pobre ou rico, bem como para negativar a imagem de quem encontra-se em sua grande maioria morando nas favelas urbanas.

Programação do Seminário

29/11 – Mesa de Abertura: Racismo e sexismo na mídia: uma questão ainda em pauta

30/11 – Mesa 1Há uma cultura de negação do racismo e do sexismo na imprensa?

30/11 – Mesa 2: Regulação democrática, direito à igualdade e respeito à diversidade de gênero e raça

1º/12 – Mesa 3: Raça e gênero na publicidade: onde estão os limites éticos?

1º/12 – Mesa 4: Racismo: a imprensa nega, a TV prega?

 

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