q

Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Jéssica Gonçalves em prol da cultura afro-brasileira…

Nessa oportunidade entrevisto Jéssica Gonçalves, estudante de Comunicação e Multimeios na PUC de São Paulo, editora e uma das idealizadoras do Baoobaa, site que tem contribuído pra que muitas pessoas ampliem o olhar acerca da cultura afro-brasileira, que mesmo com todos os avanços, inclusive na própria legislação, ainda não é lembrada e valorizada no Brasil. Sim, deixo um pouco de lado a imparcialidade e coloco um pouco do meu olhar sobre a questão. Até porque faço parte desse projeto – como cronista do site – que e a Jéssica tem tocado, junto com Rodrigo Kenan. Mas, minha opinião toma apenas essa pequena parte do documento. Esse espaço, como àqueles que acompanham minhas postagens sabem, não é meu, mas do entrevistado. Nesse caso, trazendo a tona a valorização da questão de gênero, que em sua história cruza com as questões étnicas, digo que está aberto esse canal de comunicação para a minha entrevistada.

Jean Mello – Fale um pouco de sua trajetória pessoal… Incluindo sua própria caminhada, como é que nasce o Baoobaa? Ou seja, além de um acontecimento pontual, que possa ter desencadeado o nascimento do projeto, algo que realmente quero que você aborde aqui, têm outras questões que você também leva em conta?

Jéssica Gonçalves – A minha trajetória começou quando nasci, numa família negra de classe média da cidade de São Paulo. Porém, como tudo se transforma e ganha novos contornos, a minha família também se modificou. Nossa condição social decaiu e cresci, com uma ótima educação, mas me deparando com algumas dificuldades para alcançar o que eu almejava.

Mas como uma boa brasileira, aprendi a não desistir nunca dos meus objetivos. Foi assim que entrei, em 2010, na Universidade. A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – uma das melhores universidades privadas do estado. Tenho orgulho de dizer isso e acentuar que eu venci uma etapa, mesmo sabendo das dificuldades que eu iria encontrar pela frente, como a alta mensalidade, por exemplo.

Dentro da sala de aula, um choque: eu sou a única negra da minha turma! Foi aí que comecei a pensar no negro dentro das universidades. Comecei a me questionar, de fato, sobre inclusão/exclusão, preconceitos, racismos… E a ideia surgiu: o Baoobaa.

Jean – Nesse pouco tempo de existência, sabendo que o Baoobaa foi inaugurado exatamente no dia 20 de Novembro de 2010, quais foram os acontecimentos que te deram mais alegria? Mas, se quiser, também pode citar as dificuldades de tocar um projeto como esse…

Jéssica – Alegrias, sucessos, crises, foram muitas. Em menos de um ano conseguimos chegar a pessoas ilustres, como o retuíte do ator Lázaro Ramos e da poetisa Elisa Lucinda. Reconhecimento de Cias. De Teatro como Os Crespos e Capulanas. E, ainda, reconhecimento da Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta.

O desafio é conseguir uma linguagem que chegue a todos os públicos – não somente à população negra. Esse, na realidade é o nosso maior foco. Acreditamos que o país, como um todo, deve ser educado e informado sobre o povo que contribuiu em demasia, para sua formação.

Outro desafio é ganhar credibilidade. Geralmente, as pessoas desdenham os projetos pensados e concretizados por jovens, e mesmo hoje atuando num cenário totalmente virtual, ouvimos comentários debochados quando nos chamam de “os blogueiros”. Mas estamos aí pra superar… Sempre…

Jean – Muita gente não considera a importância de uma ação virtual. Porém, se esquecem de que muitas ações que vão para a Internet nascem no plano real e se potencializam, simplesmente por ficar disponível para pessoas do mundo inteiro. Agora, saindo um pouco da questão do virtual, o Baoobaa tem planos de fazer alguma coisa presencial? Pode falar das aspirações (sonhos), coisas que almeja e que pode já dar um gostinho para os leitores desse blog e mesmo do seu site…

Jéssica – A internet é a ferramenta atual. Sobre isso não resta dúvidas. Um fato interessante foi um comentário de um moçambicano em um de nossos textos. Ele estava em Portugal e nos encontrou. Isso proporcionou uma entrevista com ele, via e-mail.

Mas o sonho que temos em relação ao Baoobaa é a realização de nossa redação. Queremos ser mais do que um blog ou um site, mas uma organização que atua diretamente com nossa cultura. Queremos assinar nosso nome no virtual, no impresso; nas ilustrações lindas do Kenan, nos textos críticos do Jean, na literatura da Margareth; queremos ser referência, contribuir para o campo multimidiático. É isso que carece nas produções negras do país, e o Baoobaa só vai somar.

