Como apoiar um amigo que tentou cometer suicídio

Como Apoiar um Amigo que Tentou Cometer Suicídio

Algumas frases não devem ser ditas para pessoas que estão em sofrimento intenso e pensam em suicídio. Foto: Pixabay

Alguns temas ainda fazem parte de um tabu na sociedade brasileira. Suicídio é um deles. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, com a criação do ‘Setembro Amarelo’, as pessoas estão mais abertas para o assunto e ações preventivas estão cada vez mais presentes. Conheça como surgiu a campanha clicando aqui.

  • No entanto, ouvir de um amigo, colega de trabalho ou de um familiar que a pessoa pensa em se matar pode ser surpreendente e há quem não consiga lidar com a situação.
  • A melhor dica é ouvir quem está em sofrimento, sem julgamentos
  • “Expressões que diminuem o que a pessoa sente como “isso não é nada”, “tem gente em situação pior” ou fazer que se sinta ainda mais culpada como “foi você quem procurou isso” devem ser evitadas porque esse é um momento em que o paciente precisa de acolhimento e não de repreensão”, avalia a psicóloga Elaine Di Sarno, especialista em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq-HC).

Como Apoiar um Amigo que Tentou Cometer Suicídio

Ouvir mais e falar menos: acolhimento é melhor maneira de lidar com pessoas que não desejam mais viver. Foto: Pixabay

O diálogo e a transparência são elementos fundamentais na prevenção do suicídio.

“As teorias recentes defendem que pode haver uma predisposição individual para o suicídio, que é ativada ao longo da vida por experiências negativas precoces (experiências traumáticas) que vão dar origem a um padrão de pensamento negativo.

Os números apontam-nos um grande culpado. Mais de 50% das pessoas que se suicidaram sofriam de depressão”, afirma Elaine Di Sarno. 

Situações de separação, divórcio, luto recente, solidão, desemprego, mudança ou perda recente de trabalho, problemas escolares ou laborais, doença grave ou crônica e dependência de drogas e álcool podem, efetivamente, resultar numa resposta negativa e levar ao suicídio.

O que explica a ideação suicida?

Muitas pessoas que pensam sobre o assunto têm a sensação de desesperança e que a única solução disponível seria a morte. “O suicídio é o ato mais individual do ser humano. Contudo, como qualquer fenômeno humano, implica um entendimento bio e psicossocial.

O isolamento, a sensação de desintegração social e de não pertença detêm um peso significativo na decisão suicida.

Quando ajudadas a tempo, as pessoas podem entender que há outras formas de resolver as suas circunstâncias e que há quem se encontre empenhado em ajudá-las”, avalia a psicóloga.

Ouvir mais e falar menos: frases que não devem ser ditas 

Se alguém te procurar e der sinais de que pensa em suicídio, além da acolhida e oferecer ajuda, jamais diga frases que podem piorar o sofrimento dessa pessoa. Confira:  

“Sua vida é melhor do que a de muita gente”: Não existe disputa para saber quem sofre mais do que o outro. A sensação de desesperança é individual e intransferível.

“Pense positivo”: Só a positividade não é capaz de motivar o indivíduo na busca por sobrevivência. Apenas não diga isso.

“Se você confiar em Deus, você cair na real”: A religiosidade pode ter importância na vida de algumas pessoas, mas isso não é unanimidade. Pense que o sofrimento está além da espiritualidade.

“Mas por que você está pensando em se matar?”: Essa frase, dita em tom 'especulativo', pode estar carregada de julgamento e ser devastadora para quem se sente na obrigação de dar explicações, mesmo sem ter um motivo aparente para pensar em suicídio. No lugar, prefira perguntar: “Você gostaria de falar mais sobre isso?”, em tom acolhedor.

“Por que você vai se matar por causa dele (a)? Não vale à pena”: Essas duas sentenças, embora pareçam desprezar o que seria o motivo do sofrimento, fazem com que a pessoa tenha o sentimento desvalorizado.  

“Eu conheço muita gente que pensa em se matar também, mas não faz nada”: Esse é o conhecido mito de que “quem quer se matar, não avisa”. Especialista são unânimes em avaliar que o indivíduo em sofrimento distribui sinais de que pensa em suicídio. Cabe a sociedade aprender a identifica para ajudar.

“Eu também já pensei em suicídio, mas eu sou uma pessoa forte e consegui superar”: Dizer que você é forte e que, por isso, superou o pensamento suicída não contribui para aliviar o sofrimento alheio.

“Quem pensa em suicídio tem a mente fraca”: Não existe “mente fraca” ou “mente forte”. Cada indivíduo enfrenta problemas emocionais de maneira peculiar. Não julgue.

Suicídio entre jovens e a prevenção

Em junho, o Centro de Valorização da Vida (CVV) lançou, com apoio do Unicef, uma série de vídeos para reduzir os crescentes índices de suicídio entre jovens e adolescentes no Brasil. O material tem curadoria de especialistas em saúde mental, como o psiquiatra da Unicamp Neury Botega, da psicóloga Karen Scavacini e de integrantes das instituições. 

Assista ao vídeo:

 

Suicídio entre profissionais de segurança pública

O Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) divulgou um relatório inédito na última segunda, 26, sobre o índice de mortes entre policiais civis e militares em São Paulo. Os dados inéditos mostram que o número de suicídios entre agentes de segurança no Brasil mais que dobrou em 2018.

Na Polícia Militar, os suicídios consumados e as tentativas de suicídio se destacaram.

Na Polícia Civil, o homicídio seguido por suicídio (H/S) foi a categoria de análise que teve maior representatividade: dos 25% dos casos relatados envolvendo policiais civis são homicídios seguidos de suicídio. As mortes de policiais civis por causa indeterminada correspondem a 12%, o terceiro maior percentual do total.

