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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Esse dom (som) quase perfeito (um pouco de vinho tinto na Vila Madalena)…

 

Ouvi a música que vinha de longe. Os acordes da guitarra eram bem definidos.

A banda estava bem sincronizada. Um som quase perfeito, apenas não era completamente, por conta da minha imperfeição. Não posso dizer que não chorei ao ouvir que o som se aproximava, mas logo após, num piscar de olhos, sorri. Confesso: o som tinha o poder de alterar minhas emoções, era inenarrável. Podia sentir que estava sendo levado para um lugar que nunca tinha ouvido falar. Ou melhor, até já tinha, só que não acreditava que existisse. Imaginei que viesse apenas de meus sonhos, de minhas visões, porém era realidade.

Nossas escolas deveriam ter o poder de mexer com o estado de espírito dos jovens. Poderia ser importante para levá-los a refletir a noite ou durante o dia.

Sou a favor de professores que olham para o passado, que amam os clássicos da filosofia. Se bem trabalhada, as indagações levantadas há séculos atrás, podem favorecer no nascimento de frutos reflexivos, jovens mais críticos dentro e fora do ambiente escolar. Em minha modesta opinião, isso faria os jovens caírem no choro ou na gargalhada, ficar com raiva ou alegres a ponto de contagiar outras pessoas até mesmo dentro de casa, encontrar a felicidade.

Queria mesmo que as escolas olhassem para as diferentes civilizações com mais propriedade. Quem sabe assim eu mesmo passaria a amar as instituições escolares. Até falaria – para muitos jovens que conheço e que estão fora da escola -, que a escola é um espaço de prazer.

Muitos professores podem dizer: a escola não se propõe a isto que você está dizendo! Para mim o problema é justamente ela não se propor a isso…

São grades para todos os lados e portas trancadas para prender jovens que desejam alçar grandes voos na vida.

Uma pessoa que muito amo disse que odeia estudar, não quer mais estar dentro da sala de aula. Mas, ela adora cantar, sorrir, namorar, sair, ler letras de músicas, saber de histórias, conhecer lugares e pessoas, conversar sobre Deus e viver em liberdade. Quando pergunto a ela se ela gosta de alguma coisa que tem dentro da escola, sabe o que ela me responde? Adivinhe! Ela cita as amigas, os professores que conseguem dialogar sem gritar, a hora do intervalo, os passeios, os jogos e as artes. Tudo que envolve o respeito cativa a juventude. Jovens gostariam apenas de ver sentido no Ensino Médio. Porque será que ela gosta de tudo isso e não quer ver a escola nem que lhe pague?

Esses tempos uma professora me disse que antes ela acreditava mais na profissão dela e que hoje não sabe por qual motivo dá aula. Em seu primeiro estágio, ainda no tempo da universidade, alguns professores disseram para ela que aquele sorriso iria sumir de seu rosto com o tempo, que aquela voz mansa não iria permanecer e que com certeza à vontade e o romantismo em acreditar que poderia ensinar algo, ou ao menos compartilhar realidades dela, não iria durar o quanto ela achava que poderia. Hoje essa minha amiga professora assume que não consegue nem cativar a si mesmo. Também, estar em um lugar extremamente institucionalizado, em que muitos professores lutam apenas pela bonificação do estado e não pela educação dessa geração, que se desdobraria até mesmo nas próximas pessoas a virem para esse mundo, não deve ser nada motivador. Mesmo com todas essas coisas, nem penso em dizer nada contra os meus colegas professores, o sistema educacional foi montado mesmo para gerar frustrações.

Não a culpo… Sei que se ela tivesse oportunidade de vislumbrar diferentes experiências educacionais, as que são ousadas em trilhar o caminho em sintonia com o outro, sem medo de errar, simplesmente por sabermos que ninguém detém a verdade. Agora, o que é realmente comunitário tem mais chances de fazer sentido aos que estão em qualquer ambiente, seja ele chamado de pedagógico ou não.

Ainda ouço o som da música quase perfeita. É uma pena que minhas limitações não permitam que o som seja ainda mais agradável.

Sinto vontade de tomar uma taça de vinho. Sento-me num lugar agradável, na Vila Madalena, penso o quanto me daria alegria conversar com as pessoas que amo. Ficaria grato em mostrar para elas tudo que está fazendo com que eu veja o mundo com outros olhos.

Enquanto isso saboreio um vinho tinto suave, vindo de algum lugar do mundo, e fico esperando o cair da noite chegar.

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