Como analisar poesias (com imagens)

Poesia. No dicionário: composição em versos livres, geralmente providos de rima, com associações harmoniosas de palavras, ritmos e imagens.

A poesia é um tipo de texto literário muito presente no vestibular – toda edição da Fuvest, por exemplo, tem pelo menos um livro no formato de coletânea de poesias na lista de leitura obrigatória.

Ela tem uma linguagem diferente dos textos em prosa, o que causa uma certa preocupação nos alunos. Esse é o seu caso? Então, relaxe! Hoje vamos contar 5 dicas para interpretar de forma assertiva as poesias no vestibular.

1. Leia no mínimo duas vezes a poesia

Essa dica é geral e serve para todos os tipos de texto: leia sempre no mínimo duas vezes o texto. Leia, na verdade, quantas vezes for necessário para entender a poesia. “Ah, mas eu não tenho tempo no vestibular”. Já pensou não atingir a nota de corte por uma questão? Pois é.

Fazendo apenas uma leitura, a gente acaba deixando passar algum ponto importante, principalmente no caso das poesias que expressam informações subjetivas.

2. Identifique as figuras de linguagem

Outro passo muito importante é prestar atenção nas figuras de linguagem – será justamente aí que você encontrará algumas informações implícitas no texto. Preste atenção nas metáforas, nas antíteses ou em qualquer outra figura de linguagem que aparecer no poema.

Ter o conhecimento dessas figuras e saber interpretá-las é essencial para você conseguir fazer uma boa interpretação do texto.

3. Não deixe a sua opinião interferir na interpretação

Justamente por se tratar de um texto com muita subjetividade, não deixe a sua opinião e concepção sobre determinado tema interferir na interpretação da poesia. Leia sempre de modo neutro em relação ao ponto de vista do poeta, sem carregar preconceito sobre o assunto abordado.

Essa parece uma dica simples, mas é algo que fazemos no automático, sem perceber. Se o poema retrata o amor incondicional e você não acredita nesse tipo de amor, não se deixe levar pela sua natureza e entenda a posição do autor.

4. Conheça brevemente a vida dos autores

Essa dica é uma extensão das dicas anteriores. Procure conhecer a história de vida dos poetas – principalmente os mais abordados no vestibular. Saiba onde ele nasceu, quais as suas principais características como pessoa e como autor de textos. Confira os temas mais abordados em seus textos.

Ele é pessimista? Tem uma visão idealizada das coisas? Relata sempre problemas sociais? Respondendo essas e outras perguntas, você terá informações complementares que te ajudarão a interpretar as poesias.
5. Mantenha o hábito de leitura e interpretação de poesias

Por fim, mantenha o hábito de leitura de poesias. Ler é uma das formas mais naturais para ficar íntimo da linguagem e suas particularidades.

Quando já estiver habituado, leia uma poesia e faça a sua interpretação sobre o texto. Depois que você colocar no papel tudo sobre aquele poema, procure uma análise na internet ou livros sobre aquela poesia que você leu. Confira se as suas ideias batem, veja o que outra pessoa conseguiu perceber e complemente suas informações.

  • Fazendo isso com frequência você vai exercitar, se familiarizar e interpretar de forma natural no momento da prova.
  • Como Analisar Poesias (com Imagens)
    Foto: reprodução/divulgação
  • Que tal praticar?
  • Vamos fazer a interpretação de um poema de Carlos Drummond de Andrade, chamado “Poema de Sete Faces”.
  • POEMA DE SETE FACES
  • Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

  1. As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
  2. não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos

não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos

  • o homem atrás dos óculos e do bigode.
  • Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus,
  • se sabias que eu era fraco.
  • Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
  • mais vasto é meu coração.
  • Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
  • botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade. ANDRADE, C. D. Poesia até agora. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1948.

Análise:

A primeira coisa que podemos perceber é que no “Poema de Sete Faces”, Carlos Drummond de Andrade fala sobre a sua vida – é um poema biográfico. Em exatas sete estrofes, ele conta desde seu nascimento, passa pela adolescência (fase dos desejos), até retratar a sua vida adulta. Mais do que isso, ele deixa claro o seu modo de ver a vida.

Esse poema foi publicado em 1930 em seu primeiro livro “Alguma Poesia”. Seus versos são livres e misturam uma linguagem oral com erudita – ele menciona palavras em francês, como gauche.