A maior parte das vítimas é do sexo masculino com a idade média de 39 anos e exerce funções operacionais. A arma de fogo foi o principal meio utilizado.

Sobre as possíveis motivações para suicídio entre agentes de segurança está os problemas relacionados à saúde mental, de acordo com relatos de parentes e amigos das vítimas.

Familiares e amigos podem ajudar

Os familiares podem e devem falar sobre o assunto. O objetivo é tentar avaliar o que está se passando com a pessoa, mas nunca em tom de 'interrogatório'. É preciso ter uma abordagem acolhedora e sem nenhum tipo de preconceito, em um local adequado, de preferência confortável. 

“O desejo de se matar precisa deixar de ser tabu para ser sintoma de sofrimento psíquico. É preciso ter disponibilidade para mostrar que nos preocupamos de verdade.

É fundamental ouvir com atenção e respeito, sem julgamento ou censura e sem preleções morais ou religiosas. É preciso respeitar a dor do outro.

Muitas vezes, podemos achar a motivação banal, mas cada um sente e se angustia com as coisas de forma particular”, conclui a psicóloga Elaine Di Sarno.

Lima Duarte faz campanha sobre Setembro Amarelo

Busque ajuda

No Brasil, o CVV oferece atendimento voluntário e gratuito 24 horas por dia a quem está com pensamentos suicidas ou enfrenta outros problemas. “Mesmo que você não tenha certeza de que precisa de nossa ajuda, não tenha receios em entrar em contato com a gente. Um de nossos voluntários estará à sua disposição”, explica a equipe do site.

A organização, uma das mais antigas do País, atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio por meio do telefone 188 e também por chat, e-mail e pessoalmente. Confira as opções aqui.

14 formas de ajudar uma pessoa que tem pensamentos suicidas

Como Apoiar um Amigo que Tentou Cometer SuicídioFoto Shutterstock

Falando sobre sentimentos de desesperança. Recusando-se a fazer planos futuros. Insinuando sobre como poderia tirar sua própria vida. Esses são apenas três sinais de uma pessoa que tem pensamentos suicidas.

É assustador, mas com o suicídio sendo a décima principal causa de morte nos Estados Unidos, de acordo com a American Foundation for Suicide Prevention (ASFP), essa possibilidade não é algo que você pode (ou deveria) ignorar.

“A maioria das pessoas que são suicidas é ambivalente. Mesmo até uma tentativa real, eles têm uma verdadeira mistura de desejos de vida e morte”, diz Michael F. Myers, professor de psiquiatria clínica no SUNY Downstate Medical Center (EUA). “É por isso que acreditamos que qualquer tipo de intervenção pode salvar vidas.”

Algo para ter em mente: há muita coisa que você possa fazer quando alguém que você ama tem pensamentos suicidas. E nunca é exclusivamente sua responsabilidade garantir que eles permaneçam seguros. Contudo, se essa pessoa está desistindo ou fazendo planos para ir embora, há maneiras de tentar ajudar.

1. Pergunte a eles sobre isso

Um mito da prevenção do suicídio é que falar sobre isso pode aumentar o risco de alguém realmente tirar a própria vida, mas isso não é verdade. “A realidade é que qualquer pessoa com uma depressão significativa tem pensamentos de morte e suicídio em um simples desejo de acabar com sua miséria”, diz a psicóloga clínica Alicia H. Clark (EUA).

Em vez de evitar o assunto, ela recomenda perguntar (com compaixão) se as coisas estão tão ruins que eles pensam sobre a morte ou o fim da vida. Dependendo da resposta, Clark recomenda estar preparado para acompanhar perguntas como o que eles pensaram em fazer e por quê.

2. Diga-lhes o quanto você os ama

“Ser contatado por alguém que se preocupa pode ir muito longe para limitar o isolamento e o desamparo que uma pessoa com depressão suicida pode sentir”, diz Clark. “Permitir que um ente querido saiba o quanto você se importa com ele e oferecer ajuda pode ser uma tábua de salvação importante para mantê-lo seguro”, completa.

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3. Tente tirá-los de casa e fazer as coisas

As pessoas que são suicidas geralmente param e deixam de fazer coisas que gostam. É por isso que Mayer recomenda incentivar a pessoa a continuar fazendo coisas que sempre gostou. “Também é uma boa ideia tentar incentivá-la a experimentar novas atividades e experiências, diz Mayer.

4. Incentive-os a procurar ajuda

Você pode pesquisar bons psicólogos ou pedir alguma indicação, além de os acompanhar até algum compromisso. Se eles relutam em procurar ajuda, Mayer diz que não há nada de errado em dizer incentivos como “faça essa avaliação – é uma visita” ou “faça isso para seus amigos e entes queridos”.

Se ele teve uma experiência ruim com o aconselhamento, Mayer diz que é importante encorajá-lo a não desistir. “Isso é crítico, porque muitas vezes um profissional não qualificado que diz a coisa errada ou não oferece qualquer alívio só piora as coisas, porque então a pessoa suicida sente que ninguém pode ajudá-la”, diz Mayer.

5. Leve-os ao hospital

“Se parece que seu ente querido tem um plano, tente levá-lo ao pronto-socorro e espere enquanto ele é avaliado”, diz Myers. “Este é um passo importante para ajudar alguém que está pensando seriamente em tirar a própria vida, diz Clark.

6. Dê-lhes algumas responsabilidades

“Quando um ente querido está deprimido, seu instinto pode ser assumir suas responsabilidades por ele, mas, embora isso possa ser apropriado em algumas circunstâncias – por exemplo, cuidar de seus filhos enquanto vão à terapia – saber que os outros dependem deles pode realmente ajudá-los a resistir a impulsos suicidas”, diz Neeraj Gandotra, psiquiatra instrutora da Johns Hopkins University School of Medicine (EUA).

