Como ajudar uma amiga que está sofrendo abusos

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Crédito: PeopleImages / iStockA forma mais eficaz de ajudar é a partir do diálogo e do acolhimento

Se você é mulher, muito provavelmente já se viu dentro de um relacionamento abusivo ou conhece alguém que foi vítima desse tipo de violência.

Na maior parte das vezes, a pessoa nem chega a contar de fato sobre alguma situação de agressão física ou psicológica, porém, você percebe que algo está errado a partir de indícios, como a falta de brilho no olhar, o afastamento do grupo de amigos ou da família, a recusa em fazer coisas que ela antes gostava ou mesmo marcas pelo corpo.

Mas como conversar com alguma amiga, familiar ou conhecida que sofre violência doméstica? Segundo a psicóloga Kátia Braz, especialista em saúde mental e dependência química, não dá para chegar e falar abertamente: “Olha, esse cara é abusivo e vai te fazer sofrer”, pois, às vezes, a mulher está muito apaixonada e não percebe as agressões, ou ela está passando por um momento em que se culpa por essas situações.

“O que podemos fazer nesses casos, quando ainda não está muito aparente e não há riscos de algo mais grave ocorrer, é começar a conversar com essa mulher sobre relacionamento abusivo ou, ainda, mandar uma reportagem que chame atenção para o problema para que ela se identifique com outras histórias similares”, ressalta a psicóloga, que atende diariamente vítimas de violência.

Kátia cita como exemplo a história de uma jovem que sofria um relacionamento abusivo por parte de seu pai.

O que sua amiga fez? Convidou esta moça para almoçar em um domingo na casa dela, onde estariam presentes o pai e a mãe.

Assim, ela viu o que é um tipo de relacionamento saudável entre pai e filha, e pôde comparar as situações que vivia em sua casa. “É uma forma de ajudar, bem silenciosa, mas muito efetiva, pois provoca uma reflexão.”

Outro ponto essencial a ser considerado ao falar com as vítimas é não julgar em hipótese alguma porque ninguém sabe o que se passa dentro de cada relacionamento.

Além disso, é preciso ter atenção redobrada a qualquer indício de que algo mais grave pode acontecer. “Se a gente percebe que está na iminência de uma violência física ou de um feminicídio, a gente pode e deve denunciar. Não precisa se identificar, pode ser de forma anônima”, enfatiza.

“Em alguns casos, temos que intervir. Eu sempre me coloco nessa posição: eu estou aqui, se quiser, eu posso te ajudar. Eu não posso ir além disso senão vou invadir o espaço dela e, assim como o parceiro, impor regras em sua vida”, completa.

De acordo com a psicóloga, mesmo fazendo uma denúncia, não é possível termos controle se a investigação terá continuidade. “Mesmo assim, isso dá um susto no abusador, mostrando que alguém de fora viu e fez o papel de denunciá-lo”, ressalta.

Ao conversar com mulheres que relatam casos de agressão, seja psicológica ou física, a pessoa não deve revitimizá-la, ou seja, colocar a culpa da violência na vítima, desqualificando seus desejos e direitos exatamente como o parceiro faz.

“Precisa tomar muito cuidado. É comum a amiga vir falar algo, contar o que o namorado fez e, você, como amiga, aconselha ela a terminar. Ela concorda, mas três dias depois publica foto no Instagram ao lado do parceiro, feliz da vida. Então, você liga para ela e a xinga”, exemplifica.

Kátia explica que isso pode acontecer porque é uma tentativa da mulher de a relação melhorar e o homem mudar suas atitudes, por mais que todos saibam que isso pode não terminar bem.

A melhor forma de lidar, então, é apoiar essa pessoa, mostrar textos sobre o tema e levá-la em rodas de discussão sobre machismo. “Para além de um problema pessoal, este é um problema social. Falar disso em rodas de amigas é muito importante, pois essa conversa pode fazer com que essa colega consiga ajudar outra mulheres.”

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Crédito: Ponomariova_Maria / iStockOs traumas da violência doméstica ficam presentes toda a vida da mulher

O apoio enquanto psicóloga

Ser psicóloga de mulheres vítimas de violência é uma realidade diferente da psicoterapia comum, relata Kátia. “Assim como no caso da dependência química, nós temos que fazer algumas intervenções muitas vezes. Isso é diferente de você provocar reflexões no outro para que ele se descubra sozinho, como faço com frequência”, conta.

