Como apoiar uma amiga que passou por um aborto: 14 passos

Como Apoiar uma Amiga que Passou por um Aborto: 14 Passos

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por Áurea Carolina

A América Latina vai ser toda feminista! Nosso canto passou a ecoar ainda mais forte depois que acompanhamos a mobilização histórica das nossas hermanas. No início de junho, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou a lei que legaliza o aborto até a 14ª semana de gestação, por 129 votos a favor, 125 contra e uma abstenção. A lei precisa ser aprovada no Senado para passar a valer.

No Brasil, a onda verde também tomou as ruas. Temos uma chance real de avançarmos na luta por acesso universal ao aborto legal, seguro e gratuito.

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Anis – Instituto de Bioética apresentaram, em março de 2017, uma ação no Supremo Tribunal Federal que pede que mulheres que façam o aborto até 12 semanas não sejam consideradas criminosas.

A ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), nome que recebe a ação, trata a criminalização do aborto como o que é de fato: uma violência contra as mulheres.

Atualmente, no Brasil, o Código Penal determina que as mulheres que realizam aborto podem ser presas por até 3 anos ou investigadas até 8 anos depois do ato.

O medo da prisão e o silêncio imposto pela lei penal acentuam o sofrimento de grande porte dessas mulheres, que, muitas vezes, já se encontram em situação de extrema vulnerabilidade.

A criminalização ainda prejudica a discussão pública sobre o assunto, apesar de ser um fato comum na vida das brasileiras.

A ADPF pode mudar essa realidade. O texto argumenta que os artigos 124 e 126 do Código Penal, de 1940, que tipificam o crime de aborto autoprovocado ou feito por outra pessoa com o consentimento da gestante, violam os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da cidadania.

A ação será relatada pela ministra Rosa Weber, que convocou uma audiência pública para ouvir argumentações sobre o tema. Marcada para os dias 3 e 6 de agosto, pode ser um ponto de virada para a discussão do tema no Brasil.

Na Gabinetona, mandato coletivo e feminista que construímos com uma equipe composta prioritariamente por mulheres na Câmara Municipal de Belo Horizonte, seguimos também de verde e roxo ecoando os gritos que clamam por aborto legal, seguro e gratuito. Aqui, contamos algumas das razões pelas quais defendemos essa pauta – pela vida das mulheres, por todas nós.

1. O aborto é uma realidade na vida das mulheres de todos os credos e classes sociais

Por mais que a criminalização dificulte sua prática e crie riscos desnecessários para a saúde das mulheres, centenas de abortos são feitos todos os dias no Brasil.

Segundo dados do IBGE, estima-se que 7,4 milhões de brasileiras já fizeram pelo menos um aborto. A Pesquisa Nacional do Aborto revela que mais de 500 mil mulheres abortaram apenas em 2015.

Uma em cada cinco mulheres até 40 anos já fez, pelo menos, um aborto na vida.

Essas mulheres geralmente são jovens, já tiveram filhos e seguem religiões cristãs. Mulheres comuns que, por dificuldades econômicas, situações de violência ou vulnerabilidade, planejamento pessoal ou qualquer outra razão, decidiram interromper uma gravidez, apesar das condenações morais e do cerco do sistema penal.

2. A criminalização penaliza principalmente mulheres em situação de vulnerabilidade

“Todos somos pró-aborto. Uns pró-aborto clandestino; nós, pró-aborto legal”, lia-se em alguns dos cartazes levados às ruas por nossas irmãs argentinas.

A afirmação diz de uma desigualdade de acesso que se repete por aqui: enquanto algumas mulheres podem pagar caro para realizar o procedimento em clínicas clandestinas, outras precisam recorrer a métodos inseguros – e sofrem graves consequências.

A criminalização penaliza principalmente mulheres pobres, negras e indígenas, que são as que têm menos acesso às políticas públicas e estão em situação de maior vulnerabilidade social, perpetuando o racismo institucional.

É por isso que dizemos e repetimos: a legalização do aborto se faz urgente para assegurar a vida e a dignidade das mulheres. Trata-se de uma questão de saúde pública: o aborto clandestino no Brasil é a quinta causa de morte materna.

Além disso, internações hospitalares causadas por abortos inseguros são recorrentes, custam caro e poderiam ser evitadas se a legislação garantisse condições dignas de atendimento nos serviços de saúde e acesso ao aborto legal e seguro.

A ADPF, apresentada pelo PSOL e Anis ao STF, argumenta ser inconstitucional tratar como criminosas as mulheres que abortam, o que permite que avancemos rumo à garantia de aborto legal, seguro e gratuito a todas as mulheres.

3. A criminalização é um ataque à nossa liberdade de crença

Ninguém será obrigada a fazer um aborto caso ele seja descriminalizado, é claro! A legalização permite que cada mulher seja livre para tomar essa decisão de acordo com suas crenças e possibilidades.

Não por acaso, em meio à onda verde que tomou a Argentina, viam-se tantas pessoas – homens, pessoas cis e trans, crianças, idosos, mães, pais, avós, religiosos ou não.

