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Jean Mello

Jornalista, especialista em Planejamento de Mídias Digitais (FGV) e Web Analytics (Google Academy).

A voz de Zumbi ainda ecoa

Pelo ecoar da voz de Zumbi nas quebradas, nas ruas de todo Brasil, nas terras em que comunidades quilombolas inteiras lutam para permanecer ou retomar.

É com esse espírito de luta que compartilho algumas ideias, sabendo que jovens não têm mais medo das ameaças aparelhadas do capitalismo, que nos atrasou durante toda história, conhecida ou abafada pela mídia ilusionista.

Nas redes e mídias sociais, sem a preocupação exacerbada de audiência, compartilhamos com o mundo as injustiças que ocorreram em todo Brasil. Cobrimos em tempo real o modo que moradores de Pinheirinho foram desabitados; mostramos em fotos, vídeos e textos, dos mais diversos, os jagunços encapuzados que até o momento querem apagar a balas a história do Quilombo Rio dos Macacos; pessoas de diversos pontos do planeta ocupando os centros financeiros, acampados, reivindicando uma real democracia, não apenas representativa, mais que a simplesmente participativa, mas a que o poder esteja realmente nas mãos do povo.

Não paramos por aí, os anos estão correndo e os acontecimentos se multiplicando. A mídia tradicional já não tem argumentos para dizer que alienado está o povo. Os retratos em tempo real demonstram que vivo estamos. Não posso colocar no singular, as pessoas estão nas ruas não de brincadeira, com cartazes nas mãos e gritando com toda força o que está entalado na garganta há tempos.

Ouvi, não faz tanto tempo assim, que ter uma visão holística de qualquer fenômeno social é saber que os problemas estão interligados, relacionados, em cadeias. Recordo-me também que a mesma pessoa que isso comigo compartilhou, afirmou que mesmo com as discordâncias do cotidiano, seria inevitável que os movimentos sociais se unissem em alguma causa comum quando percebessem que divisões atrasam os avanços necessários. Sinceramente não sei se de modo permanente, quem sou eu para prever qualquer acontecimento histórico, ainda mais os que nesse momento acontecem, mas nas ruas as pessoas marcham, como queria Paulo Freire, que manifestou em sua última entrevista, em prol de um Brasil melhor, que olhe realmente para o povo.

Tropicália de nosso tempo, vidas em busca de um mundo melhor. Nesse clima, sem tirar os olhos dos objetivos históricos das comunidades quilombolas, remanescentes de quilombos, é que faço uma chamada especial.

Muito comum para enfraquecer os movimentos sociais é a fragmentação das causas, que o capitalismo alimenta, para que cada um “olhe para seu próprio umbigo” e nada seja resolvido. Sim, um não conversa com o outro e fica cada grupo trabalhando e “resolvendo” assuntos relacionados às suas particularidades. Lógico que não podemos deixar de lado que algumas especificidades precisam ser respeitadas, causas, das mais diversas, gente que luta contra algum problema específico.

Esse é nosso caso! Sabemos que o racismo é estrutural, midiático, histórico, científico, jurídico, legislativo, judiciário etc., de modo que a população negra e as comunidades quilombolas e indígenas, assistem a cada dia, cada minuto, seus direitos serem violados. Opressões sofisticadas desconsideram a contribuição que esses povos deram – e  ainda dão – para construção do Brasil.

Nada vai nos calar. Nossos antepassados não abaixaram a cabeça, resistiram. A voz de Zumbi ecoa pelas terras que nos estão negando. Casas são queimadas ainda nos dias atuais, quilombolas expulsos de suas comunidades e precisam lutar na justiça contra os poderosos opressores, que ainda se utilizam de artimanhas para manter o status quo.

Especificamente peço para você que lê esse texto, olhe para uma demanda que nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Agudos, que mantém fora de suas terras uma comunidade inteira: Espírito Santo da Fortaleza.

Desde 2010, em véspera natalina, a comunidade sofreu uma ação de reintegração de posse, extremamente truculenta, humilhante, que desdobrou na saída do último reduto do território tradicionalmente ocupado. Isso acontece nesse momento também no Quilombo de Cambury.

A comunidade Porcinos, Espírito Santo da Fortaleza, foi formada em 1886. Sofreram, ao longo da história, sucessivos processos de expropriação, em um contexto marcado pela violência, fraudes cartoriais, opressão, negociações fraudulentas ocorridas em virtude de relações desiguais de poder.

Atualmente a comunidade encontra-se dispersa, desagregada, longe de seu território tradicional. Hoje completa dois anos e meio que estão lutando para voltar. A importância desse território não é apenas material. Ele está completamente atrelado a ancestralidade da comunidade, remonta os alicerces culturais e de tradição, a identidade de um povo, passado e futuro. É a força de um povo que não pode mais viver esse tipo de injustiça.

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