Em casos mais graves, eu aconselho a pessoa a fazer uma denúncia. “Ainda sim, só se ela quiser. Se sim, vou explicar para ela as implicações de denunciar. Muitas vezes elas até vão, porém, algumas voltam atrás porque ainda têm na mente a promessa do ‘sujeito encantador’. Elas ainda buscam isso.”

Em muitos casos, a mulher reata a relação. Isso acontece, pois ela está dependente daquele relacionamento, por mais que seja abusivo. “É o padrão do relacionamento que ela sabe estabelecer.

Isso vem muito da história de vida dela, do ambiente em que ela foi criada, da forma com que ela foi tratada.

Às vezes, ela está reproduzindo algo que viveu a vida inteira, não sabe ser diferente disso e precisa aprender”, explica.

“O nosso trabalho de psicóloga precisa ser muito sutil para não dar a impressão àquela mulher que ela só será bem recebida na sessão se fizer a denúncia e se afastar do sujeito. Temos que acolher a ponto de ela entender que sempre terá uma mão amiga, um apoio, alguém que vai ouvi-la e ajudá-la a pensar”, finaliza.

Traumas e outros relacionamentos

Para uma mulher vítima de violência doméstica, os traumas permanecem para o resto da vida, e isso, inclusive, dificulta suas novas relações, tanto afetivas como de amizade, no trabalho ou com a família.

Quando a vítima sai do relacionamento abusivo, ela ainda está muito ligada naquela promessa de amor para a vida inteira, de conto de fadas. “A mulher fica uns dias afastada e o que acontece? Passa a tensão maior, ela se sente melhor e já acha que fez errado em se separar, pois as coisas podem ser diferentes”, diz a especialista.

Ao investir na situação, ela acaba entrando novamente na primeira fase do ciclo de violência doméstica.

Este ciclo é composto por uma fase inicial, em que há o aumento da tensão, e o homem começa a ter um comportamento violento, seguida da fase dois, em que a tensão acumulada culmina no ato de agressão, e, em seguida, ocorre uma terceira fase, da “lua de mel”, na qual o agressor diz estar arrependido e busca a reconciliação. Aos poucos, o casal retorna à fase um, de tensão e, assim, às agressões novamente.

“Por isso é necessário um acompanhamento e uma rede de apoio para que a vítima se mantenha fortalecida. Muitas vezes, ela estará sozinha e pensará que a culpa de tudo foi dela. Os traumas, infelizmente, são muito profundos e é necessário um tempo para isso virar apenas uma cicatriz”, completa.

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Entenda as etapas do ciclo da violência domésticaCamila Lustosa

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Fase 1 do ciclo da violência domésticaCamila Lustosa

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Fase 2 do ciclo da violência domésticaCamila Lustosa

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Fase 3 do ciclo da violência domésticaCamila Lustosa

Campanha #ElaNãoPediu

Nenhuma mulher “pede” para apanhar. A culpa nunca é da vítima. A campanha #ElaNãoPediu, da Catraca Livre, tem como objetivo fortalecer o enfrentamento da violência doméstica no Brasil, por meio de conteúdos e também ao facilitar o acesso à rede de apoio existente, potencializando iniciativas reconhecidas. Conheça a nossa plataforma exclusiva.

Veja também: Entenda como funcionam as Delegacias de Defesa da Mulher

Coronavírus: cinco dicas para ajudar uma vítima de violência doméstica durante a quarentena

Apesar de ser uma medida essencial para conter o coronavírus, o isolamento domiciliar coloca muitas mulheres em risco quando as obriga a conviver por longos períodos com seus agressores.

Não por acaso, os registros de violência doméstica aumentaram durante a quarentena imposta pela Covid-19 na China, Itália e aqui no Brasil.

A escalada da violência doméstica nesse período é uma das principais preocupações de muitas organizações, especialistas e ativistas que defendem os direitos das mulheres ao redor do mundo. Na semana passada, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, chegou a fazer um apelo mundial para que os países adotem medidas para proteger as mulheres em suas próprias casas.

