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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

Arnaldo Jabor engrossa ciranda da intolerância racial

Comentário do cineasta na Rádio CBN é mais uma expressão pública de discriminação contra os negros no Brasil

No dia 27 de outubro, o cineasta Arnaldo Jabor utilizou os microfones da Rádio CBN para emitir suas opiniões sobre a recente mudança de comando no Ministério dos Esportes. Seu comentário começou com a seguinte frase: “Amigos ouvintes, finalmente o Orlando Silva caiu do galho”, em referência à queda do ex-ministro após as denúncias de corrupção envolvendo seu mandato e seu partido, o PCdoB.

Uma frase assim precisa ser desmembrada para que as pessoas entendam seu nível de ofensa? Ainda teve gente que considerou um absurdo dizer que essa frase foi extremamente preconceituosa. Bem, todos temos o direito de manifestar nossas opiniões, mas nem todas podem ser classificadas como “liberdade de expressão” — porque nem sempre estão despidas de algum tipo de discriminação.

O que você aí que está lendo acha de um comentário como esse do Arnaldo Jabor? Não se trata de uma sutileza verbal nem de nada que esteja escondido nas entrelinhas. Foi dito e escrito com todas as letras — depois, a CBN mudou o título do comentário em seu site. Eu considero essa afirmação grave.

Será que estou exagerando? Ou será que foi quase o mesmo que chamar o Orlando Silva de macaco? Quem é que pode discordar? Não sou o primeiro a dizer algo a respeito. A frase de Arnaldo Jabor já causou algumas manifestações nas redes sociais.

A professora e deputada Maria do Rosário, atualmente ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República, utilizou o Twitter para classificar o comentário como inaceitável e repudiar “veementemente a declaração racista do jornalista Arnaldo Jabor sobre o ex-ministro Orlando Silva.”

No artigo “O Brasil é um país racista?”, publicado pelo portal Zwela Angola, Walter Hupsel cita Arnaldo Jabor como uma das pessoas que trabalha para que a população brasileira acredite que não existe racismo por aqui.

Já é hora de percebermos que estamos atrasados quando aceitamos esse tipo de declaração. “Nosso racismo é um crime perfeito”, disse o antropólogo da Universidade de São Paulo, Kabengele Munanga, que não nasceu no país, mas se deu conta da falsa democracia racial em que vivemos. Concordo com ele.

Em São Paulo, há poucos dias, ficamos estarrecidos com o muro de uma escola que amanheceu pichado com a frase: “Vamos cuidar do futuro das nossas crianças brancas”, afirmação que teve duas suásticas como aspas. Intolerância declarada em uma escola de educação infantil. Sarcasmo na frase de Arnaldo Jabor. A cada dia que passa é mais perceptível. Ainda dá pra duvidar que o nível de intolerância que vemos por aqui é intolerável?

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