Defender a legalização do aborto é reafirmar a liberdade de crença em nosso país e o Estado Laico, assegurar que valores de parcela da população não impliquem no cerceamento do direito de decisão de todas as pessoas.

4. A legalização não aumenta e pode até diminuir o número de abortos

Pode parecer contraditório, mas a legalização não aumenta o número de abortos. Pelo contrário, em países em que o procedimento deixou de ser crime, essa taxa caiu, como apontam dados do Instituto Guttmacher.

Entre 1990/1994 e 2010/2014, um período de duas décadas, a taxa anual de aborto nas regiões desenvolvidas caiu, principalmente em países ricos onde a prática é legalizada – passou de 46 para 27 abortos para cada mil mulheres em idade reprodutiva.

O mesmo não ocorreu em países em desenvolvimento, porção do mundo em que o procedimento é majoritariamente criminalizado.

É fácil entender por que essa conta fecha: o acesso universal e gratuito ao aborto legal e seguro faz valer direitos fundamentais invioláveis protegidos pela nossa constituição – dignidade, igualdade, liberdade, cidadania, direito à vida, à saúde e, vale destacar, ao planejamento reprodutivo.

5. A legalização é condição para a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos

Não por acaso, nossas irmãs argentinas reforçam: precisamos de educação sexual para decidir, anticoncepcionais para não abortar e, em última instância, aborto seguro para não morrer. Ao contrário do que diz o senso comum, machista e punitivista, não “engravida quem quer”.

Além de a cultura machista fazer recair sobre a mulher quase integralmente a responsabilidade de evitar uma gravidez, o acesso a métodos contraceptivos pelo Sistema Único de Saúde ainda é falho e desigual – os entraves encontrados incluem desinformação, falta de equipamentos e treinamento dos profissionais de saúde.

Para prevenir o aborto, é preciso garantir políticas de saúde acessíveis e universais, que levem em conta os direitos sexuais e reprodutivos de todas as pessoas, a fim de diminuir também o número de gravidezes não-planejadas, mortalidade materna e mortalidade infantil. Forçar que uma gravidez não-intencional seja levada a termo é violar esse direito fundamental.

A Questão do Aborto na Alemanha

Nos seus quase dez anos de existência, muitos assuntos foram tratados aqui no blog do Batatolandia. A inspiração para os temas vêm quase sempre das experiências e dificuldades que passamos, das perguntas feitas por nossos leitores e as vezes das estatísticas dos resultados das buscas que trouxeram as pessoas ao site.

Através dos anos analisando estatísticas de buscas, percebo que há uma certa curiosidade (ou demanda) sobre a questão do aborto na Alemanha. Até então eu tenho ignorado esta dita demanda, por não possuir o mínimo interesse ou conhecimento sobre o assunto. Até recentemente…

Há uns 2 meses eu decobri que em breve serei papai e nas últimas 8 semanas tenho passado um tempo considerável em salas de espera de ginecologista (Frauenartz) equanto aguardo para saber as novas do bebê.

Não há nada mais inconveniente do que ser o único homem a sentar numa sala cheia de mulheres que estão prestes a explodir ou já explodiram e estão ali com uma teta para fora amamentando a cria.

Numa situação dessas, meus amigos, o jeito é pegar qualquer coisa pra ler, fixar o olhar no texto e não fazer nenhuma movimentação brusca.

Como a minha vó costumava dizer, “não há mal que não venha pro bem” e depois de várias horas de espera e dezenas de folhetos lidos, eu agora estou  pronto para receber o meu PhD em assuntos de: pílulas anticoncepcionais, aparelhos de medir hormônios, nutrição feminina, violência doméstica e aborto: fazer ou não fazer? Quais são minha opções?

Portanto, em posse deste novo conhecimento, resolvi criar coragem e enfim escrever o tal post sobre aborto na Alemanha. Antes de mais nada, gostaria de dizer que aborto é um assunto polêmico e divide.

Cada um tem sua crença e opinião a respeito. O fato deste post existir neste site não significa que somos a favor ou contra o aborto.

Aqui vai uma lista de coisas que este post NÃO é:

  •  Uma faísca no palheiro
  • Um incentivo ao aborto
  • Um tutorial de como abortar

Dito isto, vamos começar…

Um pouco de história

A questão sobre a legalização do aborto na Alemanha iniciou-se em larga escala durante o início do século XX. Inicialmente a prática foi legalizada em casos de risco à vida da mulher. Durante a Alemanha Nazista, o aborto passou a ser estritamente ilegal especialmente para mulheres arianas, porém era liberado para mulheres de etnias “não desejadas”.

Mais tarde, no pós-guerra, o aborto passou a ser ilegal para todas as mulheres em ambas as Alemanhas. A Alemanha Oriental (lado de lá) abria algumas excessões, enquanto na Alemanha Ocidental (lado do “bem”…seu lado) continuou a impor restrições máximas. Após a unificação, a prática do aborto passou a ser permitida até o fim do primeiro trimestre e sem necessidade de justificação.