“Essas responsabilidades devem ser convincentes, mas não esmagadoras”, explica Gandotra. Você pode, por exemplo, pedir a elas que assumam responsabilidades do jantar algumas vezes por semana.

“Isso ajudará seu ente querido a ver que você confia neles, que eles acrescentam muitas coisas que valem a pena para sua vida, que eles podem fazer contribuições significativas e que você os aprecia”, acrescenta.

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7. Ajude-os a encontrar seu lado espiritual

“Ter um senso de espiritualidade mostrou ser protetor contra pensamentos e impulsos suicidas”, conta Gandotra.

O que a espiritualidade significa e como você a pratica parecerá diferente de pessoa para pessoa, então converse sobre o que a faz se sentir bem e conectada a outras pessoas e ao universo.

Incentive-os a ir a um culto na igreja, a um retiro ou a algum outro lugar que os faça sentir ligados à humanidade, a Deus ou simplesmente a algo maior que eles mesmos.

8. Faça um plano de vida juntos

Um dos sintomas mais preocupantes da tendência suicida é quando a pessoa amada faz um plano de como se machucaria. “Primeiro, leve este sinal muito a sério e peça ajuda imediatamente”, diz Mayra Mendez, psicoterapeuta licenciada e coordenadora do programa do Centro de Desenvolvimento da Criança e da Família de Providence Saint John (EUA).

“Em seguida, contrarie seu “plano de morte”, ajudando-a a fazer um plano de vida”, orienta. “A única coisa que as pessoas suicidas precisam mais é a esperança. Mostrar o que eles têm para viver pode ajudar a trazer isso de volta.”

9. Jogue o jogo “e se”

É comum as pessoas suicidas dizerem coisas como “todo mundo ficaria melhor se eu fosse embora” ou “eu sou maluco e não há como consertar minha vida”. Argumentar com esses sentimentos pode deixá-lo preso em uma batalha interminável de palavras.

Em vez disso, Gandotra orienta desafiar sua percepção, invertendo-a. “Pergunte a eles: ‘O que você diria para mim ou para uma criança se eu dissesse que não vali nada e que minha vida foi um desastre?'”. Incentive-os a mostrar o mesmo amor e gentileza que eles gostariam de você, de si mesmos também.

10. Não minimize qualquer conversa ou comportamento auto-prejudicial

É compreensível querer menosprezar o comportamento errático ou ofensivo de um ente querido – ninguém quer pensar que ele está mesmo pensando em se suicidar. “Contudo, ignorar as bandeiras vermelhas só piora a situação”, diz Gandotra.

“Não o minimize quando eles falam em se machucar ou você vê evidências de comportamentos de auto-agressão, como corte ou uso de drogas”, ressalta. Isso significa não desdenhar como “você não quer dizer isso”, quando um ente querido sugere que eles podem se machucar.

Em vez disso, Gandotra recomenda que você “fale sobre isso abertamente e deixe que eles saibam que você leva isso muito a sério”.

11. Construa uma equipe de suporte para quando você não estiver por perto

Como ninguém pode assumir sozinha uma tarefa tão gigantesca, Mayer recomenda construir uma rede de amigos e familiares que saiba continuamente onde está o seu ente querido para que ele esteja seguro.

“Para ajudar tanto seu amigo quanto você, recrute outros amigos e familiares para formar uma rede de apoio e amor”, diz Mendez. “Quanto mais pessoas se importarem com elas, melhor”, completa.

“Para evitar que a pessoa sinta que estão fofocando sobre ela pelas costas, faça com que ela participe do processo de conversar com os outros.” Se você não puder se encontrar pessoalmente, poderá fazer uma chamada em conferência, um e-mail ou um texto em grupo. Mas faça o que for, não poste sobre isso nas mídias sociais – isso pode provocar sentimentos de vergonha em um espaço público.

12. Não subestime gritos por atenção

“Todos os humanos precisam de atenção positiva. As pessoas que são suicidas muitas vezes tiveram experiências de vida difíceis ou traumáticas. Portanto, elas podem estar pedindo ajuda da melhor maneira que sabem”, diz Gandotra.

Não os permita tomar decisões erradas ou deixar que eles o manipulem. A melhor coisa a fazer é mostrar que você os ouve e ajudá-los a obter ajuda profissional. Depois, deixe a terapia para os profissionais.

13. Ofereça ser seu contato de emergência

Você sabe a caixa de remédios que tem o nome e número de telefone de uma pessoa que o médico pode contatar em caso de emergência? Coloque suas informações lá nos formulários do seu ente. “Pessoas deprimidas sentem que ninguém se importa com elas e elas não têm a quem recorrer. Esta é uma maneira simples de mostrar a eles que não estão sozinhos”, diz Gandotra.

14. Procure por sinais de que estão se preparando para a partida

Antes de tentar tirar a própria vida, algumas pessoas com pensamentos suicidas se prepararão chamando seus entes queridos, entregando seus pertences, escrevendo cartas ou fazendo um testamento.

“Alguns sinais podem ser muito sutis, então fique de olho em qualquer mudança que possa indicar que eles estão se preparando para ir além do estágio de planejamento”, diz Mendez. “Não tenha medo de mencionar os comportamentos que o preocupam e perguntar sobre eles, enquanto expressa seu amor e preocupação”, acrescenta.

Por fim, se você ou alguém que você ama está lutando com pensamentos suicidas, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida através do número 188.

Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca, EPE

Como Apoiar um Amigo que Tentou Cometer Suicídio

Apesar de ainda ser um assunto tabu na nossa sociedade, o suicídio encontra-se entre as 10 principais causas de morte em Portugal e em todo o mundo. No nosso país, anualmente, suicidam-se cerca de 1000 pessoas, com maior incidência em pessoas com mais de 64 anos e na região Alentejo.

As tentativas de suicídio são mais frequentes nas mulheres (envenenamento é um dos métodos mais utilizados), mas os homens são mais propensos a completá-lo, porque normalmente usam métodos mais eficazes e mais potencialmente letais (armas).