Leia também:  Como apresentar um palestrante convidado (com imagens)

Coronavírus: violência contra mulher pode aumentar durante quarentena; veja como e onde buscar ajuda

No momento em que as medidas de confinamento provocadas pela pandemia de Covid-19 exacerbam a violência de gênero nas famílias, especialistas também temem o aumento da subnotificação destes casos, uma vez que a restrição de circulação e a presença constante do agressor em casa pode impedir que muitas mulheres consigam buscar ajuda ou denunciar.

“A violência doméstica se alimenta do silêncio e da covardia. Ela se perpetua na escuridão, quando o autor acha que ninguém está olhando. ”

Mas existem maneiras de ajudar essas mulheres, mesmo em meio à pandemia.

CELINA conversou com a diretora-executiva do Instituto Avon, Daniela Grelin, a promotora de Justiça Silvia Chakian, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo, e com a defensora Flávia Nascimento, que coordena a Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, para elaborar algumas dicas de como intervir nessas situações.

— A violência doméstica não é problema só do casal ou da polícia. É um problema de toda a sociedade. É importante que a gente esteja atento aos sinais de violência — afirma Daniela Grelin, do Instituto Avon. Manter o contato constante, oferecer ajuda sem julgamento e se manifestar quando ouvir algum tipo de agressão estão entre as sugestões. Veja abaixo.

1. Ofereça ajuda e mantenha contato

Se conhece alguma vizinha ou amiga que pode estar passando por uma situação difícil durante a quarentena, ofereça ajuda. Vale interfonar, mandar mensagem pelo Whatsapp ou enviar um bilhete por debaixo da porta.

A sutileza é importante nesse momento, pois muitas mulheres podem se sentir envergonhadas por estarem sofrendo violência ou até mesmo não ter privacidade para ler um recado ou falar da situação sem que o agressor saiba, explica Grelin.

— Mostre para a sua vizinha, amiga ou colega de trabalho que está disponível para ajudá-la. Uma sugestão é escrever: “Vizinha, se esse período não é seguro para você, saiba que pode contar comigo. Aqui está meu celular” — orienta.

Outros impactos: isolamento domiciliar pode aumentar sobrecarga das mulheres

Uma boa dica, se precisar de ainda mais discrição, é incluir o recado em meio a uma receita ou outra coisa que possa ser do interesse dessa mulher, e que o agressor não irá ler ou ouvir.

— Você não precisa esperar passivamente que ela peça ajuda. Uma mulher que vive a violência é a pessoa mais fragilizada dessa situação, ela se sente sozinha e aprisionada. Mostrar que você a vê, que você acredita nela e que está disponível para ajudá-la, é fundamental — completa a diretora-executiva.

É importante manter contato constante com essa mulher, pois romper uma relação abusiva é um processo delicado e cada mulher tem seu tempo.

Conhece o Instagram de Celina? Clique aqui!

— É preciso respeitar quando essa mulher ainda não se sente pronta, segura, e também acompanhá-la para fornecer o apoio para que finalmente se sinta fortalecida — afirma a promotora de Justiça Silvia Chakian.

2. Não julgue

Ao oferecer ajuda, ouça a mulher, acredite na palavra dela e não a julgue. Muitas mulheres se sentem envergonhadas ou culpadas pela violência que sofrem, por isso o apoio sem julgamento é fundamental.

— É importante fazer com que aquela mulher saiba que não tem culpa, que não está sozinha e que a violência doméstica é grave, inaceitável e pode se tornar cada vez mais grave quando nada é feito para interrompê-la — explica Chakian.

3. Combine um sinal ou palavra de emergência

Se está em contato com uma mulher que poder estar em risco, combine um sinal de emergência que ela possa acionar quando precisar de socorro.

Você pode sugerir que ela amarre um lenço ou uma fita na sacada caso precise de ajuda, ou então combinar uma palavra-chave que ela pode enviar por mensagem ou falar ao ligar e assim te informar que está em apuros, para que você possa acionar a polícia.

Entenda: Por que é tão difícil identificar um relacionamento abusivo (e sair dele)

4. Não silencie se ouvir uma agressão e chame a polícia

Caso escute ou presencie alguma agressão ou situação de violência na vizinhança, não silencie. Mostre que está ouvindo, se faça presente. Vale ligar, interfonar, bater na porta, gritar na janela ou até mesmo chamar a polícia.