A prática de aborto na Alemanha hoje

A palavra popular para aborto é Abtreibung em alemão. Porém, quando se fala em um aborto planejado, costuma-se falar na interrupção da gravidez, ou Schwangerschaftsabbruch.

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A nova lei sobre aborto foi feita pelo Bundestag, em 1992, e permite a prática no primeiro trimestre de gestação sem necessidade de motivação, sendo apenas necessário um acompanhamento psicológico gratuito (Schwangerschaftskonfliktberatung).

O aborto após a 12ª semana de gestação é permitido apenas para mulheres cuja saúde corre perigo devido a gravidez.

Como funciona

A gestante tem até o final da 12ª semana para decidir se vai mesmo fazer o aborto. Uma vez feita a decisão, a gestante precisa marcar uma consulta para um Schwangerschaftskonfliktberatung (desculpa..espirrei).

Basicamente se trata de uma única sessão com uma psicóloga. Durante a sessão, a gestante explica os motivos pelo qual optou pelo aborto e a psicóloga tentará aconselhá-la da melhor forma possível.

Esta sessão tem uma duração de 30 a 60 minutos e é oferecida gratuitamente por instiuições como o Caritas e Pro-Familia.

Imediatamente após a sessão, a gestante irá receber uma lista de clínicas de aborto disponíveis na região. Será emitido, também, um certificado que permite que a prática seja feita. Com a lista de clínicas e certificado em mãos, a gestante precisa tirar 72 horas para reflexão. Passadas 72 horas da emissão do certificado, uma consulta poderá ser feita para remover o feto.

Segundo informações nos folhetos e nos sites alemães, o aborto é um procedimento não ambulante. Isto significa que a gestante não precisa ser internada. O procedimento poderá ser feito através de cirurgia ou ingerindo uma pílula pra induzir o aborto.

Os custos giram entre 400 a 800 EUR, segundo fontes online. Os planos de saúde na Alemanha, cobrem os custos da preparação para o aborto e custos pós-aborto, porém o aborto em si deverá ser bancado pela gestante.

Salvo, casos especiais em que a gestante corre risco de vida.

Aonde conseguir ajuda?

Existe um grande número de instituições de apoio a mulher na Alemanha. Caso você se encontre em situação de risco ou esteja com dúvidas sobre a gestação, entre em contato com o Caritas ou Pro-Familia. Caso tenha dificuldade de comunicação, utilize o nosso diretório de serviços para localizar um médico que fale português.

 

Seja qual for a sua situação, existe sempre uma porta que se abre no último milésimo do penúltimo segundo e nós raramente estamos sozinhos.