  1. Ele aborda, de uma forma sombria, o seu modo de ser, como se ele fosse predestinado desde sempre a ser uma pessoa desajeitada, errante e amaldiçoada por um anjo do escuro.
  2. “Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
  3. disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”

Nesse momento ele já descarta implicitamente a possibilidade de uma visão romântica e esperançosa da vida. Ele mostra-se torto desde seu nascimento, longe da figura abençoada e iluminada.

  • “As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
  • não houvesse tantos desejos”

Logo na segunda estrofe, ele cita os desejos – muito presentes na juventude. Nesse momento ele faz uma crítica aos fatos que são escondidos durante à noite. Se não fossem os sentimentos repreendidos e camuflados pelas pessoas, a sexualidade representada dos homens, a noite poderia ser tranquila e azul. Mas não é.

“O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos

não perguntam nada”

Na terceira estrofe, ele se refere às pessoas apenas como número, citando suas pernas – o que fica claro a visão de massa. São pernas de todas as cores, de diversas raças e etnias. Há tanta gente, mas tanta solidão ao mesmo tempo.

“O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode“

Em seguida, ele desenha uma imagem na mente do leitor, descrevendo uma pessoa séria, forte, de pouca conversa, que se esconde atrás de seus óculos e bigode. Mas será que essa pessoa é forte assim? Ou muitas vezes nos fazemos passar por uma imagem para ter mais respeito? Essa máscara que adotamos pode ser um mecanismo de defesa.

  1. “Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus,
  2. se sabias que eu era fraco”

Na quinta estrofe ele decide questionar por que Deus o deixou viver no mundo das sombras, já que ele sabia que era fraco. É nesse momento em que ele demonstra-se indignado.

  • “Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
  • mais vasto é meu coração”

Um pouco antes de encerrar o texto, ele mostra o tamanho de sua solidão e tristeza. O mundo é vasto, porém seu coração é mais. Ele se vê sem opção para sair daquela condição – já não vê formas de se endireitar e deixar de ser torto.

  1. “Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
  2. botam a gente comovido como o diabo.”
  3. Em sua última estrofe, Carlos Drummond de Andrade revela que tudo o que foi dito pode ter sido escrito num momento em que estava bebendo – e que, além de ter a possibilidade de álcool ter intensificado a sua visão naquele momento, a bebida pode ter dado coragem para se expressar em seu poema.
  4. É por tudo isso que o “Poema de Sete Faces” só reforça a visão pessimista e negativa do homem, adotada por Drummond.
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“Gregório de Matos – poemas escolhidos” – análise da obra

Para entender a obra de Gregório de Matos é preciso conhecer o contexto histórico no qual ele está inserido, uma vez que grande parte de sua poesia (principalmente a satírica) faz alusão a duas de suas maiores referências: o Brasil e Portugal.

No final do século XVII, Portugal estava em decadência, sendo que o sistema escravocrata não conseguia mais sustentar a economia da Metrópole. Assim, Portugal impunha ao Brasil uma série de restrições comerciais a fim de conseguir vantagens.

Por conta disso, os senhores do engenho e proprietários rurais brasileiros passaram a enfrentar uma forte crise econômica.

Em contrapartida à crise do mercado de escravos e do engenho de açúcar, surge uma rica burguesia composta por imigrantes vindos de Portugal e que comandavam o comércio na colônia.

Esta rica burguesia dominou também o mercado de crédito e outros contratos reais.

Por conta do monopólio gerado por estes imigrantes, agravou-se a crise dos proprietários rurais brasileiros e a hostilidade entre esses dois grupos foi crescendo ao longo dos anos.

Gregório de Matos, como filho de senhor de engenho e bacharel em Direito, encontra-se em uma posição central neste cenário, tendo condições de pensar e analisar seu momento histórico sob diversas perspectivas.

Gregório de Matos, apesar de ter tido diversos cargos de poder, resolve desligar-se de tudo e viver à margem da sociedade como um poeta itinerante, percorrendo o recôncavo baiano e frequentando festas e rodas boemias.

Porém, mesmo distanciado da sociedade hipócrita a qual ele condena, ele também se insere nela, pois Gregório ainda depende da nobreza e vive à custa de favores deles. Ao mesmo tempo, ele encara o papel do portador de uma “voz crítica” sobre essa mesma sociedade na qual ele se insere.