— O que não pode ocorrer é a omissão, porque a violência doméstica não é questão da esfera privada, familiar, mas uma questão de Estado, onde todos têm o dever de interferir — afirma Chakian.

“Mostre para a sua vizinha que está disponível para ajudá-la. Uma sugestão é escrever: 'Vizinha, se esse período não é seguro para você, saiba que pode contar comigo. Aqui está meu celular.'

A defensora pública Flávia Nascimento alerta para a importância de acionar a Polícia Militar pelo 190 caso desconfie que está acontecendo uma agressão, pois isso pode impedir a escalada da violência naquele momento.

Se desconfiar que uma mulher é vítima contante de violência, você também pode buscar orientação ou registrar uma denúncia no Ligue 180. Mas, nesse caso, a polícia não é acionada imediatamente.

Coronavírus: Como a crise causada pela Covid-19 impacta as mulheres negras no mercado de trabalho

— A violência doméstica se alimenta do silêncio e da covardia. Ela se perpetua na escuridão, quando o autor acha que ninguém está olhando. Quando ocorre essa interferência, seja da polícia, dos vizinhos ou dessa rede de proteção, isso normalmente tem o efeito de inibir a agressão — alerta Grelin.

5. Oriente sobre os serviços disponíveis

Fale para mulher sobre a possibilidade de pedir uma medida protetiva, elas continuam sendo concedidas durante a quarentena. Informe que ela pode buscar a Defensoria Pública e outros serviços de atendimento na sua cidade. A maioria continua em funcionamento, mas muitos atendimentos estão sendo feitos à distância, por e-mail ou Whatsapp.

Estratégia na pandemia: Para reforçar isolamento, países determinam rodízio por gênero para saídas de casa

Através da defensoria ou do Ministério Público, essa mulher pode ser encaminhada para uma das casas abrigo e de passagem, cujos endereços são sigilosos para proteção das vítimas. Vale lembrar que as Delegacias da Mulher continuam funcionando durante a quarentena. No Rio de Janeiro, seguem abertas 24 horas.

Com os agressores em casa, algumas mulheres podem ter dificuldades para telefonar ou pedir ajuda. Mas os serviços especializados podem ser acionados digitalmente. O boletim de ocorrência pode ser registrado pela internet. As denúncias também pode ser registradas pelo aplicativo do Ligue 180, gratuito e disponível para Android e IoS.

Outros aplicativos e plataformas também podem ser úteis: o PenhaS, criado pela Revista AzMina, conecta, de forma sigilosa, a mulher a uma rede de apoio, e tem um botão do pânico que permite que ela cadastre cinco contatos de pessoas de confiança que podem ser acionadas em caso de emergência. O Mapa do Acolhimento também conecta mulher a uma rede de psicólogas e advogadas voluntárias através do site e mostra os serviços de atendimento mais próximos com base na geolocalização da vítima.

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

Mete a colher: como ajudar uma amiga em um relacionamento abusivo

“Quem ama não agride”. Foi assim que a atriz Jeniffer Oliveira, atualmente interpretando Flora em Malhação, terminou um texto no qual conta ter sido agredida por seu então namorado, Douglas Sampaio. Junto com a declaração, a jovem, de 19 anos, postou fotos mostrando as marcas do abuso físico.

Na mesma semana, a apresentadora Sabrina Sato revelou também ter sido vítima de relacionamentos abusivos. “Tive um namorado que me ameaçava entrando na contramão na Avenida Paulista. E sóbrio. Dizia: ‘Vou acabar com a gente’. Não passo mais por isso”, comentou.

  • Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo AbusosVale para mulher transexual? Mulher que bate no marido pode ser enquadrada? A lei completa 10 anos nesse domingo (7/8). Vem saber mais sobre ela
  • Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo AbusosEm entrevista, Michella Marys revela detalhes das agressões vividas durante 13 anos de casamento com o juiz
  • Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo AbusosShirley Pascoal viveu um relacionamento emocionalmente violento com o namorado e relata como percebeu que não era amor.

Jeniffer e Sabrina estão longe de serem as únicas lidando com o risco de violência dos parceiros.