No suicídio, tal como noutras doenças mentais, o mais fácil é olhar para o lado e mascarar a realidade. Mas todos temos o dever de estar informados sobre o problema e unir esforços para ajudar quem se encontra em sofrimento.

Reconhecer os sinais de alerta

Os sinais de alerta variam de acordo com a personalidade de cada um, mas costumam seguir um padrão. Conhecer estes sinais permite intervir a tempo e, quem sabe, salvar vidas.

  1. Mudanças de comportamento, como por exemplo deixar de praticar algum hobbie, deixar de cuidar da aparência.
  2. Mudanças de humor drásticas: tristeza, sensação de vazio, irritabilidade, sentimentos fortes de culpa ou vergonha
  3. Falar sobre suicídio – por exemplo, dizer expressões como “Vou-me matar”, “A minha vida não tem sentido”, “Estariam melhor se eu desaparecesse”, “Não aguento mais viver assim”, “Não vejo nenhuma saída/luz ao fundo do túnel”, “Ninguém me entende” ou “Quero morrer”.
  4. Melhorias ou períodos de calma súbitos: a pessoa aceitou a decisão de cometer suicídio e pode simular uma melhoria para levar a cabo o plano.
  5. Faltar ao trabalho ou à escola. A pessoa que está em sofrimento intenso isola-se e passa a faltar ao trabalho, à escola ou à faculdade. Apesar de ser visto como «irresponsabilidade», trata-se de um sintoma de sofrimento grave e independente da idade.
  6. Adquirir meios para acabar com a própria vida, como comprar uma arma ou comprimidos
  7. Dizer adeus às pessoas como se não fosse vê-las novamente
  8. Tentar resolver assuntos pendentes: pode indicar a existência de um plano para cometer suicídio
  9. Ameaças: a maior parte das pessoas que pensa cometer suicídio avisa alguém próximo. Este aviso não deve ser ignorado ou encarado apenas como uma forma de chamar a atenção.
  10. Aumento do consumo de bebidas alcoólicas, drogas e remédios. O consumo excessivo de bebidas alcoólicas, remédios e drogas são agravantes para uma pessoa com tendências suicidas. O ato suicida, apesar de envolver um plano, acontece num momento de impulso.
  11. Tentativas anteriores: muitas vezes, os suicídios são precedidos por tentativas anteriores.

Fatores de risco

  • Perda de um ente querido, ruturas, problemas financeiros ou legais.
  • Problema de abuso de substâncias (drogas, álcool, ou comprimidos)
  • Acesso a armas ou outros letais
  • Histórico familiar de transtornos mentais, suicídios, violência, abuso físico ou sexual.
  • Transtorno psiquiátrico, como a depressão grave, stress pós-traumático ou transtorno bipolar.
  • Ter doenças crónicas, dor crónica ou doença terminal.

As intenções ou pensamentos suicidas devem ser sempre levados a sério.

É importante manter-se próximo, informar outras pessoas próximas e estar atento.

A depressão, «o bicho» que mata

A depressão é a doença que mais contribui para as mortes por suicídio, a chegarem aos 800 mil por ano em todo o mundo. O suicídio é mesmo a segunda principal causa de morte em pessoas dos 15 aos 29 anos. O mesmo não se verifica em Portugal, onde é mais comum em pessoas mais idosas, nomeadamente com doenças crónicas incapacitantes e que vivam sós.

Atenção redobrada a uma alegria sem explicação

Doentes com depressão severa e que planeiam o suicídio podem simular uma melhora repentina. Portanto, se uma pessoa muito deprimida se mostrar subitamente feliz, é importância acompanhá-la para garantir que não vá tentar tirar a própria vida.

Como ajudar e prevenir o suicídio

  • Quando suspeita que alguém possa estar com pensamentos suicidas, o importante é tentar entender o que está a acontecer e quais os sentimentos associados.
  • Não tenha medo de perguntar à pessoa porque é que a pessoa está triste, deprimida e se está a pensar em suicídio.
  • De seguida, procura a ajuda de um profissional qualificado (psicológico ou psiquiatra).
  • Uma boa opção é ligar para a SOS Voz Amiga – primeira linha telefónica em Portugal de apoio em situações agudas de sofrimento -, pela linha verde gratuita 800 209 899, que funciona entre as 21 e as 24 horas.

A maioria das tentativas de suicídio são impulsivas, por isso, é importante retirar todo o material que possa ser utilizado pela pessoa para se suicidar (facas, armas ou comprimidos) dos locais onde passa mais tempo.

Essa precaução evita comportamentos de impulsividade e faz com que tenha mais tempo para pensar numa solução menos agressiva para os problemas.

*Os conteúdos são informativos e não pretendem substituir pareceres de cariz profissional e científico.

Setembro Amarelo: como conversar com alguém que está pensando em cometer suicídio

Quase 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), e essa é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, atrás apenas de acidentes de trânsito.

São estatísticas alarmantes – no entanto, é um assunto pouco discutido, segundo a própria OMS.

Por mais solitário que esse ato extremo possa parecer, ele afeta filhos, pais, maridos e mulheres, amigos e colegas.

Um estudo americano publicado no ano passado diz que, para cada pessoa que se mata, o efeito pode chegar a impactar 135 outras.

A professora Julie Cerel, da Universidade do Kentucky, também percebeu que impacto não depende só de laços familiares, mas da proximidade com a pessoa que se matou.

Falar sobre o assunto é sempre um desafio. No Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio – e neste Setembro Amarelo – a BBC fala sobre as melhores formas de conversar com alguém que está pensando em suicídio.