Conforme explica José Wisnik, o poema satírico de Gregório de Matos é marcado por essa “briga” entre uma sociedade “normal” – que é a do homem bem nascido” – e outra “absurda” – que é composta por pessoas oportunistas, mas que estão instaurados no poder.

Porém, no caso de Gregório de Matos a “sociedade absurda” é real, pois é a Bahia onde ele vive; e a sociedade considerada “normal”, que é a dos homens bem nascidos e cultos, é absurda perante a realidade baiana. Assim, ambas são consideradas absurdas uma perante a outra.

Esse impasse é o da realidade histórica desse momento, coexistindo em um mesmo locas duas Bahia: uma “normal”, que é vista com ar nostálgico, e outra “absurda” e amaldiçoada.

Se de um lado existe a obra satírica de Gregório de Matos, onde ele expõe e critica sem nenhum pudor a sociedade da época, de outro lado há também a poesia lírica produzida por ele.

Seus poemas líricos são comumente divididos em: lírico-amorosos e burlescos/eróticos. Há ainda uma vasta produção de poemas com temática religiosa.

Porém, há de se ressaltar que a ironia e crítica social existente nos poemas satíricos não são deixados de lado em sua produção lírica e religiosa.

Na poesia amorosa e erótica de Gregório de Matos, o tema básico continua sendo o choque de opostos: “espírito” e “matéria”, “ascetismo” e “sensualismo”. Essa visão dualista também aparece na figura da mulher desejada, sendo que esta representa uma espécie de “anjo-demônio”.

É interessante notar que na obra de Gregório de Matos o “outro lado” em um par de opostos sempre irá conter um pedaço do seu par antagônico.

Ou seja, se tomarmos por exemplo a figura da mulher, quando ela aparece como um ser angelical, ela também terá uma parte demoníaca, e vice-versa.

Dessa forma, a poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos é construída em torno de contradições e pares de opostos, utilizando figuras de linguagens como o oximoro, que reforça essas contradições.

Porém, deve-se ter em mente que estas contradições não se anulam e a mensagem final que o poeta passa é de que “diferença é identidade”.

Já a poesia erótica de Gregório de Matos, na qual o poeta utiliza uma linguagem mais direta e explícita do que na lírico-amorosa, o amor carnal aparece como forma de libertação do corpo e, por consequência, do indivíduo também.

Por fim, tem-se a poesia religiosa de Gregório de Matos, que também é trabalhada constantemente através de pares de opostos.

O ambiente fortemente cristão do período barroco, faz-se presente aqui, onde os pares antagônicos da vez é a “culpa” versus “perdão”.

Gregório de Matos faz uso da poesia para se libertar e ela é a única forma possível de salvação para o poeta. Esta salvação não se dá somente entre o poeta e Deus, mas também perante a sociedade e si mesmo.

Poemas representativos
“A Jesus Cristo Nosso Senhor”
Este soneto é um dos maiores representantes da poesia sacra/religiosa de Gregório de Matos.

Segundo a crítica literária, este poema foi inspirado em outros poemas de autoria desconhecida já existentes em língua espanhola.

Outra inspiração do poeta foi é a passagem do evangelho de São Lucas, onde Jesus Cristo conta a parábola da ovelha perdida e conclui dizendo que “há grande alegria nos céus quando um pecador se arrepende de seus pecados e dá meia volta”.

Nesse soneto, a temática da “culpa” versus “perdão” aparece posta em xeque, pois o poeta utiliza da linguagem para conseguir seu perdão e salvação.

Enfrentando o poder divino, o eu-lírico pede para que Deus cobre os pecados cometidos por ele, pois quanto mais pecados ele comete, mais Deus se esforça para perdoa-los.

Assim, da mesma forma como o poder divino precisa perdoar, o pecador precisa pecar para poder ser perdoado.

Estruturalmente, o soneto é composto por 14 versos decassílabos com rimas no esquema ABBA, ABBA, ABC, ABC.

“Aos Afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem”
Este soneto faz parte da produção lírico-amorosa de Gregório de Matos. Estruturalmente é composto por 14 versos decassílabos com rimas ABBA, ABBA, CDC, DCD.

O poema é composto através de antíteses, figura de linguagem que aproxima pares de opostos, o que é uma marca da poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos.