Jean – O que acha da lei 10.639/03 (lei que torna obrigatório o ensino da História da África na Educação Básica)? Pode falar da sua importância…

Jéssica – Sempre olho o lado pró e o contra da situação. Fico triste pelo fato de ser necessário criar uma lei para aprender conteúdos que são essenciais dentro de um país que tem sua formação criada também pela cultura afro. E fico receosa de como a história da África (suas culturas, tradições, religiões etc) serão abordadas e por quem. Teremos professores capacitados?

Por outro lado, fico entusiasmada em saber que a nova geração vai poder aprender na escola o que eu não aprendi: quem foram Mandela e Luther King, por exemplo.

A Lei entrou em vigor em 2003, porém, só neste ano de 2011 que estamos ouvindo discussões sobre o estudo nas instituições de ensino. Isso porque 2011 foi intitulado pela ONU o Ano dos Povos Afrodescendentes. São livros, eventos, fóruns de debates… Será que no próximo ano lembrarão dessa lei ou será apenas mais uma lei engavetada, do tipo que é perfeita no papel, mas não exercida?

Jean – Compartilhe com os leitores qual é o seu artigo que você mais gosta. Diga por quais motivos você tem enorme apreço por esse material…

Jéssica – Tenho adoração por todas as matérias que eu escrevi, devido à pesquisa que faço para entender, formar minha opinião sobre o assunto e passar para os leitores. Mas a que mais me marcou foi a “2011: Ano Internacional dos Povos Afrodescendentes”, assunto citado acima.

Tenho apreço por esse artigo pelo fato de começar conosco o ano de 2011. O Baoobaa foi criado no final de 2010 e ganhou força nesse ano – um tiro certeiro, o ano certo. E achei curioso um ano para se pensar na inclusão dos povos afrodescendentes, em criar políticas e iniciativas para promover nossa cultura. Enquanto escrevia, pensava “o que farão neste ano?” Por enquanto, vi várias iniciativas e espero continuar a ver ao longo dos anos e não apenas até 31 de dezembro de 2011.

Jean – Muitas coisas que são relacionadas à diversidade é tratada com desprezo e às vezes até mesmo como uma construção acadêmica que não deve ser levada em conta. Quais são os desafios que um site que tem como viés exatamente tratar a questão da diversidade enfrenta?

Jéssica – O maior desafio é: não deixar cair no clichê. Vemos vários sites tratarem da diversidade, tratarem do negro. Mas o Baoobaa se preocupa em como fazê-lo. Optamos por usar a linguagem da forma culta, não usar gírias que são sempre relacionadas ao povo preto, da periferia. Nosso foco é a população em geral e sabemos que os negros não estão somente nas periferias, não falam somente na gíria. Estamos em ascensão e é isso o que queremos mostrar.

Temos um diferencial até mesmo na construção do nosso layout: são ilustrações que têm identidade própria, são textos que se preocupam com o leitor e são acessíveis a todos, são conteúdos do mais crítico ao mais lúdico.

Um dia ouvi de um professor para eu me focar na música negra para ganhar mais acessos – o hip hop. Fiquei angustiada. Tive que dizer para ele que não somos somente o hip hop, somos também o teatro, o cinema, a dramaturgia, a política, a educação. Estamos em todos os lugares e o Baoobaa vai mostrar isso e não somente a balada Black que vai rolar nos finas de semana.

Esse é o tipo de desafio que tentamos constantemente ultrapassar.

Jean – Tem algo que não perguntei, que de modo algum tratei aqui, mas que você gostaria de abordar?

Jéssica – Quero falar um pouco a importância do Baoobaa como um grupo. Estamos na caminhada, todos nós trabalhamos, estudamos e, mesmo assim, aqueles que acreditam nesse projeto se dedicam e prestam um tempo seu para escrever um texto, fazer correções, criar layouts. Por isso, em meu nome e do Kenan, meu grande amigo, quero agradecer nossa equipe: Jean Mello, Bruna Sousa, Anderson Meneses e Margareth Cristina.

4 Comments
  • Olá Pessoal,

    Kenan, Jéssica e Jean, primeiro quero parabenizar o site como um todo e depois sobre esta entrevista, está muito boa!!!

    Abraço a todos e se precisar estamos por aí!!!

    Wagner Rodrigo

    Julho 11, 2011
  • Arrasaram, tenho tanto orgulho de jovens negros em movimento….
    Ficou ótima a matéria, deu para conhecer um pouco mais da Jéssica e do Baoobaa.

    Julho 11, 2011
  • Jocimara

    Parabéns, me encanto mais e mais á cada matéria lida, vocês mandam muito bem.

    Julho 12, 2011

Leave a Comment

Your email address will not be published.

*

CommentLuv badge

%d bloggers like this:
Read previous post:
Retratos da Alienação

Na falta de caminhada e até mesmo na incompreensão é que muitos estão situados, em não entender o mundo em...

Close