Leia também:  Como alimentar e cuidar de salamandras (com imagens)

A Central de Atendimento à Mulher apurou que cerca de 86% dos depoimentos recebidos pelo número 180 são referentes a atos violentos em ambientes domésticos e familiares. Aproximadamente 37% dos denunciantes sofrem agressões todos os dias.

E outro dado assustador: quase 40% das mulheres assassinadas ao redor do mundo foram vítimas de namorados e maridos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar de 80% de quem denuncia violência em relacionamentos afetivos serem mulheres, é importante ressaltar que agressões podem acontecer independentemente do gênero da vítima e de se o casal é hétero ou não. “Relacionamento abusivo é todo aquele que gera, em uma das partes envolvidas, sofrimento emocional, traumas psicológicos e/ou físicos”, explica a psicóloga Talita Rezende.

Agressões, desentendimentos constantes, humilhações, pedidos de desculpas doces após abusos, manipulações, uso de poder, sentir-se pouco valorizada, atitudes controladoras – como definir o que a parceira pode ou não vestir –, medo e insegurança recorrentes caracterizam esse tipo de relação. “Não necessariamente a vítima precisa sofrer agressões físicas”, reforça a psicóloga do Instituto de Psicologia Aplicada (Inpa) Giselle Nogueira. 

Se você tem uma amiga ou alguém da família passando por isso, a sua ajuda importa e muito. “A rede de apoio é essencial para a vítima ter uma visão diferente da relação. É necessária também para a recuperação física e emocional dessa pessoa”, afirma Talita.

Esqueça a velha conversa de que em briga de marido e mulher não se mete a colher: em muitos casos, essa violência termina com grandes traumas ou com o assassinato dela.

Veja como é possível interferir:

1. Converse com a vítima sobre o relacionamento

Chame sua amiga para conversar e fale com carinho. “Pergunte se as vontades dela estão sendo atendidas e questione algumas atitudes, com frases como ‘Mas você não gostava de fazer tal coisa? Por que deixou de ir para aquele lugar?'”, aconselha Giselle.

Com essas perguntas, você pode fazer a vítima perceber que está sendo desvalorizada e se deixando de lado. “Dê exemplos de relacionamentos tóxicos, mostre a gravidade da situação dela, fale dos riscos e das consequências”, sugere Talita.

2. Dê apoio

A conversa não saiu como planejada? Não desista, a tendência é que sua amiga já esteja afastada dos outros, sentindo-se fragilizada e precisando de alguém por perto. “Geralmente, a família e os amigos notam um distanciamento por parte de quem está sofrendo com isso. Isolar a parceira e deixá-la longe de quem faz bem a ela é uma tática para dominá-la”, aponta Giselle.

3. Denuncie

Terceiros podem sim denunciar violências, incluindo as que ocorrem em um relacionamento a dois. Qualquer pessoa pode fazer um relato para o número 180 de forma anônima.

Em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu a aplicação da Lei Maria da Penha mesmo quando a vítima não é quem faz a acusação contra o parceiro.

Viu algo errado? É importantíssimo denunciar pelo telefone ou procurar uma delegacia.

Saiba como ajudar e o que não dizer a uma mulher que sofreu violência sexual – Emais – Estadão

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

A hashtag #MeToo, ou #EuTambém, tem ajudado a expor diversos casos de abuso ou assédio contra mulheres. Algumas relatam que mantiveram a violência em silêncio por vergonha, medo do abusador, relação de poder ou mesmo por não perceberem a gravidade da situação quando ela ocorreu. 

“Eu nunca falei sobre essas coisas publicamente porque, como mulher, sempre pareceu que seria como se eu estivesse falando do tempo lá fora”, relatou a atriz Molly Ringwald em depoimento publicado na revista The New Yorker. O assunto e a hashtag voltaram à tona depois dos relatos de dezenas de atrizes que sofreram abusos do produtor Harvey Weinstein.

Enquanto o apoio coletivo tem ajudado muitas mulheres a contar suas histórias, é importante lembrar que isso não é um convite para sanar a curiosidade e querer saber mais sobre cada caso postado nas redes sociais.

“A primeira coisa é se dispor a ouvir, mais do que fazer perguntas”, explica Sofia González, que media na associação Artemis um grupo de apoio a mulheres que sofreram violência sexual.

Portanto, um post não significa automaticamente que a mulher está disposta a conversar com qualquer pessoa sobre o assunto.