A primeira parte do soneto, que é formada pelos dois quartetos, é marcada por um tom de lamentação onde o eu-lírico vive um embate entre “paixão” (simbolizado através de imagens como “fogo” e incêndio”) e “dor” (simbolizado por “neve” e “água”, remetendo à “lagrimas”).

Na segunda parte, o eu-lírico se indaga sobre a natureza contraditória do amor, fazendo lembrar a lírica do poeta português Camões (“Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói e não se sente”). A ideia de que “diferença é identidade” presente na poesia amorosa de Gregório de Matos se faz presente de modo exemplar nesse soneto.

“Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia”
Este soneto satírico é composto por versos decassílabos em esquema de rimas ABBA, ABBA, CDE, CDE.

A Bahia de outrora aparece com um tom nostálgico, e o poeta critica a degradação moral e econômico no qual a cidade se encontra no momento.

Os ladrões e oportunistas (comerciantes, etc) são os detentores do poder político e econômico, enquanto os trabalhadores honestos encontram-se na pobreza.

Esse tom nostálgico e de lamentação aparece também no famoso soneto “À cidade da Bahia”, em que vemos a decadência dos engenhos de açúcar e a ascensão de uma burguesia oportunista segundo o poeta.

Comentário do professor
O professor Gilberto Alves da Rocha (Giba), do Curso Apogeu de Curitiba (PR), comenta que existem dois pontos principais na obra de Gregório de Matos que devem ser observados pelo estudante.

O primeiro é o intenso conflito de ordem espiritual, típico do período barroco: de um lado, o Teocentrismo (teoria segundo a qual Deus é o centro do universo) e, de outro, o Antropocentrismo (segundo esta teoria, o homem é o centro do universo e este deve ser analisado de acordo com sua relação com o homem). Em sua poesia religiosa, Gregório consegue filtrar com maestria essa dualidade vivida pelo homem da época. Já o segundo ponto a ser observado, comenta o prof. Giba, é a linguagem do autor: assim como Gregório procura utilizar um vocabulário mais formal nos poemas líricos e religiosos, ele utiliza gírias e até termos de baixo calão nos poemas satíricos.

Pensando-se na prova do vestibular, o prof. Giba afirma que, por se tratar de obra poética, os aspectos formais (rima, métrica, vocabulário) são bastante explorados pelas bancas examinadoras e o aluno deve estar atento a questões desse tipo.

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Quanto aos temas tratados por Gregório de Matos, a temática do “carpe diem” (aproveitar o dia) está muito presente em sua poesia lírica, e é geralmente associada à ideia da efemeridade, um dos temas mais caros aos artistas barrocos. Por fim, o prof.

Giba lembra a importância de Gregório de Matos dentro da literatura brasileira, pois ele foi o primeiro artista brasileiro a filtrar os desmandos políticos e o cotidiano da Bahia, Capital da Província na época.

Sobre Gregório de Matos
Gregório de Matos Guerra nasceu no dia 7 de abril de 1633, na cidade de Salvador (BA).

Filho de um fidalgo português que se tornou senhor de engenho no Recôncavo baiano com uma brasileira, Gregório de Matos recebeu educação formal e se formou em Direito na Universidade de Coimbra, Portugal.

Embora não se saiba muito sobre sua vida, acredita-se que ele tenha chegado a trabalhar como juiz em Lisboa e tenha frequentado a Corte Portuguesa, conhecendo inclusive o rei D. Pedro II. Nesse período ele também teria se casado, mas ficou viúvo algum tempo depois e teria entrado em decadência junto ao reinado de D. Pedro II.

De volta a Salvador, Gregório de Matos trabalhou como Arcebispo e como tesoureiro-mór, mas foi desligado de suas funções por volta de 1683. A certa altura, casou-se com Maria dos Povos e vendeu as terras que havia recebido como herança.

Conforme conta-se, Gregório de Matos guardou todo o dinheiro conseguido com a venda em um saco dentro de casa e gastava tudo sem economizar.

Enquanto isso, trabalhava também como advogado e ficou famoso por escrever argumentações judiciais na forma de versos.

Após um tempo, Gregório de Matos largou tudo e tornou-se cantador itinerante pelo Recôncavo baiano, frequentando festas populares e convivendo com o povo.

Nesse período ele passa a escrever cada vez mais poesias satíricas e eróticas, o que lhe rendeu o apelido “Boca do Inferno”.