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Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a conversa sobre suicídio é uma conversa difícil, dizem especialistas. — Foto: Unsplash

Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a conversa sobre suicídio é uma conversa difícil, dizem especialistas. — Foto: Unsplash

Não há certo ou errado ao conversar sobre pensamentos suicidas, o importante é começar a conversa, diz à BBC Emma Carrington, porta-voz da entidade de combate à doenças mentais Rethink UK.

“Em primeiro lugar é preciso reconhecer que é uma conversa difícil. Não é uma conversa que temos todos os dias. Então, você vai ficar nervoso e isso é normal. O importante é ouvir e não julgar.”

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Conselhos para conversar com alguém com pensamentos suicidas:

  • Escolha um lugar calmo onde a pessoa sinta-se confortável
  • Garanta que vocês dois terão tempo suficiente para conversar
  • Se você disser a coisa errada, não entre em pânico; não seja duro demais consigo mesmo
  • Foque na outra pessoa, faça contato visual, ponha o telefone de lado – dê sua atenção total à outra pessoa
  • Seja paciente, podem ser necessárias várias tentativas até a pessoa estar pronta para se abrir
  • Use perguntas abertas que precisam de respostas que sejam mais do que um sim ou um não
  • Não sinta que precisa preencher todos os silêncios com conselhos e com palavras: às vezes a pessoa está tomando coragem para falar e precisa de um tempo
  • Não interrompa ou ofereça uma solução para todos os problemas, o importante é ouvir
  • Não empurre suas próprias ideias sobre como a pessoa deve estar se sentindo
  • Verifique se a pessoa sabe onde e como obter ajuda profissional

Fontes: Samaritans, entidade britânica de apoio à saúde mental

O suicídio afeta pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, mas globalmente o índice de suicídio entre homens é mais alto.

Em 2016, a taxa e suicídio entre homens era de 13,5 a cada 100 mil, enquanto entre mulheres era de 7,7 por 100 mil.

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Taxa de suicídios é maior entre homens, diz OMS. — Foto: Pixabay

Taxa de suicídios é maior entre homens, diz OMS. — Foto: Pixabay

A proporção entre homens e mulheres, no entanto, varia de país para país.

A Rússia tem o índice mais alto de suicídio entre homens (48 a cada 100 mil em 2016), seis vezes maior do que a taxa entre as mulheres.

A ligação entre o suicídio e doenças mentais (principalmente depressão e alcoolismo) é bem documentada.

Mas muitos casos acontecem impulsivamente em momentos de crise, quando as pessoas têm surtos diante de estresses, problemas financeiros, separações, dores ou doenças.

Os índices são altos entre populações rurais e entre grupos que sofrem discriminação, como refugiados e migrantes, indígenas, pessoas LGBT e presidiários.

De acordo com a OMS, pessoas que passaram por conflitos armados, desastres, sofreram abusos, perdas, violências ou sentem isolamento também estão em risco.

“Uma pessoa pode se sentir isolada mesmo que esteja cercada de pessoas. A pessoa pode estar passando por dificuldades financeiras. Todas essas coisas podem se acumular”, diz Carrington, da Rethink UK.

“A não ser que tenhamos o apoio das pessoas ao nosso redor, pode se tornar opressivo”, afirma.

O que a sociedade pode fazer?

A OMS diz que os governos podem tomar diversas medidas para prevenir o suicídio, incluindo:

  • Quebrar o tabu e falar sobre o assunto
  • Ajudar jovens a desenvolver habilidades úteis para lidar com as pressões da vida, especialmente nas escolas
  • Treinar profissionais de saúde para lidar com comportamento suicida
  • Identificar e apoiar pessoas em risco e manter contato com elas no longo prazo
  • Restringir o acesso a instrumentos letais

Organizações de saúde mental tentam acabar com o que dizem ser um mito comum: o de que conversar com as pessoas sobre suicídio vai incentivá-las a tirar suas próprias vidas.

De acordo com a organização australiana Beyond Blue, da ex-primeira-ministra Julia Gillard, ter a liberdade de conversar sobre o assunto pode ajudar a restaurar a esperança das pessoas que estão tendo pensamentos suicidas.

“Você não precisa ser um profissional de saúde para apoiar alguém que está em risco. Só precisa ser alguém que está preparado para ter a conversa”, diz Gillard, da Beyond Blue.

Embora a ajuda profissional seja essencial, e o único método seguro para que a pessoa faça terapia e consiga remédios, Carrington diz que conversar sobre a morte e sobre os pensamentos suicidas com alguém próximo pode ajudar a pessoa a se sentir segura no curto prazo.

Ela afirma que é importa mostrar que você não está julgando e conversar sobre o presente.

“Se você está preocupado com alguém, pergunte sobre como a pessoa está se sentindo hoje, insista nisso. Ajuda usar a palavra 'hoje', porque se a pessoa está se sentindo muito sobrecarregada por suas emoções, não parece uma pergunta muito assustadora”, diz Carrington.

“Com frequência leva mais de uma conversa para alguém se abrir sobre suicídio. Você precisa construir confiança com a pessoa, para que ela sinta que você não vai julgar”, afirma.

Se ao fim da conversa você sentir que a pessoa ainda está muito mal, tendo dificuldade para lidar com sua situação, provavelmente é uma boa ideia checar se a pessoa sabe como conseguir ajuda, quer seja através de uma conversa com outra pessoa ou com um profissional.

Algumas perguntas perguntas úteis podem ser:

  • Você já conversou com mais alguém sobre isso?
  • Você gostaria de procurar ajuda?
  • Gostaria que eu fosse com você?
  • Há alguém em quem você confia que possa procurar?
  • Se ajudar, você pode falar comigo quando precisar.

É importante que, se você também estiver se sentindo sobrecarregado com a situação de estar oferecendo apoio para alguém com pensamentos suicidas, também procure ajuda e apoio. E se, algo por acaso acontecer com a pessoa, lembre que não é culpa sua.