“Vai muito do vínculo que você já tem com essa pessoa. Se o depoimento dela te fez pensar nos seus casos de abuso e te inspirou, pode caber falar algo nesse sentido”, diz Sofia. Por outro lado, algumas perguntas ou comentários podem ser ofensivos ou indelicados.

Veja algumas perguntas que você não deve fazer a alguém que acaba de relatar uma violência sexual:

Como Ajudar Uma Amiga que Está Sofrendo Abusos

7 imagens

Se uma mulher decidir se abrir com você e relatar um caso de violência, o melhor é ouvi-la e tentar entender como ela prefere lidar com a situação. “Se você puder, vale tentar ajudar. A pessoa chega confusa.

Quando você passou por uma situação de violência, é muita coisa que passa na cabeça — raiva dificuldade para lidar”, explica Sofia. “Se você conseguir, pode ajudá-la a organizar as ideias.

Mas sempre deixando na mão da pessoa a decisão de falar.” 

Quando ela está disposta a denunciar, você pode acompanhá-la até a delegacia, por exemplo. Sofia destaca, no entanto, que a escolha final deve ser sempre da mulher. “Às vezes, forçar a denunciar em um momento em que ela não consegue, mesmo querendo ajudar, pode fazer mal. A denúncia não é fácil”, explica. 

Se ela der abertura, você pode também incentivá-la a procurar ajuda psicológica profissional. “Os índices de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de álcool, drogas, e dificuldade para ter relações sexuais são muito altos entre essas mulheres”, explica Luiza Assumpção, psicóloga que também atua na Artemis. 

Além disso, a psicóloga relata que, se a mulher tem um parceiro ou parceira fixa, pode ser interessante que ele ou ela também tenha acompanhamento psicológico para saber como lidar com a situação, já que o comportamento sexual de alguém que passa por uma violência costuma mudar. 

Incentivar a mulher a ir ao hospital para fazer exames e tomar os medicamentos necessários até 72 horas após um estupro também pode ajudar.

Os profissionais de saúde, por sua vez, precisam estar prontos para identificar a violência sexual e não constranger a paciente, explica Nathália Cardoso, preceptora do programa de residência em Medicina de Família e Comunidade da faculdade de medicina da USP e médica no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde.

“Os casos de violência não vêm para nós de uma forma direta. A principal queixa é de dores que a gente não consegue explicar. O profissional da saúde tem que estar muito atento”, afirma a médica.

Se a paciente preferir, pode pedir para ser atendida por uma profissional do sexo feminino, explica Nathália. Segundo ela, o mais importante é que a mulher se sinta segura e não seja julgada. “É preciso deixar muito explícito desde o início da consulta que tudo que ela disser vai ser guardado em sigilo.”

A palavra ‘acolher’ é considerada chave por todas as entrevistadas. Ouvir o que a mulher tem a dizer, não duvidar dela e respeitar suas decisões são as atitudes mais eficazes para ajudar alguém que sofreu abuso sexual.

Nathália ainda ressalta que abuso não é apenas estupro, e que é preciso respeitar todos os relatos. “Uma mulher pode se sentir muito ofendida de receber uma cantada, por exemplo.

Existem vários níveis de violência, mas todos são violência”. 

Sofia e Luiza vieram ao nosso estúdio para falar sobre o tema. Confira a entrevista completa:

Relacionamento abusivo: como ajudar mulheres vítimas de violência

Quase todos nós, infelizmente, conhecemos mulheres que sofrem agressão – física e psicológica – do companheiro, e ficamos, por vezes, sem saber como ajudar.

Muito questionou-se, por exemplo, onde estavam vizinhos e amigos da advogada Tatiane Spitzner, morta após ser espancada pelo marido, Luís Felipe Manvailer, no Paraná.

Por que ninguém apareceu quando ela gritou por socorro? E por que a amiga que sabia do comportamento dele não denunciou?

Até onde, e de que forma, afinal, testemunhas e amigas, podem interferir? No dia em que a lei Maria da Penha completa 12 anos, a professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) Ana Flávia d'Oliveira, pesquisadora sobre os temas de violência de gênero, serviços de saúde da mulher e atenção primária, ensina que em briga de marido e mulher, mete-se, sim, a colher.