Além disso, ele escreveu diversas poesias de crítica política à corrupção e aos fidalgos locais, o que fez com que ele fosse deportado para Angola.

Gregório de Matos só pode voltar ao Brasil em 1695, mas com a condição de que ele abandonasse os versos satíricos e fosse morar em Pernambuco. Nessa altura da vida, ele volta-se para a religião e escreve diversos poemas pedindo perdão a Deus pelos pecados que cometeu. Falece em data incerta no ano de 1696 em Recife (PE).

Poesia, Poema e Prosa. Conhecendo o poema, a poesia e a prosa

Um simples questionamento emerge como sendo a mola propulsora dessa discussão que por ora travamos: poema ou poesia? Pode-se dizer que por mais que estes termos sejam utilizados de forma recorrente, muitos ainda acabam confundindo e achando que se trata de dois elementos sinônimos – concepção essa materializada de forma errônea, equivocada.

Pois bem, caro(a) usuário(a), gostaríamos de deixar bem claro que para entendermos acerca de tais definições, temos de estar cientes de um fato: existem aqueles textos em que prevalece o sentido denotativo da linguagem e aqueles em que o olhar subjetivo emerge por parte do emissor e do receptor, sobretudo.

Nesse sentido, equivale afirmar que poesia se refere àquela circunstância de comunicação em que prevalecem algumas intenções voltadas para a subjetividade, para as múltiplas interpretações.

Nesse ínterim, os recursos advindos do próprio emissor se tornam plenamente válidos, haja vista que o objetivo não é o de informar, instruir, mas sim o de entreter, provocar emoções, despertar sentimentos.

É o que chamamos de função poética da linguagem, pois nela prevalecem a sonoridade, a combinação das rimas, o jogo de palavras, o uso de figuras de linguagem, o uso de imagens, enfim. Partindo desse princípio, hemos de convir que a poesia se define como estado de alma, fruição, sentimentalismo.

De tal estado, ou seja, de tal intenção demarcada por parte de quem escreve, provém o que chamamos de poema, considerado, portanto, uma unidade da poesia.

Trata-se de uma construção que se difere daquela que convencionalmente costumamos encontrar em um texto em prosa, ou seja, caracterizada por um início, meio e fim através de parágrafos.

Ao constrário de tal construção, o poema se efetiva por meio de versos, os quais, uma vez reunidos, compõem o que chamamos de estrofe.  Lembrando que esses versos podem ser constatados como sendo cada linha do poema.

  •  Cremos, portanto, que tais elucidações tendem a se tornar ainda mais efetivas quando partimos  para exemplos concretos, os quais nos possibilitam demarcar a presença dos elementos já citados. Por isso, vejamos:
  • Soneto de separação
  • De repente do riso fez-se o pranto
  • Silencioso e branco como a bruma
  • E das bocas unidas fez-se a espuma
  • E das mãos espalmadas fez-se o espanto
  • De repente da calma fez-se o vento
  • Que dos olhos desfez a última chama
  • E da paixão fez-se o pressentimento
  • E do momento imóvel fez-se o drama
  • De repente não mais que de repente
  • Fez-se de triste o que se fez amante
  • E de sozinho o que se fez contente
  • Fez-se do amigo próximo, distante
  • Fez-se da vida uma aventura errante
  • De repente, não mais que de repente
  • Vinicius de Moraes

Deparamo-nos com uma construção poética demarcada por dois quartetos e dois tercetos,  o que nos faz dar conta de se tratar de um soneto. Nele verificamos a presença de outros elementos, tais como a sonoridade, a materialização das rimas, entre outros.

Agora, ao nos atermos a alguns textos, tais como o artigo de opinião, o editorial, os textos científicos de uma forma geral, entre outros exemplos, estamos, sem nenhuma dúvida, constatando que são textos escritos em forma de prosa, ou seja, são estruturados em parágrafos e possuem início, desenvolvimento e fim. Dados tais atributos, partimos então para um exemplo de artigo de opinião, sob a autoria de Lya Luft, colunista da revista Veja:

A BOA ESCOLA

Meu brilhante colega Gustavo Ioschpe, uma das mais lúcidas vozes no que diz respeito à educação, escreveu sobre o que é um bom professor. Eu já começava este artigo sobre o que acho que deva ser uma boa escola, então aqui vai.