Famosas que sofreram e desabafaram sobre aborto espontâneo

  • Na última semana, a atriz, que está grávida de quase dois meses do segundo filho, desabafou nas redes sociais sobre ter sofrido um aborto espontâneo anteriormente, com seis semanas de gestação. “Infelizmente, eu tive que aceitar e entender que esse bebezinho já estava pronto para se tornar luz, para se tornar energia pura… Nossa despedida foi inesperada e dolorosa, emocionalmente e fisicamente. Resolvi falar sobre a dor que estou vivendo, porque tenho achado exaustivo demais esconder essa dor, exaustivo demais fingir que nada aconteceu. Sei que o tempo vai curar as feridas que ficaram… Mas nunca vou esquecer desse meu bebezinho, que não tive a chance de segurar no colo… Aproveito pra mandar muito amor pra todas as mulheres, que como eu, viveram essa perda… Pouco se fala abertamente sobre esse assunto, mas é sempre bom saber que não estamos sozinhas, 1 em cada 4 mulheres já sofreu uma perda gestacional. Se você também infelizmente sofreu uma perda gestacional, saiba que você não está sozinha”, escreveu
  • No álbum mais recente da cantora, “Hurts 2B Human”, ela faz alguns desabafos nas letras de suas músicas. Especificamente na canção “Happy”, ela diz: “Desde que tenho 17 anos, odeio o meu corpo/ E parece que meu corpo me odeia também”. Em conversa com a revista “USA Today” divulgada esta semana, ela explicou o que a fez escrever tais versos. De acordo com a artista, aos 17 anos, ela se viu grávida e fez questão de se preparar para receber o bebê, mas, no meio da gestação, acabou sofrendo um aborto espontâneo. “Quando isso acontece com uma mulher, ou com uma garota, você sente que o seu corpo te odeia, que ele está quebrado. É como se seu corpo não estivesse fazendo o que deveria fazer. Eu tive alguns outros abortos espontâneos desde então, e acho importante escrever sobre aquilo que te envergonha, falar das m*** dolorosas. Eu sempre compus deste jeito…”, desabafou Pink, que é mãe de Willow (nascida em 2011) e Jameson (nascido em 2016)
  • Em abril deste ano, a cantora deu à luz Liz, mas antes ela sofreu ao ver a primeira gestação ser interrompida apenas dois dias após ter feito um anúncio público sobre a gravidez, em maio de 2018. “A gente já teve uma [filha]. Eu sempre falo que já tive. Vou levar isso para o resto da minha vida. Eu já sabia o sexo, que era menina, e está do lado da minha cama: um anjiinho que representa ela, Yasmin, que seria seu nome, e estará sempre em nossos corações. Fiz uma música para ela que, provavelmente, não vou lançar com nenhum outro filho porque eu fiz pra ela. Era única e foi aí que me tornei mãe. Por mais que não tenha conseguido vivenciar isso, ela ficou 11 semanas dentro da minha barriga. A partir do momento que a mulher engravida, já planeja uma vida toda até a faculdade”, contou Thaeme em conversa com Eliana. Apesar de ter planejado divulgar a gravidez apenas ao completar 14 semanas, a cantora acabou se adiantando e confirmando estar à espera da filha depois que a notícia foi vazada. No Instagram, ela desabafou depois de perder o bebê: “Acredita em anjo? Pois é, ela agora virou o nosso!”
  • Em 2007, a cantora sofreu um aborto e, dois anos depois, falou sobre o assunto em entrevista à revista “TPM”. “Fiz um show e, na volta, senti uma cólica. Quando cheguei em São Paulo vi que estava muito forte e pedi um ultrassom. Quando cheguei lá a moça falou: 'Não tem mais batimento'. Demorei para entender, não queria aceitar. Queria encontrar motivos. Foi a pior noite da minha vida. Passei um tempo péssima porque, além de mim, tinham as pessoas querendo saber. Um momento tão íntimo e ainda tinha que pensar em nota à imprensa”, contou
  • Em agosto de 2018, a atriz de “Malhação” desabafou após ter perdido Levi, nome escolhido para seu filho, ainda no terceiro mês de gestação. “Foram 15 semanas com você dentro de mim, 15 semanas te cuidando, 15 semanas te acariciando, 15 semanas te ninando, 15 semanas sonhando em ver seu rostinho, 15 semanas planejando, e hoje o que fica é saudade. Hoje foi difícil saber que as dores, o esforço, o grito e o choro seriam em vão. No parto, no lugar do alívio que nós temos quando a dor acaba, eu senti vazio. Senti meu ventre vazio, meus braços vazios, meu coração vazio e, ao invés de sentir você nos meus braços, eu te vi indo embora. Que dor, meu filho, que difícil? Nosso vínculo foi o mais lindo que já tive em toda minha vida e será eterno”, escreveu Maria
  • A atriz, conhecida por seu papel na série “Pretty Little Liars” e “You” usou as redes sociais em janeiro deste ano para fazer uma reflexão e explicar por que 2018 foi tão difícil. Assim, os fãs souberam que ela sofreu um aborto espontâneo. Na publicação, Shay desabafou: “Todos temos que lidar com várias lutas e desafios na vida. Às vezes, é mais fácil mostrar apenas as coisas boas nas redes sociais, o que é uma das principais críticas de quem diz que falta autenticidade por aqui. Ter tantas pessoas que me seguem no Instagram e leem os meus posts é incrivelmente lisonjeiro e inspirador. O apoio e o carinho que muitos de vocês me dão me ajuda a superar até os meus dias mais difíceis, um dos quais aconteceu no ano passado, após eu perder um bebê que era a minha esperança e o meu sonho”
  • A atriz, que é casada com o colega de profissão Alec Baldwin, estava na 10ª semana de sua quinta gestação quando sofreu um aborto espontâneo. “Não havia batimentos no meu ultrassom, então acabou? Mas tenho alguns batimentos cardíacos ao meu redor que são incríveis”, escreveu nas redes sociais referindo-se aos quatro filhos. “Obrigada a todas as mulheres que compartilharam suas experiências, juntas somos mais fortes. Espero que nós possamos nos apoiar neste momento difícil. Muito amor e gratidão por vocês”
  • Aos 20 anos, a atriz sofreu o primeiro aborto espontâneo. Ela descobriu que o feto estava morto ainda com três meses e meio de gestação. O trauma fez com que ela declarasse que não estava preparada psicologicamente para dar continuidade à história de sua personagem em “Por Amor” ? que ficaria grávida durante a trama. Empático, o autor Manoel Carlos optou por mudar um pouco a novela. Sete anos depois, de acordo com a mãe de Carolina, ela descobriu uma nova gravidez após sofrer outro aborto espontâneo
  • Antes de engravidar da primogênita, Blue Ivy, a cantora sofreu um aborto espontâneo. No especial “Life Is But A Dream”, da HBO, em 2013, Beyoncé desabafou sobre o assunto e revelou que a experiência foi “a coisa mais triste pela qual já passei na vida”. Ainda no mesmo ano, ela falou com Oprah a respeito disso: “Tantos casais passam por aquilo, e foi uma parte importante de minha vida. Essa foi uma razão por que não compartilhei que estava grávida da segunda vez. Você não sabe o que vai acontecer. Foi difícil, porque minha família e todos meus amigos sabiam, e estávamos festejando. Foi difícil”, relembrou
  • Mãe da jovem Coco (que aparece ainda criança na imagem), a atriz, conhecida por seu papel como Monica, em “Friends”, sofreu vários abortos espontâneos ao longo da vida e abriu o jogo sobre o assunto em entrevista à revista “People” em 2004: “Eu engravido facilmente, mas tenho dificuldade em levar a gravidez adiante”. Em conversa com a NBC News, ela falou sobre a dificuldade de realizar o seu trabalho na série de humor após tais experiências: “Me lembro de uma vez, quando eu tinha acabado de sofrer um aborto espontâneo e Rachel [personagem de Jennifer Aniston, em 'Friends'], estava dando à luz na trama. Aconteceu na mesma época. Foi muito difícil ser engraçada naquele momento”
  • A dupla de Pepê passou por um processo de fertilização e estava no segundo mês de gestação quando sofreu um aborto espontâneo em janeiro de 2017. Na época, em entrevista ao Ego, ela revelou estar muito abalada, mas reforçou acreditar que nada é por acaso e que tudo o que estava passando era “coisa de Deus”. Em novembro do mesmo ano, ela deu à luz Valentina
  • Veveta também falou sobre o assunto em conversa com o “Fantástico”. Antes de dar à luz as filhas gêmeas, ela sofreu dois abortos espontâneos. “Eu fiquei a princípio um pouco decepcionada porque imediatamente você já quer contar para família inteira. São muitos passos e é desgastante. O passo de tirar o óvulo, fazer a fecundação, criar o embrião e depois o medo de saber se aquele embrião é saudável. Mas depois, já na primeira fertilização, deu certo. De uns dois anos para cá a coisa foi intensificando. Consegui tirar nove óvulos e conseguimos gerar oito embriões. Não contei para ninguém porque eu sabia que teria essa ansiedade somada a minha. Então eu dividi muito com o Daniel [marido da cantora], que me deixou muito segura”, contou a cantora
  • A pastora e cantora gospel sofreu quatro abortos espontâneos e falou sobre o assunto em participação no “Domingo Legal”: “Não sei quantos aqui sabem, mas eu perdi quatro crianças. Eu fiquei grávida seis vezes. Me senti exatamente como uma mãe que perdeu um filho, sabendo até que é muito pior para quem já se tem um filho nascido. Mas um dia, um pastor amigo meu, Livingston falou assim: 'Fernanda, você não é mãe de dois filhos. Você é mãe de seis crianças. Se elas vieram para a sua barriga, elas são suas'. Aquilo me consolou e as crianças que eu tinha perdido de aborto espontâneo entraram para a história da minha vida como crianças que um dia, na eternidade eu vou conhecer. Aqui na Terra, Deus me deu de criar Isaque e Laura. Eu tinha um medo contínuo da morte. Toda gestação, eu ficava ouvindo o som do coração da criança. Eu comprava aqueles aparelhinhos para ficar ouvindo os batimentos cardíacos. […] Eu fiquei com medo da morte e a gente não queria tentar de novo. Eu me lembro que comecei a crer novamente. Meu marido foi esse suporte para mim. […] Ele aparentava menos, mas também estava bem abalado”
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10 razões pelas quais o aborto nunca é a saída