Principalmente quando a situação já parece estar fora de controle há algum tempo. Aliás, o momento em que a mulher decide sair de uma relação abusiva e dizer “não” ao parceiro costuma ser a hora de maior risco para as mulheres.

Leia também:  Como calcular o erro médio de uma média aritmética no excel

Veja também

Pergunte o que ela quer

Falar simplesmente para a vítima sair do relacionamento não ajuda. Então, pergunte o que ela quer e provoque nela a seguinte reflexão: como será sua vida daqui a cinco anos? Isso a fará refletir sobre suas atitudes hoje. Segundo Ana Flávia, pesquisas comprovam que perguntar para a vítima o que ela quer tem mais resultado do que simplesmente falar para ela se separar.

Apoio incondicional

Independentemente da resposta, diga que está no lado dela. Tudo que a vítima precisa, neste momento, é sentir que tem amigos, alguém ao seu lado, e não de julgamentos. Senão ela pode se calar para sempre. A melhor ajuda, apontam pesquisas, é falar “sou contra isso, isso está errado, mas você não é culpada e estou do seu lado”.

O que sua amiga realmente sente pelo companheiro?

Talvez pelo instinto materno, a mulher acredita que vai conseguir mudar, melhorar o companheiro, por ser a única que conhece sua intimidade. Pergunte, então, o que faz a vítima pensar que isso vai acontecer. Pode ajudá-la a entender o que de fato sente e enxergar que suas expectativas não serão alcançadas.

Entenda o lado dela

Quem está de fora pode não avaliar corretamente o que a vítima está sentindo: se é amor, medo, se há uma dependência afetiva. E, para quem tem filho, há ainda o temor de perder a guarda da criança. Fora as ameaças que ela deve sofrer. Então, tenha paciência e jamais faça acusações ou a julgue.

Ajude a avaliar os riscos

Em situações de extrema violência, chega a ser arriscado a mulher simplesmente pedir a separação, ir embora. O maior risco do feminicídio é na hora em que a mulher tenta sair, aponta a pesquisadora. Por isso a importância de tentar entender o lado da vítima.

Enfrente e denuncie

Se você presenciou a agressão, pode denunciar. Ou mesmo enfrentar o agressor, o que não significa apenas partir para cima. Se precisar, peça ajuda quando o caso é de agressão física. E quando ouvir, por exemplo, piada de cunho machista, presenciar comportamento inadequado, corrija a pessoa. Seja clara com o agressor de que aquilo não pode ser feito.

Você não é responsável pela vítima

Por mais que sofra com a agonia da sua amiga, você não é responsável por ela, ensina a especialista. Então, não sofra caso ela não faça exatamente o que parece ser óbvio e correto. Tenha paciência.

Nunca pergunte o motivo da agressão

Agredir, verbal ou fisicamente, não pode. Ponto! Então para que perguntar o que a vítima fez para apanhar?

8 coisas para fazer quando alguém te contar que foi vítima de violência sexual

Uma mulher foi molestada aos 8 anos. A segunda, aos 15 anos, quando quatro homens puseram uma venda em seus olhos e a estupraram. E a terceira foi violentada sexualmente duas vezes, uma quando criança e a segunda já adulta. Vergonha e medo calaram as três durante anos, até que conseguissem contar suas experiências a alguém.

Agora, Breaking Silence, novo documentário da cineasta Nadya Ali, narra as histórias dessas mulheres e o processo de lidar com os fatos e de revelá-los para amigos e família.

“Para quem você conta e a resposta que recebe podem influenciar muito como você [como uma sobrevivente] irá continuar a enfrentar e se curar ou não [do trauma]”, disse Navila Rashid, assistente social forense que participa do filme, durante um evento sobre o documentário.

“O silêncio para mim foi a pessoa mais fácil de conversar, porque o silêncio entendeu que eu não queria ser julgada.”

Em suas próprias palavras, aqui estão algumas recomendações sobre como responder quando uma mulher* conta que foi violentada sexualmente:

1. Escute.

Fique em silêncio e apenas escute. Pode ser desconfortável para ela, mas, ser solidário com esse desconforto, acreditar no que é dito e mostrar seu apoio é muito mais poderoso do que ficar fazendo perguntas investigativas ou tentar consertar o problema.