Primeiro, a escola tem de existir. No Brasil há incrivelmente poucas escolas em relação à necessidade real.

Tem de existir escolas para todas as crianças, em todas as comunidades, as mais remotas, com qualidades básicas: não ultrapassar o número de alunos bem acomodados, e que eles não tenham de se locomover para muito longe; instalações dignas, que vão das mesas às paredes, telhado, pátio para diversão e recreio, lugar para exercício físico e esportes; instalações sanitárias decentes, cozinha para alimentar os que não comem suficientemente em casa; alguém com experiência médica ou de enfermagem para atender os que precisarem.

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Em cada sala de aula, naturalmente, uma boa prateleira com livros sem dúvida doados pelos governos federal, estadual, municipal. E que ali se ensine bem o essencial: aritmética, bom uso da linguagem, noções de história e geografia para que saibam quem são e onde no mundo se situam.

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Falei até aqui apenas de ensino elementar em escolas menos privilegiadas economicamente. Em comunidades mais resolvidas nesse sentido, tudo isso não será apenas bom, mas excelente, desde a parte material até professores muito bem preparados que sejam bem exigidos e bem pagos.

No chamado segundo grau, além de livros, quem sabe computadores, mas – ainda que escandalizando alguns – creio que esses objetos maravilhosos, que eu mesma uso constantemente, não substituem um bom professor. E que, nesse degrau da vida, todos sejam preparados para a universidade, desde que queiram e possam.

Pois nem todos querem uma carreira universitária, nem todos têm capacidade para isso: para eles, excelentes Escolas Técnicas, depois das quais podem ter mais ganho financeiro do que a maioria dos profissionais liberais.

Professores com mestrado e se possível doutorado, diretores que conheçam administração, psicólogos que conheçam psicologia, todos com saber e postura que os alunos respeitem a fim de que possam aprender.

Finalmente a universidade, que enganosamente se julga ser o único destino digno de todo mundo (já mencionei acima os cursos técnicos cada dia melhores e mais especializados). Universidade precisa existir, mas não na abundância das escolas elementares.

É incompreensível e desastrosa a multiplicação de faculdades de medicina, por exemplo, cujas falhas terão efeitos dramáticos sobre vidas humanas. Temos pelo país muitas onde alunos não estudam anatomia, pois não há biotério, não têm aulas práticas, pois não há hospital-escola. Essa é uma realidade assustadora, mas bastante comum, que, parece, se tenta corrigir.

Dessas pseudofaculdades sairão alunos reprovados nas essenciais provas do CRM, mas que eventualmente vão trabalhar sem condição de atender pacientes. Faculdades de direito pululam pelo país, sem professores habilitados, sem boas bibliotecas, formando advogados que nem escrever razoavelmente conseguem, além de desconhecer as leis e reprovados aos magotes nas importantíssimas provas da OAB.

Coisa semelhante aconteceria com faculdades de engenharia mal preparadas, se existirem, de onde precisam sair profissionais que garantam segurança em obras diversas, de edifícios, casas, estradas, pontes.

Vejam que aqui comentei apenas alguns dos inúmeros cursos existentes, muitos com excelente nível, mas não se ignorem os que não têm condições de funcionar, e mesmo assim… existem. Em todas essas fases, segundo cada nível, incluam-se professores bem preparados, muito dedicados, e decentemente pagos – professor não é sacerdote nem faquir.

O que aqui escrevo é mero, simples, bom-senso. Todos têm direito de receber a educação que os coloque no mundo sabendo ler, escrever, pensar, calcular, tendo ideia do que são e onde se encontram, e podendo aspirar a crescer mais.

Isso é dever de todos os governos. E é nosso dever esperar isso deles.*

A noção que pode ser extraída do exemplo dado é que a forma como se estrutura o discurso resulta em um início, depois parte para um desenvolvimento das ideias, chegando, enfim, a uma conclusão. Constatamos, dessa forma, um dos inúmeros exemplos de texto em prosa, ou seja, um texto que se estrutura em parágrafos.