O debate sobre a questão do aborto se desenrola entre dois polos que se autodenominam “pró-vida” e “pró-escolha”.

Boa parte dos defensores dessa última posição costumam dizer que o aborto é sempre um mal, mas que mesmo assim deve-se ter o direito de optar por ele – é um mal menor.

Mas o fato é que o aborto não é apenas uma “escolha” entre outras: os prejuízos que ele traz são de diversas ordens e nada têm de “empoderadores”. Confira 10 razões pelas quais o aborto nunca é a resposta.

Às vezes, as circunstâncias que envolvem uma gestação são trágicas. Talvez tenha ocorrido um estupro ou o bebê tenha recebido um diagnóstico complicado. Porém, uma tragédia não deve ser respondida com outra.

Não dá para apagar um estupro eliminando uma criança.

Mulheres violadas, pais que enfrentam um diagnóstico pré-natal difícil ou mulheres com gravidez de risco precisam ser acompanhadas com profissionalismo, carinho e atenção – e não ser pressionados a escolher o quanto antes pelo aborto.

Cientificamente, está claro: um nascituro é um ser vivo, único, humano. A partir da fertilização, aparece uma nova vida humana. Eliminá-la, portanto, não é apenas eliminar um potencial de vida humana, mas uma vida em si mesma.

  1. Viola os direitos humanos

Os direitos humanos são violados quando alguém é privado de seus direitos básicos, geralmente em um contexto de viés discriminatório. No aborto, nascituros são privados de seu direito mais básico – à vida – simplesmente com base em seu estágio de desenvolvimento. Isso é discriminatório, desumano e cruel.

Uma criança não merece morrer por causa dos crimes de seu progenitor. Se uma criança de 4 anos não pode ser morta por seu pai ser estuprador, o mesmo se aplica a um bebê de 4 meses de gestação. Tampouco uma criança merece morrer porque seu pai, sua mãe ou ambos foram irresponsáveis. Ela não deve pagar por esse erro.