Você pode indicar para a pessoa que ligue para o Centro de Valorização da Vida (188) quando precisar de mais apoio – e também pode ligar caso precise.

O que posso fazer para ajudar quem pensa em suicídio? – CVV | Centro de Valorização da Vida

Pode ser que, em algum momento de nossas vidas, desconfiemos de que alguém próximo está pensando em suicidar-se em decorrência de um grande sofrimento.

Diante dessa situação, o sentimento de impotência pode se fazer presente, fazendo-nos acreditar que não há como intervir, uma vez que a pessoa parece já ter decidido encerrar a própria vida. Entretanto, ao contrário do que o senso comum tende a reproduzir, existem diversas maneiras de auxiliar essa pessoa.

Se há uma desconfiança, é importante que se converse diretamente com a pessoa que está sofrendo. Um diálogo aberto, respeitoso, empático e compreensivo pode fazer a diferença. Procurar saber como a pessoa está, o que tem feito ultimamente, como está se sentindo.

O foco da conversa deve ser o outro, portanto, não é recomendável: falar muito sobre si mesmo, oferecer soluções simples para os problemas que a pessoa relatar e desmerecer o que ela sente.

Essa conversa pode obter melhores resultados se for feita em um lugar tranquilo, sem pressa, respeitando o tempo da pessoa para se abrir.

Caso a pessoa se sinta à vontade para compartilhar o seu sofrimento, não é indicado: rechaçar (“Credo, isso é pecado!”), esboçar expressões de choque (“Não acredito que você tá pensando nisso!”) e reprimir, caso o choro venha (“Pra que chorar? Você sempre teve tudo do bom e do melhor!”).

A escuta ativa deve sempre estar presente nesses diálogos. Uma escuta ativa consiste em realmente ouvir e compreender o que o outro diz, não apenas esperar uma pausa para poder respondê-lo. Isso não significa, no entanto, deixar a pessoa falando sozinha.

Algumas pontuações que podem ser feitas consistem em: fazer perguntas abertas; fazer um breve resumo do que a pessoa falou, de tempos em tempos, para que ela saiba que você está atento ao que ela diz; retornar a algum ponto que não tenha ficado claro e tentar, ao máximo, escutá-la sem julgamentos.

Oferecer suporte emocional e informar sobre a ajuda profissional, bem como se mostrar à disposição, caso ela queira conversar novamente, são pontos importantes.

Se a pessoa falar claramente sobre os seus planos de se matar e parece estar decidida quanto a isso, é primordial que ela não seja deixada sozinha. Podem ser contatados os serviços de saúde mental e familiares/amigos da pessoa.

Pode ser necessário que ela fique em um ambiente seguro, sendo auxiliada por um profissional.

Se você perceber que a pessoa não se sente à vontade para se abrir, deixe claro que você estará disponível para conversar em outras oportunidades. Você também pode indicar os serviços oferecidos pelo CVV, disponível em www.cvv.org.br, que trabalha para promover o bem estar das pessoas e prevenir o suicídio, em total sigilo, 24h por dia. 

Suicídio: como agir quando sei que alguém próximo a mim quer se matar?

No último domingo (1º), uma declaração do influenciador Carlinhos Maia tornou-se um dos tópicos mais comentados do Twitter.

Em um vídeo publicado no stories do Instagram, ele criticou adolescentes que têm pensamentos suicidas, chamando-os de imbecis.

“Venha perguntar a uma mulher de 75 anos, que até hoje trabalha, sustenta os netos, tá varrendo o quintal, catando latinha na rua para sustentar os bisnetos. Venha perguntar se ela se matou com 16 anos”, diz ele. 

Carlinhos tem mais de 16 milhões de seguidores no Instagram e é incrivelmente popular entre os adolescentes. Sendo assim, esse tipo de declaração irresponsável reverbera com força – e isso é bem problemático.

O suicídio ainda é um tema cercado de tabus e palavras de desprezo, como as do influencer, só pioram o sofrimento de quem pensa em tirar a própria vida. Mas, tendo isso em mente, a pergunta que surge é: como eu posso ajudar alguém numa situação assim?

Para o psiquiatra Carlos Felipe de Oliveira, que é diretor da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio e atua junto ao CVV (Centro de Valorização da Vida), o primeiro passo é não desqualificar a dor do outro.

Ao perceber que alguém próximo a você está apresentando sinais de profunda tristeza e descrença em relação à vida não trate isso como algo sem importância, algo que pode ser revertido simplesmente com força de vontade.

“Tem que estar claro para você que aquela pessoa está sofrendo e que ela pode estar passando por um processo de depressão”, aponta o médico.

Isso obviamente também se aplica a outro tipo de situação: quando alguém próximo tentou cometer suicídio.

Em casos assim, é muito comum que as pessoas comentem que aquela pessoa não queria realmente se matar, mas apenas chamar a atenção. “De fato, aquela pessoa quer chamar a atenção, mas não no sentido de ‘se mostrar’.

Ela quer chamar a atenção para a profunda dor que está sentindo“, diz o psiquiatra. Ou seja: é um pedido de socorro.

Tendo isso em mente, depois de compreender a gravidade da situação, o segundo passo é mostrar-se realmente disposto a ajudar. Mas como fazer isso sem ser invasiva? Para o psiquiatra, uma conversa franca e amorosa ainda é o melhor caminho.

“Eu sou solidário com o que você está passando. Não estou sentindo a sua dor, mas quero te ajudar com isso”, sugere Carlos como boa forma de mostrar apoio.

E repare nessa parte importante: não tente dizer que você sabe pelo que aquela pessoa está passando, afinal, você realmente não sabe.

Ah, e falar coisas como “tenha força de vontade” e “daqui a pouco isso passa” definitivamente não é a solução. “Isso desqualifica a dor do outro”, frisa Carlos.