  1. Lembrando, contudo, que na linguagem literária, ou seja, aquela em que prevalece o sentido conotativo, podemos encontrar a forma prosaica, mas nem por isso ela deixa de assumir o caráter poético, como é o que ocorre num conto, num romance, numa novela literária, enfim.
  2. * Texto disponível em Veja – Como deve ser uma boa escola
  3. Por Vânia Duarte
  4. Graduada em Letras

Poesia: Versos, estrofes, métrica

  • Poesia visual
  • Versificação

O que é poesia? Qual a diferença em relação à prosa? Essas são questões centrais para os estudiosos de literatura. A palavra vem do grego poiésis, criação, fabricação.

O poema é uma obra de arte e tem valor permanente. No poema a seguir, o poeta latino Catulo, traduzido por Haroldo de Campos, cantou o amor.

Vivamos, minha Lésbia, e amemos, e as graves vozes velhas – todas – valham para nós menos que um vintém. Os sóis podem morrer e renascer: quando se apaga nosso fogo breve dormimos uma noite infinita. Dá-me pois mil beijos, e mais cem, e mil, e cem, e mil, e mil e cem. Quando somarmos muitas vezes mil misturaremos tudo até perder a conta: que a inveja não ponha o olho de agouro no assombro de uma tal soma de beijos.

Algumas definições de poesia referem-se à emoção, à beleza, à concisão, à perfeição da elaboração poética, ao sintetizar uma experiência universal. O escritor italiano Umberto Eco define a poesia de uma forma simples e eficaz:”Poesia é aquela coisa que muda de linha antes que a página tenha terminado.”

  • :: VEJA IMAGENS DE GRANDES POETAS ::
  • Escritura contínua

O verso, portanto, define a poesia, por oposição à prosa – basicamente, é cada uma das linhas que ocupa a poesia. A prosa é uma escrita contínua, sem pausas, métrica ou ritmo. A prosa é o veículo natural das narrativas, como o conto, a novela ou o romance.

  1. Apesar disto, certas obras narrativas, como a Odisseia ou a Ilíada, de Homero, foram escritas em versos.
  2. Segundo o poeta norte-americano Ezra Pound, há três grandes formas de a linguagem se carregar de significado:

Também existem poemas em prosa. Embora sejam escritos em prosa, têm todas as características da poesia, como os temas, o estilo e a inspiração.Podemos dizer que o poema é uma obra fechada em si mesma, curta e escrita em versos. O poema tem uma relação direta e intensa com a língua em que é escrito; nele, a informação aparece condensada, o significado está tensionado.

  • Induzindo correlações emocionais pelo som e pelo ritmo (“melopeia”);
  • Trazendo um objeto para a imaginação visual (“fanopeia”);
  • Produzindo associações emocionais e intelectuais (“logopeia”). Escrita métrica O verso é uma escrita métrica. Ele pode ser medido. Nas línguas clássicas, como o grego e o latim, a medida dos versos é indicada pela alternância de sílabas longas e breves.Em português, a medida de um verso é indicada pelo número de sílabas que ele apresenta. Os dois primeiros versos do poema Bilhete, do poeta gaúcho Mário Quintana, apresentam dez sílabas, isto é, são decassílabos.A contagem das sílabas métricas vai apenas até a última sílaba tônica do verso.
    Se/ tu/ me/ a/ mas,/ a/ ma/ -me/ bai/ xi/ nho
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
    Não/ o/ gri/ tes/ de/ ci/ ma/ dos/ te/ lha/ dos
    1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

    Estrofe Um conjunto de versos chama-se “estrofe”. Um soneto, por exemplo, é um poema que apresenta quatro estrofes – dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos).Para conhecer a estrutura interna de um poema, é importante conhecer o número de estrofes e o número de versos em cada estrofe.Os efeitos rítmicos também podem ser obtidos através de rimas, estribilhos, repetições e variações de sons. Há uma infinidade de recursos que criam a sonoridade peculiar de um poema. Sons e imagens O poeta se comunica por sons e por imagens. Ele percebe e cria relações entre o que vê, imagina, sente e pensa. Ele estabelece comparações e contrastes e cria imagens e analogias, isto é, procura semelhanças e diferenças entre as coisas. A linguagem poética tem um grande poder de evocação, de criar novas realidades. Eu lírico Por fim, é importante lembrar que não é o próprio autor que se expressa no poema, mas sim um “Eu poético” ou “Eu lírico”. O Eu poético também é uma criação literária, uma ficção.Mas afinal o que é poesia? O poeta Manuel Bandeira assim se expressou:”Compreendi que a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia.”

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