Histórias de quem passou pelo aborto demonstram que o aborto prejudica as mulheres, de formas muito variadas – mental, emocional, relacional, física. Em alguns casos, as mulheres perdem a própria vida. Não raro, perdem a fertilidade ou aumentam as chances de terem abortos espontâneos.

  1. Danifica relacionamentos e famílias

Toda vez que morre um membro da família, todos os familiares são afetados. Isso é verdade também para o aborto. Uma criança viva, real e insubstituível foi morta e isso machuca seus pais e seus irmãos.

Não é raro que mulheres que abortam por pressão do parceiro, para que continuem com ele, se vejam novamente sozinhas depois de pouco tempo.

O aborto nunca é a solução para fortalecer os vínculos de um relacionamento.

Por mais que se tente, não dá para apagar o rastro de um aborto na própria biografia. O tempo não torna mais fácil aceitar o fato de que se tirou uma vida. Ainda assim, por mais que o fato não se apague, recuperação, cura e esperança podem acontecer.

A curto prazo, parece que um aborto soluciona um problema.

Não será preciso deixar o trabalho ou a faculdade para cuidar de uma criança, um caso de adultério permanece confidencial, os pais nunca vão ficar sabendo que sua filha engravidou e por aí vai.

Mas o aborto não resolve o problema: apenas os esconde – geralmente, não para sempre. Por outro lado, muitas pessoas terminam a faculdade mesmo cuidando de um bebê – e muitos pais podem ser bem mais acolhedores e amorosos do que seus filhos pensam.

  1. Propaga a irresponsabilidade

Quando dois adultos decidem livremente participar de uma atividade que tem a possibilidade de gerar um bebê, eles aceitam essa responsabilidade. A contracepção pode até falhar, mas não se deve evadir à responsabilidade, às custas da morte de um bebê. Pessoas responsáveis precisam fazer escolhas difíceis às vezes.

Pode não ser o melhor momento para ter um filho, as circunstâncias podem ser complicadas, mas nada disso justifica a eliminação de outra vida humana. Escolher ter o filho e criá-lo e responsável, escolher direcioná-lo à adoção é responsável, mas escolher o aborto é irresponsavelmente e irreparavelmente errado.

  1. Não é empoderador, nem libertador

É assustador que o aborto seja considerado por parte do movimento feminista como um “direito” da mulher. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Não há nada de empoderador em permitir que um bebê morra através de sucção, desmembramento, asfixia ou envenenamento. Essas não são “escolhas”. São tragédias que qualquer nação civilizada deveria proibir.

  • Com informações de Live Action.
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  • Assista às apresentações pró-vida na audiência pública sobre aborto no STF

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O procedimento

Rebeca Mendes pegou a bolsa do chão e, risonha, subiu ao palco. Dentro de alguns minutos, iria compor uma das 302 mesas do Festival Path, em São Paulo.

O evento anual – que, desde 2013, se propõe a discutir inovação e diversidade por meio de shows, palestras, filmes e exposições – ocorreu no mês passado, durante um fim de semana.

Entre os trinta espaços do bairro de Pinheiros ocupados pelo festival, destacava-se o Instituto Tomie Ohtake, justamente onde aconteceria o debate vespertino de que Mendes iria participar.

Alisando a barriga com oito meses de gestação, a mediadora Maíra Liguori, diretora da ONG feminista Think Olga, comunicou à plateia que chegara o momento de tirar “a capa de nebulosidade” que ainda encobre um dos temas mais caros às mulheres do país: o direito de manter ou não uma gravidez. Olhou carinhosamente para a jovem debatedora e afirmou: “Se um dia houver uma lei que descriminalize o aborto no Brasil, teremos que chamá-la de Lei Rebeca Mendes.”

A moça sorriu, pronunciou um simpático “Magina!” e acomodou o microfone no colo enquanto deixava o pensamento voar.

Thomas, seu filho mais velho, certamente gostaria dos iogurtes que a mãe ganhara na entrada do instituto e que guardou no fundo da bolsa. Não, ninguém pode dizer o que uma mulher deve fazer com o próprio corpo.

Felipe, o caçula, estava com febre e dor de garganta. Será que o pai do menino lhe ministrara as gotas de ibuprofeno?

É entre esses dois polos – o direito de interromper uma gestação saudável e as atribuições da maternidade – que trafega a paulistana de 31 anos. Desde novembro de 2017, quando requisitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a prerrogativa de abortar legalmente e com segurança, Rebeca Mendes Silva Leite vem expondo por todo o Brasil os percalços de assumir tal posição.

Nas palestras e reportagens de que participa, ninguém lhe pede informações estatísticas. Não lhe perguntam quantas mulheres abortam clandestinamente no Brasil, quantas morrem por causa do procedimento e quantas sobrevivem com prejuízos físicos ou emocionais.

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Em geral, o que seus interlocutores desejam saber é de onde a moça tirou coragem para colocar em pauta um assunto proibido até na mais íntima das rodas femininas.