O médico também aconselha que você conte a mais alguém sobre o que está acontecendo. Alguém que tenha muita intimidade com a pessoa deprimida e que seja de total confiança, lógico.

Mas isso não seria uma maneira de expor um assunto íntimo sem consentimento? Carlos é enfático em dizer que não.

Quando um ente querido está lidando com depressão e angústia profunda, pedir o apoio de mais alguém é o mais sensato a se fazer.

Essa medida é ainda mais importante nos casos em que a pessoa deprimida tem dificuldade de se abrir com você. Em conjunto é mais fácil ver a melhor forma de se aproximar e ajudar quem precisa. Obviamente isso não significa que você tem o direito de sair por aí espalhando a intimidade dos outros. Bom senso, né?

O próximo passo é aconselhar a pessoa deprimida a buscar acompanhamento profissional.

Uma rede de apoio e afeto é algo que ajuda muito quem está deprimido e pensando em tirar a própria vida, mas isso não significa que amor e palavras bonitas vão resolver o problema.

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Tratamento é essencial! Carlos diz que a pessoa pode buscar um psicólogo ou ir direto ao psiquiatra, o que importa é entrar em contato com o profissional que deixe o paciente plenamente confortável.

O médico também chama a atenção para outro ponto importante: não deixe a pessoa deprimida sozinha. Mesmo depois que ela iniciar o tratamento, se faça presente e continue mostrando que você se importa. 

"Tentam ajudar, mas não entender": o que fazer se alguém cogita suicídio

Vinicius Buono tinha 23 anos quando tentou suicídio, em 2017. Os motivos não são simples de entender: um diagnóstico de depressão na adolescência, negação ao tratamento por anos, frustrações com episódios passados e decepções com o presente.

A junção de tudo o fez pensar que já não havia mais nada a perder, restava um último pedido de ajuda. “É óbvio dizer isso, mas é, sim, um pedido de socorro. O problema é que é cansativo as pessoas tentarem me ajudar, mas não tentarem me entender”.

Uma das características do comportamento suicida é a sensação de não pertencimento, de ser um fardo para os outros, um peso. “Infelizmente quem está tentando ajudar pode não entender esses sentimentos.

Isso geralmente ocorre porque as pessoas desconhecem os transtornos mentais ou não aceitam o fato de a pessoa não seguir os padrões daquele grupo ou cultura”, diz Jair Borges Barbosa Neto, psiquiatra, docente do Departamento de Medicina da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) que tem desenvolvido projetos e ações de prevenção ao suicídio dentro da instituição.

Vinicius acha que seu comportamento suicida foi uma forma de pedir ajuda às pessoas próximas para algo que nem ele sabia. “Só precisava que alguém conversasse de coração e mente abertos.

Eu não sei o que realmente preciso, mas ajuda saber que tem alguém que só está lá, não se preocupando em encaixar aquela pessoa que está nesse estado no seu padrão do que é estar bem”.

Segundo ele, é só tentar entender a visão do mundo do outro, como ele enxerga e interpreta as coisas e tentar achar um jeito de ajudar, sem julgamento.

Estigma do transtorno mental

O preconceito com o sentimento do outro, ou melhor, o famoso achar que é “frescura” é um dos empecilhos para que o indivíduo em sofrimento busque ajuda. “Ele tende a não dar crédito para o que está sentindo ou não acredita que está doente”, diz Neto.

Foi o caso de Jaqueline Moribe, 30, que demorou para buscar ajuda justamente porque a família a convencia de que o problema não poderia ser algo psicológico. “Eu sempre sofri bullying por ter sido uma criança tímida e obesa, mas com 12 anos eu me olhava no espelho e me odiava. Às vezes pensava em pegar uma tesoura e cortar os 'pneuzinhos'”, lembra.

Um médico alertou os pais de que ela estava com depressão, mas o transtorno não foi levado a sério. “Eles nunca entenderam a timidez/tristeza que eu sentia como depressão. Achavam que era só um sentimento momentâneo”. Jaqueline conta que achava que a culpa era sua e nunca pensou em buscar ajuda.

Quem ajuda tem que assumir um papel de apoio irrestrito, e não de quem sabe as respostas

Imagem: iStock

Aos 16 anos, começou a autoflagelação. Em casa, andava cheia de curativos e sempre usava roupas compridas. Quando descobriram, os pais não entenderam.

“Eles brigavam comigo, falavam que sempre me deram tudo do melhor e não tinha razão alguma para me machucar ou sentir o que sentia”, diz.

Ela ainda conta que começou a sentir raiva, porque eles não compreendiam e acabava se machucando fisicamente porque a dor interna era muito maior.

Segundo Elson Asevedo, pesquisador do departamento de psiquiatria da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o comportamento suicida vai desde desejar morrer, ter alguma ideação suicida passiva (o pensamento “seria melhor se Deus me levasse”) ou ativa (pensar em se matar), planejar como fazer tentativas de fato até uma tentativa que resulta em morte. Além disso, automutilações —como provocar lesões em você mesmo, mas sem intenção de morte — também entram nesse espectro. O indivíduo faz isso sem o desejo de morte, mas pensando em se distanciar de uma dor emocional muito intensa, quase como uma forma de se distrair desse sofrimento.

A coordenadora do colégio em que Jaqueline estudava indicou uma psiquiatra, que a assustou. “Na primeira consulta ela já falou para os meus pais esconderem produtos de limpeza, estiletes, facas e remédios porque a qualquer momento eu poderia tentar me matar 'de verdade'. Nunca mais voltei nela, mas terminei de tomar os remédios que ela indicou.”

Apesar de não ter mais recaídas que chegassem ao ponto de autoflagelação, Jaqueline sofreu surtos por causa do estresse profissional e decidiu que precisava de tratamento. Ela continua tomando remédio, faz terapia (que a ajudou a se entender e se aceitar) e desconta os sentimentos ruins na academia.