Embora o trauma seja indelével, a presença de alguém que irá escutar sem culpar ou julgar é vital.

Dizer coisas como “sinto muito pelo o que aconteceu, imagino como deve ser difícil e estou aqui para ajudar”, pode ser muito mais útil porque valida a sobrevivente, reconhece sua dor e expressa apoio.

2. Não tente resolver o problema.

Muitas vezes, fazemos perguntas porque estamos tentando entender o que aconteceu a fim de encontrar uma solução ou digerir o trauma.

Mas já é difícil o bastante para essa pessoa compartilhar sua história, imagine responder perguntas sobre os detalhes físicos e logísticos do evento. A pessoa ainda pode sentir muita raiva e vergonha, e pode ser que ela apenas queira compartilhar sua história sem ter o peso de explicar a fundo.

3. Pergunte sobre o estado mental/de saúde dela.

Quando uma sobrevivente compartilha sua experiência, está claro que ela processou algo ou compartilhou a história antes. Conversar com ela sobre como ela se sente ou em que estágio se encontra em seu processo de cura pode ser útil. E, se ela não quiser falar, tudo bem de ficar em silêncio.

4. Abstenha-se de minimizar a experiência da sobrevivente.

Comentários como “bem, pelo menos não foi pior” ou “pelo menos isso não aconteceu” podem soar como desconsideração ou uma tentativa de minimizar o ocorrido. No final das contas, o sofrimento de uma sobrevivente — independentemente da gravidade — basta para justificar o aconselhamento e apoio.

5. Não faça comentários que indiretamente culpam a sobrevivente.

Perguntas como “o que você estava usando?” ou “tem certeza de que não estava interessada” ou comentários como “é porque você não usa 'hijab' [véu islâmico]” podem fazer com que as sobreviventes se culpem, e, portanto, deixá-las mais confusas e isoladas.

Também criam um clima que, inadvertidamente, absolve o autor de seus crimes.

Além disso, só porque uma sobrevivente não protestou violentamente ou não havia sinais de resistência física, isso não quer dizer que ela não tenha sido atacada.

6. Fazer declarações violentas não ajudam. Isso se aplica principalmente aos homens.

Afirmações como: “Onde ele está?” ou “Vou quebrar a cara dele” não são sempre úteis. A raiva surge de um fonte de amor, mas, quando a sobrevivente está contando algo sério e emocionalmente desgastante, uma reação irada não a ajuda nenhum pouco processar o trauma.

Na verdade, pode fazer com que ela se sinta culpada por jogar um fardo sobre você. Mais uma vez, fique calmo e escute.

7. A pessoa que está contando a história pode não ser muito próxima. Escute de qualquer forma.

Às vezes, as sobreviventes chegam a um ponto onde elas estão guardando o trauma por tanto tempo que se abrem para qualquer pessoa que esteja ali, mesmo se a pessoa não for próxima a elas. Neste caso, é crucial permanecer em silêncio e ser uma fonte de apoio.

8. A negação pode agravar o trauma.

Se o agressor da sobrevivente for alguém que você conhece, uma reação comum é entrar em um processo de negação. Quando você nega os fatos, você atesta que a sobrevivente está inventando as coisas, o que pode perpetuar o trauma ainda mais. É importante entender que qualquer pessoa é capaz de cometer uma violência sexual, seja um parente, amigo ou líder da comunidade.

9. Não faça fofocas.

  • Ao compartilhar a história, a sobrevivente mostra que confia em você, por isso, trate a informação com sensibilidade, não faça fofocas sobre isso com outros e respeite a privacidade dela.
  • * * *
  • Ao participar do filme, as três mulheres esperam iniciar o diálogo sobre o combate ao abuso sexual, especialmente em suas comunidades, onde o sexo ainda é tabu.
  • Ao abordar como nossas respostas às sobreviventes desempenham um papel fundamental no processo de cura, as mulheres mostram que lidar com a violência sexual não deve ser o fardo de um indivíduo, mas uma responsabilidade coletiva que assumimos com compaixão e extremo cuidado.
  • *Optamos por usar a palavra mulher para refletir a realidade de que a maioria das vítimas de agressão sexual é composta por mulheres.

Precisa de ajuda? Ligue 180. Central de Atendimento à Mulher Para Denúncias Contra a Violência.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*