O script se repetiu no Tomie Ohtake. A debatedora recordou as ofensas que sofreu pelas redes sociais e a reação dos filhos à notícia de que não teriam um irmãozinho. Também explicou por que e como acabou fazendo o aborto na Colômbia.

Ao final, ovacionada por uma plateia jovem, de homens e mulheres, ajeitou a bolsa no ombro, examinou a quilométrica programação do festival e apontou uma mesa que cogitava acompanhar: “O mundo dividido: A importância da tolerância e da convivência.” Pensou melhor e desistiu de vê-la.

Preferiu aproveitar o resto da tarde para espairecer.

Seis meses antes daquele fim de semana, na noite de 13 de novembro de 2017, Rebeca Mendes encarava o teste de gravidez sobre a pia do banheiro. Em poucos segundos, confirmaria se o atraso na menstruação era o que temia ser. “Mãe!”, chamou Felipe.

Foi o tempo de responder não lembra o quê ao menino e lá estava a cruz no visor do exame. O teste se mostrara tão rápido quanto o Super-Homem, o Homem-Aranha e toda a constelação de heróis que povoa a porta da geladeira e as paredes da casa dela. Cruz azul. Positivo.

Mendes engravidara pela terceira vez.

Em dez dias, ela entraria com o pedido no STF e se tornaria a primeira brasileira a requerer um aborto legal mesmo sem se enquadrar numa das três condições que o Código Penal estabelece para autorizar o procedimento.

A moça não corria o risco de morrer em virtude da gravidez, sua gestação não derivava de um estupro e, àquela altura, ainda não era possível saber se o feto sofria de anencefalia – má-formação congênita do cérebro.

No entanto, o fato de a gestante sentir um abismo sob os pés ao constatar o resultado do exame lhe pareceu razão mais que suficiente para acionar a Justiça. “Essa gravidez não podia vir em pior hora”, lamentou.

A “pior hora” já durava certo tempo.

A mãe de Thomas, 9 anos, e Felipe, 7, fazia malabarismos para equilibrar o orçamento doméstico com duas fontes de renda mensais: a pensão do ex-marido, pai dos meninos, que variava de 700 a 1 mil reais, e o salário de 1 200 reais, fruto de um trabalho provisório no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Só o aluguel da modesta casa em que a família vivia abocanhava 600 reais. Restavam, ainda, os gastos com alimentação, luz, água, roupas, transporte, remédios… Não bastasse, o emprego temporário findaria em três meses.

De olho num futuro melhor, Mendes cursava o quinto semestre de direito numa faculdade particular, graças a uma bolsa integral do Prouni, o Programa Universidade para Todos.

Diferentemente de quando trabalhava com telemarketing ou faxina, o serviço no IBGE, como pesquisadora do Índice de Preços ao Consumidor, lhe possibilitava uma carga horária flexível, ainda que puxada. Ela conseguia levar os garotos à escola pública, por volta das 13 horas, e buscá-los no fim da tarde.

Depois de deixar as crianças em casa, ia para a faculdade. Os meninos acabavam passando algum tempo sozinhos, tanto pela manhã quanto à noite.

O celular de Mendes estava programado para vibrar a cada quinze minutos. Mal sentia o tremor do aparelho, a jovem mandava um alô à duplinha. Queria saber o que jogavam no videogame, se tinham comido e por que, afinal, ainda não haviam tomado banho. “O lema de quem se diz pai dos meus filhos é ‘Eu já pago pensão, cuida você’, então fica tudo comigo”, costumava reclamar.

De qualquer maneira, assim que atestou o resultado do exame naquela segunda-feira de novembro, ela saiu em direção à casa do ex, a uns 100 metros da sua.

Ambos moravam em Ermelino Matarazzo, distrito pobre da Zona Leste paulistana, notório por abrigar o Parque Ecológico do Tietê e pela carência de empregos.

Segundo a prefeitura, 97% da população local não trabalha ali, o que transforma a região numa espécie de cidade-dormitório.

A estudante e Vanderlei Silva Junior, de 28 anos, se encontraram na rua. Ela não fez rodeio. Contou logo o resultado do teste, e o rapaz se alarmou. “Parecia que era ele quem iria parir”, recordou Mendes.

Formado em direito, Junior ganha a vida como oficial da Defensoria Pública num fórum de São Paulo. Embora separados, os dois tiveram uma recaída, mas não usaram camisinha na ocasião, porque a estudante menstruara fazia pouco tempo.

Ela havia suspendido as injeções trimestrais de contraceptivo em função de um ganho de peso indesejado. Pretendia substituí-las imediatamente por um dispositivo intrauterino, o DIU. Mas a ginecologista que a atendeu no posto de saúde recomendou, primeiro, um ultrassom transvaginal.

Só depois desse exame é que Mendes poderia adotar o novo método anticoncepcional. Enquanto aguardava uma data para o ultrassom, acabou engravidando.

“Assim que recebi a notícia, falei que a escolha de abortar era totalmente da Rebeca, o corpo é dela”, disse Junior na sala do sobrado onde morava, o notebook sobre as pernas em posição de lótus.