“Hoje acho que se meus pais tivessem me colocado para fazer psicoterapia ou análise, teria me ajudado mais rápido (além do tratamento com remédio contínuo)”, diz.

Como saber que a pessoa precisa de ajuda?

A trajetória até a tentativa suicida é longa, de acordo com Asevedo. Provavelmente essa pessoa está sofrendo com sintomas há bastante tempo. É por esse motivo que, quando alguém comunica ou transparece esse desejo, ele tem que ser levado a sério. “É um sinal muito grande de necessidade de cuidado”, diz ele.

Essa comunicação de sofrimento se dá de diversas formas.

Desesperança, humor deprimido, sentimento de culpa ou fracasso, desespero, inquietação, insônia persistente, perda de peso, discurso pobre, cansaço, isolamento social requerem atenção máxima, segundo Elaine Di Sarno, psicóloga com especialização em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

E é importante evitar a associação direta com a depressão. Nem todo os pacientes com a condição pensam em se matar.

Aproximadamente 96,8% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos psiquiátricos, dos quais quase 36% podem ser por transtornos de humor, categoria da qual a depressão faz parte.

Abuso de substâncias psicoativas (como álcool, drogas ou remédios), esquizofrenia e transtornos de personalidade também podem levar ao suicídio quando não diagnosticados e tratados corretamente.

Nem todas as pessoas que tentam ou cometem suicídio têm transtornos mentais e nem todas as pessoas com transtorno mental pensam ou tentam suicídio

Imagem: iStock

Independentemente da causa, Sarno diz que mais de 2/3 dos suicidas expressam intenção de se matar. Mas mesmo que o indivíduo não deixe claro que está sofrendo, se houver suspeita, é importante conversar sobre o assunto. “Perguntar se ele às vezes pensa que seria melhor não ter nascido, que preferiria morrer”.

No geral, é imprescindível ouvir com atenção e respeito, sem julgar, sem falar de moral. Escutar as angústias e dificuldades dele e afirmar que está ali, no sentido de ajudar, querer conversar, que está aberto a tudo o que ele tem a dizer. “Tem que ser acolhedor, amigo, nunca falar 'isso não é nada'. Tem alguém sofrendo ali”.

Cada pessoa é única, então, não existe uma resposta pronta de ajuda. Para cada um será necessária uma ação individualizada, planejada e, de preferência, com a participação dele, para que o indivíduo ajude a identificar suas necessidades de saúde e a planejar o seu próprio cuidado e se responsabilize pela condução do seu tratamento.

No caso de quem é resistente ao tratamento, que fica agressivo e se isola, a ação deve ser diferente.

Neto aconselha que a família procure ajuda especializada como o próprio CVV (Centro de Valorização da Vida), os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e, nos casos extremos de risco iminente de morte, até o próprio SAMU.

“Nesses casos, os familiares ou pessoas próximas podem procurar profissionais especializados em saúde mental ou os serviços citados acima para que obtenham informação de como agir, mesmo que a pessoa se recuse a ir. Estes profissionais poderão apoiar o familiar e ajudar a planejar o que fazer.”

Para as pessoas que tentaram o suicídio ou que estão pensando seriamente em tirar a vida é bom procurar um pronto-socorro (mesmo que não tenha psiquiatra, o médico ou alguém da equipe deverá acolher e avaliar o risco de a pessoa cometer o suicídio) ou então os CAPS.

Quem fez, começou ou planejou algo bem específico para acabar com a vida não deve ser deixado sozinho.

“Essas pessoas devem permanecer acompanhadas de alguém até que um profissional da saúde (de preferência, quando possível, especializado em saúde mental) a avalie e oriente a família ou a pessoa próxima sobre os próximos passos do acompanhamento. Nos casos de risco iminente de morte, o SAMU deve ser acionado.

Conversar faz bem

Vinicius diz que, por ser mais fechado nas relações familiares, não houve muita abertura para conversar sobre seu sofrimento. “Não querer dar trabalho passa muito pela minha cabeça.

As pessoas ao meu redor não sabem porque não quero incomodar ninguém”. Mas ele reconhece que falar é uma maneira de entender melhor o que sente e o que se pensa.

“É difícil, mas depois, com o processo todo, você começa a perceber que botar para fora e ter apoio de outros faz diferença.”

Segundo Neto, a tendência da família é pensar que o indivíduo nunca faria isso ou talvez desconversar ou não querer falar do assunto. Mas falar é uma espécie de oportunidade que a pessoa em sofrimento tem de pedir ajuda.

“Pensar em morrer é, na maioria das vezes, ambivalente, ou seja, a pessoa pensa que quer morrer, mas, ao mesmo tempo, tem medo ou não quer que isso aconteça. Portanto, não adianta julgar.

A sugestão é ficar junto, acolher e tentar, junto com a pessoa, encontrar uma forma de se cuidar.”

Antonio Batista, 67, um dos voluntários do CVV em São Paulo, diz que a instituição existe justamente para quem tem dificuldade de conversar com pessoas próximas. “Na ligação, ela é a protagonista. A gente conversa para compreender, juntos, as motivações no interior dela”, diz.

“Valorizar a vida é prevenir o suicídio. As pessoas sabem o esforço que fazem para levantar todos os dias. Quando alguém se coloca à disposição do outra com interesse, disposição, ele se sente valorizado e pode escolher outro caminho, até pedir ajuda para um terapeuta ou psiquiatra.

Batista não considera o CVV um substituto para uma terapia especializada, mas um “pronto-socorro emocional”. De acordo com ele, são dois seres humanos, um deles disposto a ouvir o outro.

Poderia ser algo mais comum na sociedade, mas o isolamento e o julgamento parecem cada vez mais comuns. “Estamos acostumados com a correria da vida, então quando se fala do seu interior, o que aconteceu e ficou ali, faz diferença.

É como se achasse um lugar adequado.”

O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

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