q

Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Essa linda vida me espera (lembranças do Jardim Ester)

Nova história começa para não ter nenhuma chance de esquecer que o ruim é não ter nada pra contar.  Sobra-me a eterna busca para encontrar as palavras certas para descrever os sentimentos que passam por mim. Acho que não os percebo por completo. Talvez seja impossível descrevê-los com exatidão. São incompreensíveis, e ao mesmo tempo o que dá pra compreender não pode ser compartilhado com qualquer pessoa. São únicos para ficarem guardados como raridades. Aparecem e somem como as lágrimas que despontam em meus olhos nos dias de aflição. Baseia-se em verdades que criei com base em minhas transposições pautadas na desordem.

O pior foi que não fiquei longe de mim mesmo para não saber resumir o que se passa em minha incompletude. Nem pude guardar o tempo que queria ficar parado para dar margem para minhas ilusões que se tornariam realidade se eu fosse mais corajoso em tentar ganhar o mundo de um jeito só meu. Olha que as lágrimas nem se foram para ao menos ter um tempo para respirar e pensar no futuro que me espera. Fica na garganta a vontade de gritar uma palavra só até o fim dos meus dias. Falta ousadia para colocar em prática as coisas que já são parte de meu corpo, alma e espírito. Quem sabe poderia ter a chance de te olhar com ternura e te dar um beijo, com sinceridade e com um pedido de perdão. Meus olhos não ficariam mais molhados de dor. Minhas pernas caminhariam em direção a um caminho que apenas eu conheço. Minha vida passaria a existir um pouco além de meus sonhos. Abraçaria a pessoa que mais amo e falaria para ela, em palavras resumidas, o valor de sua existência. Seria mais simples se Deus me desse outra chance de mostrar que agora posso fazer tudo diferente. Poderia até olhar para o céu com os braços abertos e enxergar o que nunca pude ver. Acho que isso fica apenas comigo e com mais ninguém. Parece-me que sonho com coisas impossíveis de se viver num mundo como esse. Será mesmo que dá tempo de restaurar o que foi perdido?

Quando ando pelas ruas, principalmente em dias de chuva, vejo imagens que não acredito que existem. Não me iludo com elas, sei que são passageiras. Tampouco, acredito nas pessoas que são responsáveis pela produção de imagens ilusórias. Não vivo de imagens porque sou um personagem da vida real. 

As diferentes realidades, espalhadas pelas noites brasileiras, criam verdades que não existem na maioria das famílias deste grande país. É árdua a sobrevivência de jovens e idosos, crianças e adultos, que aprenderam que as imagens, que passam na telinha das novelas colossais, são inquestionáveis, são verdadeiras, porque é o que as pessoas acreditam, foi instituído como verdade, dá pra remar contra? Aprendi a ver que o Brasil está nas mãos de poucos, mas a maioria sofre por não ter uma fatia importante da repartição da renda.

Vejo tristes e lindas mansões, cercadas de seguranças. Enquanto do outro lado vejo crianças batendo no vidro dos carros, sempre com o rosto marcado.

Não digo nada novo, este é o problema. O que repito nestas linhas já é discurso antigo, que até meus leitores devem estar cansados de ouvir. Às vezes até mesmo àqueles que são responsáveis pela perpetuação da miséria que se agrava, nesta terra de poucos, fingem se preocupar, e acabam escrevendo ou relatando um pouco da obviedade que está diante de nossos olhos. Não entendo como não há uma solução para tantos problemas que afeta pessoas que ainda tem um fio de esperança no coração, uma chama viva de ressurreição.

De todas as maldades a pior é a indiferença. Pelo menos é o que eu acho. Meu Deus!

Queria ter a oportunidade de participar de uma mudança social. Seria pedir muito?

A maioria dos programas políticos servem apenas para alimentar ainda mais a mesa desta elite podre e hipócrita. Acho que meu pessimismo não é tão absurdo assim.

Mudando de assunto, apenas para demonstrar o princípio da percepção da realidade, pelo menos em minha vida… Só um adendo nessa história… Ainda penso em coisas do passado, lembro-me dos dias em que pisava em um bairro chamado Jardim Ester, perto do Carrãozinho, São Mateus, Zona Leste de São Paulo, com muita gente que já havia perdido qualquer tipo de esperança na vida e que me olhava nos olhos formando um só coro: Jean, essa vida não é para você… Outro caminho te espera!

1 Comment
  • Amei esse seu texto. E concordo com tudo que escreveu. Mas o que mais me chamou atenção foi: "Mudando de assunto, apenas para demonstrar o princípio the percepção the realidade, pelo menos em minha vida… Só um adendo nessa história… Ainda penso em coisas do passado, lembro-me dos dias em que pisava em um bairro chamado Jardim Ester, perto do Carrãozinho, São Mateus, Zona Leste de São Paulo, com muita gente que já havia perdido qualquer tipo de esperança na vida e que me olhava nos olhos formando um só coro: Jean, essa vida não é para você… Outro caminho te espera!"…
    Não sei o que você passou, mas tenho certeza que te fez remar contra maré, te deu uma objetivação no sentido de tomar novas posturas. Experiências quer sejam boas ou ruins, sempre são importantes. E como te disseram: "outro caminho te espera!"…. viva momentos significativos! Bjs, Vanessa Bentes Moreira.

    Abril 12, 2012

Leave a Comment

Your email address will not be published.

*

CommentLuv badge

%d bloggers like this:
Read previous post:
Fanáticos também têm paz (pela paz entre torcedores)

Por Germano Gonçalves (O Urbanista Concreto) Quando o meu time vai jogar eu fico paralisado com todas as atenções para...

Close