Ele ostentava um topete parecido com o de Elvis Presley e um bigode grosso. “Rebeca pode achar que não, mas sempre apoio o que ela decide.” O casal, que não tem religião, permaneceu junto por sete anos, entre idas e vindas.

Embora fosse praticamente vizinho dos filhos, o rapaz já havia passado meses sem visitá-los.

Na própria segunda-feira, Junior e a ex começaram a pesquisar na internet as opções para interromper a gestação. Caíram no Aborto na Nuvem, site que vendia comprimidos de misoprostol.

Mais conhecido como Cytotec, um de seus nomes comerciais, o medicamento foi aprovado pelo governo dos Estados Unidos na década de 80 para tratar gastrite e úlceras estomacais.

Por provocar contrações uterinas, também passou a ser usado em clínicas e hospitais com o objetivo de induzir o parto ou o aborto nos casos previstos em lei.

No Brasil, não é possível achá-lo em farmácias. Pelo menos, não deveria ser. Desde 1998, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) limita a oferta de remédios com o princípio ativo do misoprostol a instituições de saúde credenciadas.

Ocorre que o potencial abortivo da substância caiu nos ouvidos do povo, e o Cytotec, há tempos, é vendido clandestinamente no país.

Num artigo publicado em 2012 na revista Ciência & Saúde Coletiva, a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília, e o médico Alberto Madeiro, professor da Universidade Estadual do Piauí, destrincharam algumas características desse comércio.

Ao avaliar dez casos de venda ou uso irregular do misoprostol que chegaram ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios entre 2004 e 2010, os pesquisadores concluíram que quem consumia o produto era, na maioria, mulheres de 23 a 35 anos.

Elas utilizavam o medicamento por conta própria ou com a orientação dos vendedores, que se dividiam em duas categorias: os balconistas de farmácia e os fornecedores que atuavam via internet.

As ações judiciais e os inquéritos avaliados pelos professores não revelavam como os negociantes conseguiam a droga.

Entre os citados nos processos, havia duas mulheres que morreram ao tentar interromper a gravidez combinando o Cytotec com práticas invasivas, como a introdução de uma mangueira plástica na vagina. Ambas teriam demorado a buscar auxílio médico por medo de que as denunciassem à polícia.

Em março de 2017, a Anvisa proibiu o Aborto na Nuvem de vender misoprostol. Mesmo assim, em novembro daquele ano, Mendes e Junior o encontraram ativo e oferecendo a cartela com seis comprimidos por cerca de 650 reais.

Pedia-se apenas o registro de um celular para que a gestante fizesse uma consulta online com um médico. Se confirmasse a gravidez, o doutor enviaria um o.k. por SMS, de “forma rápida, segura e discreta”.

A interessada poderia, então, adquirir o medicamento, que seria remetido para o endereço desejado.

Um segundo site, o Cytotecaborto.org, comercializa até hoje o misoprostol, mas o contato é via WhatsApp (com DDD do Rio Grande do Sul). A plataforma alerta que “99% dos vendedores são golpistas”: ou não entregam o produto, ou mandam um falso.

Proclamando-se “vendedor de verdade”, o site prescreve a dosagem do medicamento conforme o tempo de gestação: de uma a quatro semanas, quatro comprimidos; de cinco a sete semanas, seis comprimidos; e por aí vai até, no máximo, dezesseis comprimidos. “Quanto mais unidades, mais certo descer”, garante.

Metade da dose deve ser colocada embaixo da língua e metade introduzida na vagina com o dedo, o mais próximo possível do útero. Após o sangramento, a mulher precisaria beber 30 mililitros de água inglesa três vezes ao dia, por uma semana.

O remédio fitoterápico, comumente receitado para abrir o apetite e facilitar a digestão, ajudaria a “limpar o organismo”.

Um terceiro site, o Brasil Saúde, esclarece que o misoprostol se destina ao tratamento de gastrite ou úlceras. “Se você vai usar para outros fins, é por sua conta e risco”, adverte, reiterando que não se responsabiliza pela má administração da substância. Em seguida, fornece a posologia da droga, conforme as semanas de gravidez. A cartela com quatro comprimidos sai por 400 reais.

Ao longo do mês passado, piauí enviou mensagens para os três sites na tentativa de obter mais informações sobre o funcionamento deles. Nenhum respondeu.

“Desisti do Cytotec porque fiquei com medo de sangrar até morrer”, relembrou Mendes. Na cabeça dela, também martelava uma aula que tivera meses antes na faculdade, a respeito das punições que incorrem sobre as mulheres e os médicos que praticam um aborto ilegal.

O artigo 124 do Código Penal prevê detenção de um a três anos àquela que realizar o procedimento em si mesma ou consentir que outrem o faça. O artigo seguinte, 125, se estende ao agente que causar o aborto sem o consentimento da gestante. Pena: reclusão de três a dez anos.

Já o 126 estabelece prisão de um a quatro anos para quem provocá-lo com o aval da grávida.

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